Anjos da Noite
Anjos da Noite é um filme de drama brasileiro de 1987 dirigido e escrito por Wilson Barros. É estrelado por Zezé Motta, Antônio Fagundes e Marco Nanini e acompanha a jornadas de diversos personagens durante a noite paulista. O elenco secundário é composto por Cláudio Mamberti, Guilherme Leme, Aída Leiner e Chiquinho Brandão, e conta ainda com a participação especial de Marília Pêra.
A trama é ambientada na noite paulista e gira em torno da solidão e das crises existenciais de diversos personagens que se cruzam pela cidade à procura de amor e aventura. O filme inicia-se acompanhando a resolução de dois assassinatos: o de um jovem executivo e o de um homem em uma banheira. Na cena inicial, vemos um monólogo da travesti Lola (Chiquinho Brandão), após assassinar seu amante na banheira do apartamento. Logo em sequência, o secretário Alfredo Nunes é morto por engano no lugar de Rudolph Asten, seu chefe. Esse erro é descoberto pela mídia e logo repercute pelos telejornais. É nesse momento em que dois outros personagens são apresentados: Malu Maneca (Zezé Motta) e Dr. Fofo (Cláudio Mamberti), uma empresária da noite paulsita e um delegado corrupto envolvido com narcotráfico e assassinatos. Na agência da empresária Malu, a estudante de sociologia Cissa (Be Valério) está realizando uma pesquisa acadêmica e analisa a coleção de vídeos de Malu, a qual contém depoimentos de "damas da noite, transadores baratos, garotos de aluguel, doces travestis, tarados, gangsters tímidos e mascarados: meus anjos da noite", segundo a descrição da própria empresária. O assassino Bimbo (Aldo Bueno) chega à agência e questiona Cissa sobre a veracidade das gravações. Ele e a secretária Milene (Aída Leiner), sua amante, oferecem drogas e bebida à Cissa.
Antecedentes
O filme foi escrito e dirigido pelo cineasta paulistano Wilson Barros, sendo esse o único filme de longa-metragem de sua breve carreira. Ele faleceu aos 43 anos, em 1992, por complicações derivadas da AIDS. Barros pertenceu a uma conhecida geração de cineastas paulistanos da década de 1980, a qual possuía em sua grande parte estudantes de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA). A produção audiovisual desse período ficou conhecida como "Cinema de Vila" devido ao núcleo de produção de filmes instalado no bairro de Vila Madalena, em São Paulo. Tais produções são caracterizadas por acompanhar jornadas de personagens que não estão em busca de grandes sonhos de transformações sociais e pelo constante uso de tecnologias nas relações sociais, além de homenagear costumes urbanos apresentando um Brasil que está em constante modernização.
Desenvolvimento
O filme teve apoio financeiro da Embrafilme após ter seu roteiro premiado pela agência de filmes. Seu orçamento ainda teve suporte da produtora Superfilmes e de seus coprodutores, que incluem a atriz Marília Pêra e o compositor Sérvulo Augusto.
Imagem: jalopes · BY-NC-ND · Openverse
Resposta da crítica
Anjos da Noite foi recebido positivamente pelos críticos de cinema. O filme faz parte de um seleto grupo de produções audiovisuais que marcaram a década de 1980 no cinema brasileiro. Foi citado pelo psicólogo Tales Ab'Sáber em seu livro "A imagem fria: cinema e crise do sujeito no Brasil dos anos 80", onde o autor disse que Anjos da Noite é um dos mais complexos do período e que "dá mais perspectivas para uma leitura da cultura". Ainda segundo Ab'Sáber, a construção da narrativa do filme, a qual traz uma constante quebra de ponto de vista do espectador, representa um " jogo de aparências e fundos falsos". A crítica elogiou a estrutura narrativa fragmentada, em harmonia com ideias do diretor. Foi apontado como o filme traz um apagamento de fronteiras que separam a realidade e a ficção, além de uma fragmentação da cidade e dos personagens. Nelson Brissac Peixoto, crítico do jornal Folha de S.Paulo, escreveu: "A narrativa passa sem parar da história imediata para o teatro, para o vídeo ou para um depoimento jornalístico". Já Amir Labaki, também escrevendo para a Folha de S.Paulo, relacionou o filme com a literatura pós-moderna estadunidense, em especial à obra de John Barth. Ambos autores escrevem obras "canibalescas" e "autocríticas", cujas apresentam uma fragmentação em sintonia com a percepção do personagens de seu tempo.


