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Anóstracos

os anóstracos, popularmente conhecida como camarão-fada ou camarão-de-salmoura, são uma ordem de crustáceos inserida na classe Branchiopoda que não apresentam carapaça. Assim como outros Branchiopoda, apresentam apêndices torácicos do tipo filopódio, especializados em suspensivoria, que também participam das trocas gasosas e natação, redução ou perda de apêndices abdominais e redução do par de antênulas, maxílula e maxila. Vivem principalmente em ambientes considerados efêmeros como lagos hipersalinos, corpos de água-doce temporários de áreas alagadas e zonas costeiras de transição. Apresentam tamanho médio entre 6 e 25 mm, podendo atingir até 1 cm. O maior espécimen encontrado foi uma fêmea de 17cm. Representam o grupo mais diverso de Branchiopoda, com 300 espécies distribuídas entre 26 gêneros e 8 famílias.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 09/07/2026
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Sinapomorfias

As sinapomorfias que caracterizam o grupo Anostraca são seus olhos compostos pedunculados, a ausência de carapaça, e apêndices torácicos com enditos pouco desenvolvidos.

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Morfologia

São animais euritérmicos, que suportam de temperatura 5ºC a 40ºC, e eurialinos, vivendo em salinidades com baixa salinidade (água doce) até mesmo concentrações acima de 200 ppt. As cores, que dependem da espécie, podem variar desde vermelho e laranja, passando por verde e azul, até preto e branco. Espécies de lagos de áreas alagadas são geralmente verdes, vermelhos ou brancos, enquanto espécies de áreas de clima desértico são laranjas e pretos e brancos. O exoesqueleto é fino e flexível, sem carapaça. O corpo é alongado e dividido em três tagmas; cabeça, tórax e abdômen.

Cabeça

A cabeça corresponde aos cinco primeiros segmentos que são visíveis. Entretanto, um sulco mandibular, por vezes presente, pode se assemelhar a uma segmentação superficial. No tagma cefálico encontram-se um par de olhos compostos, um par de antênulas e um par de antenas. As antênulas são reduzidas, unirremes, curtas, finas, sem segmentação, geralmente com cerdas terminais. As antenas da cabeça são unirremes e geralmente reduzida nas fêmeas, enquanto nos machos, ela é mais grossa, robusta e constituída de 2 segmentos, além de apresentar diversidade de forma nas demais espécies, com exceção da família Polyartemiidae. Nos machos, os segmentos basais podem se fundir formando um clípeo ou uma placa frontal - rostro modificado que se projeta para baixo. Em relação ao aparelho bucal, localizado na região ventral, há um lábio proeminente em direção à região posterior, um par de mandíbulas maciças, um par de maxílulas simples e reduzidas e um par de maxilas também reduzidas. Apenas as mandíbulas podem ser observadas sem que seja necessário dissecar o animal. Com exceção do gênero Polyartemia, não há palpos nas mandíbulas e nem maxilípedes.

Tórax e abdômen

Quase sempre, o tórax é constituído de cerca de 11 segmentos - com exceção de Polyartemia, com 19 segmentos, e Polyartemiella, com 17 - sendo os filopódios birremes no último par. Cada segmento comporta um par de apêndices filopódios com exitos, epipoditos (que acredita-se possuir função osmorregulatória), enditos (sustentando o pente de cerdas - importante para o processo de suspensivoria), e endopoditos e exopoditos (grandes e achatados, como folhas). Nas fêmeas de algumas espécies, os pares mais posteriores ou são reduzidos ou estão ausentes. Ventralmente, há um sulco alimentar longitudinal, formado pela concavidade dos toracópodes - local por onde o alimento é levado até a boca.

Circulação e osmorregulação

O sistema circulatório é composto por um coração tubular alargado que contem cerca de 14-18 pares de óstios segmentares e atravessa quase todo o tronco, tendo sua porção terminal localizada próxima ao ânus, no télson ou no segmento anterior, não chegando ao ramo caudal. O sangue entra no coração pelo seio pericárdico subjacente, flui em direção à região anterior e deixa o coração pela abertura cardíaca anterior, passando para a hemocele. Embora o seio pericardial esteja separado da hemocele por um septo pericardial, a circulação não é prejudicada graças a presença de várias aberturas, os óstios, onde há retorno do fluxo sanguíneo ao seio. Não possuem artérias. O sangue possui hemoglobina, que é um mecanismo adaptativo importante para a habitação de locais com altas salinidades e baixa disponibilidade de oxigênio.

Digestão e excreção

Possuem sistema digestivo completo. Na figura 1 está representado o intestino, uma faixa escura que se estende por todo o comprimento do animal, no meio do corpo. O canal intestinal é localizado no eixo dorso-ventral, logo abaixo do coração e do seio pericárdio, e se estende pelo comprimento do corpo, terminando na abertura anal, entre o télson e a base do ramo caudal. Após entrar pela boca, o alimento segue para o curto esôfago e é encaminhado para o canal intestinal. Há dois divertículos semelhantes a cecos, logo abaixo da cabeça, que unem a parte média do intestino à região pós esofágica. As glândulas antenais, cuja função é excreção em muitos crustáceos, estão presentes em Anostraca no estágio larval, mas logo degeneram e são substituídas pelas glândulas maxilares nos adultos. Os ductos dessas glândulas se abrem entre as maxílulas e o primeiro par de toracópodes, a nível de uma maxila reduzida ou vestigial.

Estruturas sensoriais

Entre os lobos dos divertículos do intestino médio estão várias estruturas sensoriais que podem ser identificadas, como por exemplo: Observa-se que há gânglios para cada segmento até o segundo segmento genital.

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Reprodução

Apresentam dimorfismo sexual, o que é notado pelo tamanho e estruturas do corpo. A antena dos machos que não só é alongada (fig. 2), como também é modificada - em discos de sucção, ganchos e outras estruturas - para ser usada por algumas espécies durante a cópula para segurar a barriga da fêmea. As fêmeas atingem tamanhos maiores que os machos. O segmento genital, o gonóporo, de ambos os sexos está presente na fusão do primeiro com o segundo segmento abdominal. Nesse segmento as fêmeas possuem um ovissaco e os machos um par de testículos alargados e um par de pênis (Figura 1). Neles, próximo ao ponto de fusão dos dois primeiros segmentos abdominais no segmento genital, estão os vasos deferentes que saem dos testículos e seguem ventralmente pela região posterior em direção ao pênis. A vesícula seminal é caracterizada por uma distensão no vaso deferente, próximo à junção com o pênis. Nas fêmeas o ovário geralmente se origina no quarto ou no quinto segmento abdominal, sendo expandido até o oitavo.O oviducto surge próximo à linha mediana do segmento genital ou então, próximo do limite entre os dois segmentos genitais, nos casos em que não ocorre a fusão desses dois segmentos. Na região anteroventral do ovissaco há um par de glândulas responsáveis pela produção da casca dos ovos, que são chamadas de "glândulas de cimento".

Ontogenia e Metamorfose

O desenvolvimento pós-embrionário é anamórfico e o tipo de larva encontrado nessas espécies de crustáceos é o náuplio (Figura 4). Esse desenvolvimento possui quatro estágios morfológicos (Figura 3): Nauplio: é a larva recém-nascida, com muita reserva vitelina e sem segmentos no corpo. Seus sistema digestivo ainda estão em formação. Seu tamanho é de menos de 0,1 mm. Essa fase dura de 6 a 10 horas a 25ºC. Podem ser observados três pares de apêndices: antênulas, antenas e mandíbula. Metanáuplio: é o período mais extenso da fase larval, durando até 20 horas. São formados os toracópodes, as maxílulas, a maxila e o sistema digestivo. O indivíduo atinge até 0,5 mm de tamanho.

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Alimentação

São animais filtradores, com o corpo todo especializado nesse tipo de hábito alimentar, mas ocasionalmente podem agir como predadores. Sua principal fonte de alimento é o fitoplâncton e zooplâncton, que contêm diatomáceas, microalgas, colônias de cianobactérias, larvas de outros crustáceos e peixes, copépodes e outros pequenos animais. A captura de alimento ocorre de maneira que os espaços entre os filopódios formam câmaras de sucção, e quando o apêndice que forma a parede anterior dessa câmara se afasta do corpo, a água é sugada para dentro dela. Partículas pequenas contidas na água passam através dos filtros, presentes nos enditos dos filopódios, onde duas fileiras de cerdas longas e plumosas realizam a filtração. Partículas grandes são retidas e acumuladas em um sulco na base dos apêndices. Um fluxo de água entre as bases cria uma corrente em direção à boca, carregando essas partículas de comida concentradas.

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Ecologia e hábitos de vida

Os Anostraca são mais comumente encontrados em ambientes efêmeros como lagoas temporárias, lagos hipersalinos e doces de grandes altitudes e latitudes. No ambiente costeiro ou próximo, duas espécies são mais representativas, sendo elas Artemia franciscana (Kellogg, 1906) e Branchinecta lindahli (Packard, 1883). A. franciscana é frequentemente encontrada em piscinas de evaporação de água, em locais de produção de sal comercial em diversas baías, como exemplo a baía de São Francisco (Figura 5). Branchinecta lindahli ocorre geralmente em poças continentais formadas por água da chuva. Apresentam uma distribuição cosmopolita, ocorrendo desde a costa do Brasil, até Australia, China e Egito. Ocupam o ambiente da coluna d'água, podendo se locomover livremente. Sua natação é promovida por um batimento metacronal, um movimento ordenado dos vários apêndices que forma uma onda contínua. Nadam geralmente com a região ventral voltada para cima, caracterizando uma natação quase que "de ponta cabeça". Assim, são excelentes filtradores de partículas na coluna d'água.

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Importância econômica e exploração comercial

Junto à dispersão natural dos cistos, a inoculação deliberada de artêmias em salinas solares pelo homem tem sido uma prática comum desde o passado. Desde os anos setenta, o homem tem sido responsável por várias introduções de na América do Sul e na Austrália, seja para melhoria da produção de sal ou para fins de aquicultura. Por localizarem-se em ambientes costeiros de grande salinidade, principalmente em locais onde há produção industrial de sal, os camarões-fada acabam por configurar uma fonte alternativa de renda. Como seus cistos resistem grandes quantidades de tempo em ambiente extremos e não ideais, estes são muito conhecidos e comercializados como comida para peixes de aquário e até mesmo para a aquacultura. Seus cistos também podem ser utilizados a fim de aquarismo (Figura 6), visto que a manutenção dos organismos é relativamente fácil. A comercialização de artêmias torna-se então uma indústria multimilionária nos Estados Unidos. Principalmente em Salt Lake City em Utah, e a Baía de São Francisco na Califórnia. Os animais da espécie Artemia salina são vendidos pelo nome de "sea-monkeys" desde 1957 em kits de incubação que podem ser facilmente encontrados em petshops pelo país. Muito divulgado, principalmente em revista de quadrinhos, o produto teve forte adesão popular e se tornou um marco do país. No Brasil, o fundador Harold von Braunhut tentou inserir o produto, na década de 1970 com o nome de "Kikos marinhos", que não teve muito sucesso, tendo seu ápice de vendas apenas nos anos 70 e mais tarde sumindo do mercado. Atualmente, entretanto, muitos produtos advindos principalmente do gênero Artemia podem ser encontrados em diversas lojas físicas e virtuais, como cistos sem casca para alimentação de peixes, indivíduos adultos congelados e até kits para criação.

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Registro Fóssil

Acredita-se que houve um processo de cladogênese da linhagem de Branchiopoda durante o Ordoviciano, com a colonização de água doce e estuários fortemente devido à capacidade de produção de cistos, sendo um resultado da tentativa de escapar da predação crescente no mares Paleozóicos. Alguns fósseis do Cambriano superior assemelham-se a exemplares de camarão-fada, especialmente o fóssil de Branchiopoda mais antigo conhecido, Rebachiella kinnekullensis, o que indica que essa ordem é próxima do ancestral marinho da classe em que está inserida. A monofilia desse grupo é bem embasada e é consensual na comunidade científica que foi o primeiro grupo a apresentar um processo de cladogênese, diferenciando-se do ancestral branchiópodo. A hipótese da dispersão e colonização de novo espaços durante a fragmentação de Gondwana é atestada pela sua distribuição atual em todos os continentes, com poucas espécies cosmopolitas e geralmente estacionárias em certas regiões.

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Diversidade e Filogenia

É a ordem mais diversa dos Branchiopoda, contento 300 espécies organizadas em 26 gêneros. Graças à existência diferenças entre espécies no dimorfismo sexual, caracteres como o pênis, a antena modificada e as vesículas seminais são algumas das primeiras características usadas na identificação do táxon. Estudos foram conduzidos a fim de desvendar as relações dentro da ordem Anostraca, bem como suas relações com outros Branchiopoda, utilizando o gene que transcreve para a subunidade ribossomal 18S (rDNA) que tem sido usado para o estudo geral da filogenia de crustáceos (Spears and Abele, 1997, 1999; Spears et al., 1994). Assim, a ordem Anostraca provou-se monofilética, apresentando sustentação para os ramos da filogenia em diferentes testes como por exemplo utilizando a árvore de Bayesian e machine learning. Algumas famílias, no entanto, apresentaram uma fraca relação entre si e baixa sustentação para os ramos enquanto o gênero Parartemia apresentou evidências para que talvez devesse ser elevada a nível de família. Ainda segundo estudos realizados recentemente para análise filogenética em espécies de Anostraca, usando regiões gênicas nucleares e mitocondriais (Remigio and Hebert, 2000), as evidências moleculares demonstraram ser a melhor forma de organizar e classificar essa ordem.

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