Anarquismo epistemológico
Anarquismo epistemológico é uma teoria criada pelo filósofo da ciência austríaco Paul Feyerabend.
Ao longo dos séculos, a ciência simplesmente foi elevada a um status de superioridade por “forças históricas e violentas que usurparam o poder e decretaram qual deveria ser o padrão de conhecimento”. Para Feyerabend, o conhecimento, possui intrínseca ligação ao contexto social. O conhecimento preservado ao longo das gerações sempre influenciou os acontecimentos sociais. Assim, na concepção anarquista de Feyerabend, o conhecimento (desde os gregos), não é uma entidade abstrata, singular as coisas, mas tem em si os aspectos da vida humana, da época em que está inserido. A ciência, assim, é apenas uma das muitas ideologias que impulsionam a sociedade e deveria ser tratada como tal. Portanto, a perpetuação do conhecimento não está relacionada a formulação de teorias, ou seja, uma teoria não é uma condição necessária para o conhecimento. As realizações científicas não seriam portanto autônomas da ação e do pensamento humano, mas fariam a descrição de leis e fatos, que regem a determinados fenômenos naturais, sem porém ocorrer de maneira autônoma.
Para o anarquista Feyerabend as metodologias propostas nunca foram bem sucedidas, pois toda a tentativa de que a ciência deveria ser governada por regras fixas (pesquisadores como escrupulosos dependentes de pesquisa empírica) foram não realistas. Feyerabend argumentou que Galileu por exemplo, contou com retórica e truques epistemológicas para apoiar sua doutrina heliocêntrica. As leis científicas, tais como a física aristotélica ou newtoniana, assumiram a postura de modelos do universo, mas provaram serem limitadas para descrever a totalidade do universo. Isso ilustra para o anarquista epistemológico que as teorias científicas não correspondem à verdade. Feyerabend sustentou, com Imre Lakatos, que o problema da demarcação de distinguir ciência de pseudociência era insolúvel e, assim, fatal para a execução de regras universais fixas. Feyerabend também observa que o sucesso da ciência não é somente devido aos seus próprios métodos, mas também ao fato de agregar conhecimento a partir de fontes não científicas.
Contra o Método
Ao longo da carreira Feyerabend fora bastante inquieto profissionalmente, vagando por diversas universidades, dando aulas, conferências e seminários. Alcançando sempre sucesso em seu público, Feyerabend não era um professor engessado. Repassando a seus ouvintes a discussão o qual permeara toda sua vida, ressaltando que sua visão não denegria a razão, apenas suas versões petrificadas e tirânicas, surge no final dos anos 60, por iniciativa de seu grande amigo Imre Lakatos a ideia de registrar tudo aquilo que repassara a seus estudantes, sejam eles estudantes de física ou de filosofia, de acordo com o período de sua carreira. Surge no ano de 1975 seu compilado Contra o Método, uma colagem com descrições, análises, discussões chega-se ao que se chamou Anarquismo.
O ensino de Ciência
A ciência moderna, portanto teria se tornado tão opressiva quanto as ideologias, inibindo a liberdade de pensamento. Mas, e se a ciência encontrou a verdade, de que adianta agora a verdade se essa não o for seguida? Se o motivo é que ela tenha encontrado a verdade e agora a segue, então, para Feyerabend, haveria coisas melhores que essa primeira descoberta para depois seguir o monstro. Com o pensamento do contra racional e anarquista, Feyerabend faz então uma forte crítica a respeito do método de ensino de ciência e da forma pela qual se educa. Os "fatos" científicos são ensinados muito precocemente, da mesma maneira que os "fatos" religiosos eram ensinados a um século atrás. Não há nenhuma tentativa de despertar as capacidades críticas do aluno para que este seja capaz de ver as coisas em perspectiva.
Com mais reflexões sobre o saber científico, Feyerabend apresenta de forma mais contundente sua crítica a respeito da presença do racionalismo na evolução da ciência e sua importância no desenvolvimento da sociedade. Feyerabend agora mostra uma preocupação sobre alguns elementos que julgava importantes para o desenvolvimento do conhecimento, entre eles a ideia humanista de liberdade de escolha do indivíduo. Com um título ainda como consequência de seu Contra o método, Feyerabend aproveita para responder às reações dos seus detratores na terceira parte da obra, ironicamente intitulada “Conversas com ignorantes”. Mesmo reafirmando suas concepções e aprofundando seu pensamento, este livro pouco contribuiu para melhorar a imagem incendiária do autor diante dos demais filósofos.
Terence McKenna foi um admirador de filósofos tais como Feyerabend e Thomas Kuhn. Ele abraçou o pluralismo metodológico, mas se opôs ao monoteísmo, indo longe o bastante para definir a tradição Judeu-Cristã como ignorância. Ian Hacking era amigo de Feyerabend, correspondiam-se e citavam um ao outro. Hacking escreveu a introdução da última edição de Against Method, o qual considerou mais do que um livro: um evento. Imre Lakatos também era amigo de Feyerabend. Lakatos foi quem sugeriu e encorajou que Feyerabend deveria escrever um livro baseado na sua filosofia e nas lições o qual apresentava em sala de aula. As cartas trocadas entre ambos sobre filosofia da ciência poderiam ter sido publicadas em um livro chamado For and Against Method. Porém, com a morte de Lakatos, os planos de produzir este diálogo não foram adiante. Feyerabend, entretanto, escreve sobre seu anarquismo epistemológico, o que viria a ser seu mais disseminado trabalho Against Method.
Desde a publicação de Against Method, o anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend tem sido amplamente debatido, reinterpretado e, em alguns casos, parcialmente incorporado a discussões contemporâneas sobre metodologia científica e pluralismo epistemológico. Embora frequentemente associado à defesa radical da ausência de regras metodológicas universais, o pensamento de Feyerabend é hoje compreendido, por diversos intérpretes, como uma crítica histórica e contextual às tentativas de normatização excessiva da prática científica. Na ciência contemporânea, elementos do anarquismo epistemológico manifestam-se sobretudo na defesa do pluralismo metodológico, segundo o qual diferentes abordagens, modelos e estratégias explicativas podem coexistir na investigação de fenômenos complexos. Esse pluralismo é particularmente visível em áreas como a biologia evolutiva, as ciências cognitivas e os estudos interdisciplinares, em que os métodos heterogêneos são frequentemente combinados para lidar com objetos de pesquisa que não se deixam reduzir a um único esquema teórico.


