Diferença entre sexo e gênero
Há diferença entre sexo e gênero, podendo se referir tanto a papéis sociais baseados no sexo de uma pessoa ou identificação pessoal do conhecimento interno baseado em gênero da pessoa. Cientistas sociais mais contemporâneos, cientistas de comportamental e biólogos, vários sistemas legais e corpos de governo, e agências intergovernamentais como a OMS fazem uma distinção entre gênero e sexo. Em algumas circunstâncias, o sexo de um indivíduo e o gênero não são compatíveis, e a pessoa pode ser transgênero.
O sexólogo John Money introduziu a distinção terminológica entre sexo biológico e gênero social em 1955. Antes de seu trabalho, o uso do termo "gênero" era pouco comum em estudos acadêmicos (exceto para se referir a categorias gramaticais, por exemplo). No entanto, o significado da palavra dado por Money não se generalizou até à década de 1970, quando as teorias feministas abraçaram o conceito da distinção entre o sexo biológico e a construção social de gênero. Hoje, a distinção é rigorosamente seguida em alguns contextos, principalmente nas ciências sociais e em documentos escritos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Sexo
O sexo refere-se à capacidade ou potencial de um organismo de produzir gametas grandes (óvulos) ou gametas pequenos (espermatozoides) e pode ser identificado à nascença por médicos com base nas genitálias ou com um rápido cariótipo. O sexo pode ser classificado em masculino e feminino. Anisogamia, ou as diferenças de tamanho dos gametas (células sexuais), é a característica definidora dos dois sexos. Por definição, pessoas macho têm pequenas gametas (microgametas ou espermatozoides); indivíduos fêmea têm grandes gametas (óvulo, megagameta ou macrogameta). Em seres humanos, a determinação sexual se dá, primariamente, pelo gene SRY, normalmente presente no braço curto do cromossomo Y.
Gênero
Género (português europeu) ou gênero (português brasileiro) é uma gama de características pertencentes e diferenciadas entre a masculinidade, a neutralidade, a androginia e a feminilidade. Dependendo do contexto, essas características podem incluir o sexo biológico — seja ele masculino ou feminino —, as estruturas sociais baseadas no sexo, o papel social de gênero (e outros papéis sociais) e a identidade de gênero. Algumas culturas têm papéis de gênero específicos que podem ser considerados distintos da categoria "homens" e "mulheres", como a hijra na Índia e Paquistão. A definição em uso da Organização Mundial de Saúde para seu trabalho é que "'gênero' refere-se aos papéis, comportamentos, atividades e atributos socialmente construídos que uma determinada sociedade considera apropriados para homens e mulheres" e que "'masculino' e 'feminino' são categorias de gênero."
Atribuição de género
A atribuição de género refere-se à classificação social inicial de uma criança como rapaz ou rapariga, habitualmente associada ao sexo identificado no nascimento. Esta classificação pode orientar expectativas e práticas de socialização relacionadas com os papéis de género, distinguindo-se da identidade de género, que corresponde à forma como o indivíduo se identifica. Na literatura médica, a expressão inglesa gender assignment também tem sido utilizada para descrever decisões relativas ao sexo de criação de crianças com variações do desenvolvimento sexual, apresentando, neste contexto, um significado próximo de sex assignment (designação sexual).
Antecedentes do uso feminista de gênero incluem o trabalho da antropóloga Margaret Mead, que demonstrou que os papéis masculinos e femininos são culturalmente variáveis e não biologicamente determinados, e da filósofa Simone de Beauvoir, que declarou a famosa frase: "Não se nasce mulher, torna-se mulher", argumentando que as mulheres são socialmente construídas como o Outro dos homens. O livro Sex, Gender and Society (1972) de Ann Oakley foi fundamental na transformação do conceito de gênero de Money e Stoller em uma ferramenta analítica crítica, e o influente ensaio "The Traffic in Women" (1975) de Gayle Rubin introduziu a expressão sistema sexo/gênero como "o conjunto de arranjos pelos quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana". Desde então, a distinção tem sido usada por feministas para desafiar a ideia de que as desigualdades entre homens e mulheres são naturais.
Inseparabilidade de fatores biológicos e culturais
A distinção atual entre a diferença de termos "sexo vs. diferença de gênero" tem sido criticada como enganosa e contraproducente. Estes termos sugerem que o comportamento de um indivíduo pode ser dividido em fatores biológicos e culturais separados. Em vez disso, todos os comportamentos são fenótipos - um complexo entrelaçamento de ambos natureza e criação. Diane Halpern, em seu livro Sex Differences in Cognitive Abilities, argumentou problemas com a terminologia "sexo vs. género": "Eu não posso discutir (neste livro) que a natureza e a educação são inseparáveis e em seguida usar termos diferentes para se referir a cada classe de variáveis. As manifestações biológicas de sexo são confundidas com variáveis psicossociais (...) O uso de termos diferentes para rotular estes dois tipos de contribuições para a existência humana parece inadequado à luz da posição biopsicossocial a que aderi". Ela também declarou que "Pinker (2006b, parágrafo 2.) proporcionou um resumo claro dos problemas com os termos sexo e gênero: "Parte dela é um novo preciosismo de muitas pessoas hoje são escrúpulos sobre dimorfismo sexual, como os vitorianos foram sobre o sexo. A palavra "sexo" se refere... (tanto) à cópula e ao dimorfismo sexual... " Richard Lippa escreve em Gender, Nature and Nurture que "alguns pesquisadores argumentam que a palavra "sexo" deve ser usada para se referir a (diferenças biológicas), ao passo que a palavra "gênero" deve ser utilizada para se referir a (diferenças culturais). No entanto, não é de todo claro o grau em que as diferenças entre os machos e fêmeas são devido a fatores biológicos em relação aos fatores aprendidos e culturais. Além disso, uso indiscriminado da palavra "gênero" tende a obscurecer a distinção entre dois temas diferentes: (a) diferenças entre machos e fêmeas, e (b) as diferenças individuais na masculinidade e feminilidade que ocorrem dentro de cada sexo".
Construção social do sexo
Mary Hawkesworth e Lisa Disch observam que algumas teóricas feministas criticaram a base biológica do dimorfismo sexual. Essas teóricos afirmam ter demonstrado que existem mais de dois sexos que ocorrem naturalmente e que, sejam definidos em termos de cromossomos, hormônios, gônadas, morfologia interna, genitália externa ou características sexuais secundárias, "nenhum dos correlatos típicos do sexo biológico está em conformidade com as demandas da classificação dicotômica", e que todas essas características "falham em diferenciar todos os homens de todas as mulheres ou em fornecer um núcleo comum dentro de cada sexo". Andrea Dworkin escreveu que "somos, claramente, uma espécie multissexuada que tem sua sexualidade espalhada ao longo de um vasto continuum onde os elementos chamados masculino e feminino não são discretos". John Stoltenberg, parceiro de Dworkin, desenvolveu esse argumento em seu ensaio How Men Have (a) Sex. A socióloga Judith Lorber também afirma que muitos indicadores convencionais de sexo não são suficientes para demarcar masculino de feminino, e que há mais diversidade dentro das categorias individuais de sexo e gênero – masculino/feminino e homem/mulher, respectivamente – do que entre eles.


