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Pentecostalismo brasileiro

O pentecostalismo brasileiro é um dos movimentos religiosos mais significativos e dinâmicos do cenário religioso do Brasil, caracterizando-se por sua rápida expansão, diversidade interna e impacto social. Originado no início do século XX, o pentecostalismo chegou ao Brasil influenciado por missões estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos, e rapidamente se adaptou ao contexto cultural e social brasileiro. Esse movimento religioso se distingue por sua ênfase em experiências espirituais, como o batismo no Espírito Santo, a glossolalia e a cura divina, práticas que atraíram milhões de fiéis em um país marcado por profundas desigualdades sociais e uma religiosidade popular vibrante.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/07/2026
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Contexto histórico

O pentecostalismo brasileiro é um movimento religioso que desempenhou um papel central na transformação do protestantismo no Brasil, tornando-se uma das expressões mais significativas do cristianismo no país. Sua história remonta ao início do século XX, quando missionários estrangeiros trouxeram ao Brasil as práticas e crenças pentecostais, que rapidamente se adaptaram ao contexto cultural e social brasileiro. Desde então, o pentecostalismo passou por diferentes fases de desenvolvimento, consolidando-se como uma força religiosa de grande impacto social, cultural e político.O movimento pentecostal tem suas raízes no movimento Holiness e no avivamento da Rua Azusa em Los Angeles nos Estados Unidos, liderado pelo pastor afro-americano William J. Seymour no início do século XX.

Primeira onda

É a denominação utilizada por parte da literatura sociológica e historiográfica para designar a fase inicial de implantação do pentecostalismo no Brasil, marcada principalmente pela formação da Congregação Cristã no Brasil, em 1910, e das Assembleias de Deus, em 1911. O conceito de “ondas” foi difundido nos estudos sobre religião para classificar diferentes momentos de expansão pentecostal, distinguindo o chamado pentecostalismo clássico das formas posteriores associadas à urbanização, ao uso intensivo dos meios de comunicação de massa e ao neopentecostalismo. Embora a periodização varie entre autores, a primeira onda é geralmente situada entre as décadas de 1910 e 1950, período no qual se consolidaram as bases doutrinárias, litúrgicas e organizacionais do pentecostalismo brasileiro.

Segunda onda

É a denominação empregada por parte da literatura sociológica e historiográfica para designar uma fase de expansão do pentecostalismo no Brasil, situada geralmente entre as décadas de 1950 e 1980, marcada pela urbanização das igrejas, pela ênfase na cura divina, pelo uso crescente dos meios de comunicação de massa e pelo surgimento de denominações como a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Igreja Pentecostal O Brasil para Cristo e a Igreja Pentecostal Deus é Amor. A expressão integra a chamada “teoria das ondas”, associada aos estudos de Paul Freston, que propôs uma periodização do pentecostalismo brasileiro em fases históricas distintas: uma primeira onda clássica, iniciada com a Congregação Cristã no Brasil e as Assembleias de Deus; uma segunda onda de transição, ligada à cura e à evangelização de massas; e uma terceira onda, geralmente identificada com o neopentecostalismo.

Terceira onda

É a denominação utilizada por parte da literatura sociológica e historiográfica para designar a fase de expansão do pentecostalismo brasileiro associada ao neopentecostalismo, iniciada a partir do final da década de 1970 e consolidada nas décadas seguintes. A expressão integra a chamada “teoria das ondas”, empregada para diferenciar momentos históricos do pentecostalismo no Brasil: a primeira onda, identificada com o pentecostalismo clássico da Congregação Cristã no Brasil e das Assembleias de Deus; a segunda onda, ligada ao pentecostalismo de cura divina; e a terceira onda, relacionada a igrejas que combinaram teologia da prosperidade, exorcismo, batalha espiritual, forte presença midiática e novas formas de organização religiosa.

Quarta onda?

Quarta onda do pentecostalismo no Brasil é uma hipótese analítica utilizada por alguns pesquisadores para descrever mudanças recentes no campo pentecostal e neopentecostal brasileiro, especialmente a partir do crescimento dos chamados “desigrejados”, da desinstitucionalização religiosa, da circulação de fiéis entre igrejas, do uso intensivo de internet e redes sociais e da flexibilização dos vínculos denominacionais. Diferentemente das três primeiras ondas, cuja periodização é mais difundida na literatura sobre o pentecostalismo no Brasil, a quarta onda não constitui consenso acadêmico consolidado, sendo mais adequadamente compreendida como uma proposta interpretativa em debate.

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Estatísticas e demografia

Estatísticas e demografia do pentecostalismo no Brasil designa o conjunto de dados censitários, pesquisas amostrais e estudos sociológicos sobre a presença, o crescimento, a distribuição territorial e o perfil social dos pentecostais no Brasil. O tema está ligado à transformação do campo religioso brasileiro desde o início do século XX, quando foram fundadas a Congregação Cristã no Brasil, em 1910, e as Assembleias de Deus, em 1911, até a consolidação de um campo evangélico numeroso, diversificado e socialmente visível nas décadas seguintes. A análise estatística do pentecostalismo exige distinguir os pentecostais dos demais evangélicos, pois o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística classifica os evangélicos em categorias como “evangélicos de missão”, “evangélicos pentecostais” e “evangélicos não determinados”, além de registrar respostas por denominação quando identificadas pelo entrevistado.

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Diferenças litúrgicas e disciplinares entre denominações

Diferenças litúrgicas e disciplinares entre denominações são variações observadas entre igrejas e movimentos ligados ao pentecostalismo brasileiro quanto a códigos de vestimenta, música, uso de hinos, palmas, instrumentos de percussão, doutrinas, práticas devocionais e modelos de santidade. Essas diferenças não formam um sistema único e fixo, pois o pentecostalismo no Brasil é composto por denominações surgidas em momentos históricos distintos, com formas próprias de governo eclesiástico, disciplina comunitária, liturgia, teologia e relação com a cultura urbana. A literatura sociológica costuma distinguir, com variações entre autores, uma primeira fase associada ao pentecostalismo clássico, uma segunda fase marcada pelas campanhas de cura divina e uma terceira fase relacionada ao neopentecostalismo, classificação que ajuda a compreender por que igrejas como a Congregação Cristã no Brasil, as Assembleias de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Igreja Pentecostal Deus é Amor e a Igreja Universal do Reino de Deus apresentam práticas distintas, embora compartilhem crenças pentecostais centrais.

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Sincretismo religioso no pentecostalismo

Sincretismo religioso no pentecostalismo no Brasil é uma categoria de análise usada em estudos de sociologia da religião, antropologia da religião e história das religiões para discutir as formas pelas quais igrejas, discursos e práticas ligados ao pentecostalismo e ao neopentecostalismo brasileiro se relacionaram com elementos da religiosidade popular, do catolicismo popular, das religiões afro-brasileiras, do espiritismo, de tradições de cura e de repertórios simbólicos presentes na cultura religiosa nacional. O uso do termo é debatido, pois “sincretismo” pode sugerir uma simples mistura de religiões, enquanto muitos pesquisadores preferem falar em apropriação, ressignificação, tradução cultural, circulação de símbolos, disputa religiosa ou reinterpretação demonológica de práticas e entidades de outros sistemas religiosos. No contexto pentecostal brasileiro, a discussão é especialmente sensível porque envolve simultaneamente contatos culturais, conflitos inter-religiosos, acusações de intolerância, estratégias de evangelização, práticas de cura e formas populares de compreender doença, sofrimento, possessão, prosperidade e libertação espiritual.

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Cultura pentecostal

Cultura pentecostal é o conjunto de práticas religiosas, formas de sociabilidade, expressões musicais, modelos arquitetônicos, eventos públicos, rituais comunitários e repertórios simbólicos associados ao pentecostalismo brasileiro. O fenômeno envolve igrejas surgidas em diferentes momentos históricos. A cultura pentecostal é marcada pela ênfase na experiência direta com o Espírito Santo, na oração, na cura divina, na glossolalia, no testemunho público, na música congregacional, no evangelismo, na conversão individual e na expectativa de intervenção divina em problemas cotidianos. O pentecostalismo brasileiro não forma uma cultura homogênea. A literatura especializada costuma dividir sua história em ondas: a primeira, ligada ao pentecostalismo clássico das primeiras décadas do século XX; a segunda, associada às campanhas de cura divina e ao uso do rádio; e a terceira, relacionada ao neopentecostalismo, à mídia, à teologia da prosperidade e à batalha espiritual. Essa diversidade histórica explica diferenças de linguagem, música, arquitetura, vestimenta, modelos de culto, relação com a política e formas de presença pública.

Eventos religiosos e vida comunitária

Os eventos religiosos constituem uma das bases da cultura pentecostal. O batismo nas águas é geralmente entendido como rito público de profissão de fé, realizado após a conversão e associado à entrada visível do fiel na comunidade cristã. Em muitas igrejas pentecostais, o batismo é feito por imersão, em rios, piscinas, praias ou tanques batismais instalados nos templos. O rito costuma ser acompanhado por cultos festivos, testemunhos de conversão, presença de familiares, cânticos e pregações sobre novo nascimento, arrependimento e compromisso com a igreja. A Santa Ceia é outro rito central. Nas igrejas pentecostais, ela é geralmente celebrada com pão e vinho ou suco de uva, em memória da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A celebração pode ocorrer mensalmente, em datas fixas ou em cultos especiais, dependendo da denominação. Em comunidades mais tradicionais, a Santa Ceia é acompanhada de forte ênfase em exame espiritual, reconciliação, reverência e disciplina comunitária. Em denominações neopentecostais, a ceia pode ser integrada a campanhas, reuniões de fé e cultos temáticos, preservando a referência bíblica, mas com linguagem litúrgica mais flexível.

Arquitetura e espaços de culto

A arquitetura pentecostal no Brasil expressa a diversidade do movimento. Nas primeiras décadas, muitas congregações funcionavam em casas, salões alugados, garagens, pequenos templos de bairro e espaços adaptados. Essa simplicidade refletia tanto a condição econômica de comunidades populares quanto a ênfase na experiência religiosa em vez da monumentalidade arquitetônica. Com o crescimento das denominações, os templos passaram a ocupar avenidas, antigos cinemas, galpões, prédios comerciais, auditórios e grandes terrenos urbanos. A Congregação Cristã no Brasil é frequentemente mencionada por manter padrões arquitetônicos reconhecíveis, com templos de fachada sóbria, interior organizado para culto congregacional, bancos alinhados, espaço para orquestra e separação funcional entre áreas do culto. Esse padrão reforça uma identidade institucional discreta, pouco dependente de mídia e de proselitismo público. Nas Assembleias de Deus, a arquitetura varia amplamente: pequenas congregações periféricas convivem com templos-sede de ministérios regionais, catedrais urbanas, espaços de convenções, escolas bíblicas, auditórios e complexos administrativos.

Eventos marcantes e presença pública

A cultura pentecostal brasileira também foi moldada por eventos de grande repercussão pública. Um dos episódios mais conhecidos foi o chamado chute na santa, ocorrido em 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa transmitido pela Rede Record. O episódio provocou forte reação de católicos, repercutiu na imprensa nacional e tornou-se um marco dos debates sobre intolerância religiosa, disputa midiática e limites da crítica evangélica ao catolicismo popular. Outro episódio de grande repercussão foi o desabamento do teto da sede da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, no bairro do Cambuci, em São Paulo, em 18 de janeiro de 2009. O acidente deixou mortos e feridos, mobilizou equipes de resgate e gerou debates sobre segurança em templos, responsabilidade institucional e fiscalização de espaços religiosos de grande circulação. O caso teve impacto simbólico porque a Renascer em Cristo havia se destacado na cultura gospel, na organização da Marcha para Jesus e na aproximação entre juventude, mídia, música e neopentecostalismo.

Cultura digital e novas formas de pertencimento

Nas primeiras décadas do século XXI, a cultura pentecostal passou a ser fortemente influenciada pela internet e pelas redes sociais. Cultos transmitidos ao vivo, pregações em vídeo, podcasts, aplicativos de oração, grupos de mensagens, canais de música gospel, perfis devocionais e influenciadores evangélicos ampliaram a circulação de conteúdos religiosos para além dos templos. Essa circulação digital intensificou a presença de pregadores, cantores, pastores, bispos, apóstolos, missionárias e ministérios independentes no cotidiano dos fiéis. A cultura digital também contribuiu para formas mais fluidas de pertencimento. Pessoas que frequentam uma igreja local podem consumir conteúdos de várias denominações, acompanhar artistas gospel de diferentes tradições, participar de campanhas on-line e seguir líderes religiosos sem vínculo institucional direto. Essa dinâmica reforça a circulação de uma cultura pentecostal difusa, na qual música, linguagem de vitória, testemunhos de cura, batalha espiritual, aconselhamento familiar e mensagens motivacionais circulam em redes digitais, mesmo fora de estruturas denominacionais tradicionais.

Moda gospel

A chamada moda gospel, também tratada como moda evangélica, moda cristã ou, em parte do mercado, moda modesta, tornou-se uma expressão importante da cultura evangélica e pentecostal brasileira. Ela se relaciona a códigos de modéstia, santidade e distinção religiosa presentes em muitas igrejas, mas também passou a constituir um segmento de consumo, influência digital e empreendedorismo feminino. Reportagem do Gshow observou que o interesse pela moda evangélica cresceu nos últimos anos, acompanhado pelo surgimento de marcas, lojas e influenciadoras especializadas; a influenciadora Renata Castanheira, do perfil Crentechic, foi citada como exemplo de produtora de conteúdo com mais de 500 mil seguidores em redes sociais. A mesma reportagem diferencia moda evangélica e moda modesta: enquanto a moda evangélica está vinculada a uma cultura religiosa que tradicionalmente valoriza saias, vestidos, mangas mais compridas e menor exposição do corpo, a moda modesta pode ser adotada também por pessoas sem filiação religiosa, por preferência estética, conforto, discrição ou estilo de vida. A renovação do segmento também foi destacada pelo UOL, segundo o qual roupas antes vistas como “caretas” passaram a incorporar cores, modelagens, tecidos e tendências, atendendo a mulheres evangélicas que buscam discrição sem abrir mão de estilo próprio e presença no trabalho, na família e na vida pública.

Relações com a cultura brasileira

A cultura pentecostal brasileira combina ruptura e adaptação. De um lado, muitas igrejas pregam conversão, abandono de práticas consideradas mundanas, rejeição ao álcool, disciplina sexual, modéstia e separação moral. De outro, o pentecostalismo incorporou linguagens musicais, formatos de mídia, estilos arquitetônicos, eventos de massa, comunicação visual e práticas de consumo presentes na sociedade brasileira contemporânea. Essa combinação explica por que igrejas pentecostais podem ser, ao mesmo tempo, conservadoras em moralidade e inovadoras em mídia, música, marketing e ocupação urbana. A presença pentecostal em periferias, presídios, áreas de vulnerabilidade social, redes familiares e comunidades urbanas tornou a cultura pentecostal um espaço de acolhimento, disciplina, reconstrução biográfica e produção de pertencimento para muitos fiéis. Para pesquisadores, a conversão pentecostal pode reorganizar hábitos, redes de amizade, vida familiar, consumo, lazer, sexualidade, trabalho e relação com o sofrimento.

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Música gospel

A música é uma das expressões mais reconhecíveis da cultura pentecostal brasileira. Desde as primeiras décadas do movimento, hinos congregacionais foram usados para ensinar doutrinas, narrar experiências de conversão, consolar fiéis, incentivar a evangelização e expressar esperança escatológica. O tema envolve tanto a música congregacional cantada nos cultos quanto a formação de um mercado gospel nacional, que passou a articular igrejas, gravadoras, rádios, televisão, eventos de massa, ministérios de louvor e artistas independentes. No campo pentecostal, a música é uma forma de oração, ensino doutrinário, evangelização, testemunho, expressão emocional e construção de identidade comunitária. Nas Assembleias de Deus, a Harpa Cristã tornou-se um dos hinários mais importantes do pentecostalismo brasileiro, com cânticos como “Chuvas de Graça”, “Alvo Mais que a Neve”, “Vem Cear”, “A Mensagem da Cruz” e “Porque Ele Vive”, frequentemente entoados em cultos, batismos, Santas Ceias e cerimônias especiais. Na Congregação Cristã no Brasil, o hinário Hinos de Louvores e Súplicas a Deus e o uso de orquestras contribuíram para formar uma cultura musical própria, mais padronizada e menos aberta à indústria fonográfica gospel.

Introdução de instrumentos de percussão

A introdução de instrumentos de percussão no louvor pentecostal foi parte de um processo mais amplo de incorporação da cultura musical brasileira ao culto evangélico. Em um país marcado por ritmos percussivos, como samba, frevo, maracatu, forró, axé music, pagode e expressões afro-brasileiras, a percussão carregava forte presença cultural, mas também enfrentava suspeitas em igrejas que identificavam santidade com afastamento dos sons populares. Em muitas comunidades pentecostais conservadoras, a bateria e os instrumentos de percussão foram inicialmente tratados como símbolos de mundanismo ou de irreverência litúrgica. O preconceito contra a percussão também se relacionava a disputas sobre corpo e emoção. Palmas, dança, marcação rítmica, balanço corporal e expressões de alegria coletiva podiam ser vistas por setores tradicionais como excesso emocional ou teatralização do culto. No entanto, o próprio pentecostalismo sempre valorizou a experiência corporal da fé, como lágrimas, mãos levantadas, orações em voz alta, glossolalia, imposição de mãos e manifestações de alegria ou quebrantamento. A aceitação gradual da percussão mostrou, portanto, uma tensão entre a experiência pentecostal do corpo e os códigos morais herdados de modelos de santidade mais restritivos.

Década de 1970

Na década de 1970, a música pentecostal brasileira ainda era fortemente marcada pelos hinários tradicionais, especialmente a Harpa Cristã, o Cantor Cristão e os repertórios próprios de cada denominação. Em muitas igrejas pentecostais, sobretudo nas Assembleias de Deus, na Congregação Cristã no Brasil e em denominações de disciplina mais rígida, havia resistência ao uso de instrumentos identificados com a música popular, com o entretenimento secular ou com estilos considerados “mundanos”. Instrumentos como bateria, contrabaixo elétrico, guitarra elétrica e instrumentos de percussão podiam causar estranhamento porque rompiam com uma estética de culto associada à sobriedade, à reverência e à separação entre igreja e mundo.

Década de 1980

A década de 1980 foi decisiva para a formação do louvor congregacional moderno no Brasil. Nesse período, Adhemar de Campos tornou-se uma das figuras centrais da renovação musical evangélica, especialmente por sua atuação na Comunidade da Graça, em São Paulo, por suas composições, traduções, gravações ao vivo, seminários de louvor e influência sobre músicos de diferentes denominações. Em linguagem comum no meio evangélico, Adhemar é frequentemente lembrado como um dos pioneiros, ou mesmo como uma espécie de “pai” do louvor congregacional contemporâneo brasileiro, embora essa caracterização deva ser entendida como reconhecimento de sua influência e não como categoria acadêmica consensual.

Década de 1990

A década de 1990 consolidou a cultura gospel brasileira e transformou profundamente a música pentecostal. Nesse período, a palavra “gospel” passou a designar não apenas um estilo musical, mas um circuito cultural evangélico formado por gravadoras, rádios, programas de televisão, lojas, revistas, eventos, bandas, cantores, produtores e grandes igrejas urbanas. A Igreja Apostólica Renascer em Cristo teve papel importante nesse processo, especialmente por meio da organização de eventos, da promoção da Marcha para Jesus, da mídia gospel e do grupo Renascer Praise. Nas Assembleias de Deus, a década de 1990 representou uma transição musical significativa. A hinologia tradicional continuou sendo importante, mas passou a conviver com o chamado pop pentecostal, com arranjos mais elaborados, bases de bateria, guitarras, teclados, cordas, vocais de apoio e produção fonográfica profissional. Essa mudança dialogava com a necessidade de alcançar jovens, competir com a música secular e acompanhar a expansão do mercado evangélico.

Compositores, canções, bandas e intérpretes

A definição de “principais” compositores, canções, bandas e intérpretes da música pentecostal depende do critério adotado: influência litúrgica, vendas, circulação denominacional, impacto histórico, presença em cultos, relevância artística ou participação no mercado gospel. Em termos históricos, Adhemar de Campos ocupa posição de destaque por sua contribuição ao louvor congregacional moderno, por suas composições cantadas em múltiplas denominações e por sua atuação como formador de ministros de louvor. Seu impacto não se limita a canções isoladas, pois envolve um modelo de ministério musical, gravação ao vivo, ensino sobre adoração e uso de banda no culto.

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Administração, poder e sucessão

Designa o conjunto de formas de governo eclesiástico, sucessão de lideranças, controle patrimonial, autoridade carismática, estruturas familiares, estatutos jurídicos, conselhos, convenções e disputas internas presentes em igrejas pentecostais, neopentecostais e carismáticas brasileiras. O tema envolve desde denominações históricas, como a Congregação Cristã no Brasil e as Assembleias de Deus, até igrejas fundadas por líderes de grande visibilidade, como a Igreja Pentecostal Deus é Amor, a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, a Comunidade Cristã Paz e Vida e a Igreja Batista da Lagoinha. A questão central é que não existe um único modelo de administração pentecostal no país: algumas igrejas realizam eleições formais, outras funcionam por indicação pastoral, outras combinam estatuto associativo com controle familiar, e outras se estruturam em redes episcopais, apostólicas ou empresariais nas quais a autoridade do fundador continua decisiva mesmo após sua morte.

Poder da mídia e da política

A mídia alterou profundamente a administração do poder pentecostal. Pastores e fundadores que controlam programas de rádio, televisão, canais no YouTube, redes sociais e editoras tornam-se menos dependentes da estrutura local do templo, pois sua autoridade alcança fiéis distantes e simpatizantes que não participam diretamente de assembleias internas. Esse poder midiático pode reforçar a centralização, pois a imagem pública do fundador ou do sucessor passa a representar a igreja inteira. Em contextos de crise, redes sociais também permitem que dissidentes, ex-fiéis e membros da família fundadora divulguem críticas, produzindo disputas públicas antes restritas aos bastidores.

Caso Deus é Amor

A Igreja Pentecostal Deus é Amor é um dos casos mais expressivos de sucessão familiar e disputa pelo poder no pentecostalismo brasileiro. A denominação foi fundada em 1962 por David Martins Miranda, que construiu uma igreja de forte disciplina moral, grande presença radiofônica e ênfase em cura divina, profecias e libertação espiritual. Segundo reportagem do G1, David Miranda morreu em fevereiro de 2015, aos 79 anos, e era casado com Ereni Miranda, com quem teve quatro filhos: David, Débora, Leia e Daniel.Após a morte de David Miranda, o comando da Deus é Amor passou para sua esposa, Ereni Miranda, o que ilustra um modelo de continuidade familiar associado à figura do fundador. A BBC News Brasil noticiou, em 2024, que a matriarca, filhos, netos e genros estavam envolvidos em uma disputa envolvendo o controle da igreja, sua doutrina e o patrimônio deixado pelo fundador. A reportagem informou que o valor dos bens partilháveis de David Miranda foi estimado em inventário, em 2015, em R$ 86,3 milhões, incluindo agência de turismo, emissoras de rádio, imóveis, salas comerciais, carros e aplicações financeiras.

Caso Bola de Neve

A Igreja Bola de Neve acrescenta outro exemplo recente de como a morte repentina de um fundador pode desencadear disputas sucessórias, administrativas e judiciais em igrejas carismáticas contemporâneas. A denominação foi fundada por Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, conhecido como apóstolo Rina, e tornou-se conhecida por uma identidade visual voltada ao público jovem, pela associação com a cultura do surfe e pelo uso de uma prancha como púlpito. Segundo reportagens publicadas após sua morte, a Bola de Neve possuía cerca de 560 unidades em 34 países, o que indica a passagem de um ministério fortemente identificado com a figura do fundador para uma rede religiosa transnacional. Rina morreu em 17 de novembro de 2024, aos 52 anos, após um acidente de moto na Rodovia Dom Pedro I, em Campinas, quando retornava de um culto com integrantes do motoclube Pregadores do Asfalto. Meses antes, ele havia sido afastado de suas funções na igreja após denúncias de violência doméstica feitas por sua esposa, Denise Seixas; a Justiça concedeu medida protetiva em favor dela, e Rina negava as acusações. Após sua morte, a sucessão tornou-se objeto de conflito entre Denise Seixas e integrantes da cúpula administrativa da instituição: Denise sustentou que permanecia como vice-presidente e que, conforme sua interpretação do estatuto social, deveria assumir a presidência, enquanto o conselho administrativo afirmou que ela havia renunciado ao cargo em acordo de divórcio. Segundo o Metrópoles, decisões judiciais de primeira e segunda instâncias reconheceram que a renúncia atribuída a Denise havia perdido validade porque o acordo de separação não fora homologado, embora a igreja tenha contestado essa interpretação e declarado que a decisão não a reconhecia como presidente. A disputa também envolveu acusações de Denise sobre supostas irregularidades financeiras e empresas prestadoras de serviço ligadas a membros do conselho; a administração da Bola de Neve negou as acusações, afirmou que suas contas e contratos eram auditados e declarou estar à disposição das autoridades. O caso evidencia como, em igrejas fundadas em torno de lideranças carismáticas e marcas religiosas fortes, a sucessão pode combinar estatuto, família, diretoria, patrimônio, reputação pública, acusações judiciais e disputa pela legitimidade espiritual do legado fundador.

Caso Lagoinha

A Igreja Batista da Lagoinha representa um caso distinto, pois sua trajetória combina tradição batista, liderança familiar, cultura carismática, música gospel, expansão em rede e disputas relacionadas ao uso institucional da marca “Lagoinha”. A igreja tornou-se nacionalmente conhecida pela longa liderança de Márcio Valadão, pela projeção do ministério Diante do Trono e pela atuação pública de seus filhos, entre eles Ana Paula Valadão e André Valadão. Diferentemente de denominações rigidamente centralizadas, a Lagoinha expandiu-se por meio de unidades, campus e igrejas associadas, o que tornou mais complexa a distinção entre autonomia local, identidade denominacional, uso da marca, autoridade pastoral e controle administrativo. As controvérsias envolvendo lideranças associadas à marca Lagoinha, incluindo disputas públicas e judiciais entre pastores de grande visibilidade, como André Valadão, Felippe Valadão e André Fernandes, evidenciam que sucessões em megachurches e redes multissítio não se limitam à escolha de um pastor-presidente, mas envolvem propriedade simbólica, marca religiosa, redes de templos, público digital, contratos, autonomia de filiais e legitimidade espiritual. Esse tipo de conflito mostra que, em igrejas de grande porte, a sucessão pode começar antes da morte ou afastamento definitivo do patriarca, pois a transição de poder ocorre em camadas: família fundadora, conselho institucional, igrejas locais, ministérios autônomos, redes de mídia, contratos e reconhecimento público dos fiéis.

Caso Flordelis

O Ministério Flordelis, posteriormente associado ao nome Comunidade Evangélica Cidade do Fogo, tornou-se um caso extremo de colapso institucional após a morte de uma liderança central. A igreja era ligada à cantora, pastora e ex-deputada federal Flordelis dos Santos de Souza e ao pastor Anderson do Carmo, assassinado em 16 de junho de 2019, em Niterói. Segundo o G1, a investigação concluiu que Anderson foi morto por questões financeiras e de poder familiar, pois controlava o dinheiro do Ministério Flordelis. A crise sucessória e administrativa ocorreu em meio às investigações criminais, prisões de familiares e acusações mútuas, produzindo debandada de fiéis, fechamento de filiais e perda de capacidade financeira da instituição. Antes do assassinato, o ministério possuía a sede no Mutondo, em São Gonçalo, e cinco filiais; em setembro de 2020, reportagem do Extra informou que apenas a sede e uma filial em Piratininga continuavam em funcionamento, enquanto as demais haviam fechado e a obra de uma nova matriz havia sido paralisada. O mesmo veículo noticiou que o nome de Flordelis foi gradualmente retirado da igreja, que passou a ser chamada de Comunidade Evangélica Cidade do Fogo, em tentativa de reduzir a perda de fiéis. O caso ilustra como a morte violenta de um dirigente que acumulava funções financeiras e administrativas pode desorganizar rapidamente uma igreja personalista, especialmente quando a crise sucessória se combina com acusações criminais, disputas familiares, dívidas, perda de confiança pública e ausência de mecanismos estáveis de governança.

Caso IURD Angola

A Igreja Universal do Reino de Deus oferece um exemplo internacional de disputa de poder e patrimônio sem que a sucessão do fundador tenha ocorrido. Embora Edir Macedo permaneça como principal referência simbólica da denominação, a crise da Universal em Angola revelou tensões entre liderança brasileira, pastores locais, controle de templos, patrimônio, acusações de racismo, denúncias de evasão de divisas e intervenção estatal. A crise angolana mostrou que igrejas neopentecostais transnacionais podem enfrentar conflitos entre centro e periferia institucional: de um lado, a cúpula brasileira busca preservar unidade doutrinária, administrativa e patrimonial; de outro, lideranças nacionais podem reivindicar autonomia local, nacionalização da direção e controle dos bens no país onde atuam. O caso é relevante para a análise da administração pentecostal porque desloca a pergunta sucessória do âmbito familiar para o âmbito geopolítico e patrimonial: em igrejas internacionalizadas, o controle do poder não depende apenas de quem sucederá o fundador no país de origem, mas também de como a denominação administra filiais, lideranças nativas, legislação estrangeira, remessas financeiras, propriedade de templos e legitimidade perante governos nacionais.

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Política e pentecostalismo

Política e pentecostalismo no Brasil refere-se às relações históricas, sociais, eleitorais e institucionais entre igrejas pentecostais, lideranças religiosas, fiéis evangélicos, partidos, mandatos parlamentares, movimentos sociais e governos no Brasil. O tema ganhou relevância a partir da segunda metade do século XX, quando o crescimento demográfico dos evangélicos, impulsionado sobretudo por denominações pentecostais, passou a produzir efeitos na representação política, na formação de candidaturas religiosas, na atuação da chamada bancada evangélica e nas disputas públicas sobre laicidade, família, costumes, direitos civis, comunicação, educação e moralidade. A participação pentecostal na política brasileira não é homogênea, pois inclui denominações centralizadas e descentralizadas, pastores midiáticos, parlamentares conservadores, lideranças de esquerda, movimentos progressistas, fiéis sem militância partidária e igrejas que mantêm distância formal da disputa eleitoral.

Bancada da Bíblia

A chamada “bancada da Bíblia” é uma expressão jornalística usada para designar o segmento religioso conservador do Congresso Nacional, frequentemente associado à Frente Parlamentar Evangélica e à coalizão informal conhecida como “bancada BBB”, composta por setores ligados à Bíblia, à bala e ao boi. A expressão é imprecisa, pois a bancada evangélica inclui pentecostais, neopentecostais, batistas, presbiterianos, metodistas, parlamentares de igrejas independentes e políticos que se aproximam do eleitorado evangélico sem necessariamente possuírem trajetória pastoral. Ainda assim, ela se tornou uma categoria pública importante para discutir votações sobre aborto, direitos LGBT, educação sexual, drogas, família, liberdade religiosa, comunicação e políticas de segurança.

Bolsonarismo

A relação entre pentecostalismo e bolsonarismo tornou-se um dos temas centrais da política brasileira contemporânea. A eleição presidencial de 2018 chamou a atenção de analistas pela aproximação de Jair Bolsonaro com lideranças evangélicas, pastores midiáticos e setores conservadores do eleitorado pentecostal. Pesquisas sobre o período indicam que candidatos evangélicos, sobretudo pentecostais, encontraram no discurso conservador e liberal de Bolsonaro elementos de identificação, especialmente em pautas de família, costumes, segurança pública, antipetismo, anticomunismo, defesa de Israel, crítica à esquerda e oposição a agendas feministas e LGBT.

“Evangelistão”

A noção de “evangelistão” surgiu no debate público brasileiro como expressão crítica ou irônica para designar o temor de uma captura confessional do Estado por setores evangélicos conservadores. O termo não é uma categoria acadêmica consolidada e pode carregar tom pejorativo, mas passou a ser usado em discussões sobre laicidade, moral religiosa, legislação sobre costumes, presença de pastores na política e influência de igrejas sobre políticas públicas. Em sentido crítico, a palavra expressa receios de que uma maioria religiosa organizada possa restringir direitos de minorias, impor valores confessionais por meio da lei e enfraquecer a neutralidade religiosa do Estado. Em sentido analítico, porém, pesquisadores tendem a evitar o termo, preferindo examinar empiricamente a atuação de bancadas, partidos, igrejas e lideranças sem presumir que todos os evangélicos defendam um projeto teocrático.

Evangélicos de esquerda

A política pentecostal não se limita ao campo conservador. Existem pentecostais e evangélicos de esquerda, progressistas, negros, periféricos, feministas, ambientalistas, sindicalistas e defensores de direitos humanos, embora esses grupos tenham menor visibilidade institucional em comparação com lideranças conservadoras de grande mídia. Benedita da Silva é um exemplo histórico de política evangélica de esquerda, articulando identidade religiosa, combate ao racismo, defesa de políticas sociais e participação petista. Marina Silva, embora nem sempre classificada como esquerda em sentido partidário estrito, também mostra que a identidade pentecostal pode conviver com ambientalismo, defesa de direitos sociais e crítica à polarização política.

Mídias e redes sociais

A atuação pentecostal na política também se relaciona à mídia. Desde a expansão do rádio pentecostal na segunda metade do século XX e, depois, da televisão e das redes digitais, lideranças evangélicas passaram a falar diretamente com públicos amplos, mobilizando fiéis em torno de candidaturas, campanhas morais e disputas culturais. O bolsonarismo se beneficiou dessa infraestrutura comunicacional, mas não a criou; ele se conectou a redes evangélicas já existentes de televisão, rádio, cultos, eventos, WhatsApp e influência pastoral. As controvérsias sobre pentecostalismo e política envolvem críticas de diferentes lados. Críticos progressistas acusam setores pentecostais e neopentecostais de promoverem intolerância religiosa, ataques a religiões afro-brasileiras, oposição a direitos sexuais e reprodutivos, clientelismo, moralismo seletivo e uso eleitoral da fé. Defensores da participação evangélica argumentam que pentecostais, como outros grupos sociais, têm direito à representação política, especialmente após décadas de marginalização cultural e religiosa. A questão democrática central, segundo essa perspectiva, não é impedir a entrada de religiosos na política, mas exigir que sua atuação respeite pluralismo, direitos fundamentais e regras republicanas.

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Conversão de celebridades ao pentecostalismo

A conversão de celebridades ao pentecostalismo e ao neopentecostalismo tornou-se um elemento recorrente da cultura evangélica brasileira, especialmente a partir da expansão da música gospel, dos programas religiosos de televisão, das redes sociais e dos testemunhos públicos de transformação de vida. No universo pentecostal, a trajetória de artistas, atletas e influenciadores convertidos costuma ser narrada como ruptura com o passado secular e adesão a uma nova identidade religiosa, marcada por abandono de antigos hábitos, participação em cultos, pregações, gravações musicais religiosas e, em alguns casos, exercício de liderança pastoral. Esse tipo de conversão possui forte valor simbólico, pois celebridades já conhecidas pelo público passam a funcionar como testemunhas midiáticas da fé, ampliando o alcance de igrejas, eventos e discursos religiosos para além dos frequentadores habituais dos templos.

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Controvérsias e polêmicas no pentecostalismo no Brasil

Controvérsias e polêmicas no pentecostalismo no Brasil referem-se a debates públicos, acadêmicos, jurídicos, políticos e midiáticos relacionados a igrejas, lideranças e movimentos associados ao pentecostalismo e ao neopentecostalismo brasileiros. Essas controvérsias envolvem temas como saúde mental, comunidades terapêuticas religiosas, pandemia de COVID-19, campanhas antivacina, financiamento público, atuação de pastores na política, bancada evangélica, relações com o bolsonarismo, mercantilização da fé, denúncias de abusos sexuais, conflitos com religiões afro-brasileiras, apoio ao sionismo cristão, ensino religioso em escolas públicas, criacionismo e presença de lideranças religiosas em órgãos de Estado. As controvérsias contemporâneas cresceram à medida que os pentecostais deixaram de ser uma minoria periférica e passaram a exercer influência social, cultural, econômica, midiática e política. Segundo análise publicada na Revista Cult, os pentecostais representavam cerca de 60% dos evangélicos brasileiros no Censo de 2010, tinham ampla presença territorial e ocupavam espaços relevantes na mídia e na política partidária. Essa visibilidade ampliou tanto a capacidade de mobilização das igrejas quanto a exposição pública de conflitos envolvendo dinheiro, poder, costumes, saúde, educação, sexualidade e direitos de minorias.

Saúde mental, psiquiatria e comunidades terapêuticas

Uma das controvérsias mais persistentes envolve a relação entre igrejas pentecostais, políticas de saúde mental e comunidades terapêuticas voltadas a pessoas com uso problemático de álcool e outras drogas. No Brasil, muitas comunidades terapêuticas são confessionais, mantidas por organizações religiosas ou associadas a igrejas evangélicas, católicas e espíritas. Estudos sobre essas instituições indicam que muitas adotam modelos baseados em abstinência, rotina disciplinar, oração, trabalho, evangelização e conversão religiosa, o que gera debate sobre sua compatibilidade com políticas públicas de saúde mental orientadas pela Reforma psiquiátrica no Brasil, pela redução de danos e pela atenção psicossocial territorial.

Pandemia de COVID-19, templos e vacinação

Durante a pandemia de COVID-19, setores pentecostais e neopentecostais estiveram no centro de controvérsias sobre abertura de templos, medidas de distanciamento social, uso de máscaras, vacinação e interpretação religiosa da crise sanitária. Algumas lideranças defenderam a manutenção de cultos presenciais, argumentando que igrejas prestavam serviço essencial de apoio espiritual, emocional e social. Por outro lado, autoridades sanitárias, pesquisadores e governos locais apontaram o risco de transmissão em ambientes fechados, com aglomeração, canto coletivo e circulação de fiéis. O Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2021, que estados e municípios poderiam restringir cultos presenciais durante a pandemia, desde que respeitados critérios gerais de proteção à saúde pública. A decisão acentuou o debate sobre liberdade religiosa, autoridade sanitária e limites da intervenção estatal em atividades religiosas. Para líderes críticos às restrições, o fechamento de templos indicava perseguição ou discriminação contra igrejas; para defensores das medidas sanitárias, tratava-se de uma resposta excepcional a uma emergência de saúde coletiva.

Política, bolsonarismo e bancada evangélica

A relação entre pentecostalismo e política tornou-se uma das principais fontes de controvérsia no Brasil contemporâneo. Desde a Assembleia Nacional Constituinte de 1987, parlamentares evangélicos passaram a se organizar em torno de pautas de liberdade religiosa, concessões de mídia, família, moralidade e defesa de interesses institucionais das igrejas. A chamada bancada evangélica, ou Frente Parlamentar Evangélica, reúne parlamentares de diferentes tradições protestantes, mas tem forte presença pentecostal e neopentecostal. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 intensificou a associação entre setores pentecostais e direita conservadora. Segundo análise do Politize!, com a eleição de Bolsonaro, o combate à chamada “ideologia de gênero” ganhou força, e Damares Alves, pastora ligada à Igreja do Evangelho Quadrangular, assumiu o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Lideranças como Silas Malafaia, Marco Feliciano, Edir Macedo, Valdemiro Santiago e outros pastores midiáticos foram frequentemente citadas em análises sobre a formação de uma coalizão religiosa conservadora em torno de Bolsonaro.

Pastores no Ministério da Educação

Durante o governo Bolsonaro, uma das controvérsias mais notórias envolvendo lideranças evangélicas foi o chamado caso dos “pastores no Ministério da Educação”. Em 2022, reportagens revelaram que os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, sem cargos formais no MEC, teriam atuado como intermediários entre prefeituras e o ministério para liberação de recursos públicos. O então ministro Milton Ribeiro, pastor presbiteriano, foi envolvido no episódio após divulgação de áudio no qual afirmava priorizar municípios indicados por pastores a pedido de Bolsonaro. O caso gerou acusações de tráfico de influência, clientelismo religioso e uso de redes pastorais para intermediar recursos públicos. Prefeitos relataram pedidos de propina, inclusive em dinheiro, ouro ou compra de Bíblias, segundo reportagens publicadas à época. O episódio tornou-se emblemático porque envolveu educação pública, governo federal, pastores sem cargo oficial e a suspeita de que acesso religioso ao poder poderia substituir critérios técnicos de política educacional.

Banco Master, Lagoinha, Clava Forte Bank e políticos evangélicos

Outra controvérsia recente envolve a relação entre igrejas, mercado financeiro, celebridades religiosas e políticos evangélicos. Reportagens publicadas na imprensa brasileira passaram a tratar de conexões entre o Banco Master, lideranças próximas ao universo evangélico, eventos religiosos, patrocínios, investimentos e figuras políticas associadas ao campo conservador. O tema ganhou repercussão por envolver a Igreja Batista da Lagoinha, lideranças da família Valadão, redes de influência evangélica e o debate público sobre transparência nas relações entre igrejas, bancos, influenciadores religiosos e agentes políticos. Nesse contexto, também passou a ser mencionada a Clava Forte Bank S/A, apresentada em reportagens como uma fintech ou banco digital associado ao ambiente institucional da Lagoinha e à liderança de André Valadão. Segundo a imprensa, a iniciativa foi anunciada como uma instituição financeira voltada a atender igrejas, fiéis e investidores cristãos, inserindo-se em um movimento mais amplo de aproximação entre organizações religiosas, plataformas digitais e serviços financeiros. Parte das apurações jornalísticas indicou que a Clava Forte teria utilizado estruturas de terceiros para sua operação, como instituições de pagamento e empresas de crédito, enquanto eventuais vínculos operacionais com o Banco Master foram tratados como objeto de suspeita, requerimentos parlamentares e investigações, sem conclusão definitiva no momento das publicações.

Mercantilização da fé e igrejas para ricos

A mercantilização da fé é uma das críticas mais frequentes ao neopentecostalismo brasileiro. Pesquisadores como Leonildo Silveira Campos e Ricardo Mariano analisaram igrejas neopentecostais como organizações que combinam templo, mídia, mercado, marketing religioso, campanhas de arrecadação, oferta de bens simbólicos e promessa de solução prática para problemas cotidianos. A teologia da prosperidade é central nessa crítica, pois associa fé, dízimos, ofertas, campanhas e obediência espiritual à saúde, sucesso, prosperidade financeira e superação de crises. A expansão do mercado gospel reforçou esse processo. Artistas, conferências, produtos devocionais, cursos, livros, roupas, viagens a Israel, retiros, shows e serviços religiosos passaram a circular em um mercado voltado a consumidores evangélicos. Críticos afirmam que parte desse mercado transforma fé em consumo, liderança religiosa em celebridade e culto em espetáculo. Defensores argumentam que a profissionalização da música, da comunicação e dos eventos religiosos é consequência normal do crescimento evangélico e não significa, por si só, exploração dos fiéis.

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