Ana de Gonta Colaço
Ana de Gonta Colaço foi uma escultora e artista plástica portuguesa. Era filha da poetisa e recitalista Branca de Gonta Colaço e do pintor e ceramista Jorge Rey Colaço.
Ana de Gonta Colaço faleceu no dia 25 de dezembro de 1954, em casa da sua irmã mais nova Maria Christina de Gonta Colaço de Aguiar, na Rua da Esperança, n.° 53, em Lisboa, com 51 anos de idade. Foi sepultada no Cemitério dos Prazeres em Lisboa.
Nascimento e Família
Registada e baptizada como Ana Raymunda de Gonta Colaço, Ana de Gonta Colaço nasceu na manhã de 7 de novembro de 1903, em casa, na Rua de Santo António dos Capuchos, n.° 84, 2.° andar, em Lisboa, sendo filha da poetisa Branca Gonta Colaço e do artista plástico Jorge Rey Colaço. Conhecida como Aninhas, era então a terceira filha do casal, tendo nascido apenas um ano após o falecimento da sua irmã, ainda recém nascida. Este facto levou a que a sua mãe registasse vigorosamente todos os feitos e proezas da sua tão desejada e amada filha, durante os seus primeiros anos de vida, no livro em forma de diário que escreveu, de 1904 até 1924, com o título "Aninhas".
Primeiros Anos
A sua infância foi bastante privilegiada e enriquecida, sobretudo no que toca à sua educação, sendo ensinada e acompanhada em casa por diferentes tutores, especialistas em diversas matérias e disciplinas, desde línguas, literatura, música e até equitação, chegando mesmo a competir com a sua irmã mais nova, Maria Christina, em torneios nacionais de hipismo. A sua infância ficou ainda marcada por várias mudanças de residência na zona de Lisboa e de Oeiras, e pela constante presença de figuras proeminentes da alta sociedade e do mundo artístico e cultural, assim como de elementos da família real portuguesa que visitavam a sua habitação, nomeadamente a Rainha D. Amélia, sendo conhecidos e relatados pelos vários periódicos de então os inúmeros saraus e jantares que Branca de Gonta Colaço organizava todos os Domingos em sua casa.
Feminismo e Lesbianismo
Durante esse mesmo período, Ana começou a abraçar os ideais do feminismo, passando a usar o cabelo curto, à la garçonne, a vestir-se com fatos de corte masculino e gravata e a escrever poemas e outros textos sobre a condição das mulheres em Portugal, especulando-se publicamente sobre a sua orientação sexual, nomeadamente como lésbica, numa sociedade ainda muito conservadora. Apesar de não ser público, para a sua família esse factor não constituía qualquer segredo, sendo aceite pelos seus pais que sempre a tentaram proteger do escrutínio público. Anos mais tarde, a jovem escultora, juntamente com a sua mãe, ingressou no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), liderado pela médica e sufragista republicana Adelaide Cabete.
Primeiras Exposições
No dia 5 de abril de 1923, Ana de Gonta Colaço exibiu a sua primeira obra de nome "Onda", uma estátua de dimensões pequenas, em gesso, que ilustrava um nu feminino deitado sobre a espuma duma onda, em estilo naturalista, com notáveis influências do estilo de Rodin e Camille Claudel, na XX Exposição da Sociedade Nacional das Belas Artes, em Lisboa, recebendo uma Menção Honrosa. A imprensa registou o momento, divergindo drasticamente na sua opinião, ora elogiando o potencial da jovem artista, ora atacando a sua condição de mulher e artista. Um ano depois, em 1924, Ana de Gonta Colaço realizou a sua primeira exposição a solo no Salão Bobone, em Lisboa, e apesar das duras críticas que recebeu em vários artigos escritos, tais como do jornalista Norberto de Araújo, do Diário de Lisboa, que referiu que "A escultura não pode ser nunca a arte de uma mulher.", a inauguração da exposição esteve repleta de várias personalidades do mundo das artes, cultura, política e do activismo feminista português, como os pintores Jorge Barradas, Eduarda Lapa, Roque Gameiro, Milly Possoz, Zoé Batalha Reis, o escultor António Teixeira Lopes, as escritoras e poetas Virgínia Vitorino, Olga Morais Sarmento e Oliva Guerra ou ainda a actriz e sua prima Amélia Rey Colaço.
Formação e Carreira Artística
Apaixonada pela fotografia e o cinema, em 1927, diplomou-se na Escola de Arte Cinematográfica Rino Lupo, em Lisboa, tendo no entanto apenas explorado a sétima arte ao realizar a curta-metragem "A mão enluvada" com os seus colegas de curso. Em 1929, tal como o seu pai fizera, Aninhas, nome pelo qual também assinava os seus trabalhos, partiu para Paris, via Madrid, onde visitou o Museu do Prado e de seguida, ao chegar à capital francesa e visitar várias escolas de artes, ingressou na Academia Julian, tornando-se pupila de Paul Landowski e de Alfred-Alphonse Bottiau. Após trabalhar intensamente na escola de arte durante sete meses, a artista portuguesa foi admitida a exibir no Salon d'Automne, com a sua obra "Pele Vermelha", a qual marcava uma nova estética no seu trabalho, deixando para trás o estilo naturalista e rumando em direcção às tendências vanguardistas da época como o modernismo.
Últimos Anos de Vida
Após a morte de sua mãe, em 1945, Ana de Gonta Colaço começou a apresentar sinais de saúde débil, optando por se fixar na casa da sua família, a Casa das Matinas, em Parada de Gonta, Tondela, na Beira Alta, onde realizou as suas últimas obras e escreveu textos interventivos sobre a condição da mulher na sociedade portuguesa. A sua última obra, uma monumental escultura de Nossa Senhora da Assunção, foi uma encomenda pela paróquia de Aguiar da Beira, e apresentava uma notória influência do estilo do seu antigo professor Paul Landowski, inserido no movimento artístico do modernismo.
Ana de Gonta Colaço produziu cerca de 36 esculturas, das quais 13 retratos ou bustos (oito de homens e cinco de mulheres) e 23 outras peças que transitaram entre o naturalismo e o modernismo.


