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Ukiyo-e

Ukiyo-e, ukiyo-ye ou ukiyo-ê, vulgarmente também conhecido como estampa japonesa, é um gênero de xilogravura e pintura que prosperou no Japão entre os séculos XVII e XIX. Destinava-se inicialmente ao consumo pela classe mercante do período Edo. Entre as mais populares temáticas abordadas, estão a beleza feminina; o teatro kabuki; os lutadores de sumô; cenas históricas e lendas populares; cenas de viagem e paisagens; fauna e flora; e pornografia.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 06/07/2026
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História

Com exceção de comerciantes holandeses que mantinham negócios com o Japão desde a era Edo, ocidentais deram pouca atenção à arte nipônica até metade do século XIX. Mesmo quando o interesse surgia, pouco a diferenciavam do resto da produção oriental. O naturalista sueco Carl Peter Thunberg dedicou um ano de trabalho à missão comercial neerlandesa de Dejima, próxima a Nagasaki, e foi um dos primeiros ocidentais a colecionar trabalhos gráficos japoneses. Após o início das exportações de ukiyo-e, que lentamente começaram a crescer ainda no início do século XIX, a coleção do negociante mercador Isaac Titsingh passou a despertar atenção de apreciadores de arte em Paris. A presença do comodoro estadunidense Matthew Calbraith Perry em Edo em 1853 levou à assinatura do Tratado de Kanagawa, em 1854, que fez do Japão um país aberto ao resto do mundo após mais de dois séculos de isolamento. Trabalhos do gênero estiveram entre os itens que o comodoro levou para os Estados Unidos. Tais peças começaram a surgir em Paris por volta da década de 1830 e, já na década de 1850, tinham se tornado numerosas. A recepção desse fazer artístico na Europa foi mista, e, mesmo quando aclamado, o ukiyo-e era geralmente visto como inferior à arte ocidental da época, que buscava enfatizar a maestria da perspectiva naturalista e da anatomia. Na Exposição Universal de 1867 em Paris, entretanto, a produção artística nipônica passou a despertar curiosidade e a ser vista como uma elegante tendência, ganhando destaque na França e Inglaterra nas décadas de 1870 e 1880. Obras de Hokusai e Hiroshige tiveram importante papel no desenvolvimento da visão ocidental acerca da arte do Japão. À época de sua introdução na cultura do ocidente, a xilogravura era o mais comum meio de comunicação de massa de seu país original, e já era de opinião geral da população japonesa que a técnica não duraria tanto mais.

Pré-história

A arte japonesa, desde o período Heian (794 – 1185), seguiu dois principais caminhos: a tradição nativista yamato-e, com temas japoneses e melhor conhecida pelos trabalhos da escola Tosa, e a tradição de inspiração chinesa denominada kara-e, sobretudo a vertente sumi-ê de Sesshū Tōyō e seus discípulos. A escola Kanō de pintura incorporou características de ambas as tradições. Desde a antiguidade, o fazer artístico nipônico encontrou mantenedores, ou patronos, entre aristocracia, governos militares e autoridades religiosas. Até o século XVI, o proletariado não era objeto de pintura, e mesmo quando era incluído, os trabalhos permaneciam sendo itens de luxo feitos para samurais ou indivíduos da rica classe mercantil. Posteriormente, tais peças de arte começaram a surgir a partir e para as pessoas comuns da cidade, com pinturas monocromáticas retratando belas mulheres, cenários de teatro e zonas urbanas de meretrício. O caráter manual de feitura de tais shikomi-e — termo que identificava essa prática primitiva — limitava a escala de produção, problema este logo superado com surgimento de gêneros direcionados à produção massiva em xilogravura.

Emergência (fim do século XVII – início do século XVIII)

Os primeiros artistas do gênero surgiram a partir de vertentes da pintura japonesa. Trabalhos yamato-e do século XVII desenvolveram um estilo de formas contornadas que permitiu que tintas pudessem ser gotejadas em superfícies molhadas e espalhadas por seus limites. Essa prática de contorno foi dominante no desenvolvimento do ukiyo-e. Por volta de 1661, peças kakemono-e conhecidas como kanbun bijin (寛文美人, retratos das belezas da Kanbun) ganharam popularidade. As pinturas da era Kanbun (1661 – 1673), boa parte feita por anônimos, marcaram o início da história do gênero enquanto escola artística independente. Os trabalhos de Iwasa Matabei (1578 – 1650) tinham grande afinidade com a pintura ukiyo-e, embora acadêmicos divirjam sobre sua obra pertencer ou não ao gênero. Afirmações de que ele foi seu fundador são especialmente populares entre a comunidade de pesquisadores japoneses. Por vezes, Matabei tem sido creditado enquanto suposto autor do "Biombo de Hikone", uma pintura em biombo[a] que acredita-se ser o mais antigo trabalho ukiyo-e ainda existente. A tela possui refinado estilo Kanō e retrata o cotidiano da época, em desalinhamento às características temáticas objeto das escolas pictóricas.

Gravuras coloridas (metade do século XVIII)

Mesmo nas primeiras gravuras e livros monocromáticos, cor era adicionada à mão em casos especiais. A demanda por trabalhos coloridos no início do século XVIII era suprida por tan-e tan (丹), um tipo de pigmento feito com tetróxido de chumbo misturado a enxofre e salitre. As telas eram geralmente pintadas em tonalidades de laranja e, menos comumente, verde e amarelo. Trabalhos do tipo foram seguidos, na década de 1720, pela moda da tintura rosada beni-e beni (紅), produzida a partir de pétalas de cártamo, e, posteriormente, pela moda da tinta similar a laca urushi-eurushi (漆絵). Em 1744, deu-se o primeiro período de sucesso da gravura colorida, com o uso predominante de beni-e e verde vegetal. Os trabalhos dessa leva, gravados por meio de múltiplos blocos de madeira, um para cada tonalidade, eram conhecidos como benizuri-e benizuri (紅刷絵).

Auge (final do século XVIII)

Enquanto a sociedade japonesa via no final do século XVIII tempos difíceis economicamente, presenciou-se na mesma época o auge do gênero em quantidade e qualidade de trabalhos, particularmente durante a era Kansei (1789 – 1791). O ukiyo-e do período das reformas Kansei trouxe foco à beleza e à harmonia, foco este que acabou entrando em colapso no século seguinte, quando as reformas acabaram-se e as tensões políticas aumentaram, culminando na restauração Meiji, de 1868. Na década de 1780, Torii Kiyonaga (1752 – 1815), da escola Torii, retratava tradicionais temas do ukiyo-e, como belezas femininas e cenas urbanas, produzidas em amplas folhas de papel, sempre como dípticos ou trípticos horizontais. Seus trabalhos distanciavam-se das paisagens poéticas de Harunobu, optando por retratos realistas de formas femininas idealizadas, vestidas de acordo com a moda vigente, a posar em locações cênicas. Ele também produzia retratos de atores de kabuki no estilo realista, além de músicos e coros.

Florescimento tardio: natureza e paisagens (século XIX)

Com as reformas Tenpō de 1841–43, a exibição exterior de luxo passou a ser reprimida, incluindo a arte de representação de cortesãs e atores. Como resultado, muitos artistas do gênero passaram a retratar cenas de viagem e imagens da natureza em suas criações, especialmente pássaros e flora. Paisagens tinham perdido representatividade na arte desde Moronobu, embora constituíssem importante elemento criativo nos trabalhos de Kiyonaga e Shuncho. Somente ao final do período Edo, trabalhos com essa temática passaram a constituir uma vertente independente, especialmente por meio da obra de Hokusai e Hiroshige, que acabou por dominar o uso da perspectiva em ukiyo-e, embora a vertente não tivesse registrado grande passado histórico de exploração desse aspecto antes dos mestres do final da era. A principal característica da arte de paisagem japonesa (名所絵, meisho-e) era o fato de que diferia da tradição ocidental por depender mais da imaginação, composição e atmosfera e menos da observação da natureza.

Declínio (final do século XIX)

Após as mortes de Hokusai e Hiroshige e a restauração Meiji de 1868, o gênero sofreu forte declínio tanto em quantidade quanto em qualidade. Com a rápida ocidentalização que aconteceu na era Meiji, a xilogravura foi transformada em serviço ao jornalismo, passando a disputar terreno com a fotografia. Praticantes da "pura" ukiyo-e tornavam-se cada vez mais raros, e o gosto popular se afastou do gênero artístico, que se tornou patrimônio remanescente de uma era obsoleta. Artistas continuaram a produzir trabalhos notáveis ocasionalmente, porém, por volta da década de 1890, a tradição dava sinais de desvanecimento. Na segunda metade do século XIX, pigmentos sintéticos importados da Alemanha começaram a substituir os tradicionais e orgânicos. Muitas gravuras dessa era faziam extensivo uso de vermelho brilhante e por isso eram conhecidas como aka-e imagens vermelhas (赤絵). Artistas como Yoshitoshi (1839 – 1892) lideraram a tendência da década de 1860 de representação de cenas macabras retratando assassinatos e fantasmas, monstros e criaturas sobrenaturais (妖怪, yōkai), além de lendários heróis japoneses e chineses. Seu trabalho Cem Aspectos da Lua (1885–92) retrata uma variedade de temas fantásticos (Kaidan) e mundanos com motivos relacionados à Lua. Kobayashi Kiyochika (1847 – 1915) tornou-se conhecido por seus trabalhos de documentação da rápida modernização de Tóquio, como por exemplo registros artísticos de construção de ferrovias, e por suas representações da Primeira Guerra Sino-Japonesa e da Guerra Russo-Japonesa. Um dos primeiros pintores da escola Kanō na década de 1870, Toyohara Chikanobu (1838 – 1912), migrou para a gravura, retratando sobretudo a Casa Imperial do Japão e cenários de influência ocidental na vida japonesa do período Meiji.

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Estilo

Muitos dos primeiros nomes do gênero aplicavam em seus trabalhos sofisticado conhecimento e treinamento acerca dos princípios de composição da pintura chinesa clássica, porém, gradualmente, abandonaram a influência do outro país e desenvolveram uma linguagem visual nativa. Os dedicados ao ukiyo-e dos primórdios têm sido chamados de precursores no sentido de que foram responsáveis por conceber uma nova modalidade de impressão a partir da adaptação de técnicas artísticas seculares, embora sua produção não seja de forma alguma tida como primitiva. Muitos pintores e gravuristas do gênero receberam treinamento de professores da Kanō e outras escolas de arte tradicionais. Uma característica essencial da maioria dos trabalhos do ukiyo-e é o bem definido e espesso traço. Nas primeiras gravuras do gênero, destacavam-se a monocromia e o traço enquanto elemento impresso único. Mesmo com o advento da criação em cor, o desenho característico continuou a dominar. Já a composição tinha como notório o arranjo em espaços planos. Figuras nessas composições eram tipicamente dispostas sem qualquer ilusão de profundidade. Atenção era dada sobretudo aos aspectos de linhas, formas e padrões nas vestimentas das figuras retratadas. Tais composições eram frequentemente assimétricas e a perspectiva comumente concebida a partir de ângulos pouco usuais. Para dar um ar espontâneo, os elementos das representações costumavam ser recortados. Nas peças em cor, os contornos da maioria das áreas coloridas eram delineados de forma firme e nítida. A estética empregada nessas partes contrastava com as cores moduladas costumeiras da produção ocidental e com outras proeminentes tradições artísticas do Japão patrocinadas pelas classes abastadas, como a monocromática pintura sumi-ê do budismo zen ou as colorizações tonais próprias da escola Kanō.

Temas e gêneros

Ente os temas típicos do ukiyo-e, destacaram-se a beleza feminina (bijin-ga), atores de kabuki (yakusha-e) e paisagens. A mulheres retratadas nesse tipo de trabalho eram de forma mais recorrente cortesãs e gueixas em momentos de ócio, forma representativa que promovia o entretenimento em zonas de meretrício. O nível de detalhe por meio do qual os artistas concebiam as vestimentas e os estilos de penteado tornou-se um dos mais fiáveis elementos de estudo para estimar datas e analisar a produção de acordo com períodos históricos. Outro ponto estudado, embora em menor medida, é o rigor da representação de característica físicas, que seguiam as modas pictóricas de cada época — os rostos estereotipados e corpos altos e esguios em um período de tempo, baixos em outro, por exemplo. Retratos de celebridades possuíam grande demanda, particularmente os de kabuki e sumô, as duas mais populares formas de entretenimento da era. Embora a vertente de trabalhos de paisagens o tenha popularizado no mundo ocidental, ela floresceu de forma relativamente tardia na história do gênero.

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Produção

Pintura

Artistas do gênero costumeiramente dedicavam-se tanto à pintura quanto à gravura, embora alguns se especializassem numa ou noutra. Em contraste às tradições artísticas anteriores, os pintores de ukiyo-e favoreciam o brilho e a nitidez das cores, e frequentemente delineavam contornos com tinta em bastão, que proporcionava um aspecto similar ao do traço de gravuras. Sem sofrer das limitações da xilogravura, os pintores gozavam de maior variedade disponível de técnicas, pigmentos e superfícies. Os pigmentos usados eram geralmente compostos a partir de substâncias minerais ou orgânicas, tais quais cártamo, chumbo e cinábrio, por exemplo, e posteriormente corantes sintéticos do ocidente, como verde-paris ou azul da prússia. Diferentes tipos de pergaminho, como kakemono ou makimono, além dos byōbu, estiveram entre as superfícies mais comuns de trabalho.

Gravura

As gravuras de ukiyo-e eram fruto do trabalho de times de artesãos em oficinas. Era raro que o artista responsável talhasse ele mesmo os blocos de madeira. A atividade era dividida em quatro grupos de profissionais: o publicador, que licenciava, promovia e distribuía as peças; os artistas, que proviam o desenho; os talhadores, que preparavam os blocos para a impressão; e os impressores, que transferiam os desenhos gravados para o papel. Via de regra, somente os nomes do artista e do publicador recebiam os créditos no trabalho finalizado. Tais peças eram impressas em washi (和紙), um tipo de papel artesanal, manualmente, em vez de por prensagem mecânica, método comum no ocidente. O artista fornecia um desenho de tinta em papel fino, que era colado a um bloco de madeira de cerejeira[e] e friccionado com óleo até que as camadas superiores do papel pudessem ser destacadas, deixando uma camada translúcida que o cortador de blocos usava como guia. Ele cortava e descartava as áreas não negras da imagem, deixando as de relevo, pintadas, para que pudessem realizar a impressão. O desenho original era destruído no processo.

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Criticismo e historiografia

Registros de época de artistas do ukiyo-e são raros. O mais importante deles ainda existente é o "Ukiyo-e Ruikō" (浮世絵類考), livro de coleção de comentários e biografias sobre pintores e gravuristas. A primeira e não mais existente versão foi compilada por volta de 1790, por Ōta Nanpo (大田南畝). Tal trabalho não foi impresso durante a era Edo, mas circulou em edições copiadas à mão que foram objeto de inúmeras adições e alterações, de forma que mais de 120 variantes do "Ukiyo-e Ruikō" são conhecidas. Antes da Segunda Guerra Mundial, a visão predominante acentuava a centralidade de estudo das gravuras em detrimento das pinturas, atribuindo a fundação do ukiyo-e a Moronobu. Após a guerra, o pensamento direcionou-se à importância da pintura ukiyo-e, fazendo conexões diretas com os trabalhos yamato-e do século XVII. Tal perspectiva via Matabei como o originador do gênero, tese especialmente defendida no Japão, desenvolvendo-se entre os pesquisadores e acadêmicos nativos a partir da década de 1930, embora o governo militar da época a tivesse suprimido, com o intuito de enfatizar a divisão entre as pinturas yamato-e de pergaminho associadas à corte, e as gravuras, mais características da classe mercante, muitas vezes vistas como anti-autoritárias.

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Coleção e preservação

Grupos sociais dominantes limitavam de forma estrita o espaço permitido para a construção de imóveis de classes de base, e o relativamente pequeno espaço dessas casas era propício para o uso de trabalhos ukiyo-e, geralmente de pequena dimensão, como itens de decoração. Poucos registros acerca do patronato de pinturas do gênero sobreviveram ao tempo. Sabe-se, contudo, que tais peças eram comercializadas a altos preços, muito mais caros que os das gravuras. Assim sendo, acredita-se que eram vendidas somente para abastados, como mercadores ou indivíduos de classes samurai. As gravuras da era tardia são as que sobreviveram em maior número, por terem sido produzidas em maior escala durante o século XIX, sendo as de épocas anteriores, sobretudo as primitivas, mais raras. O ukiyo-e era fortemente associado à cultura de Edo, e visitantes da cidade frequentemente compravam o chamado azuma-e (東絵, retratos da capital do oriente) como suvenires. Lojas que vendiam tais peças geralmente eram especializadas em itens populares e característicos da cultura oriental, como leques, por exemplo. O mercado de gravuras era altamente diversificado e tinha um público heterogêneo, que ia dos trabalhadores comuns aos ricos burgueses. Pouco de concreto se sabe a respeito desses hábitos de consumo. Registros detalhados de Edo sobre cortesãs, atores e lutadores de sumô são fartos, mas poucos são os específicos sobre o gênero artístico. Determinar o que pode ser entendido como a demografia do consumo de ukiyo-e tem exigido de estudiosos o uso de meios indiretos de pesquisa.

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Fontes consultadas

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