Alfredo Ellis Jr.
Alfredo Ellis Júnior foi um historiador, sociólogo, ensaísta e professor universitário brasileiro. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, e do Instituto de Estudos Genealógicos e da Academia Paulista de Letras, onde ocupou a cadeira 18.
O último dos dez filhos de Alfredo Ellis (sendo neto do inglês William Ellis) e Sebastiana da Cunha Bueno, Ellis Júnior nasceu no município de São Carlos dos Pinhais, na fazenda cafeeira de Santa Eudóxia, onde ele recebeu a primeira educação. A fazenda viria a falir em 1918 e seria vendida no início de 1919. O pai dele se formou em medicina nos Estados Unidos, pela Universidade da Pensilvânia. Em 1874, junto de Coronel Francisco da Cunha Bueno, seu sogro e tio, ele abriu a fazenda Santa Eudóxia, local onde Ellis Júnior nasceu e passou a infância. Após a Proclamação da República, ele foi eleio deputado federal para a Câmara Constituinte, em 1890, pelo Partido Republicano Paulista. No início do século XX, ele se torna Senador. Ellis Júnior deixou a educação caseira com a mudança da família para a capital, devido ao cargo do pai no senado da recente República, sendo matriculado na Escola Alfredo Gomes. No entanto, a família não demorou a retornar a São Paulo, em 1906, onde ele foi matriculado para cursar o ginásio no Colégio São Bento, sendo aluno de Afonso d'Escragnolle Taunay.
Afastando-se do meio rural, Ellis Júnior teve uma breve estadia na Capital Federal, antes de voltar a São Paulo para exercer a advocacia e também ministrar aulas no Colégio São Bento, através da indicação de Taunay. O mesmo professor também foi responsável por apresentar Ellis Júnior à redação do Correio Paulistano em 1922; entretanto, o intelectual só viria a contribuir como articulista no jornal em 1923. A publicação, fundada em 1854, era conhecida por não se vincular a nenhum partido político ou escola literária, situação que mudou com a Proclamação da República do Brasil, fazendo com que, em 1890, o Correio Paulistano se tornasse o porta-voz oficial do Partido Republicano Paulista, inclusive com a redação do jornal sendo transformada na sede do partido. Ellis Júnior sempre manteve relações estreitas com a imprensa paulista, principalmente com o Correio Paulistano. Foi nesse cenário em que Ellis Júnior se aproximou de Washington Luís, que viria a ser presidente.
Ellis Júnior nasceu em berço político. O pai, Alfredo Ellis, tinha conexões com os nomes responsáveis por implementar a República no Brasil, tornando-se uma das principais figuras da política nacional. Com a República, ele foi eleito deputado federal, mudando-se para o Rio de Janeiro para participar da Assembleia Constituinte. Ellis foi eleito senador pelo PRP e permaneceu no cargo até a morte dele, em 1925. Ellis Júnior exerceu duas legislaturas como deputado estadual de São Paulo entre 1925 e 1930, sendo que a última foi interrompida devido à Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, que pôs fim à República Velha ao depor o presidente Washington Luís e impedir a posse do presidente eleito em 1 de março de 1930, Júlio Prestes.
Primeira legislatura (1925-1927)
Com o apoio do PRP, Ellis Júnior lançou sua candidatura para deputado estadual pelo 9º Distrito para a legislatura de 1925-1927. Mas quando chegaram as eleições de 25 de abril, ele não obteve votos suficientes. Em novembro de 1925, ele foi indicado pela Comissão Diretora do Partido Republicano Paulista para uma vaga sobressalente como deputado estadual do 5º Distrito. Desta vez, nas eleições ocorridas em 29 de novembro, ele foi eleito. Devido a esses acontecimentos, o nome de Ellis Júnior não está incluído nas listas da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo dos deputados da legislatura de 1925-1927. O trabalho do parlamentar, no entanto, foi registrado regularmente no Correio Paulistano, que tinha uma seção dedicada à Câmara Estadual.
Segunda legislatura (1928-1930)
A segunda legislatura do parlamentar teve início em 1928. Continuando na procura de alternativas ao café, Ellis Júnior investe na fruticultura, criando o projeto número 108. Trata-se de uma iniciativa para a fiscalização do beneficiamento, acondicionamento e classificação dos produtos agrícolas destinados à exportação. O intuito era que os pomares fossem supervisionados, estabelecendo tipos de padronagem, medidas preventivas de combate às pragas e aprimoramento de culturas de laranjas, entre outras frutas. No ano seguinte, o intelectual concebeu um projeto para que o Estado oferecesse auxílio à escola de pilotagem da Sociedade Aero Civil de São Paulo, da qual ele fazia parte e já havia sido presidente. Os momentos finais da legislatura de Ellis Júnior foram marcados pelo Congresso Constituinte estadual, pela Grande Depressão nos Estados Unidos e pela crise política que o Brasil viveu após a Revolução de 1930.
Opondo-se à ditadura, Ellis Júnior participou das revoltas de 1932 contra a federação, atuando como voluntário da Liga de Defesa Paulistana, que reivindicava o retorno da autonomia para o estado de São Paulo, que havia sido prejudicada devido à criação dos novos ministérios e da nomeação de interventores federais por parte de Getúlio. A Revolução acarretou no fechamento da Assembleia Legislativa e na perda de autonomia político-administrativa do estado de São Paulo. A insatisfação dos paulistas fez com que a Liga de Defesa Paulista (LDP) fosse criada em maio de 1931. No manifesto da Liga, Tácito de Almeida expressou valores regionalistas e prometeu lutar para que São Paulo retomasse sua autonomia, defendendo os ideais constitucionalistas de um república federativa. Ellis Júnior participou ativamente da LDP, fazendo conferências de propaganda, comícios, discursos nas rádios, artigos em jornais e criando o material de propaganda do movimento pela Revolução Constitucionalista de 1932, ao lado de Carlos Pinto Alves, Tácito de Almeida e Rubens Borba Alves de Morais.
Em 1938, Ellis Júnior ingressou na docência do ensino superior. Afonso Taunay deixou a cadeira de História da Civilização Brasileira da Universidade de São Paulo para se concentrar na direção do Museu Paulista, fazendo com que Ellis Júnior fosse contratado como substituto até o final do período letivo. Ele participou do concurso e apresentou a tese Meio século de bandeirismo, se tornando professor em 1939. No mesmo ano, ele também foi encarregado do cargo de diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, se tornando, assim, o primeiro catedrático de História da Civilização Brasileira. Ele foi escolhido por Adhemar Pereira de Barros, o interventor do governo de São Paulo da época, para substituir Alexandre Corrêa na função de diretor. O intelectual foi responsável pesquisas acerca da economia no período colonial brasileiro. Dessa forma, ele orientou a tese de Mafalda Zemella em 1951, intitulada O abastecimento de Minas Gerais no século XVIII, e a da filha, Myriam Ellis, que escreveu O monopólio do sal no Brasil (1955) sob orientação formal de Astrogildo Rodrigues Mello.
É possível sintetizar a carreira e a obra de Ellis Júnior em três períodos principais. Entre 1922 e 1930, o pensador publicou os primeiros textos e mapeou as temáticas acerca do bandeirantismo, as bandeiras e a história de São Paulo como seus objetos de estudo. De 1930 a 1937, a vivência política dele serviu de método para analisar a conjuntura que surgiu a partir dos acontecimentos de 1929, 1930 e 1932. E, por último, no período entre 1938 e 1974, Ellis Júnior se estabeleceu de vez como historiador e professor na cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, posição que ele ocupou até 1952. As primeiras obras de Ellis Júnior, ambientadas em um momento de tensão política e econômica entre as forças regionais e o estado nacional, chamavam a atenção pelo teor controverso, enaltecendo os bandeirantes, os antigos paulistas. Na missão de justificar o desejo pela autonomia do estado de São Paulo, Ellis Júnior se utilizou de pressupostos evolucionistas acerca de um papel determinista da raça e do meio físico, a fim de fundamentar a liderança econômica paulista em uma noção específica do caráter daquela região, com bases científicas e históricas.
A obra de Ellis Júnior é composta pelos livros O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano (1924), Raça de gigantes (1926), Confederação ou separação (1933), A nossa guerra (1933), Populações paulistas (1934), Pedras lascadas (1935), A evolução da economia paulista e suas causas (1937), Meio século de bandeirismo (1939), Panoramas históricos (1946), O café e a paulistânia (1951), A economia paulista no século XVIII (1952); biografias de Amador Bueno, Raposo Tavares, Diogo Antônio Feijó, o tenente-coronel Francisco da Cunha Bueno (seu avô) e do senador Alfredo Ellis (seu pai); e os romances A madrugada paulista, lendas de Piratininga (1934), O tigre ruivo (1934), Jaraguá, romance de penetração bandeirante (1935) e Amador Bueno, rei de São Paulo (sem data). Os temas centrais dos estudos de Ellis Júnior são o bandeirismo e a formação da eugenia do povo paulistano. Na obra Bandeirismo paulista e o recuo do meridiano (1924), o autor mapeou as fases do bandeirismo, mas primeiramente definindo as duas causas que acarretaram no movimento: as demandas agrícolas e das vilas, que exigiam recursos e geraram o que ele chama de bandeirismo de apresamento; e o bandeirismo na procura de metais preciosos. O bandeirismo quinhentista foi marcado pelo apresamento indígena e restrito à região que hoje é o estado de São Paulo. O seiscentismo, considerado o apogeu do bandeirismo pelo autor, foi caracterizado pela procura de metais preciosos, o apresamento indígena e o confronto com os castelhanos. Nessa época, Raposo Tavares se tornou conhecido na captura de índios, enquanto nomes como Pedroso, Buenos, Tacques, etc. buscaram o ouro. Houve também, nesse momento, conflitos entre os bandeirantes e os padres jesuítas, que se deparavam um com o outro nos territórios espanhóis.
Filha de Ellis Júnior, Myriam Ellis (estudiosa da área de História da Universidade de São Paulo, que substituiu o pai interinamente a partir de 1952 na cadeira de História da Civilização Brasileira) chegou a expressar descontentamento em relação a como a memória do historiador foi preservada na Universidade. Para ela, a instituição priorizava as contribuições de Sérgio Buarque de Holanda, que ocupou a cadeira a partir de 1956. Devido as consequências da Ditadura militar no Brasil (1964–1985), a obra de Ellis Júnior teria sido desvalorizada, por ele ter pertencido ao PRP, um partido de direita e considerado conservador. Entre 1984 e 1994, nas celebrações dos 50 e 60 anos de existência da Universidade, foram relembrados os méritos dos professores franceses e as contribuições de Holanda para a cadeira de História do Brasil, a partir dos anos 1950. Nessas situações, Myriam Ellis considerou que o legado do pai foi visto como retrógrado, positivista e conservador.


