American Life
American Life é o nono álbum de estúdio da artista musical americana Madonna. O seu lançamento ocorreu em 21 de abril de 2003, através das editoras discográficas Maverick e Warner Bros. A concepção do trabalho teve início após os ataques de 11 de setembro de 2001, quando a musicista começou a procurar por uma explicação apropriada para evento e para a consequente Guerra do Iraque. As gravações do álbum ocorreram entre 2001 e 2003 em estúdios nos Estados Unidos e no Reino Unido, com a produção de Madonna, Mirwais Ahmadzaï e Mike "Spike" Stent. Em termos musicais, American Life é um álbum musicalmente derivado dos gêneros folktronica, electroclash e eurotechno, fundindo-os com elementos do rock e da música acústica. Considerado um álbum conceitual, o material trata de temas como o sonho americano, o materialismo, rejeitando a reputação de garota materialista que a artista tinha desde os anos 1980, e o mundo glamoroso de Hollywood, com "Mother and Father" tratando de sua infância.
No começo da década de 1990, Madonna se concentrou em trabalhos com temáticas sexualmente provocantes, como o livro de imagens eróticas Sex, seu álbum inspirado no sadomasoquismo Erotica e no filme de terror erótico Body of Evidence, todos em 1992, os quais ela posteriormente deduziu ter feito devido à "muita fúria e raiva" dentro de si. Entretanto, no começo do novo milênio, a artista estava vivendo uma vida mais calma, introspectiva e saudável com seu marido Guy Ritchie e seus filhos Lourdes e Rocco. De acordo com o biógrafo J. Randy Taraborrelli, a presença de Ritchie na vida de Madonna causou um efeito calmante nela, tornando-a mais madura e paciente. Concentrada em sua carreira musical, a musicista focou-se em sua turnê Drowned World Tour no ano de 2001. Em 11 de setembro daquele ano, membros do grupo terrorista Al Qaeda sequestraram dois aviões comerciais e os lançaram deliberadamente contra o World Trade Center, resultando na morte de cerca de 3 mil pessoas. O trágico evento causou um efeito profundo na sociedade americana; o clima cultural tornou-se sombrio, a bolsa de valores sofreu grande recessão financeira e habitantes ficaram com trauma e paranoia. Pessoas, incluindo a própria Madonna, começaram a levantar questões sobre a cultura dos Estados Unidos e o sonho americano, que havia sido um ideal duradouro para muitos. Quando iniciou a concepção de seu nono álbum, a artista queria respostas para suas perguntas e uma explicação apropriada para os ataques de 11 de setembro de 2001, bem como para a consequente Guerra do Iraque. Ela acreditava que os meses posteriores à guerra levaria a um ambiente politicamente carregado em todo o país, e queria expressar isso no álbum.
Quando começou a compor faixas para American Life, Madonna inspirou-se por diferentes situações, como quando ela tinha uma ideia durante suas aulas de violão ou quando Ahmadzaï lhe enviava uma demo sem a progressão harmônica básica. As canções do disco e suas letras foram desenvolvidas dessa maneira. Explicando o processo de composição, a intérprete disse à revista Q: "A música tem que sacudir meu cérebro em termos de letras. Às vezes, eu escrevo versos livres. Eu tenho um diário e anoto ideias que tenho a partir de jornais e livros". Madonna também lembrou do pessimismo do produtor em relação à sociedade ao redor deles, e as longas discussões que tinham à noite, o que acabou refletindo nas composições, como a ansiedade que eles sentiam. O disco foi considerado um "álbum conceitual" com temas baseados na situação política dos Estados Unidos, com a musicista explicando que sentia que o país "mudou ao longo dos anos e que muitos dos nossos valores parecem ter uma orientação material e tão superficial. E todos parecem estar obcecados com a fama a todo custo, não importava se para isso tiver que — por exemplo — vender a alma ao Diabo, se for necessário". Ela lembrou que foi além de tais ensaios e essas reflexões foram colocadas nas três primeiras canções do disco: a faixa-título, "Hollywood" e "I'm So Stupid". O editor da MTV News, John Norris descreveu-as como uma "trilogia" e uma indicação da reavaliação de Madonna em relação à sua vida, enquanto discute coisas que ela queria deixar no passado. Madonna concordou em partes, afirmando que as obras são extensões umas das outras e retratam seu desejo de dar importância a coisas menos dignas de dinheiro, e como ela poderia sair dessa "ilusão". A artista discutiu com a MTV os temas materialistas do álbum e seus conflitos pessoais que resultaram na composição, dizendo:
Quando as pessoas falam sobre dance music, elas falam sobre funk, mas isso não é o fim para mim. Trata-se do funk e do electro, como Kraftwerk, especialmente Man Manchine, [e] o trabalho do final dos anos 1970. A mistura desse som europeu e o som negro americano criou o electro, o techno e o rap. Eu tento fazer a conexão entre o som europeu o som negro do soul. Eu não quero me restringir. —Ahmadzaï discutindo suas influências para a produção de American Life, citando os loops e o trabalho da banda alemã de música eletrônica Kraftwerk. American Life foi totalmente produzido por Madonna e Mirwais Ahmadzaï — com o auxílio de Mike "Spike" Stent em duas faixas —, sendo a maior parte das canções compostas por ambos. Madonna e Ahmadzaï já haviam colaborado juntos no álbum antecessor à American Life, Music (2000). As sessões de gravação começaram no final de 2001, mas foram suspensas porque a artista estava filmando Swept Away em Malta e participando da peça Up for Grabs. Ela retomou as sessões, nos estúdios Olympic Studios e Sarm West Studios em 2002, e finalizou em Londres e Los Angeles no começo de 2003. Para a instrumentação contida em algumas músicas, Ahmadzaï tocou as guitarras e Stuart Price tocou piano. Tom Hannen e Simon Changer trabalharam na assistência de engenharia em todas as sessões de gravação.
'Mother and Father' é uma maneira de eu me libertar da dor causada pela morte da minha mãe, mas sem me colocar em uma medalha para encontrar meu caminho na vida sem mesmo pedir compaixão porque eu passei por um momento difícil. Não usando a canção como uma desculpa, como: 'sou rebelde porque sofri muito quando criança'. Todas essas desculpas são um desperdício pois, no final, você tem de ser responsável por seus próprios atos. —Madonna discutindo "Mother and Father". Musicalmente, American Life consiste de faixas predominadas pelos gênero folk, fundindo elementos da música eletrônica. Também possui influências da música acústica em diversos números. Sal Cinquemani, da revista Slant, notou a influência do primeiro gênero citado, dizendo que "American Life é um disco folk na mais pura definição do termo — e isso é refletido exatamente em seu título". Greg Kot, periodista do Chicago Tribune, adjetivou-o de um trabalho "electro-folk" com batidas eletrônicas e arrotos sintéticos. Chuck Arnold, da Billboard, descreveu a sonoridade do trabalho como "folktronica", enquanto Ben Ratliff, em sua crítica à Rolling Stone, definiu-o como um "eurotechno diluído". Jon Pareles, escrevendo para o The New York Times, caracterizou o som do produto como uma "mistura de palhetas acústicas, baterias eletrônicas e linhas de sintetizadores agitados e vibrantes", acrescentando que "a guitarra sinaliza a sinceridade de uma cantora e compositora, enquanto todos os aparelhos adicionam a pegada retro da música synth-pop agora sendo revivida sob o nome de electroclash".
Em 2003, Madonna sugeriu estar em um estado de espírito revolucionário, levando a discussões jornalísticas de que outra reinvenção iria ocorrer em sua imagem. Ainda recuperando-se do fracasso comercial de Swept Away, ela mudou completamente sua imagem pública passando a usar trajes militares, com inspirações providas de fotos do líder guerrilheiro argentino Che Guevara. A dupla francesa de design M/M Paris, formada por Michael Amzalag e Mathias Augustyniak, responsabilizou-se pela capa de American Life. Eles são conhecidos por seus trabalhos com músicos, e a cantora contratou-os após discutir o conceito por seis minutos. A sessão fotográfica para o disco foi feita por Craig McDean em janeiro de 2003 em Los Angeles, Califórnia, e teriam custado 415 mil dólares. O fotógrafo já havia trabalhado com a vocalista para a capa de outubro de 2002 da Vanity Fair; esta sessão teve uma temática militar, com Madonna posando com figurinos de cor verde escura e preta, botas de combate e armas.
Imagem: Viewminder · BY-NC-ND · Openverse
Crítica profissional
Em geral, American Life recebeu críticas mistas de críticos especializados em música contemporânea. O portal Metacritic, com base em dezessete resenhas recolhidas, concedeu ao disco uma média de sessenta pontos de uma escala que vai até cem, indicando "avaliações mistas ou positivas". Em matéria para a Billboard, Michael Paoletta observou as diferenças líricas de álbuns anteriores de Madonna, como Ray of Light, e resenhou positivamente American Life, dizendo que ele "depende menos da introspecção espiritual e mais do confronto do tipo mulher 'diante do espelho'". Com uma nota B-, Ken Tucker, da revista Entertainment Weekly, afirmou que em seu melhor, "o álbum oferece música contundente, questionadora e decisiva em um momento caótico, mas o seu ponto mais fraco, é [Madonna] soando como uma garota cuja felicidade com o marido e os filhos cresceu, bem como sua capacidade de contratar pessoas para ajudá-la". Dimitri Ebrlich, autor da Vibe, concedeu quatro de cinco estrelas e mencionou que a artista "se mantém firme" no álbum, acrescentando: "Esta pode ser a primeira vez que Madonna não se esforçou para explorar novos territórios, mas pelo menos ela escolheu um bom lugar para se acomodar". Sal Cinquemani, da revista Slant, atribuiu ao disco três estrelas e meia de cinco permitidas, afirmando que American Life não é uma "obra-prima" em comparação com seu álbum de estúdio de 1992, Erotica. Ele ainda o considerou "auto-indulgente, equivocado, difícil de ouvir, pateta e sem humor", mas também "consistente, intransigente e sem remorso", terminando com a dedução de que American Life foi a última vez que Madonna fez música sem o objetivo principal de atingir o sucesso. Em uma análise anterior, Cinquemani concluiu que depois de passar anos entre os subgêneros e finalmente encontrar seu nicho na música eletrônica, ela agora se mostrava uma cantora de folk-rock em ascensão, e a única coisa que lhe restava fazer era criar um álbum inteiramente composto por música rock.
Prêmios e indicações
Em 2004, American Life foi indicado a 46.ª cerimônia dos Grammy Awards nas categorias Melhor Videoclipe de Formato Curto e Melhor Gravação Dance, ambas para "Die Another Day". A faixa também foi nomeada na categoria Melhor Vídeo de um Filme nos MTV Video Music Awards de 2003. Nos Hungarian Music Awards de 2004 e 2005, o projeto foi indicado duas vezes nas categorias de Álbum Internacional Pop do Ano, mas não conquistou nenhuma condecoração. Também foi nomeado a uma categoria similar nos NRJ Music Awards de 2004.
Após o lançamento do álbum, Madonna iniciou uma pequena turnê, chamada American Life Promo Tour. Uma destas apresentações, feita nos estúdios do extinto programa televisivo Total Request Live em Nova Iorque, foi transmitida na MTV sob o nome Madonna on Stage & On the Record. No show, apresentado por Carson Daly, a cantora apresentou sucessos antigos e faixas do álbum e respondeu perguntas da plateia. A artista também se apresentou na loja HMV em Oxford, em um espetáculo restrito para 500 pessoas. Outra apresentação foi feita na Tower's Fourth Street em Manhattan para cerca de 400 pessoas. Foi construído um palco que contava com longas cortinas escuras e alto-falantes. De acordo com a Billboard, cerca de mil fãs puderam ver o concerto de perto. Em agosto de 2003, Madonna abriu a vigésima cerimônia dos MTV Video Music Awards ao lado de Britney Spears, Christina Aguilera e Missy Elliott. As duas primeiras iniciaram a performance com uma regravação de "Like a Virigin" (1984), de Madonna e, posteriormente, a intérprete surgiu em um bolo de casamento gigante caracterizada de noivo e beijou Spears e Aguilera na boca. Por último, Elliott surgiu em uma capela e cantou versos de "Work It". A apresentação gerou fortes reações da mídia e foi descrita pela MTV, organizadora do evento, como o melhor número de abertura da premiação. No mesmo ano, Madonna havia planejado em lançar uma caixa comemorativa aos seus 20 anos de carreira, bem como 20 anos do lançamento de seu primeiro álbum. Entretanto, isto foi cancelado e a artista lançou um álbum de remixes, intitulado Remixed & Revisited. A compilação apresenta quatro faixas de American Life remixadas, a apresentação dos Prêmios MTV Video Music de 2003 em áudio, uma mistura de "Hollywood" e "Into the Groove", intitulada "Into the Hollywood Groove", que conta com a participação de Elliott, e ainda uma faixa inédita, "Your Honesty", descartada do sexto álbum de estúdio de Madonna, Bedtime Stories (1994). Ainda no mesmo ano, a artista colaborou com o fotógrafo Steven Klein em um projeto de instalação de arte, chamado X-STaTIC PRo=CeSS. A instalação retratou Madonna em diferentes locais e aspectos, como a profeta de ioga, a rainha do surto e uma dançarina de pole dance. Foi um sucesso mundial, o que levou a ter exposições em Nova Iorque, Londres, Paris, Düssseldorf, Berlim e Florença.
Re-Invention Tour
Depois que as exposições do X-STaTIC PRo=Cess terminaram, Madonna se inspirou nas imagens do projeto e decidiu incorporá-las em sua sexta turnê, Re-Invention Tour, até então não planejada, e pediu para Klein ajuda-la. O pôster promocional da digressão consistiu em uma das imagens do projeto artístico. A turnê apresentou Madonna em vestidos típicos do século XVII. Seu tema central era a unidade contra a violência. Foi dividida nos segmentos French Baroque-Marie Antionette Revival, Military-Army, Circus-Cabaret, Acoustic e Scottish-Tribal. O X-STaTIC PRo=Cess serviu como o primeiro vídeo interlúdio dos shows da turnê, e foi misturado com a faixa "The Beast Within". Durante os Q Awards, Elton John alegou que a cantora estava utilizando playback nos espetáculos, o que gerou controvérsia; contudo, a assessoria de imprensa de Madonna negou tais alegações. A turnê recebeu aclamação universal da mídia especializada, a qual prezou os figurinos usados pela artista. Embora a Musicology 2004ever, de Prince, tenha sido inicialmente planejada para ser a turnê com maior arrecadação no ano de 2004, a Billboard anunciou que a Re-Invention Tour teve 55 dos seus 56 shows esgotados, com cerca de 896 mil e 787 dos 904 mil e 512 ingressos vendidos (resultando em 99% de público), arrecadando 125 milhões de dólares — 156 milhões em 2014. Com isto, tornou-se a turnê com maior arrecadação do ano. Durante os Billboard Touring Awards de 2004, recebeu o troféu de Top Tour, enquanto o seu organizador Caresse Harry venceu o de Top Manager.
Antes do lançamento da faixa homônima como a primeira música de trabalho, "Die Another Day" serviu como o primeiro single da trilha sonora do filme de mesmo nome. O tema estreou nas rádios estadunidenses em 9 de outubro de 2002, um dia depois do previsto após ser publicada ilegalmente na Internet. Mais tarde, foram lançados dois discos de vinil contendo cinco remixes da faixa; um CD single também foi comercializado, contendo um remix adicional. Seu vídeo musical correspondente foi dirigido pela equipe sueca Traktor e apresenta a intérprete como uma prisioneira numa câmara de tortura. Paralelamente, suas personalidades do bem e do mal lutam esgrima. Conforme a luta se torna mais agressiva, Madonna é mais executada pelos soldados. No final, a personalidade do mal morre com uma flecha e a cantora escapa da execução, fazendo uma metáfora de que o bem sempre vence o mal. Tornou-se o terceiro vídeo musical mais caro de todos os tempos, atrás de "Scream/Childhood", dueto de Michael Jackson e Janet Jackson; e "Judas", de Lady Gaga. O tema foi bem sucedido comercialmente, liderando as tabelas do Canadá, Espanha, Itália e Romênia e listando-se nas dez melhores em diversos territórios, como Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Noruega, Reino Unido, Suécia e Suíça. Nos Estados Unidos, atingiu a oitava colocação na Billboard Hot 100, rendendo a Madonna seu 35.º single nas dez primeiras colocações na parada — ficando apenas atrás de Elvis Presley, com 36 —, liderando ainda a genérica Hot Dance Club Songs.
Imagem: national museum of american history · BY-NC-SA · Openverse
Lista-se abaixo os profissionais envolvidos na elaboração de American Life, de acordo com o encarte do disco:
Imagem: whitewall buick · BY · Openverse
Todas as canções foram escritas e produzidas por Madonna e Mirwais Ahmadzaï, exceto onde indicado.


