Amparo Poch y Gascón
Amparo Poch y Gascón foi uma figura multifacetada na Espanha do século XX: médica, escritora, pacifista e anarquista. Sua intensa militância anarquista marcou os anos que antecederam e transcorreram durante a Guerra Civil Espanhola. Co-fundadora da influente organização Mujeres Libres, ela também atuou como diretora de assistência social no Ministério da Saúde e Assistência Social, nomeada por Federica Montseny (1936-1937). Em Barcelona, liderou a Mujeres Libres e utilizou sua posição governamental para estabelecer os 'liberatorios de prostitución', lares de acolhimento que ofereciam assistência médica, psicoterapia e capacitação profissional para que prostitutas pudessem alcançar independência econômica por meios socialmente aceitáveis.
Pontos-chave
- Amparo Poch foi médica, escritora, pacifista e anarquista, destacando-se na Espanha pré e durante a Guerra Civil.
- Foi co-fundadora da organização feminista anarquista Mujeres Libres e diretora de assistência social no Ministério da Saúde.
- Criou 'liberatorios de prostitución' para oferecer apoio médico, psicológico e profissional a prostitutas, visando sua independência econômica.
- Defendeu a coeducação, o amor livre e a igualdade de gênero, criticando a dupla moral sexual e a monogamia ligada ao capitalismo.
- Exilou-se na França após a Guerra Civil, onde continuou seu apoio antifascista e eventualmente voltou a praticar medicina.
Nascida María de los Desamparados y del Pilar Poch y Gascón em 1902, Amparo Poch teve uma infância em Saragoça e uma vida pessoal marcada por um breve casamento e um relacionamento com o escritor Manuel Zambruno Barrera. Sua biografia é um testemunho de sua dedicação à medicina e ao ativismo social, especialmente nos turbulentos anos da Guerra Civil Espanhola.
Formação Acadêmica e Obstáculos
Inicialmente, Amparo Poch enfrentou a oposição paterna para estudar medicina, sendo forçada a lecionar na Escuela Normal Superior de Maestros de Saragoça (1917-1922), onde se destacou com um prêmio extraordinário em Ciências. Em 1922, seguiu sua verdadeira vocação, matriculando-se na Faculdade de Medicina de Saragoça. Durante seus estudos, denunciou o desprezo e a indiferença de homens e professores em relação às 'mulheres sábias'. Formou-se em 1929 com honras em todas as disciplinas, sendo uma das poucas mulheres em sua turma.
Contribuições na Medicina e Saúde Pública
Após sua formatura em 1929, Amparo Poch obteve o 'Prêmio de Grau Extraordinário'. Ela se filiou à Associação Médica de Saragoça, onde promoveu o saneamento e a saúde pública, com foco especial na saúde materno-infantil para reduzir a mortalidade. Em dezembro de 1931, publicou a 'Cartilla de Consejos a las Madres'. Em maio de 1934, mudou-se para Madrid, abrindo uma clínica médica para mulheres e crianças, acessível ao público. O sucesso de sua clínica, especialmente a Clínica Médica Puente de Vallecas, resultou na queda das taxas de mortalidade infantil em Madrid em 1936. Seu objetivo de estabelecer centros de saneamento e clínicas acessíveis tornou-se ainda mais crucial com o início da Guerra Civil, apesar de seu pacifismo e defesa da resistência antimonárquica e do anarquismo.
Fundação e Impacto das Mujeres Libres
Em 1934, Amparo Poch, Lucía Sánchez Saornil e Mercedes Comaposada fundaram a revista e organização Mujeres Libres, dedicada à libertação das mulheres trabalhadoras. A revista, escrita por e para mulheres (com exceção do ilustrador Baltasar Lobo), teve sua primeira edição em maio de 1936. O editorial expressava a missão de canalizar a ação social feminina, oferecendo uma nova perspectiva e impedindo a contaminação por 'erros masculinos' – conceitos de relação e convivência que a mulher nunca havia moldado. O objetivo era forjar o presente e o futuro, reconhecendo a mulher como uma reserva suprema da humanidade, capaz de transformar o mundo.
Atuação na Guerra Civil Espanhola
Durante a Guerra Civil, Amparo Poch utilizou sua experiência médica para estabelecer centros de saneamento e melhorar as condições hospitalares para os soldados. Apesar de seu pacifismo, engajou-se ativamente no movimento antifascista, participando do nono batalhão do Regimento Angel Pastaña em 1936 como médica da milícia. Em 26 de agosto de 1936, integrou a Junta de Proteção Órfã dos Defensores da República. Em Barcelona, dirigiu um programa de treinamento para equipes de resgate e tratamento de soldados, instruindo sobre asfixia, traumatismos, hemorragias e transfusões. Também coordenou colônias e escolas agrícolas para crianças refugiadas, onde desenvolveu seu plano pedagógico.
Exílio na França e Últimos Anos
Com a vitória fascista na Guerra Civil, Amparo Poch foi forçada ao exílio na França em 1939, atravessando a fronteira em fevereiro e permanecendo em Prats-de-Mollo-la-Preste até setembro. Em 11 de setembro de 1939, obteve um 'Laissez-passer' que a autorizava a residir na França, mas a proibia de trabalhar. Passou o resto de sua vida como refugiada, realizando pequenos trabalhos informais como pintura de cartões e lenços, bordado, confecção de bolsas e envelopes, e trabalho em uma chapelaria clandestina. Continuou seu apoio às forças antifascistas durante a Segunda Guerra Mundial e, eventualmente, conseguiu retornar à prática da medicina na França.
Amparo Poch expressou seus pensamentos em diversas publicações, incluindo poesia, ensaios, romances, panfletos, revistas e jornais. Suas obras, embora com propósito político, abordavam de forma pessoal e bela a experiência feminina na Espanha durante a Guerra Civil. Seu romance 'Amor' explorava o anarquismo e a não conformidade. Sua poesia vibrante e crua informava o público sobre a necessidade da igualdade de gênero, desafiando a visão de que questões sociais deveriam ser ignoradas em tempos de guerra.
Defesa do Feminismo e Igualdade
Poch era uma ferrenha defensora da igualdade de oportunidades e tratamento entre homens e mulheres. Ela argumentava que a maternidade não deveria ser um pretexto para limitar os direitos e aspirações femininas, pois após a gravidez, a mulher está plenamente capaz de agir. Criticava a ideia de que a mulher, por ser mãe, teria menos direitos, comparando-a à absurdidade de impor limites à intelectualidade masculina por serem pais. Amparo defendia a integração da mulher na sociedade, não sua dispensa, buscando a igualdade e rejeitando a inferioridade. Ela observava que a realidade econômica excluía a mulher das tarefas de produção e obras públicas, tornando-a dependente do homem em troca de serviços privados, inclusive sexuais, o que a levava a fortalecer esses laços.
Conceito de Amor Livre
Amparo Poch defendia a união de casais sem a necessidade de papéis ou documentos, e era a favor da separação ou divórcio quando o afeto cessasse. Ela atacava a dupla moralidade sexual baseada no casamento e na prostituição, promovendo a liberdade sexual feminina e o direito ao prazer. Poch defendia o amor livre, rejeitando o princípio da monogamia, que ela via como intrinsecamente ligado ao capitalismo e à propriedade privada. Para ela, 'Casal humano, propriedade privada, capitalismo' eram 'três pedras que se abraçam', e o reconhecimento social de todas as formas de união amorosa era a verdadeira saída revolucionária e libertadora do problema, desafiando as normas convencionais que eram vistas como leis imutáveis da natureza.
Compromisso com o Pacifismo
Após a vitória da Frente Popular em fevereiro de 1936, Amparo Poch foi presidente da Liga Hispânica contra a Guerra, a seção espanhola da War Resisters' International (WRI). A Liga, que incluía Fernando Oca del Valle (secretário) e José Brocca (Delegado ao Conselho do WRI), declarava categoricamente a rejeição à guerra e à violência. Para Poch, nenhuma guerra era nobre, justa ou boa, pois todas, mesmo as que pareciam ter motivos honestos, tinham um motivo real: o poder. Este poder se manifestava na conquista de territórios, governos ou na imposição de regras pelo grupo vencedor, mesmo quando se tratava de lutar por um ideal.
Defesa da Coeducação
Poch era uma forte defensora da coeducação em todos os níveis de ensino. Ela criticava a separação de crianças na escola, que se estendia a institutos nacionais, como um 'dano moral de consideração' que violava o direito fundamental da criança à coeducação. Para ela, a coeducação racionalmente direcionada era essencial, pois as crianças viviam juntas em casa, no cinema, na rua e na universidade, e a escola não deveria ser um espaço de segregação.
O legado de Amparo Poch y Gascón é celebrado em sua cidade natal, Saragoça, através de diversas homenagens que reconhecem sua contribuição para a medicina, o feminismo e o ativismo social. Essas iniciativas perpetuam a memória de uma mulher à frente de seu tempo.


