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Reino de Alódia

Alódia, também chamado de Aluá ou Árua, foi um reino núbio situado no centro-sul do Sudão. Sua capital era Soba, localizada perto da moderna Cartum, na confluência do Nilo Azul e Nilo Branco. Fundado em algum momento após o colapso do Reino de Cuxe, em cerca de 350, foi citado pela primeira vez em 569. Foi o último dos três reinos núbios a se converter ao cristianismo em 580 após Nobácia e Macúria. Possivelmente alcançou seu zênite nos séculos IX-XII, quando os registros mostram que controlou muito do centro-sul do Sudão.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/08/2026
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Geografia

Alódia estava situada na Núbia, região que, na Idade Média, se estendia de Assuã, no sul do Egito, até um ponto indeterminado ao sul da confluência do Nilo Branco e Azul. O coração do reino era a Gezira, uma planície fértil delimitada pelo Nilo Branco, a oeste, e pelo Nilo Azul, a leste. Em contraste com o Vale do Nilo Branco, o Vale do Nilo Azul é rico em sítios arqueológicos alódios conhecidos, entre eles Soba. A extensão da influência alódia no sul não é clara, embora seja provável que faça fronteira com as terras altas da Etiópia. Os locais mais ao sul de Alódia estão nas proximidades da Senar.[a] A oeste do Nilo Branco, ibne Haucal diferenciou Aljebliene, dominada por Macúria e talvez correspondeu ao norte do Cordofão, e Aladine dominada por Alódia, que foi identificada com os montes Nuba, e talvez se estendeu até Jebel Aliri, perto da fronteira moderna do Sudão do Sul. Conexões núbias com Darfur foram sugeridas, mas falta evidência. A região setentrional de Alódia quiçá se estendeu da confluência dos Nilo rio abaixo para Abu Hamade próximo da ilha de Mograte. Abu Hamade quiçá constituiu o entreposto mais setentrional da província de Alabuabe ("as portas"), mas alguns estudiosos também sugeriram uma localização mais meridional, mais próxima do rio Atbara. Nenhuma evidência para um grande assentamento alódio foi descoberta ao norte da confluência dos dois Nilo, embora vários fortes tenham sido registrados lá.

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História

Origens

O nome Alódia pode ser consideravelmente antigo, talvez aparecendo como Alute numa estela cuxita do fim do século IV a.C.. Aparece novamente como Aluá numa lista de cidades cuxitas do romano Plínio, o Velho (século I), que disse estar situado ao sul de Meroé. Outra cidade chamada Aluá aparece numa inscrição axumita do século IV, dessa vez perto da confluência dos rios Nilo e Atbara. No começo do século IV, Cuxe, que controlava muitas das margens de rio do Sudão, estava em declínio, e os núbios (falantes das línguas núbias) começaram a se assentar no vale do Nilo. Eles originalmente viviam a oeste do Nilo, mas mudanças no clima forçaram-nos a se assentar a leste, resultando em guerras com Cuxe desde o século I a.C.. Meados do século IV, os núbios ocuparam boa parte da área sob Cuxe, enquanto se limitava a norte de Butana. Uma inscrição axumita cita os belicosos núbios ameaçando as fronteiras do Império de Axum ao norte do rio Tequezé, resultando numa expedição punitiva. Ela descreve a derrota núbia por forças axumitas e uma marcha subsequente à confluência do Nilo e Atbara. Lá, pilharam várias cidades cuxitas, incluindo Aluá.

Cristianização e zênite

O relato de João descreve os eventos em torno da cristianização de Alódia em detalhe. Como o mais meridional dos três reinos núbios, foi o último a ser convertido ao cristianismo. Segundo João, o rei alódio estava ciente da conversão da Nobácia em 543 e lhe pediu que enviasse um bispo que pudesse batizar seu povo. O pedido foi atendido em 580, terminando no batismo do rei, sua família e a nobreza. Assim, Alódia tornou-se parte do mundo cristão sob o patriarcado copta de Alexandria. Após a conversão, vários templos pagãos, como aquele em Muçauarate Sufra, foram talvez convertidos em igrejas. A extensão e velocidade com que a nova fé se espalhou entre a população alódia é incerta. Apesar da conversão da nobreza, é provável que a cristianização da população rural tivesse prosseguido devagar, se é que o fez.

Declínio

A evidência arqueológica de Soba sugere seu declínio, e portanto possivelmente de Alódia, desde o século XII. Em ca. 1300, Alódia estava em declínio bem avançado. Nenhuma cerâmica ou vidraria foi identificada em Soba. Duas igrejas foram aparentemente destruídas durante o século XIII, embora foram reconstruídas pouco depois. Foi sugerido que Alódia estava sob ataque de um povo africano, possivelmente nilótico, chamado Damadim que se originou na região fronteiriça dos atuais Sudão e Sudão do Sul, junto do rio Barel Gazal. Segundo o geógrafo ibne Saíde Almagribi, atacaram a Núbia em 1220. Soba pode ter sido conquistada à época e sofreu ocupação e destruição. No fim do século XIII, outra invasão por um povo inespecífico do sul ocorreu. No mesmo período, o poeta Alharrani escreveu que a capital alódia agora era Uailula e que era "muito grande" e estava "construída na marge esquerda do Nilo". No início do século XIV, o geógrafo Xameçadim de Damasco escreveu que a capital era um lugar chamado Cuxa, situado longe do Nilo, onde a água era obtida de poços.

Queda

Não está claro se o Reino de Alódia foi destruído pelos árabes sob Abedalá Jama ou pelo funjes, um grupo africano do sul liderado por seu rei Amara Duncas; a maioria dos estudiosos modernos concorda agora que caiu devido aos árabes. Abedalá Jama ("Abedalá, o Coletor"), o ancestral epônimo da tribo sudanesa dos abedalabes, era um árabe Rufaa que, de acordo com as tradições sudanesas, estabeleceu-se no vale do Nilo depois de vir do leste. Consolidou seu poder e estabeleceu sua capital em Querri, ao norte da confluência dos dois Nilo. No fim do século XV, reuniu as tribos árabes para agir contra a "tirania" alódia, como é chamada, que foi interpretada como tendo um motivo econômico-religioso. Os árabes muçulmanos não aceitavam mais o domínio nem a taxação de um governante cristão. Sob a liderança de Abedalá, Alódia e sua capital, Soba, foram destruídas, resultando em um espólio rico, como uma "coroa enfeitada de joias" e um "famoso colar de pérolas e rubis".

Legado

O historiador Jay Spaulding propõe que a queda de Soba não era necessariamente o fim de Alódia. De acordo com o viajante judeu Davi Reubeni, que visitou o país em 1523, ainda havia um "reino de Soba" na margem oriental do Nilo Azul, embora explicitamente observasse que Soba estava em ruínas. Isto corresponde às tradições orais do Alto Nilo Azul, que afirmam que Alódia sobreviveu à queda de Soba e ainda existiu ao longo do Nilo Azul. Gradualmente recuou às montanhas de Fazogli nas fronteiras etíope-sudanesas, formando o Reino de Fazogli. Escavações recentes no oeste da Etiópia parecem confirmar a teoria de uma migração alódia. Os funjes conquistaram Fazogli em 1685 e sua população, conhecida como Hamaje, tornou-se parte fundamental de Senar, tomando o poder em 1761-1762. Recentemente, em 1930 os moradores de Hamaje, no sul de Gezira, juravam por "Soba, a casa de meus avós e avós, que podem fazer a pedra flutuar e a bola de algodão afundar".

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Administração

Apesar da informação sobre o governo de Alódia seja esparsa, era talvez semelhante à de Macúria. O chefe de Estado era o rei que, de acordo com Ibne Selim, reinou como monarca absoluto. Foi registrado como sendo capaz de escravizar qualquer um de seus súditos à vontade, que não se oporiam a sua decisão, mas se prostraram diante dele. Como em Macúria, a sucessão ao trono era matrilinear: era o filho da irmã do rei, não seu filho, que sucedia-o. Pode haver evidência de que existia um acampamento real móvel, embora a tradução da fonte original, Abu Almacarim, não seja certa. Sabe-se que tribunais móveis semelhantes existiram no início do Sultanato Funje, na Etiópia e em Darfur. O reino foi dividido em várias províncias sob a soberania de Soba. Parece que os delegados do rei governaram-as. Ibne Salim afirmou que o governador da província do norte de Alabuabe foi nomeado pelo rei. Isso foi semelhante ao que ibne Haucal disse à região do delta do Marebe, que era governada por um arabófono. Em 1286, emissários mamelucos foram enviados aos governantes no centro do Sudão. Não está claro se esses governantes eram realmente independentes, ou se permaneciam subordinados ao rei de Alódia. Se este fosse o caso, isso forneceria uma compreensão da organização territorial do reino. O "saíbe" de Alabuabe parece ter sido independente. Além dela, as seguintes regiões aparecem: Alanague (talvez Fazugli); Ari; Bara; Befal; Danfu; Quedru (talvez após Cadero, uma aldeia ao norte de Cartum); Querça (Gezira); e Taca (a região ao redor do Delta do Marebe).

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Cultura

Língua

Embora Alódia fosse politétnica e, portanto, polilingual, era essencialmente um Estado núbio cuja maioria falava uma língua núbia. Com base nas evidências existentes limitadas, a língua núbia alódia, embora intimamente relacionada, parece ter sido distinta da língua nobre antiga da Núbia setentrional. Na década de 1830, dizia-se que uma língua núbia ainda estava sendo falada tão ao sul quanto Berber, perto da junção do Nilo e Atbara. Era supostamente semelhante a quenzi, mas com muitas diferenças. A língua alódia foi escrita numa variante do alfabeto grego, como foi em Macúria, mas tinha cinco ou seis letras adicionais desconhecidas para o alfabeto nobiin antigo.

Arquitetura eclesiástica

A existência de 400 igrejas foi registrada em todo o reino, mas a maioria ainda não foi localizada. Apenas sete foram identificados até agora, dados os nomes simples da igreja "A", "B", "C", "E", a igreja do "Monte C" em Soba, a igreja em Sacadi e a de Muçauarate Sufra. Igrejas "A" - "C", bem como a igreja do "Monte C" eram basílicas comparáveis às maiores igrejas macúrias. A de Sacadi foi uma inserção numa estrutura preexistente e a igreja "E" e a de Muçauarate Sufra eram igrejas "normais". Assim, as conhecidas casas de culto alódios podem ser categorizadas em três classes. No "Monte B" em Soba fica o complexo autônomo das igrejas "A", "B" e "C". As igrejas "A" e "B", ambas provavelmente construídas em meados do século IX, eram grandes edifícios, o primeiro medindo 28 m × 24,5 m e o segundo 27 m × 22,5 m. A igreja "C" é bem menor e foi construída após as outras duas, talvez após c. 900. Estas igrejas tinham muitas semelhanças, incluindo o nártex, entradas largas no eixo principal leste-oeste e púlpito ao longo do lado norte da nave. Diferenças são evidentes na espessura dos tijolos usados. A Igreja "C" não tinha corredores externos. Parece provável que o complexo era centro eclesiástico de Soba, se não do reino.

Cerâmica

Na Núbia medieval, a cerâmica e sua decoração eram apreciadas como forma de arte. Até o século VII, o tipo de cerâmica mais comum encontrado em Soba era o chamado "Cerâmica Vermelha". Essas bacias hemisféricas feitas de rodas eram feitas de engobo vermelho ou laranja e pintadas com motivos separados como caixas com hachuras internas, motivos florais estilizados ou cruzes. Os contornos dos motivos foram desenhados em preto, enquanto os interiores eram brancos. Em seu desenho, são continuação direta de estilos cuxitas, com possíveis influências da Etiópia axumita. Devido sua relativa raridade, se sugeriu que foram importados, embora tenham semelhanças com a cerâmica chamada "Cerâmica de Soba", que os sucedeu.

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Economia

Agricultura

Alódia estava no cinturão de savana, dando-lhe uma vantagem econômica sobre seu vizinho do norte, Macúria. Segundo ibne Salim, as "provisões do país de Aluá e seu rei" vieram de Querça, que foi identificada com Gezira. Ao norte da confluência dos dois Nilo, a agricultura limitava-se a fazendas junto ao rio, regadas por dispositivos como o picota ou tímpano mais complexo. Em contraste, agricultores de Gezira lucraram com chuvas suficientes para fazer do cultivo pluvial o principal sustentáculo econômico. Registros arqueológicos forneceram informações sobre os tipos de alimentos cultivados e consumidos em Alódia. Em Soba, o cereal primário era o sorgo, embora também se soubesse que cevada e painço eram consumidos. Ibne Selim observou que sorgo foi usado para fazer cerveja e disse que vinhedos eram bastante raros em Alódia em comparação com Macúria. Há evidências arqueológicas de uvas. De acordo com Dreses, cebolas, rabanetes, pepinos, melancias e colza também foram cultivados, mas nenhum foi encontrado em Soba. Em vez disso, figos, frutos de acácia, frutos de palma e tâmaras foram identificadas.

Comércio

O comércio era uma importante fonte de renda para Alódia. Soba serviu como centro comercial com rotas de comércio norte-sul e leste-oeste; bens chegaram no Reino de Macúria, Oriente Médio, África Ocidental, Índia e China. O comércio com Macúria possivelmente atravessou o deserto de Baiuda, seguindo Uádi Abu Dom ou Uádi Mucadam, enquanto outra rota passou de perto de Abu Hamade para Corosco, na Baixa Núbia. Uma rota que vai para leste originou-se em torno de Berber perto da confluência do Nilo e Atbara, terminando em Badi, Suaquém e Dalaque. O comerciante Benjamim de Tudela menciona uma rota indo para o oeste, de de Alódia a Zuila no Fezã. Evidência arqueológica para o comércio com a Etiópia é virtualmente ausente, embora relações comerciais sejam sugeridas por outras evidências.[c] Negociações com o mundo exterior foram tratadas sobretudo por mercadores árabes. Mercadores muçulmanos foram registrados como tendo atravessado a Núbia, com alguns vivendo num distrito em Soba.

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Fontes consultadas

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