Scarface (1932)
Scarface é um filme de drama policial do subgênero gângster americano pré-Código lançado em 1932, dirigido por Howard Hawks e com a produção dele e Howard Hughes. O roteiro de Ben Hecht é vagamente baseado no romance homônimo publicado pela primeira vez em 1930 por Armitage Trail, que foi inspirado no mafioso Al Capone. O filme é estrelado por Paul Muni como o gângster imigrante italiano Antonio "Tony" Camonte, que ascende violentamente na máfia de Chicago, com George Raft e Boris Karloff no elenco. A ascensão do protagonista ao poder se encaixa com sua perseguição implacável à amante de seu chefe, enquanto sua irmã se apaixona por seu melhor amigo.
Na década de 1920 em Chicago, Tony "Scarface" Camonte, um imigrante italiano e ambicioso bandido de baixo escalão, trabalha como guarda-costas do chefão do crime "Big" Louis Costillo. Tony mata seu chefe a tiros com o tenente descontente de Costillo, Johnny Lovo. Lovo assume o controle do território de Costillo na Zona Sul e faz com que Tony e seus associados, o estúpido Angelo e o belo playboy Guino "Little Boy" Rinaldo, supervisionem uma lucrativa operação de contrabando, vendendo cerveja ilegal para todos os bares da região e expulsando os rivais. Tony insiste para que Lovo comece a se instalar na Zona Norte , onde o contrabando é controlado pelo gângster irlandês O'Hara; Lovo se recusa, ordenando que Tony deixe a Zona Norte em paz. Tony ignora as ordens e remove os homens de O'Hara, expandindo suas atividades para o Norte. Em pouco tempo, Lovo era apenas o chefe nominal, enquanto Tony se tornava cada vez mais notório e poderoso, atraindo a atenção de outros gângsteres e da polícia.
Devido ao cenário urbano e alta violência do enredo, música não diegética (não visível na tela ou implícita na história) não foi usada no filme. A única música que aparece em Scarface é durante os créditos de abertura e encerramento e também durante as cenas onde a música aparece naturalmente, como na boate. Adolf Tandler serviu como diretor musical do filme, enquanto Gus Arnheim é o maestro da orquestra. Gus e sua Orquestra Cocoanut Grove executam "Saint Louis Blues" de WC Handy e "Some of These Days" de Shelton Brooks na boate. A melodia que Tony assobia é o sexteto da ópera Lucia di Lammermoor de Gaetano Donizetti que é acompanhada por palavras que se traduzem em "O que me impede em tal momento?", e esta melodia continua a aparecer durante as sequências de violência do filme. A canção que Cesca canta enquanto toca piano é "Wreck of the Old 97". A peça de teatro que Tony e seus amigos vão ver, saindo no final do segundo ato é Rain de John Colton e Clemence Randolph, baseado na história de W. Somerset Maugham, "Miss Sadie Thompson". Ela estreou na Broadway em 1922 e ficou em cartaz durante toda a década. (Uma versão cinematográfica da peça, também intitulada Rain e estrelada por Joan Crawford, foi lançada pela United Artists no mesmo ano que Scarface). Embora relativamente discreta no filme e despercebida pela maioria dos espectadores, a família Camonte deveria ser parcialmente modelada após a família ítalo-espanhola Borgia. Isso foi mais proeminente através do relacionamento sutil e indiscutivelmente incestuoso que Tony Camonte e sua irmã compartilham. O ciúme excessivo de Camonte dos casos dela com outros homens sugere esse relacionamento. Coincidentemente, Donizetti escreveu a ópera Lucrezia Borgia sobre a mesma família, e Lucia di Lammermoor, de onde vem a melodia de assobio de Tony Camonte.
Desenvolvimento
O magnata Howard Hughes estava envolvido na indústria cinematográfica e queria um outro sucesso de bilheteria após o bem sucedido The Front Page (1931). Filmes de gângster eram chamativos no início da década de 1930 durante a Lei Seca. Hughes queria fazer um longa-metragem baseado na vida do gângster Al Capone a qual, seria superior a todos os outros filmes deste subgênero. Ele foi aconselhado a não fazer o filme, pois o cinema já estava lotado por outras produções idênticas; Little Caesar estrelado por Edward G. Robinson e The Public Enemy estrelado por James Cagney já eram grandes sucessos, e a Warner Bros. afirmou que nada de novo poderia mais ser feito com está temática. Além disso, censuradores da indústria, como o código hays, estavam se preocupando com a glamourização da criminalidade na mídia.
Roteiro
Ben Hecht escreveu o roteiro em 11 dias durante janeiro de 1931, adaptado do romance de Trail. Fred Pasley forneceu ajuda, assim como WR Burnett que é o autor do romance Little Caesar. As contribuições de Pasley incluíram elementos do livro Al Capone: Biography of a Self-Made Man; a qual contém uma passagem em uma barbearia com Capone semelhante à introdução de Tony Camonte no filme. Pasley não foi creditado por seu trabalho no roteiro. John Lee Mahin e Seton I. Miller reescreveram vários trechos do roteiro para aumentar a continuidade nos diálogos. Como havia cinco escritores, é difícil distinguir quais componentes foram contribuídos por qual escritor; no entanto, o final de Scarface é semelhante ao primeiro filme de gangster de Hecht; Underworld, no qual o gangster Bull Weed se prende em seu apartamento com sua amante e atira nas hordas de policiais do lado de fora, e portanto, provavelmente foi uma adição de Hecht.
Escolha de Elenco
Hawks e Hughes acharam difícil escalar o elenco, pois a maioria dos atores estava sob contrato e os estúdios estavam relutantes em permitir que seus artistas trabalhassem como freelancers. O produtor Irving Thalberg sugeriu Clark Gable, mas Hawks acreditava que ele não seria adequado ao papel. Depois de ver Paul Muni na Broadway, o agente de talentos Al Rosen o sugeriu para o papel principal. Muni inicialmente recusou, sentindo que não era fisicamente adequado para o personagem, mas depois de ler o roteiro a sua esposa o convenceu a aceitá-lo. Após um teste em Nova York, os produtores o aprovaram para o papel. Boris Karloff foi escalado como o gangster irlandês Gaffney, listado em um pôster de lançamento nos cinemas como "Boris 'Frankenstein' Karloff". Jack La Rue iria ser o ajudante de Tony Camonte, Guino Rinaldo (inspirado no guarda-costas de Al Capone, Frank Rio). Ainda assim, como ele era mais alto que Muni, Hawks temia que ele ofuscasse a personalidade forte do ator principal. Ele foi substituído por George Raft, um iniciante, encontrado pelo diretor em uma luta de boxe. Raft havia desempenhado um papel quase idêntico no ano anterior em sua estreia no cinema em Quick Millions , um filme de temática parecida estrelado por Spencer Tracy, mas foi o personagem de Scarface que o catapultaria Raft para o estrelato.
Filmagem
As filmagens duraram seis meses, o que era muito longo para filmes do início da década de 1930. Howard Hughes permaneceu fora do set para evitar interferir nelas. Ele pediu a Hawks que tornasse o filme visualmente emocionante adicionando perseguições de carro, colisões e tiroteios com metralhadora. Hawks filmou em três locais diferentes: Metropolitan Studios, Harold Lloyd Studios e o Mayan Theater em Los Angeles. As cenas levaram 3 meses, com o elenco e a equipe trabalhando 7 dias por semana. Para a cena mais violenta do filme que é a do restaurante, Hawks limpou o local para evitar ferir figurantes e teve o set alvejado por metralhadoras. Os atores encenaram a cena em frente a uma tela com o tiroteio projetado ao fundo, então, enquanto todos aglomeravam sob as mesas do restaurante, a sala parecia estar simultaneamente sob fogo.
Censura
Scarface foi produzido e filmado durante a era pré-Código de Hollywood, que durou de 1930 à 1934. Este período é caracterizado por sua triagem informal e aleatoriedade da regulamentação do conteúdo dos filmes, antes do estabelecimento da Production Code Administration (PCA) em 1º de julho de 1934. Antes da influência da PCA, a censura era supervisionada pela Motion Pictures Producers and Distributors of America (MPPDA). Em 1930, Will Hays, o presidente da MPPDA, tentou regular o conteúdo dos enredos presentes nos longa-metragens; a MPPDA ficou conhecida como Hays Office (Código Hays). O objetivo do órgão era censurar nudez, sexualidade, uso de drogas e a criminalidade presente nos filmes. Eles queriam evitar o retrato simpático do crime, mostrando criminosos reconhecendo o erro de seus caminhos ou mostrando criminosos sendo punidos. No entanto, não tinha autoridade para remover material de um filme até que o MPPDA se comprometeu oficialmente a aderir ao Código de Produção em 1934, então eles confiaram em atrasos no lançamento e lobby para remover cenas ou impedir que certas obras fossem produzidas. Vários longa-metragens escaparam da censura adicionando cenas extremamente sugestivas para que pudessem removê-las e torcendo para que ignorassem as imoralidades menores que permaneceram em outros momentos no filme.
Final alternativo
A primeira versão do filme (Versão A) foi concluída em 8 de setembro de 1931, mas os censores exigiram que o final fosse modificado ou se recusariam a conceder uma licença para Scarface. Paul Muni não pôde participar na refilmagem da cena final em 1931 devido ao seu trabalho na Broadway. Consequentemente, Hawks foi forçado a usar um dublê principalmente por meio de sombras e tomadas longas para mascarar a ausência de Muni nessas cenas. O final alternativo (Versão B) difere pela maneira como Tony é capturado e morre. Ao contrário do original, onde ele tenta escapar da polícia e morre após ser baleado várias vezes, no final alternativo, o gângster relutantemente se entrega à polícia. Após a rendição, o rosto de Tony não é mostrado. Segue-se uma cena em que um juiz se dirige ao protagonista durante a sentença. A próxima cena é a conclusão da obra, em que Tony (visto de uma vista aérea) é levado à forca e enforcado.
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Depois de lutar contra a censura, o filme teve o seu lançamento cerca de um ano depois de The Public Enemy e Little Caesar. Scarface foi lançado oficialmente nos cinemas em 9 de abril de 1932. Howard Hughes planejou uma grande estreia em Nova York, mas o departamento de censura da cidade rejeitou a exibição do longa-metragem. Os departamentos de censura estaduais em Ohio, Virgínia, Maryland e Kansas, junto com os censuradores das cidades de Detroit, Seattle, Portland e Chicago proibiram o filme. Hughes ameaçou processar os conselhos de censura por impedir o lançamento de seu filme, com grande aprovação do New York Herald Tribune. Cada estado tinha o seu órgão de censura próprio, o que permitiu ao produtor lançar Scarface em áreas sem ela estrita. A pedido de Will Hays, Jason Joy convenceu-os a permitir o lançamento do longa-metragem, porque o código hays reconheceu e apreciou as mudanças que fizeram no filme. Joy visitou individualmente os funcionários, afirmando que, embora o código hays fosse contra a representação positiva do crime, os filmes de gangues eram documentários contra a vida de gângster. Joy obteve sucesso e, eventualmente, todos eles permitiram o lançamento de Scarface, aceitando apenas a versão cortada e censurada da obra.
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Os estudiosos debatem se Scarface classifica-se como um filme com inspirações na vida real ou uma obra da era dos gângsters de Hollywood. Seu significado histórico foi aumentado pelos créditos de roteiro do filme: WR Burnett, autor do romance Little Caesar, do qual o filme de mesmo nome foi baseado; Fred D. Wesley, um proeminente historiador das gangues de Chicago; e Ben Hecht, um ex-repórter da mesma cidade. Eventos semelhantes ao assassinato de Jim Colismo e ao Massacre do Dia de São Valentim contribuem para o realismo e a autenticidade do filme. O crítico de cinema Robert E. Sherwood afirmou que Scarface "merece... como um documento sociológico ou histórico", e "uma tentativa totalmente indesculpável foi feita para suprimi-lo - não porque seja obsceno... mas porque... chega muito perto de dizer a verdade". O estilo visual "afiado" e "duro" de Scarface definiu todos os filmes com a mesma temática que surgiu após o seu lançamento. Hawks segundo a crítica criou um filme violento e envolvente contrastando fortemente o preto e o branco de sua cinematografia. Por exemplo, salas escuras, silhuetas de corpos contra cortinas desenhadas e poças de luz cuidadosamente posicionadas. Grande parte do filme se passa à noite. O agrupamento compacto de assuntos dentro da tomada e a movimentação da câmera seguiu o curso da ação no filme. A cinematografia é dinâmica e caracterizada por enquadramentos altamente variado e enquadramento móvel.
Elementos abundantes
De acordo com o professor de cinematografia Fran Mason, a abundância é um tema proeminente no filme. A abertura da obra prepara o cenário enquanto Big Louie Costillo se senta nos restos de uma festa selvagem, convencendo seus amigos de que sua próxima será ainda maior e terá "muito mais de tudo". Isso indica a vida excessiva de um gângster, seja no prazer ou na violência. A cena da morte de Costillo define o próximo tom de excesso. Nesta sequência, o público vê apenas a sombra de Tony Camonte com uma arma, ouve os tiros e o som do corpo caindo no chão. As cenas violentas se tornam mais graves à medida que o longa-metragem avança. A maior parte da violência no filme é mostrada por meio de montagem, à medida que elas passam em sequência, mostrando os assassinatos brutais que Tony e sua gangue cometem, como agredir donos de bares, participar de um atentado a bomba e massacrar 7 homens contra uma parede. Uma delas mostra um calendário destacável mudando rapidamente as datas enquanto é baleado por uma metralhadora, deixando clara a violência excessiva. A matança não é perpetrada apenas pelos gângsteres. A polícia, na cena final com Tony e Cesca, não mede esforços para capturar os notórios irmãos Camonte, visível através do número desproporcional de policiais e carros cercando o complexo de apartamentos para prender um homem. O uso excessivo da violência por Tony e pela polícia ao longo do filme normaliza isso. Um elemento de paródia à alegria anormal de Tony em usar metralhadoras. No restaurante em que homens da gangue North Side tentam atirar em Tony com uma metralhadora, ele obtém prazer com o poder. Em vez de se encolher sob as mesas, ele tenta espiar para assistir às armas em ação, rindo loucamente de sua excitação. Ele reage jovialmente ao receber sua primeira arma deste tipo e sai entusiasmado para "escrever [seu] nome por toda a cidade com ele em letras grandes".
Sonho Americano
A ascensão de Tony Camonte graças à proeminência e ao destino é modelada pelo sonho americano, mas de forma abertamente violenta. À medida que o filme acompanha a ascensão e queda de um mafioso italiano, Tony torna-se cada vez mais americanizado. Quando ele aparece na barbearia, esta é a primeira vez que o público vê seu rosto. Ele parece estrangeiro com um sotaque italiano perceptível, cabelo penteado e uma aparência quase neandertal, evidente pelas cicatrizes em sua bochecha. À medida que Scarface avança, ele se torna assimilado a cultura estadunidense à medida que perde o sotaque e seus ternos mudam de básicos para elegantes. No final do longa-metragem, seu dialeto é quase imperceptível. No momento de sua morte, ele havia acumulado muitos "objetos" que retratam o sucesso sugerido pelo sonho americano: sua secretária, uma namorada de status social significativo, bem como um apartamento, carros grandes e roupas caras. Camonte exemplifica que se pode ter sucesso na América seguindo o lema de Camonte: "Faça primeiro, faça você mesmo e continue fazendo". Por outro lado, Camonte representa o anseio norteamericano de rejeitar a vida e a sociedade modernas, rejeitando então o americanismo. O gângster luta pelo mesmo sonho americano que qualquer outra pessoa, mas o aborda de uma forma que contradiz os valores sociais modernos, por meio da violência e de atividades ilícitas.
Guerra de Gangues
O controle do território é um tema comum do gênero de filmes de gângster. Tony luta para controlar a região, livrando-se de rivais e conquistando o controle físico do município, e também conquista o controle da tela do cinema em sua ascensão ao poder. Isso é mais evidente nas cenas e interações envolvendo Tony, Johnny e Poppy. Em uma sequência inicial do filme, o protagonista vai ao apartamento de Johnny para receber seu pagamento após matar Louie Costillo. Dois cômodos são visíveis: o principal, onde Tony se senta, e o ao fundo, onde Poppy se senta e lá Johnny guarda seu dinheiro. Lovo vai para o quarto dos fundos, entretanto Tony não, então este cômodo representa o poder e o território de Johnny. Os homens sentam-se frente a frente na cena, com Poppy no meio deles, ao fundo, representando o troféu pelo qual ambos lutam. No entanto, ambos aparecem igualmente na cena, representando sua igualdade de força. Mais tarde, na cena da boate, o protagonista senta-se entre Poppy e Johnny, demonstrando que está no controle por meio de sua centralidade na cena. Ele ganhou mais poder e território, como indicado por sua "conquista" Poppy.
Medo da tecnologia
Scarface em seu enredo representa os medos e a confusão americanos decorrentes do avanço tecnológico da época: se o avanço tecnológico e a produção em massa deveriam ser temidos ou celebrados. Uma ansiedade geral após a Primeira Guerra Mundial era se a nova tecnologia causaria a destruição final ou ela ajudaria a tornar a vida mais fácil e trazer felicidade. No filme, Tony se deleita animadamente com as possibilidades que as metralhadoras (arma então criada durante a guerra mundial) podem trazer, matando mais pessoas, só que rapidamente e de longe. Isso representa a questão de se a produção em massa equivale ou não à destruição em massa ou à eficiência em massa.
Uso de objetos no cenário
A utilização de objetos de forma lúdica expressou o humor negro de Howard Hawks, que ele expressou por meio de sua direção. Na cena da pista de boliche, onde o líder de gangue rival Tom Gaffney foi assassinado, quando Gaffney joga a bola, ela permanece no último pino de boliche em pé, que cai para representar a morte dele. Nesta mesma sequência, antes da morte de Gaffney, uma cena mostra um "X" no placar, prenunciando a sua morte. Hawks usou a técnica de prenúncio do "X" ao longo do filme (vista primeiro nos créditos de abertura), que foi principalmente associada à morte aparecendo muitas vezes (mas não em todas as cenas) quando uma morte é retratada; aparecendo em vários lugares, mais proeminentemente como a cicatriz "X" de Tony em sua bochecha esquerda. O chapéu de mafioso é um tema comum em dramas policiais, especificamente Scarface como um representante do alto consumo deles. O diretor incluiu gestos repetitivos com as mãos, algo comum em suas obras. Em Scarface, George Raft foi instruído a lançar uma moeda repetidamente, o que ele faz ao longo do enredo do longa-metragem.
"The World Is Yours"
O apartamento de Camonte tem vista para uma placa de néon que diz "The World Is Yours". A qual representa a cidade americana moderna como um lugar de ascensão social e individualismo. Por mais atraente que seja o slogan, a mensagem é impossível, mas Tony não entende isto. A vista de seu território representa a ascensão do gangster. Quando Camonte é morto na rua em frente ao seu prédio, a câmera se move para cima para mostrar o outdoor, representativo do paradoxo social da existência de oportunidades, mas da incapacidade de alcançá-las. De acordo com Robert Warshow, a cena final representa como o mundo não é nosso, mas também não é dele. A morte do protagonista nos liberta momentaneamente do conceito de sucesso e da necessidade de vencer. Em relação ao tema do excesso e abundância, a placa sendo uma metáfora para os desejos divisores criados pela modernidade, vistos através das lentes dos desejos excessivos da persona de um criminoso.
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Após o lançamento, Scarface foi recebido positivamente. De acordo com George Raft, que se encontrou com Al Capone algumas vezes em cassinos, até o próprio mafioso gostou do filme, acrescentando: "diga a eles que se algum dos meus garotos estiver jogando moedas, serão moedas de ouro de vinte dólares". A Variety citou Scarface como tendo "aquele suspense poderoso e envolvente que está em todos os filmes de gângsteres está neste em doses duplas e o torna um entretenimento envolvente", e que os atores interpretam "como se não tivessem feito nada além disso a vida toda". O National Board of Review nomeou o longa-metragem como um dos melhores filmes de 1932. No entanto, na época do lançamento em 1932, houve um clamor público geral sobre esta obra e o gênero em geral, o que afetou negativamente as receitas de bilheteria. Jack Alicoate deu a Scarface uma crítica mordaz no The Film Daily, afirmando que a violência e o enredo o deixaram com "uma nítida sensação de náusea". Ele continua dizendo que "nunca deveria ter sido feito" e exibi-lo "causaria mais danos à indústria cinematográfica e a todos ligados a ela do que qualquer filme já exibido". Embora Ben Hecht frequentemente criticasse seus roteiros para Hollywood, ele admitiu que Scarface foi "o filme mais bem dirigido que ele já viu". Apesar disso, criticou a atuação de Muni. Tendo conhecido Al Capone, Hecht afirmou que o ator retratou o gângster como muito "silencioso" e "mal-humorado", mais parecido com "Hitler". Alguns críticos discordaram da escalação do britânico Boris Karloff, acreditando que seu sotaque estava fora de lugar; um artigo do New York Times afirmou que "seu sotaque britânico dificilmente é adequado para o papel". Outros discordaram desta opinião. O filme arrecadou US$ 600.000 nas bilheterias e, embora Scarface tenha tido mais sucesso financeiro do que outros filmes de Hughes na época, devido ao custo significativo de produção, é improvável que tenha tido mais sucesso comparando ao seu orçamento.
Listas
Em 1994, Scarface foi selecionado para preservação no National Film Registry dos pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos como sendo "culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo". O personagem Tony Camonte foi classificado em 47º lugar na lista 100 Years... 100 Heroes and Villains da American Film Institute. O filme foi nomeado o melhor filme sonoro americano pelo crítico e diretor Jean-Luc Godard no Cahiers du Cinéma. Em junho de 2008, o American Film Institute revelou seus "Dez Melhores Dez" — um tópico de dez melhores obras em dez gêneros de longa-metragens americanos "clássicos" — após uma pesquisa com mais de 1.500 pessoas da comunidade criativa, Scarface foi reconhecido como o sexto melhor no gênero de filmes de gângster. A versão de 1983 ficou em 10º lugar, tornando-o único filme a fazer a mesma lista junto com o seu remake.
Apesar de não ter tido sucesso nas bilheterias, Scarface foi um dos longa-metragens mais discutidos de 1932 devido ao seu tema, confronto e vitória sobre a censura. Scarface é citado (frequentemente com Little Caesar e The Public Enemy) como o arquétipo do gênero de filme de gangster, porque estabeleceu o padrão inicial que continua a aparecer em Hollywood. No entanto, a obra acabou sendo o último dos três grandes filmes de gangsters do início da década de 1930, já que a indignação com a violência pré-Código causada pelos três filmes, particularmente Scarface, desencadeou a rigorosidade do código hays em 1934. Howard Hawks citou Scarface como uma de suas obras favoritas, e o filme era um motivo de orgulho para Howard Hughes. Hughes trancou as fitas em seus cofres alguns anos após o lançamento, recusando muitas ofertas lucrativas para distribui-lo ou comprar seus direitos autorais. Em 1979, três anos após sua morte, a Summa Corporation que controlava seu patrimônio, vendeu os direitos da obra junto com outros sete filmes para a Universal Pictures, o que deu origem ao remake de 1983 estrelado por Al Pacino. A nova versão também foi recebida de forma mista causando controvérsias porém é atualmente aclamada pela crítica.
Mídia Doméstica
O longa-metragem foi um dos primeiros filmes lançados em VHS pela MCA Videocassette durante maio de 1980. Teve a sua disponibilidade em DVD em 22 de maio de 2007 com relançamento no dia 28 de agosto de 2012, por causa da comemoração ao 100º aniversário do estúdio Universal Studios, com o selo da Universal Pictures Home Entertainment. Ambas as versões em DVD incluem uma introdução do apresentador e historiador de cinema da Turner Classic Movies, Robert Osborne, e também o final alternativo. Nas exibições televisivas Scarface mantém a conclusão original de Hawks, mas ainda contém as outras alterações que ele foi obrigado a fazer durante as filmagens. Uma versão completamente inalterada e sem censura do filme não era conhecida até que o conjunto de edição limitada de Scarface (1983) foi lançado em 15 de outubro de 2019. Em 2024, a Criterion Collection anunciou um lançamento 4K/Blu-ray para novembro daquele ano.
Filmes Relacionados
Scarface é frequentemente associado a outros filmes policiais pré-código lançados no início da década de 1930, como The Doorway to Hell (1930), Little Caesar, e The Public Enemy (ambos de 1931). De acordo com Fran Mason da Universidade de Winchester, Scarface é mais semelhante ao filme The Roaring Twenties (1939) do que seus contemporâneos por causa do uso excesso em melodrama e violência.
Imagem: Kansas Sebastian · BY-NC-ND · Openverse
Uma nova versão foi lançada nos cinemas em 1983 por Brian De Palma e com roteiro de Oliver Stone e estrelado por Al Pacino. O Scarface dos anos 80 segue-se mais o filme de 1932 do que o romance porém com algumas modificações como a mudança de um imigrante italo-americano (Tony Camonte) da versão original para um cubano (Tony Montana), ambientado em Miami, Flórida ao invés de Chicago e as cenas de incesto que foram censuradas pelo código hays em 1932. O remake teve uma resposta crítica inicial negativa devido à sua extrema violência, palavrões e uso gráfico de drogas. Nos anos que se seguiram, alguns críticos o reavaliaram, considerando-o um dos maiores filmes de gângster já feitos. ele foi amplamente referenciado na cultura pop, especialmente na cultura hip hop/gangsta rap, bem como em histórias em quadrinhos, programas de televisão e videogames. O filme é considerado assim como a versão de 1932, um clássico cult.


