Altares
Altares é uma freguesia rural açoriana do município de Angra do Heroísmo, com 31,2 km² de área e 849 habitantes. A sua densidade populacional é 27,2 hab./km². A freguesia situa-se no noroeste da ilha Terceira, a cerca de 19 km da cidade de Angra do Heroísmo, confinando a leste com a freguesia dos Biscoitos, a oeste com a freguesia do Raminho, a norte com o mar e a sul e sudoeste, ao longo dos bordos da Caldeira de Santa Bárbara, com as restantes freguesias do oeste da Terceira. É uma das mais antigas freguesias da ilha, tendo sido fundada antes do ano de 1480.
A freguesia dos Altares (topónimo que parece ter resultado da contracção das palavras Altos Ares) localiza-se na encosta noroeste da ilha Terceira, ocupando uma extensa faixa da encosta norte do maciço da Serra de Santa Bárbara, desde o bordo sul e oeste da Caldeira de Santa Bárbara (que faz parte do território da freguesia) até às barrocas do mar, na costa norte da ilha. A freguesia é limitada a leste pelo curso da Ribeira do Pamplona (que também serve de limite ao concelho de Angra do Heroísmo) e a oeste por uma linha que passando pelo cume do Pico Rachado (827 m de altitude) vai até ao mar. Esta linha segue inicialmente o curso da Ribeira dos Gatos, mas depois desvia-se para oeste, por forma a incluir no território da freguesia o Cerro da Ribeira dos Gatos, a Canada dos Morros e a parte urbana dos prédios sitos a oeste daquele arruamento. O território da freguesia sobe em anfiteatro a partir da costa, primeiro de forma relativamente suave, mas atingindo declives acentuados nas altas vertentes da Serra de Santa Bárbara, onde nascem as ribeiras dos Gatos, de São Roque, das Lajinhas, da Lapa e do Pamplona.
Hidrografia
Apesar de atravessada por diversos cursos de água, a freguesia é pobre em recursos hídricos já que as ribeiras existentes são hoje de carácter torrencial, correndo de forma efémera apenas após chuvadas intensas. Assim não era nos tempos da colonização, de vez que a floresta e as turfeiras então existentes tinham um efeito regularizador, mantendo pequenos caudais nas principais ribeiras durante quase todo o ano. São as seguintes as ribeiras que atravessam a povoação (de leste para oeste): Na zona alta da freguesia situam-se a Lagoa do Negro e a Lagoa do Cerro, duas pequenas lagoas de grande beleza, rodeadas por vegetação endémica de grande interesse para a conservação da natureza.
Povoamento e demografia
O povoado dos Altares é de carácter essencialmente linear, estendendo-se de leste para oeste ao longo da estrada que circunda a ilha, ocupando uma estreita faixa de terreno que se situa entre os 80 e os 120 m de altitude. Algumas canadas (vias secundárias) estendem-se para o interior da ilha, mas em geral não se afastando muito do eixo principal do povoado, com excepção da Canada dos Morros (no limite da freguesia com o Raminho), com povoamento que se estende até à Silveira, a 150 m de altitude, e da Canada do Rego, a via que liga os Altares a Angra do Heroísmo pelo interior da ilha, que é habitada até perto dos 150 m de altitude. A freguesia conta cinco lugares relativamente diferenciados:
Outro momento difícil na história da freguesia foi o processo de autonomização do Raminho e a definição dos seus limites ao longo da Canada dos Morros. Desde 1684 que por decisão do então bispo de Angra, D. frei João dos Prazeres, a Ermida da Madre de Deus do lugar dos Folhadais tinha cura nomeado, dada a distância a percorrer até à paroquial de São Roque dos Altares. Na sequência de representações várias solicitando autonomia para o lugar, em 1861 o Raminho foi elevado a curato independente por provisão do bispo D. frei Estêvão de Jesus Maria, confirmada por decreto real do mesmo ano. Pouco depois, a 11 de Julho de 1878, no meio de forte contestação por parte da população dos Altares, o Raminho foi transformado em freguesia. O principal problema centrava-se na delimitação da freguesia ao longa da Canada dos Morros, com os raminhenses a insistirem que o limite deveria coincidir com a posição do antigo marco das capitanias, na boca da Canada das Almas, e os altarenses a contrapor que o Treatro do Meio (nome resultante de ali ser montado um antigo treatro do Divino Espírito Santo) e a Canada dos Morros deveriam permanecer na sua jurisdição. Quando o decreto de criação da freguesia do Raminho colocou a Canada dos Morros na nova freguesia, os moradores não aceitaram tal inclusão: recusaram participar nas cerimónias religiosas na nova paróquia, tendo algumas crianças permanecido por baptizar, dada a recusa do pároco dos Altares que alegava falta de jurisdição.
Povoamento
Situada em terrenos relativamente planos, com solos férteis, apesar de longe dos principais centros populacionais de Angra e da Praia, a região onde hoje se situam os Altares cedo foi colonizada. Dado o alcantilado das suas costas, acesso deverá ter sido feito a partir do porto dos Biscoitos, sito cerca de 6 km a leste, e a partir da colónia inicial fundada junto das ribeiras perenes das Quatro Ribeiras. O arroteamento dos terrenos, a julgar pela estrutura fundiária e pela morfologia dos cerrados, deve ter prosseguido de leste para oeste, sendo a zona ocidental, e aquela onde hoje se situa a freguesia do Raminho (então uma região conhecida por Folhadais), a última a ser povoada.
A estruturação do povoamento e os centros de culto
O povoamento estruturou-se em pequenos núcleos que foram coalescendo ao longo do caminho paralelo à costa, antecessor do traçado da actual Estrada Regional. Este processo levou ao aparecimento de algumas ermidas, algumas das quais foram transformadas em centros de culto. Foram elas: Todas estas ermidas, com excepção da de Santa Catarina, estão hoje desaparecidas, embora, por volta de 1843, Jerónimo Emiliano de Andrade afirmasse que ainda restavam as paredes das ditas ermidas.
A questão das jurisdições
Situada na zona mais afastada da ilha em relação às vilas então existentes, no período do povoamento os Altares eram, como hoje, uma zona de fronteira entre as várias jurisdições, tanto na divisão da ilha em capitanias como na delimitação concelhia. No que respeita à divisão das capitanias, aquando da primitiva divisão do território da Terceira, feita em 1474, entre as capitanias da Praia e de Angra, o limite na costa norte da ilha foi fixado algures entre a Ponta Negra e a foz da Ribeira de Lapa, provavelmente coincidindo com a margem oeste do biscoito da Ponta Negra. Assim, aquele limite coincidia com o termo da paróquia (na configuração que teve até 1870), ficando a freguesia inteiramente no território da capitania angrense. O interesse em fazer coincidir os limites da freguesia com os da capitania explicará a pertença dos lugares da Arrochela e Ponta Negra aos Altares, com a igreja a cerca de 3 km, quando a paroquial dos Biscoitos ficava a menos de 1 km de distância.
As milícias dos Altares na Salga
Uma companhia de milícias dos Altares participou na Batalha da Salga, tendo nela morrido o seu capitão, Sebastião Coelho, considerado um bravo oficial.
O grande motim de 1828
Durante as Guerras Liberais, a freguesia dos Altares foi uma das que maior resistência ofereceram à adesão às ideias liberais. Liderados pelo seu pároco, os altarenses, como a generalidade da população rural da Terceira, eram claramente favoráveis ao absolutismo. Em consequência, uma das últimas tentativas dos apoiantes de D. Miguel I de Portugal na ilha ocorreu na freguesia: no dia 1 de Outubro de 1828, João Moniz Corte Real, o líder dos absolutistas terceirenses, recebeu no Porto dos Biscoitos algum armamento proveniente do Faial. Com a ajuda do seu parente, o morgado João Moniz de Sá, residente na Arrochela, transportou o material para uns cerrados sitos na margem esquerda da Ribeira de Lapa, aí assentando acampamento com cerca de 90 milicianos miguelistas.
A freguesia dos Altares, pelo seu afastamento em relação aos principais centros urbanos da ilha e pelo seu relativo isolamento, é repositório de ricas tradições e lendas. As tradições da freguesia, particularmente as referntes aos seus aforismos e alguns contos, foram recolhidas na obra de Inocêncio Romeiro Enes, durante mais de cinquenta anos pároco da freguesia. Manuel António Ferreira Deusdado inclui nos seus Quadros Açóricos uma interessante lenda centrada nos Altares. Uma das mais curiosas lendas referenciadas nesta localidade será eventualmente a Lenda da Lagoa do Ginjal.
A actividade económica nos Altares baseou-se ao longo dos séculos na agro-pecuária, inicialmente na cultura do pastel (de que a freguesia foi um dos principais centros de cultivo nos Açores), depois na do trigo, na do milho e na da batata-doce (para fabrico de álcool). Mais recentemente a bovinicultura leiteira com base na pastagem e na produção de milho para forragem domina a economia da freguesia, hoje uma das mais produtivas bacias leiteiras dos Açores. Outra actividade importante na freguesia é a carpintaria e a marcenaria, áreas onde tradicionalmente foram frequentes as pequenas oficinas. No cume do Pico Matias Simão, aproveitando um cruzeiro ali erecto, existiu nas décadas de 1950 e 1960 uma vigia da baleia, ligada à actividade de caça à baleia centrada no porto dos Biscoitos. Na zona das Achadas, no sopé do Pico Matias Simão, existem depósitos de barro de relativa qualidade, utilizado para o fabrico de telha. Os telhais artesanais dos Altares, ligados a outros similares existentes na Praia da Graciosa, foram dos últimos a encerrar nos Açores, ainda fabricando ocasionalmente algumas telhas para reposição de telhados antigos.
Os Altares têm contribuído com diversas personalidades para a vida cultural, social e política, entre as quais:
Apesar da importante perda de população que experimentou ao longo dos últimos cinquenta anos, a freguesia dos Altares, como é apanágio das comunidades rurais açorianas, mantém importante actividade cívica, com diversas instituições em actividade. A lista que se segue, sem ser exaustiva, demonstra-o:


