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Bugio-ruivo

O bugio-ruivo, também chamado de barbado-vermelho, bugio-marrom, guariba-ruivo e guariba-marrom é uma espécie de macaco do Novo Mundo. O gênero Alouatta pertence à subfamília dos alautíneos, dentro da família dos atelídeos, grupo de primatas platirrinos amplamente distribuídos no Novo Mundo. Esses primatas apresentam grande diversidade ecológica e morfológica, mas compartilham características como vida predominantemente arborícola, ausência de inchaço genital associado à ovulação nas fêmeas e inexistência de bolsas jugais. Dentro dos atelídeos, destacam-se pela cauda preênsil altamente especializada, utilizada ativamente na locomoção, alimentação e sustentação do corpo, permitindo inclusive a suspensão total do indivíduo. A história taxonômica de Alouatta é complexa, marcada por múltiplas descrições desde o século XVIII, revisões baseadas inicialmente em pelagem e posteriormente em caracteres cranianos, hioideanos, citogenéticos e moleculares. Estudos modernos confirmam a monofilia do gênero e indicam o bugio-preto como linhagem basal, seguido por clados que incluem o complexo do bugio-ruivo e espécies próximas, com divergências relativamente recentes no contexto dos atelídeos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 22/07/2026
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Etimologia

O vernáculo bugio tem origem indireta no topônimo Bugia, derivado do árabe vulgar Budjîa (بجاية) e do árabe clássico Budjâya (بجاية). Durante a Idade Média, a cidade destacou-se como importante centro comercial, sendo conhecida pela exportação de velas de cera e, provavelmente, também de macacos. O nome bugia passou a ser associado a esses animais e, posteriormente, o elemento final -a foi reinterpretado pelos falantes do português como uma desinência feminina, levando à formação regressiva do masculino bugio. O vocábulo encontra-se amplamente documentado desde o século XV, com registros históricos das variantes bugio, bogio, bogyo e bugyo. Segundo o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi (DHPT), o termo guariba deriva do tupi gwa'riwa, vocábulo empregado para designar macacos atualmente incluídos entre os atelídeos. A palavra encontra-se documentada desde os primórdios do período colonial, com registros históricos das formas guariba (1587) e gariba (c. 1596). O nome genérico Alouatta deriva do francês alouatte (registrado desde 1741 com o sentido atual), por sua vez proveniente de um vocábulo de origem caribenha empregado para designar os bugios. Em português, originou o vernáculo aluata. Já foi proposta a forma vernácula aluato, considerada morfologicamente mais compatível com os padrões da língua, uma vez que o substantivo francês alouatte é masculino.

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Taxonomia e sistemática

O gênero Alouatta é monogenérico dentro da subfamília dos aluatíneos (Alouattinae), uma das duas subfamílias que formam a família dos atelídeos (Atelidae) platirrinos. As espécies do grupo dos platirrinos, ou macacos do Novo Mundo, apresentam grande diversidade morfológica e ecológica, embora todas possuam hábitos predominantemente arborícolas. Diferentemente de muitos macacos do Velho Mundo, os catarrinos, as fêmeas dos macacos do Novo Mundo não exibem inchaço externo da região genital associado ao período de ovulação. Outra característica distintiva é a ausência de bolsas jugais utilizadas para armazenar alimento temporariamente. As espécies da família dos atelídeos apresentam grande semelhança quanto à aparência e ao comportamento geral. Em sua maioria, ocupam o dossel das florestas primárias, vivem em grupos sociais extensos, reproduzem-se ao longo de todo o ano e normalmente dão à luz apenas um filhote por gestação. A dieta varia entre os diferentes gêneros. A característica mais marcante compartilhada por todos os atelídeos é a presença de uma cauda preênsil altamente desenvolvida e funcional utilizada para agarrar, sustentar o corpo, escalar, balançar-se entre os galhos, alcançar objetos e executar diversas outras atividades. Seu uso é constante, sendo particularmente importante durante a locomoção e a alimentação. Todos os membros da família são capazes de suspender o corpo apenas pela cauda, liberando simultaneamente mãos e pés para forragear e manipular alimento.

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Descrição

Os representantes do gênero Alouatta são particularmente conhecidos por suas vocalizações potentes, descritas como uma combinação de grunhidos e latidos audíveis a distâncias de um a dois quilômetros. Esses sons são produzidos graças a adaptações anatômicas especializadas, incluindo mandíbula profunda, laringe aumentada e um aparelho hioide extremamente desenvolvido. O osso hioide funciona como uma câmara de ressonância que, em conjunto com a laringe modificada, amplifica as vocalizações características do grupo. Além disso, possuem cordas vocais especializadas. O bugio-ruivo está entre os maiores primatas folívoros das florestas sul-americanas. Apresenta adaptações à alimentação baseada em folhas, incluindo molares dotados de cristas cortantes bem desenvolvidas, embora, diferentemente dos colobinos, não possua trato digestório alongado especializado para a digestão de celulose. Assim como os macacos-aranha (Ateles spp.), possui cauda preênsil, cuja extremidade apresenta uma área ventral desnuda que auxilia na preensão. A cauda costuma igualar ou mesmo superar o comprimento do corpo, constituindo importante adaptação à locomoção arbórea.

Sistema reprodutor feminino

Analisando-se a topografia e a morfologia macroscópica dos órgãos reprodutores das fêmeas do bugio-ruivo-do-sul, observa-se que estes se assemelham, em linhas gerais, àqueles descritos para outros primatas, embora apresentem particularidades entre diferentes gêneros e espécies, especialmente no que se refere a detalhes da morfologia reprodutiva. Estudos sobre a anatomia de primatas neotropicais são relativamente escassos e, em muitos casos, desatualizados, sendo a literatura frequentemente baseada em espécies utilizadas em pesquisa biomédica, como Aotus spp. e Saimiri spp. No que se refere aos ligamentos ovarianos e uterinos e à topografia dos órgãos reprodutores internos, os achados do bugio-marrom aproximam-se das descrições para Lagothrix, Aotus e outros platirrinos. Entretanto, em Saimiri, os ovários são descritos como dispostos longitudinalmente, de forma semelhante à observada em animais quadrúpedes, e o ligamento próprio do ovário apresenta-se mais longo quando comparado ao observado nas fêmeas de bugio-ruivo-do-sul. Não foram observados acúmulos de tecido adiposo no mesossalpíngeo, diferentemente do que ocorre em chimpanzés e orangotangos, sendo também ausente esse tipo de registro em outros platirrinos.

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Distribuição e habitat

O bugio-ruivo é um táxon endêmico da Mata Atlântica, ocorrendo predominantemente no Brasil e alcançando a província de Missões, no nordeste da Argentina. No território brasileiro, distribui-se pelos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estendendo-se também a áreas de transição com os biomas Cerrado e Pampa. Sua área de distribuição foi estimada em cerca de 989 947 quilômetros quadrados, enquanto a extensão de ocorrência (EOO), calculada pelo método do polígono convexo mínimo adotado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), alcança aproximadamente 1 372 513 quilômetros quadrados. A espécie está associada a diversas bacias hidrográficas da Mata Atlântica, incluindo as dos rios Contas, Grande, Iguaçu, Jequitinhonha, Paraíba do Sul e Tietê. A delimitação geográfica das formas tradicionalmente reconhecidas como bugio-ruivo-do-sul e bugio-ruivo-do-norte permanece incerta. O bugio-ruivo-do-sul ocorre principalmente nas regiões sul e sudeste do Brasil, tendo como limite meridional a bacia do rio Camaquã e alcançando a província argentina de Missões. Seus limites setentrionais são controversos, variando entre os rios Doce e Jequitinhonha, em razão da existência de populações com características intermediárias. A subespécie apresenta zonas de contato e hibridação com bugio-preto em diferentes regiões, especialmente ao longo dos rios Paraná e Uruguai, em ecótonos entre Mata Atlântica, Cerrado e Pampa. Estudos recentes confirmaram geneticamente a ocorrência desses híbridos no Paraná e no Rio Grande do Sul, sugerindo que a expansão de bugio-preto pode estar relacionada à degradação dos ambientes florestais originalmente ocupados pelo bugio-ruivo. Por sua vez, o bugio-ruivo-do-norte está associado principalmente à Mata Atlântica do sul da Bahia e nordeste de Minas Gerais. Sua distribuição histórica foi proposta entre os rios Jequitinhonha e de Contas, podendo alcançar o limite ocidental da Mata Atlântica em direção às transições com o Cerrado e a Caatinga. Entretanto, registros de indivíduos com características típicas do bugio-ruivo-do-sul em áreas do norte do Espírito Santo e ao sul do médio Jequitinhonha colocam em dúvida esses limites. Em consequência, alguns autores consideram mais apropriado restringir sua distribuição à região centro-sul da Bahia e ao nordeste mineiro, abrangendo aproximadamente 27 mil quilômetros quadrados. Essa forma é frequentemente apontada como uma das mais ameaçadas entre os primatas da Mata Atlântica, devido à intensa fragmentação florestal, à perda de habitat, à caça, aos surtos recentes de febre amarela e à provável extinção local de diversas subpopulações ao longo de sua distribuição histórica.

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Ecologia

Comportamentos e vocalização

Os bugios-ruivos priorizam a conservação de energia. Os indivíduos permanecem predominantemente no dossel superior da floresta e deslocam-se principalmente em busca de recursos alimentares de disponibilidade sazonal, como frutos. Os bugios-ruivos dedicam, em média, cerca de 64% das horas de luz do dia ao repouso, atividade que ocorre com maior frequência no período central do dia, quando as temperaturas atingem seus valores mais elevados. O restante do período diurno é distribuído entre deslocamento (13%), alimentação (18,5%) e catação social (2%). Indivíduos do gênero Alouatta deslocam-se de forma quadrupedal e não realizam braquiação. São diurnos, escansoriais e apresentam comportamento territorial. Os machos adultos são os principais receptores da catação social, enquanto as fêmeas adultas atuam como principais agentes dessa interação. Os bugios-ruivos utilizam vocalizações de alta amplitude para reduzir o risco de predação, controlar o acesso a recursos e facilitar a reprodução. Essas vocalizações também são utilizadas para sinalizar a força do grupo, permitindo que indivíduos avaliem a capacidade de grupos rivais ao ouvir seus chamados, o que reduz a necessidade de confrontos físicos diretos. Embora a maioria dos membros do gênero Alouatta realize um “coro do amanhecer” no início do dia, os bugios-ruivos não apresentam esse padrão, sendo que a maior parte das vocalizações ocorre durante encontros entre grupos. O uso de vocalizações como mecanismo de avaliação da força de grupos rivais contribui para a redução de confrontos diretos. O comportamento de esfregação corporal desempenha múltiplas funções, incluindo sinais associados ao estado reprodutivo nas fêmeas e sinais agonísticos e territoriais nos machos, relacionados à dominância. Os bugios-ruivos utilizam diferentes canais sensoriais para comunicação intra e intergrupal, incluindo canais visuais, táteis, acústicos e químicos, além de modos como coros vocais, feromônios e marcações odoríferas, sendo a percepção desses estímulos igualmente mediada por esses quatro sistemas sensoriais.

Dieta

O bugio-ruivo apresenta dieta predominantemente herbívora, sendo ao mesmo tempo folívoro e frugívoro. Sua alimentação é composta principalmente por folhas, frutos e flores, embora a importância relativa desses recursos varie de acordo com a estação do ano, a disponibilidade local de alimento e a localização geográfica das populações. Os bugios são majoritariamente folívoros e demonstram elevada seletividade na escolha das plantas consumidas. Em algumas populações, cerca de três quartos da dieta são compostos por folhas, das quais aproximadamente 41% provêm de lianas. Estudos realizados na Mata de Santa Genebra, em Campinas, indicaram que mais da metade da alimentação era proveniente de apenas seis espécies vegetais. As folhas representam cerca de um terço da dieta em determinadas populações, havendo preferência por folhas jovens, que são mais nutritivas e menos fibrosas do que as folhas maduras. Indivíduos que vivem em latitudes mais elevadas tendem a consumir uma proporção menor de folhas em comparação com outras populações. Entre as fontes alimentares mais importantes consumidas pela espécie destacam-se árvores dos gêneros Ficus, Zanthoxylum e Eugenia. A dieta também inclui frutos maduros, figos silvestres, pecíolos, brotos, flores, sementes, musgos, caules e galhos.

Reprodução

O bugio-ruivo apresenta sistema social variável, formando grupos multimachos e multifêmeas, grupos compostos por um único macho e várias fêmeas, ou ainda grupos constituídos por apenas um casal reprodutivo. A configuração mais comum consiste em um único macho adulto associado a diversas fêmeas, em grupos que podem alcançar cerca de dez indivíduos. Em muitos casos, o macho dominante monopoliza as oportunidades reprodutivas e é o principal progenitor dos filhotes do grupo. Os machos normalmente dispersam de seus grupos natais ao atingirem a maturidade e precisam competir com machos residentes para ingressar em novos grupos sociais. A reprodução do gênero Alouatta em cativeiro é difícil, e por isso muitos aspectos reprodutivos ainda permanecem pouco conhecidos. Os bugios-ruivos reproduzem-se ao longo de todo o ano, característica frequentemente associada à dieta predominantemente folívora, uma vez que folhas maduras constituem um recurso relativamente estável e disponível durante todas as estações. Não parece haver correlação entre as taxas de nascimento e as estações chuvosas ou secas, nem com períodos de maior disponibilidade de frutos ou folhas. Acredita-se que, devido à dieta folívora, a concepção seja menos dependente das condições corporais maternas. As fêmeas podem reproduzir-se em intervalos médios próximos de 22 meses, embora estudos de campo tenham registrado valores mais variáveis entre diferentes populações. Em uma população estudada, o intervalo médio entre nascimentos foi de 19,9 meses, valor semelhante ao observado em outras espécies do gênero. Nem o sexo do filhote nem o número de fêmeas do grupo parecem influenciar significativamente esse intervalo. A morte de um filhote reduz o intervalo entre nascimentos da mãe e figura entre os poucos fatores conhecidos que afetam esse período reprodutivo.

Predação

O bugio-ruivo está sujeito à predação por diversas espécies, especialmente aves de rapina de grande porte e felinos, padrão também observado em outros primatas neotropicais. Entre os predadores conhecidos da espécie estão a jaguatirica (Leopardus pardalis), o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) e cães ferais (Canis lupus familiaris). Em algumas regiões, a jaguatirica pode representar importante fonte de mortalidade, sendo registrada como consumidora frequente de bugios-ruivos. Para reduzir o risco de predação, a espécie emprega diversas estratégias comportamentais. Os indivíduos frequentemente emitem vocalizações de alarme para alertar os demais membros do grupo sobre a aproximação de potenciais predadores. Quando ameaçados por predadores aéreos, especialmente pelo gavião-pega-macaco, podem interromper abruptamente as vocalizações e adotar uma resposta antipredatória característica: descem rapidamente para os estratos inferiores da floresta e dispersam-se em diferentes direções. Esse comportamento foi observado principalmente durante ataques ocorridos enquanto os grupos realizavam vocalizações de longo alcance, que aparentemente facilitam sua localização pelas aves de rapina. Em contraste, diante de ameaças terrestres, como seres humanos, cães ou felinos, os bugios normalmente ascendem ao dossel e permanecem imóveis por vários minutos para evitar a detecção. Em situações de maior perturbação, a fuga pode ocorrer de forma organizada, frequentemente em fila, com um indivíduo adulto deslocando-se à frente do grupo. Também foram registradas estratégias de distração realizadas por machos adultos, que desviam a atenção do potencial predador enquanto os demais integrantes escapam.

Papel ecológico

Espécies do gênero Alouatta tendem a apresentar comportamento social gregário e são capazes de ocupar uma ampla variedade de habitats modificados. São primatas predominantemente frugívoros e folívoros, desempenhando papel ecológico relevante na dispersão de sementes de diversas espécies vegetais, incluindo Celtis spinosa e Cordia sellowiana, além de outras como Diclidanthera. O bugio-ruivo também atua como hospedeiro de uma ampla diversidade de organismos parasitários, incluindo protozoários, bactérias e vírus com potencial zoonótico, capazes de infectar seres humanos e animais domésticos. Entre os protozoários destacam-se Giardia e Entamoeba. Diversos helmintos integram seu ciclo de vida, incluindo nematódeos como Strongyloides, Enterobius e Trichuris, além de trematódeos como Fasciola (hepáticos) e Paragonimus (pulmonares). Além disso, a espécie abriga numerosos ectoparasitas artrópodes, como ácaros e carrapatos, bem como piolhos (ftirápteros). A proximidade com áreas antropizadas tem sido associada ao aumento da prevalência de infecções parasitárias nesses primatas, possivelmente em função de alterações ambientais e maior contato com humanos e animais domésticos.

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Conservação

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) avaliou o bugio-ruivo como vulnerável (VU), sob o critério A4ce.[a] Em 2005, a subespécie do bugio-ruivo-do-norte foi classificada como criticamente em perigo (CR) por Costa et al.; em 2010, como criticamente em perigo (CR) na Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais; em 2017, como criticamente em perigo (CR) na Lista Oficial das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção do Estado da Bahia; e em 2018, como criticamente em perigo (CR) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sob os critérios C1+2a(i); D.[b] A avaliação nacional destacou que o táxon apresenta distribuição restrita ao sul da Bahia, extremo nordeste de Minas Gerais e, possivelmente, extremo norte do Espírito Santo, com população total extremamente reduzida, estimada em cerca de 250 indivíduos, nenhuma subpopulação com mais de 50 indivíduos maduros e declínio superior a 25% em uma geração em razão dos efeitos sinérgicos da perda e fragmentação de habitat. A subespécie também integra a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, tendo sido incluída como criticamente em perigo (CR) tanto na Portaria MMA n.º 444/2014 quanto na atualização promovida pela Portaria MMA n.º 148/2022.

População

Embora não seja possível estimar com precisão o tamanho total da população remanescente do bugio-ruivo, existem diversas estimativas locais ao longo de sua distribuição, e considera-se provável que o número de indivíduos maduros ultrapasse 10 mil indivíduos. Pinto et al. (2009) registraram pelo menos oito subpopulações com mais de 500 indivíduos, com base em levantamentos por transectos lineares na Mata Atlântica do sul e sudeste do Brasil. A maior parte desses estudos foi realizada em fragmentos florestais relativamente pequenos. González-Solís et al. (2001) reuniram dados de 11 localidades (fragmentos florestais variando entre 50 e 100 mil hectares) onde a espécie foi registrada. As densidades populacionais do bugio-ruivo podem ser elevadas em determinadas condições. Em ausência de caça, essas densidades variam amplamente mesmo em fragmentos pequenos, o que é atribuído à dieta folívora e à flexibilidade alimentar da espécie. Em um fragmento de 50 hectares em Lageadinho (São Paulo), foram registrados grupos de 6 a 12 indivíduos e densidade estimada de 98 indivíduos por quilômetro quadrado. Chiarello (1993) registrou 177 indivíduos por quilômetro quadrado na Reserva de Santa Genebra (259 hectares), enquanto na Estação Biológica de Caratinga (570 a 800 hectares) as densidades variaram entre 92 e 149 indivíduos quilômetros quadrados. Em contraste, valores mais baixos foram observados em áreas maiores, como 10,1 indivíduos por quilômetro quadrado na Reserva Biológica Augusto Ruschi (quatro mil hectares) e entre 1,8 e 49,0 indivíduos por quilômetro quadrado no Parque Estadual do Rio Doce (32 210 hectares). González-Solís et al. (2001) estimaram apenas 0,79 indivíduos por quilômetro quadrado em quatro áreas protegidas contíguas da Serra do Paranapiacaba, totalizando cerca de 140 mil hectares.

Ameaças

As principais ameaças identificadas para o táxon incluem assentamentos rurais, expansão urbana, agricultura, pecuária, predação por espécie exótica (cão), desmatamento, desconexão e redução de hábitat, caça, apanha e febre amarela. A perda e fragmentação de hábitat, associadas sobretudo à expansão de monoculturas de eucalipto e café, têm resultado no isolamento de pequenos grupos em uma matriz não permeável, comprometendo a conectividade populacional. A espécie ocorre majoritariamente em regiões densamente povoadas, onde restam cerca de 12% da cobertura florestal original, fragmentada em quase 250 remanescentes, dos quais 83,4% possuem menos de 50 hectares, favorecendo efeitos demográficos e genéticos associados à fragmentação, incluindo aumento de endogamia. A expansão urbana sobre áreas naturais intensificou-se nas últimas décadas, ampliando conflitos com a fauna silvestre. A flexibilidade comportamental da espécie permite sua permanência em fragmentos inseridos em matrizes urbano-rurais, o que aumenta a exposição a ameaças secundárias como choques elétricos, ataques por cães e atropelamentos. Em regiões periurbanas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a eletrocussão por linhas de energia foi a principal causa de mortalidade ou lesão (37%), seguida por ataques de cães (34%), colisões com veículos (17%) e maus-tratos (12%), com mortalidade geral de 56% entre indivíduos amostrados. O cão doméstico também representa ameaça relevante em fragmentos próximos a áreas urbanas e rurais, sendo um dos principais motivos de entrada da espécie em centros de atendimento de fauna, como a Divisão Técnica de Medicina Veterinária e Manejo da Fauna Silvestre da Prefeitura de São Paulo, onde foram registradas 1 183 mortes, das quais 64% apresentaram detecção do vírus da febre amarela, com confirmação em 154 indivíduos.

Relações com os humanos

Devido ao seu comportamento vocal, populações locais atribuem aos "barbados" a crença de que seus chamados anunciam chuva, sendo interpretados como um sinal de bom augúrio. Essa percepção cultural contribuiu, em algumas regiões, para a manutenção de fragmentos florestais que abrigam a espécie em propriedades rurais do interior da Bahia. Por outro lado, em determinadas localidades persiste a crença de que o osso hioide desses primatas possui propriedades medicinais, sendo utilizado em práticas tradicionais associadas ao tratamento da gagueira em crianças, mediante o consumo de água contida no referido osso, o que resulta na morte de machos adultos para a retirada do hioide. Os membros do gênero Alouatta são considerados importantes indicadores biológicos da saúde dos ecossistemas, uma vez que suas populações podem refletir alterações ambientais e atuar como sentinelas de potenciais surtos epidêmicos, incluindo doenças de relevância para a saúde pública. Por outro lado, esses primatas também podem ser caçados para consumo de carne em algumas populações humanas, o que constitui uma forma de pressão adicional sobre suas populações naturais. Os bugios podem atuar como potenciais reservatórios de agentes patogênicos de importância médica, incluindo o vírus da febre amarela e protozoários como Giardia. Estima-se que cerca de 15% da população rural da América Latina seja afetada por Giardia, sendo que o aumento da prevalência desse protozoário em populações de bugios está associado ao maior contato entre fauna silvestre, seres humanos e animais domésticos.

Medidas de conservação

Desde o início da década de 1990, diversas iniciativas vêm sendo implementadas com foco na conservação do bugio-ruivo, especialmente da subespécie do bugio-ruivo-do-sul, envolvendo ações de pesquisa e manejo populacional. O Projeto Bugio, vinculado ao Centro de Pesquisas Biológicas de Indaial (CEPESBI) e mantido pela prefeitura de Indaial e pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), atua desde 1992 na região norte de Santa Catarina, desenvolvendo pesquisas científicas, atividades de educação ambiental, manejo de indivíduos e ações de conservação. Em 1993, foi criado o Programa Macacos Urbanos, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atualmente reconhecido como Núcleo de Extensão Universitária (NEMU/UFRGS), adotando uma abordagem transdisciplinar voltada à conservação da espécie. Entre as ações desenvolvidas estão a criação de novas áreas protegidas, atividades de educação ambiental e a instalação de pontes de corda na região sul de Porto Alegre (RS), com o objetivo de reduzir atropelamentos, ataques por cães e acidentes por eletrocussão em linhas de energia elétrica. O município de São Paulo também desenvolve programas de reintrodução e atividades de educação ambiental junto às comunidades locais. Paralelamente, a subespécie norte, o bugio-ruivo-do-norte, foi incluída no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos da Mata Atlântica Central (2010) e no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica e da Preguiça-de-Coleira (2018), elaborado pelo ICMBio e colaboradores, estabelecendo estratégias de conservação baseadas em pesquisa e manejo de populações e habitats. No âmbito dessas ações, o Projeto Barbado-Vermelho, coordenado pelo IESB em cooperação com o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (ICMBio/CPB) e o Instituto Uiraçu, desenvolve atividades de pesquisa e manejo, incluindo a reintrodução de indivíduos mantidos ilegalmente em cativeiro na região de Serra Bonita (Camacan, Bahia) e a gestão de um complexo de reservas privadas com mais de dois mil hectares. Além disso, a subespécie também foi incluída na lista dos The World’s 25 Most Endangered Primates, destacando seu elevado grau de ameaça. A espécie encontra-se listada no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES).

Áreas de conservação

No Brasil, o bugio-ruivo está presente em várias áreas de conservação: Na Argentina, a espécie está presente em três áreas de conservação: Parque Provincial Cruce Caballero, Parque Provincial Urugua-í e no Parque Provincial Piñalito.

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Fontes consultadas

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