Caso Mangue 937
O Caso Mangue 937 refere-se ao brutal assassinato de três mulheres – Nara Aline Mota de Lima, Darcyelle Ancelmo de Alencar e Ingrid Teixeira Ferreira – em 2 de março de 2018. As vítimas foram sequestradas, torturadas e decapitadas em um manguezal no bairro Vila Velha, em Fortaleza, Ceará, por membros da facção Guardiões do Estado (G.D.E.). O crime, motivado por conflitos entre facções rivais, teve grande repercussão devido à divulgação de um vídeo da execução nas redes sociais.
Pontos-chave
- Três mulheres foram sequestradas, torturadas e decapitadas por membros da facção G.D.E. em Fortaleza.
- O crime foi motivado pela mudança de facção de uma das vítimas, Nara Aline, do G.D.E. para o Comando Vermelho (CV).
- A execução foi filmada e divulgada nas redes sociais, intensificando a repercussão e a brutalidade do caso.
- As buscas pelos corpos foram desafiadoras devido ao terreno de manguezal, com lama densa e vegetação fechada.
- Os envolvidos foram condenados a penas que somam centenas de anos de prisão, com o mandante e executores recebendo sentenças severas.
Em 2 de março de 2018, criminosos da facção Guardiões do Estado (G.D.E.) tinham como alvo principal Nara Aline Mota de Lima. Ao encontrá-la em sua residência no bairro Barra do Ceará, em Fortaleza, ela estava acompanhada de sua companheira, Darcyelle Ancelmo de Alencar, e de Ingrid Teixeira Ferreira, que dividia a casa com elas. As três foram levadas à força para um manguezal próximo ao Rio Ceará, na região do Vila Velha, onde seriam executadas. As investigações revelaram que as vítimas tinham ligações com a facção Comando Vermelho (CV), rival da G.D.E. A principal motivação para o triplo homicídio foi a mudança de facção de Nara, que havia deixado o G.D.E. para atuar no CV, em um período de intenso conflito entre os grupos. Segundo a denúncia do Ministério Público, o envolvimento de Nara com a facção rival levou à sua 'condenação'. Ingrid Teixeira, por sua vez, não tinha envolvimento com facções e foi morta apenas por estar presente no local.
Em 3 de março de 2018, os criminosos filmaram a execução das três mulheres na Região Metropolitana de Fortaleza e divulgaram as imagens nas redes sociais, o que amplificou a repercussão do caso. Antes de serem assassinadas, as vítimas foram coagidas a negar sua ligação com a facção Comando Vermelho. Uma delas, visivelmente nervosa, declarou: “Eu tô rasgando a camisa do CV porque não é pelo certo”. Outra, sob forte coação, admitiu pertencer à facção rival e afirmou estar mudando de lado, enquanto olhava fixamente para quem filmava, com as mãos na cabeça. A gravação documenta a tortura e a execução das vítimas. Em um momento chocante, uma delas implora por sua vida, mas um dos criminosos ordena: “Teve chance. Atira e mata”. As mulheres foram brutalmente assassinadas, todas decapitadas, e uma delas sofreu mutilações graves, incluindo a amputação de um braço. Ao final, um dos agressores joga as três cabeças decapitadas na água do mangue, celebrando os assassinatos.
As buscas pelos corpos das vítimas tiveram início em 5 de março de 2018, em uma área de manguezal entre Caucaia e Fortaleza, local do crime. Uma força-tarefa composta por equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE), Divisão Antissequestro (DAS), Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e distritos policiais locais foi mobilizada. O terreno dificultou significativamente os trabalhos: a lama densa, a vegetação fechada e a oscilação das marés tornavam o deslocamento perigoso, além do forte odor do mangue, que prejudicava a atuação dos cães farejadores. As buscas foram retomadas em 8 de março. O então governador do Ceará, Camilo Santana, cobrou empenho e destacou a importância dos esforços na localização dos corpos, descrevendo o crime como "lamentável". Ele ressaltou que as buscas eram interrompidas apenas pela limitação do horário, devido às dificuldades e perigos do manguezal à noite, que fica no estuário do Rio Ceará.
A Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) concluiu a identificação dos corpos, que foram liberados na manhã de 15 de março de 2018. Para confirmar a identidade das vítimas — Nara Aline Mota de Lima, Darcyelle Ancelmo de Alencar e Ingrid Teixeira Ferreira — foi essencial a realização de exames de DNA. O Núcleo de DNA Forense da Coordenadoria de Análises Laboratoriais Forenses (Calf) comparou amostras biológicas das vítimas com material genético de parentes de primeiro grau. O coordenador de Medicina Legal (Comel), Hugo Leandro, afirmou que a Pefoce trabalhou de forma célere para identificar as vítimas e liberar os corpos rapidamente para os familiares. Ele também informou que os laudos dos exames estavam em andamento e, após a conclusão, seriam encaminhados ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Francisco Robson de Souza Gomes, apontado como o mandante do crime, já estava preso desde 24 de maio de 2017, capturado em uma operação policial que prendeu 28 pessoas na AIS 08. Na época, ele já possuía um extenso histórico criminal, respondendo por cinco roubos, quatro homicídios e um processo por tráfico de drogas. Em 6 de março de 2018, a polícia prendeu três homens – Diego Alves Fernandes, Luiz Alexandre Alves Silva e Antônio Honorato dos Santos – além de um adolescente, encaminhado à Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA). Todos eram suspeitos de envolvimento no crime. Durante os depoimentos, Diego foi o único a admitir ter presenciado os assassinatos e a ocultação dos corpos, mas negou participação direta. Poucos dias depois, em 9 de março, a Polícia Civil do Ceará (PCCE), através da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), capturou mais dois suspeitos de participação direta nas execuções: Bruno Araújo de Oliveira, conhecido como "Bilouco", e Júlio César Clemente da Silva, apelidado de "Bifão". As prisões ocorreram na Área Integrada de Segurança (AIS 8).
Em 27 de fevereiro de 2019, o julgamento pelo Tribunal do Júri ocorreu no 1º Salão do Júri do Fórum Clóvis Beviláqua, em Fortaleza, Ceará. A sessão foi presidida pelo juiz Victor Nunes Barroso, titular da 3ª Vara do Júri. A defesa foi conduzida por Sulamita Teixeira e a acusação por Joseana França. O processo contou com o apoio do Projeto Tempo de Justiça e foi resultado do trabalho conjunto da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil e da Promotoria de Justiça do Júri. Durante a audiência, trechos do vídeo que registrou a tortura e execução das vítimas foram exibidos, embora não na íntegra, pois os jurados consideraram o conteúdo excessivamente violento e perturbador, conforme informações do Tribunal de Justiça do Ceará.
Penas Aplicadas aos Réus
Na madrugada de 28 de fevereiro de 2019, por volta de 1h30, o Tribunal de Justiça do Ceará condenou os cinco acusados. As penas somadas totalizaram 335 anos de prisão em regime fechado. Francisco Robson foi julgado por videoconferência, pois estava detido na Penitenciária Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Os réus foram condenados por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas), destruição e ocultação de cadáveres, participação em organização criminosa, porte ilegal de arma de fogo e tortura.
Condenação de Jonathan Lopes Duarte em 2022
Jonathan Lopes Duarte, preso em 17 de novembro de 2020 e apontado como responsável pela tortura e decapitação das vítimas, foi condenado a 83 anos de prisão. Ele foi sentenciado pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, tortura, porte ilegal de arma de fogo e participação em organização criminosa. A decisão foi comunicada pela Secretaria Executiva das Promotorias de Justiça do Júri de Fortaleza. O julgamento, conduzido pelo Conselho de Sentença, ocorreu em 12 de abril de 2022, na 3ª Vara do Júri, em Fortaleza.
A investigação revelou, por meio de uma interceptação telefônica, que o crime foi orquestrado por um homem que estava preso. Segundo a promotora Joseana França, Francisco Robson de Souza Gomes, conhecido como "Mitol", foi quem deu a ordem para o assassinato de Nara, delegando a responsabilidade a seu subordinado, Jeilson Lopes Pires, conhecido como "Jê". A execução de Nara foi planejada com base em táticas extremistas, inspiradas no grupo internacionalmente conhecido como Estado Islâmico. A promotora explicou que "Mitol" mantinha contato de dentro do presídio com Jeilson, que, por sua vez, filmava e dava as instruções aos outros envolvidos. No caso de Nara, o laudo de necropsia confirmou que ela foi uma das vítimas decapitadas. O facão utilizado no crime, que normalmente seria uma ferramenta cortante, estava cego, tornando-se um instrumento corto-contundente, o que intensificou a brutalidade da ação.
De acordo com o Diário do Nordeste, Bruno, Francisco e Jeilson iniciaram o cumprimento de suas penas na Unidade Prisional Professor Olavo Oliveira II (UPPOO II), localizada em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. Rogério, que se tornou foragido após o julgamento, foi recapturado em 2021 no município de Mombaça. Francisco Robson de Souza Gomes, considerado o mandante do crime, permanece detido na Penitenciária Federal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Segundo a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), Júlio César é o único dos envolvidos que se encontra em liberdade atualmente.


