Almáleque Anácer Iúçufe
Almáleque Anácer Saladim Iúçufe, também conhecido como Almáleque Anácer Iúçufe ou simplesmente Anácer Iúçufe, foi um soberano da dinastia aiúbida que governou Alepo de 1236 a 1260 e Damasco de 1250 a 1260.
Origem e regência em Alepo
Anácer Saladim Iúçufe nasceu em Alepo em 627 A.H. (1230). Era filho de Alazize Maomé, governante aiúbida de Alepo, e neto de Azair Gazi. Com a morte do pai, aos 23 anos, em Rabi Alaual de 634 A.H. (novembro de 1236), sucedeu-lhe no governo da cidade, embora tivesse apenas sete anos. Em razão de sua menoridade, foi constituído um conselho de regência composto pelos emires Xameçadim Lulu Alamini e Izadim Omar ibne Mujali, pelo vizir Jamaladim Alacrame ibne Alquifti e pelo eunuco Jamal Adaulá Iquebal Alcatuni, servidor de sua avó paterna, Daifa Catum. Embora formalmente integrado ao conselho, Iquebal atuava sobretudo como representante de Daifa Catum, que exercia a autoridade efetiva sobre Alepo. As decisões do conselho eram submetidas à sua aprovação, e sua assinatura era aposta aos documentos oficiais. Após organizar o governo, os dirigentes de Alepo enviaram uma embaixada ao sultão aiúbida Alcamil (r. 1218–1238), solicitando o reconhecimento da sucessão de Anácer. Alcamil comprometeu-se a proteger os direitos do jovem príncipe, mas procurou ampliar sua influência sobre o principado. Recomendou que Açale Amade de Aintabe, irmão mais velho de Alazize Maomé e governante de Aintabe, fosse nomeado comandante supremo do exército e principal regente. Além disso, enviou vestes honoríficas não apenas a Anácer, mas também aos emires de Alepo, e despachou um emissário separado para conceder a mesma distinção a Açale Amade. Segundo R. Stephen Humphreys, essas medidas representavam uma tentativa de subordinar a autoridade do jovem soberano à vontade de Alcamil e de estabelecer relações diretas com os principais dignitários de Alepo. Os dirigentes locais rejeitaram a intervenção, determinaram que somente Anácer recebesse a veste honorífica e interceptaram o emissário enviado a Aintabe, obrigando-o a regressar sem cumprir sua missão.
Consolidação do poder e expansão territorial
Após a morte de Daifa Catum, Anácer Iúçufe, então com cerca de treze anos, começou a exercer pessoalmente a autoridade sobre seus territórios. Nesse período, contou com a colaboração de administradores experientes, entre os quais Xameçadim Lulu Alamini, que permaneceu como seu principal conselheiro político e comandante militar. Sua influência foi particularmente importante na condução das campanhas que ampliaram os domínios de Alepo e na definição das relações com os demais principados aiúbidas. Em 644 A.H. (1246), as forças de Alepo, comandadas por Xameçadim, uniram-se às de Almançor Ibraim, governante de Hómece, para enfrentar os corásmios que ameaçavam Damasco. O comando conjunto foi confiado a Almançor, em razão de sua experiência militar. Em 1.º de Moarrão de 644 A.H. (18 de maio de 1246), os aliados obtiveram uma vitória decisiva em Alcaçabe, nas proximidades do lago de Hómece, destruindo a capacidade dos corásmios de intervir como força política independente na Síria. O chefe dos invasores, Barca Cã, foi morto, e sua cabeça foi levada a Alepo, onde ficou exposta numa das portas da cidadela. Após a batalha, Açale Ismail, que havia combatido ao lado dos corásmios, refugiou-se em Alepo e recebeu a proteção de Anácer. Açale Aiube exigiu sua extradição, mas o jovem soberano recusou-se a entregá-lo, embora o mantivesse sob vigilância. O episódio provocou uma deterioração das relações entre Alepo e o Egito. Pouco depois, Almançor Ibraim morreu em 11 de Safar de 644 A.H. (28 de junho de 1246), sendo sucedido no governo de Hómece por seu filho, Alaxerafe Muça, então com aproximadamente dezessete anos. A morte de Almançor enfraqueceu a posição política de Hómece, que perdeu parte da influência adquirida durante seu governo. A rivalidade entre Anácer e Açale Aiube intensificou-se nos anos seguintes. Quando Alaxerafe Muça entregou Salamias ao sultão do Egito, os dirigentes de Alepo consideraram a medida uma ameaça à segurança de seu território, pois a cidade constituía um ponto estratégico na rota utilizada pelos exércitos egípcios em suas campanhas contra o norte da Síria. Sob a orientação de Xameçadim Lulu Alamini, Anácer decidiu incorporar Hómece aos seus domínios. Em 646 A.H. (1248), um exército de Alepo, comandado conjuntamente por Xameçadim e Açale Ismail, iniciou o cerco da cidade. Os defensores resistiram durante aproximadamente dois meses, enquanto Alaxerafe Muça e seu vizir, Mucliçadim Ibraim ibne Quirnace, solicitaram auxílio às autoridades egípcias.
Conflitos com os mamelucos do Egito
A expansão de Anácer Iúçufe colocou-o em confronto com o novo governo mameluco do Egito. A deposição da dinastia aiúbida no Cairo, em 648 A.H. (1250), abriu a possibilidade de restabelecer a autoridade de sua família sobre o país. Embora inicialmente relutasse em empreender uma campanha contra os mamelucos, Anácer foi incentivado por seu principal conselheiro, Xameçadim Lulu Alamini, que considerava necessário agir antes que o novo regime consolidasse sua posição. A possibilidade de uma intervenção também parecia favorecida pela existência de partidários dos aiúbidas entre os comandantes egípcios. Durante uma missão diplomática enviada ao Egito, Camaladim ibne Aladim havia identificado simpatizantes de Anácer e recebido manifestações de apoio à restauração aiúbida. Os preparativos foram inicialmente prejudicados por uma grave enfermidade de Anácer. Em 5 de Rajabe de 648 A.H. (3 de outubro de 1250), o comandante mameluco Fariçadim Aquetai atacou com aproximadamente dois mil cavaleiros os contingentes sírios anteriormente enviados a Gaza, obrigando-os a recuar para Damasco. A expedição egípcia regressou ao Cairo sem prosseguir a ofensiva, enquanto Anácer recuperava-se e reorganizava suas forças. Reunindo contingentes de outros príncipes aiúbidas, Anácer organizou uma nova expedição contra o Egito. Em 2 de Xaual de 648 A.H. (28 de dezembro de 1250), estabeleceu seu acampamento em Gaza, enquanto o sultão mameluco Aibaque (r. 1250–1257) preparava a defesa das fronteiras egípcias. O governo do Cairo, temendo a existência de uma conspiração favorável aos aiúbidas, ordenou a prisão de suspeitos de apoiar Anácer. Em 9 de Xaual (4 de janeiro de 1251), Aibaque enviou suas forças para Açaiia, com o objetivo de impedir o avanço sírio. Posteriormente, procurou enfraquecer a coalizão adversária mediante negociações com alguns príncipes aiúbidas, mas suas iniciativas não produziram os resultados esperados.
Invasão mongol e perda dos domínios
Durante a expansão do Império Mongol pelo Oriente Médio, Anácer Iúçufe procurou manter relações diplomáticas com seus dirigentes por meio do envio de embaixadas e presentes. Em 648 A.H. (1250–1251), uma missão enviada à corte do grão-cã, em Caracórum, obteve um selo de autoridade e uma garantia de segurança para o soberano aiúbida. A embaixada contou com a participação de Zainadim Alhafizi, que posteriormente desempenharia um papel importante nas relações entre Alepo e os mongóis. Apesar desse reconhecimento inicial, Anácer não estabeleceu uma política diplomática consistente diante da crescente ameaça. Segundo R. Stephen Humphreys, embora dispusesse de vários anos para preparar a defesa de seus territórios ou negociar uma submissão formal, o soberano não organizou uma coalizão militar duradoura nem procurou obter garantias efetivas de Hulagu. A aproximação mongol tornou-se particularmente preocupante em 655 A.H. (1257), quando Hulagu Cã (r. 1256–1265) consolidava suas conquistas no Irã e preparava a ofensiva contra o Califado Abássida. Anácer manteve contatos com Alcamil Maomé, governante aiúbida de Maiafariquim, que inicialmente havia reconhecido a supremacia mongol, mas posteriormente se aproximou dos adversários de Hulagu. Depois da queda de Baguedade, Alcamil procurou estabelecer uma aliança com Anácer para defender Maiafariquim e Amida, duas importantes fortalezas situadas nas rotas de acesso à Síria. Anácer prometeu enviar-lhe reforços, mas não cumpriu o compromisso. Segundo as fontes examinadas por Humphreys, os soldados sírios temiam enfrentar os mongóis, e o soberano pouco fez para convencê-los a participar da expedição. A ausência de auxílio contribuiu para deixar Alcamil isolado diante da ofensiva mongol.
Captura e morte
Após a retirada para Alarixe e o estabelecimento de contatos com o governo mameluco do Egito, Anácer Iúçufe procurou transformar a aproximação diplomática com Cutuz numa aliança militar efetiva. O sultão egípcio, entretanto, não desejava abandonar sua posição defensiva em Açaiia e solicitou que os sírios se dirigissem até seu acampamento. Anácer avançou até Cátia, a aproximadamente quatro dias de marcha de Açaiia, mas hesitou em prosseguir. Receava que sua entrada no território controlado pelos mamelucos resultasse em sua prisão, ao mesmo tempo que reconhecia o perigo de permanecer na região diante da aproximação mongol. Finalmente, confiou sua família e o comando da maior parte do exército a Almançor Maomé II, governante de Hamá, ordenando-lhe que seguisse para o acampamento de Cutuz. O próprio Anácer permaneceu em Cátia acompanhado de uma pequena escolta, formada por seu irmão Azair Gazi, seu filho Alazize Maomé, um emir caimárida chamado Xiabadim e Açale Nuredim, filho de Almujaide Xircu, antigo governante de Hómece. A desconfiança de Anácer em relação aos mamelucos não era inteiramente infundada. Embora as tropas conduzidas por Almançor Maomé II tenham recebido tratamento favorável no Egito, alguns dos antigos colaboradores do soberano aiúbida foram submetidos a medidas repressivas. Jamaladim ibne Iaguemur foi temporariamente encarcerado na cidadela do Cairo, enquanto funcionários e mamelucos de Anácer sofreram torturas e extorsões. Sua esposa seljúcida e as mulheres dos emires caimáridas também foram obrigadas a entregar seus bens de valor. Humphreys observa, contudo, que não é possível determinar se Cutuz pretendia efetivamente prender Anácer caso ele tivesse comparecido ao encontro.


