Hâmeza ibne Abede Almotalibe
Hâmeza ibne Abede Almotalibe foi um membro dos haxemitas, clã dos coraixitas, tio paterno e irmão de leite do profeta islâmico Maomé. Filho de Abede Almotalibe e de Hala binte Uaibe, figurava entre os notáveis de Meca antes de aderir ao Islã. As fontes islâmicas situam sua conversão no segundo ou no sexto ano da missão profética, associando-a tradicionalmente a um confronto com Abu Jal após este ter insultado Maomé. Sua adesão fortaleceu a posição dos primeiros muçulmanos, e Hâmeza passou a figurar entre os mais destacados defensores de seu sobrinho.
Hâmeza era filho de Abede Almotalibe, destacado membro dos haxemitas, clã dos coraixitas, e de Hala binte Uaibe, dos zuraítas e prima de Amina binte Uabe, mãe de Maomé. Nasceu em Meca por volta de 569 ou 570. Segundo a maioria das fontes islâmicas, Hâmeza era aproximadamente quatro anos mais velho que seu sobrinho Maomé, embora outras tradições afirmem que a diferença de idade era de apenas dois anos. Ambos foram amamentados por Tuaiba, tornando-se irmãos de leite, e as fontes também os apresentam como companheiros próximos durante a infância e a juventude. O casamento dos pais de Hâmeza é associado pelas fontes ao casamento de Abedalá ibne Abede Almotalibe, meio-irmão de Hâmeza, com Amina. Segundo uma tradição preservada por Atabari, Abede Almotalibe acompanhou Abedalá à casa de Uabe ibne Abede Manafe para pedir em casamento sua filha Amina. Na ocasião, Abede Almotalibe teria visto Hala binte Uaibe, sobrinha de Uabe, e pedido sua mão para si próprio. Uabe teria consentido com ambas as uniões, celebradas no mesmo dia. Por volta de 595, Hâmeza participou das negociações para o casamento de Maomé com Cadija binte Cuailide. Embora diferentes tradições atribuam também a Abu Talibe um papel na realização do casamento, há relatos segundo os quais Hâmeza representou Maomé nas negociações com o responsável por Cadija, identificado em algumas fontes como Cuailide ibne Açade.
Atividade militar
Na primeira expedição que comandou em nome de Maomé, identificada nas fontes como a Expedição de Sife Albar, Hâmeza recebeu o comando de cerca de trinta cavaleiros enviados em Ramadã de 1 A.H. (março de 623) para interceptar uma caravana coraixita que regressava da Síria pela rota costeira, em território dos juainaítas. Próximo ao litoral, encontrou a caravana, acompanhada por cerca de trezentos homens, entre os quais estava Abu Jal. O confronto foi evitado pela intervenção de Majedi ibne Anre Aljuani, que mantinha relações com ambos os grupos e conseguiu conciliá-los. Segundo Aluaquidi, Maomé confiou nessa ocasião a Hâmeza o primeiro estandarte utilizado pelos muçulmanos. Hâmeza participou posteriormente das expedições de Abua e Duluxaira, além da expedição contra os cainucaítas, exercendo nessas campanhas a função de porta-estandarte de Maomé.
Morte
Hâmeza morreu na Batalha de Uude, em 23 de março de 625 (7 de Xaual de 3 A.H.), com aproximadamente 57 a 59 anos segundo uma das cronologias transmitidas pelas fontes. Antes da batalha, durante as discussões sobre a estratégia a ser adotada diante do avanço dos coraixitas, defendeu que os muçulmanos deixassem Medina para enfrentar o inimigo em campo aberto. Durante o combate, destacou-se na linha de frente e, segundo a tradição reproduzida pela TDV, matou 31 adversários. Sua morte estava relacionada às perdas sofridas pelos coraixitas em Badre. Jubair ibne Mutime, cujo tio Tuaima ibne Adi havia sido morto por Hâmeza, prometeu conceder a liberdade a seu escravo Uaxi ibne Harbe, de origem abissínia, caso matasse Hâmeza em Uude. Hinde binte Oteba, que buscava vingar a morte de seu pai, Oteba ibne Rabia, teria prometido a Uaxi, além de suas próprias joias, dez moedas de ouro. Durante a batalha, Uaxi escondeu-se atrás de uma pedra enquanto Hâmeza combatia Siba ibne Abede Aluzá e, depois que este foi morto, lançou sua lança contra Hâmeza quando ele se aproximou, atingindo-o mortalmente. A Encyclopaedia of Islam igualmente atribui a morte de Hâmeza a Uaxi e relaciona o assassinato à promessa de alforria do escravo.
Família
Hâmeza casou-se três vezes e teve sete filhos.
Após sua morte, Hâmeza tornou-se personagem de uma extensa tradição épica e lendária, na qual lhe foram atribuídas aventuras em regiões que o personagem histórico jamais visitou, como Ceilão, China, Ásia Central e Rum. Segundo Albayrak, sua coragem, suas qualidades guerreiras e sua personalidade começaram a adquirir caráter épico entre os árabes logo depois de sua morte, passando em pouco tempo ao repertório dos narradores orais conhecidos como meddahs e cussas. Essas histórias foram posteriormente registradas por escrito, enriquecidas por novos elementos entre os persas e, mais tarde, por conteúdo religioso entre os turcos. A formação desse ciclo narrativo parece ter envolvido a combinação da memória do tio de Maomé com tradições originalmente associadas a outro personagem chamado Hâmeza. Segundo uma hipótese apresentada por Mohammad-Taqi Bahar, sua origem estaria numa obra hoje perdida, intitulada Qissa-i maghazi-i Hamza, mencionada no Tarikh-i Sistan, cujas narrativas diziam respeito a Hâmeza ibne Abedalá, líder carijita persa que se rebelou durante o reinado do califa abássida Harune Arraxide e de seus sucessores. Esse Hâmeza, natural do Sistão e filho de um degã, rebelou-se no final do século VIII e conseguiu resistir às autoridades abássidas, impedindo a cobrança do caraje na região. Após a morte de Harune Arraxide, teria realizado expedições ao Sinde, à Índia e ao Ceilão, antes de morrer na primeira metade do século IX. Albayrak observa que as façanhas atribuídas a esse rebelde continuaram por muito tempo a ocupar a imaginação persa e que, posteriormente, episódios das campanhas do tio de Maomé foram incorporados às mesmas narrativas. Meredith-Owens considera que a popularidade de suas façanhas na tradição persa favoreceu sua posterior identificação com o tio de Maomé, transformando este último num herói muçulmano ortodoxo da literatura popular. As narrativas resultantes circularam tanto em ambientes sunitas quanto xiitas.


