Anticiganismo
Anticiganismo ou Romafobia é a hostilidade, preconceito, discriminação ou racismo direcionado especificamente ao povo Rom. Grupos viajantes não-rom na europa, como os Yeniches, Pavee ou viajantes escoceses são frequentementes chamados, de forma incorreta, de "ciganos" e confundidos com o povo Rom. Consequentemente, sentimentos originalmente dirigidos ao povo Rom são também dirigidos a esses outros povos viajantes e conhecidos como sentimentos "anticiganos."
A palavra cigano vem do termo Cingane (var. Tsinganoi, Zigar, Zigeuner), derivado provavelmente de Atínganos, o nome de uma seita cristã com a qual os roma se tornaram associados durante a Idade Média. O termo anticiganismo é originário do termo alemão Antiziganismus.
Na Idade Média
Nos registros bizantinos do início do século XIII, os Atsínganoi são mencionados como sendo "bruxos... que são inspirados satanicamente e fingem prever o desconhecido". A escravização dos roma, em sua maioria tomados como prisioneiros de guerra nos Principados do Danúbio, é registrada pela primeira fez no final do século XV. Nesses países, extensivas legislações foram desenvolvidas para classificar roma em diferentes categorias, de acordo com suas funções como escravos. No século XVI, muitos roma que viviem na Europa Central e Leste Europeu trabalhavam como músicos, artesãos de metal e soldados. Com a expansão do Império Otomano, os roma foram relegados, sendo vistos como tendo "nenhuma afiliação profissional permanente visível", aos degraus mais baixos da escada social.
Séculos XVI e XVII
Na Hungria Real do século XVI, durante a ocupação turca, a Coroa desenvolveu fortes políticas anti-roma, já que essas pessoas eram consideradas suspeitas de espionagem turca ou de fazerem parte de uma quinta-coluna. Nessa atmosfera, eles eram expulsos de muitos locais, levando-os a adotar um estido de vida cada vez mais nômade. A primeira legislação anti-roma foi emitida no Margraviato da Morávia em 1538 e, três anos depois, Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico ordenou que os roma em seu reino fossem expulsos, depois de uma série de incêndios em Praga. Em 1545, a Dieta de Augsburgo declarou que "qualquer um que mate um Cigano (Roma), não será culpado de assassinato algum". A matança massiva subsequente através do império forçou que o governo declarassem "proibido o afogamento de mulheres e crianças rom".
Século XVIII
Em 1710, José I do Sacro Império Romano-Germânico emitiu um decreto contra os roma, ordenando que "todos os homens adultos fossem enforcados sem julgamento, enquanto mulheres e homens jovens seriam açoitados e banidos para sempre." Ademais, no reino da Boémia, homens rom deveriam ter sua orelha direita cortada; no Margraviato da Morávia, a orelha esquerda deveria ser cortada. Em outras partes da Áustria, eles deveriam ser marcados nas costas com um ferrete, representando as forcas. Essas mutilações permitiam que as autoridades identificassem os indivíduos como roma em sua segunda detenção. O decreto encorajou que oficiais locais caçassem os roma em suas áreas, taxando em 100 Reichsthaler qualquer um que falhasse nessa tarefa. Qualquer um que ajudasse um rom seria punido com trabalho forçado por meio ano. O resultado foram assassinatos em massa de roma por todo o Sacro Império Romano. em 1721, Carlos VI emendou o decreto, incluindo a execução de mulheres rom adultas, enquanto crianças deveriam "ser postas em hospitais para educação".
Século XIX
Governos regularmente citavam pequenos furtos cometidos por roma como justificação para regulá-los e persegui-los. Em 1899, o Nachrichtendienst für die Sicherheitspolizei in Bezug auf Zigeuner (Serviço de inteligência para a polícia de segurança acerca de ciganos) foi criado em Munique sob a direção de Alfred Dillmann, e catalogava dados sobre todos os indivíduos roma através das terras falantes de alemão. Seu fechamento não foi oficializado até 1970. Os resultados foram publicados em 1905 no Zigeuner-Buch de Dillmann, utilizado nos anos seguintes para justificar o Porajmos. Ele descrevia o povo Rom como uma "praga" e uma "ameaça", mas quase exclusivamente caracterizada "crimes ciganos" como transgressão e furto de comida.
O Holocausto Cigano
A perseguição do povo Rom atingiu um pico durante a Segunda Guerra Mundial no Porajmos (literalmente, a devoração), um neologismo descritivo para o genocídio nazista de roma durante o Holocausto. As comunidades rom na Europa Central e Leste Europeu eram menos organizadas que as comunidades judias; e o Einsatzgruppen, esquadrões da morte móveis, que viajavam de vila em vila massacrando os habitantes rom onde viam, tipicamente deixavam poucos ou nenhum registro do número de roma mortos dessa forma. Mesmo que em alguns poucos casos significativa evidência sobre os assassinatos em massa tenha sido gerada, é mais difícil aferir o número real de vítimas. Historiadores estimam que algo entre 220.000 e 500.000 roma tenham sido mortos pelos alemães e seus colaboradores—de 25% a mais de 50% do pouco mais de 1 milhão de roma que viviam na Europa na época. Um estudo mais aprofundado de Ian Hancock revelou que o número de mortos pode ter sido cerca de 1,5 milhão.
A Igreja Católica se responsabiliza
Em 12 de março de 2000, o Papa João Paulo II emitiu um pedido de desculpas público e formal para, entre outros grupos de pessoas afetados pela perseguição católica, o povo Rom e pediu a Deus por perdão. Em 2 de junho de 2019, o Papa Francisco reconheceu, durante uma reunião com membro da comunidade de roma romenos, o histórico da Igreja Católica de promoção da "discriminação, segregação e maus tratos" contra o povo Rom ao redor do mundo, pediu desculpas, e pediu perdão ao povo Rom.
Um relatório de 2011 emitido pela Anistia internacional afirma que "discriminação sistêmica está ocorrendo contra até 10 milhões de roma pela Europa. A organização documentou a falha dos governos do continente em fazer jus a suas obrigações." O anticiganismo continuou a acontecer nos anos 2000, particularmente na Eslováquia, Hungria, Eslovénia, Espanha e Kosovo. Na Bulgária, o professor e membro do parlamento Ognian Saparev escreveu artigos afirmando que 'ciganos' são culturalmente inclinados para o roubo e usam seu status de minoria para 'chantagear' a maioria, além de afirmar em uma entrevista que o uso de prostitutas rom menores de idade não seria um crime, porque "aos 14 anos elas já são mulheres maduras". Oficiais da União Europeia repreenderam a Chéquia e a Eslováquia em 2007 por segregar à força crianças rom em escolas. O Comissário de Direitos Humanos do Conselho Europeu entre 2006 e 2012, Thomas Hammarberg, foi um crítico vocal do anticiganismo. Em agosto de 2008, Hammarberg notou que "a retórica atual contra os roma é muito similar àquela utilizada pela Alemanha Nazista antes da Segunda Guerra Mundial. Mais uma vez, é alegado que os roma não uma ameaça à segurança e saúde pública. Nenhuma distinção é feita entre alguns poucos criminosos e a maioria esmagadora da população rom. Isso é vergonhoso e perigoso".
Opinião pública
A extensão de atitudes negativas direcionadas ao povo Rom varia em diferentes partes da Europa.
União Europeia
A prática de colocar estudantes rom em escolas ou aulas segregadas continua generalizada em países da Europa. Muitas crianças rom são canalizadas para escolas completamente rom que oferecem educação de baixa qualidade e estão por vezes em baixas condições físicas, ou em aulas completamente ou majoritariamente rom em escolas mistas. Muitas crianças rom são enviadas para aulas para crianças com deficiências. Elas também são enviadas para as chamadas "escolas de delinquentes", com uma variedade de abusos de direitos humanos. Roma em cidades europeias são frequentemente acusados de crimes como pickpocketing (bater carteira). Em 2009, um documentário feito pela BBC chamado Gypsy Child Thieves (Crianças Ladras Ciganas) mostrou crianças rom sendo raptadas e abusadas por gangues rom na Romênia. As crianças eram frequentemente presas em barracões durante a noite e mandadas para furtar durante o dia. Entretanto, Chachipe, uma caridade que trabalha para os direitos humanos do povo Rom, alegou que o programa promovia "estereótipos populares contra roma que contribuíam para a sua marginalização e legitimava agressões racistas contra eles" e que sugerindo que pedir e abusar de menores era "intrínsico à cultura rom", o programa era "altamente danoso" para o povo Rom. A caridade aceitou, porém, que alguns dos incidentes detalhados no programa de fato ocorreram.


