Operação Contenção
A Operação Contenção foi iniciada em 28 de outubro de 2025 pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro para conter o avanço do Comando Vermelho (CV). Aproximadamente 2 500 agentes policiais participaram e executaram 100 mandados de prisão para deter integrantes da facção criminosa em 26 comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro, principalmente nos complexos da Penha e do Alemão.
Organização criminosa mais antiga em atividade no Brasil, o Comando Vermelho (CV), surgiu na década de 1970 no Instituto Penal Cândido Mendes, em Ilha Grande, quando presos políticos de esquerda foram encarcerados junto a presos comuns, influenciando-os com táticas de guerrilha urbana. Inicialmente chamada Falange Vermelha, a facção expandiu-se nas décadas seguintes e consolidou redes em diferentes estados brasileiros. Os complexos do Alemão e da Penha tornaram-se áreas estratégicas para o CV por concentrarem circulação, logística e pontos de arrecadação, com histórico de presença de lideranças e armamento pesado. Investigações da Polícia Federal aponta o fornecimento de armas por um empresário dono de clube de tiro em Americana, SP. Em 2024–2025, relatórios e coberturas indicaram intensificação do tráfico e maior profissionalização de quadrilhas, inclusive com rotas interestaduais e internacionais, elevando a pressão por ações de grande porte contra o CV. Autoridades estaduais vinham apontando a presença de foragidos e quadros do CV nas áreas-alvo, além da chegada de integrantes de outras regiões do país, o que reforçou a leitura de “santuários” para a facção no Rio.
A operação foi lançada durante a madrugada para o cumprimento de cerca de cem mandados de prisão. As equipes policiais que chegaram aos locais ainda no fim da madrugada do dia 28 encontraram traficantes fortemente armados e enfrentaram uma forte resistência por parte dos traficantes, que rapidamente ergueram barreiras e barricadas, algumas em chamas, em diversas áreas dos dois complexos. Em retaliação, os criminosos também utilizaram drones e bombas contra os policiais. Um total de 123 pessoas foram presas, sendo 113 adultos e 10 adolescentes (estes, apreendidos). Destes, 17 foram presos por mandados de prisão prévios, 82 por prisões em flagrante; 61 tinham antecedentes criminais e 30 eram egressos dos sistema, isto é, já haviam sido presos anteriormente. 29 presos eram de outros estados, sendo: 17 da Bahia, 5 do Pará, 3 de Pernambuco, 1 do Espírito Santo, 1 do Maranhão, 1 da Paraíba e 1 de Santa Catarina.
Em retaliação, criminosos aliados atearam fogo em veículos, espalharam caçambas de lixo e posicionaram atravessados nas vias um total de 71 ônibus, com o objetivo de bloquear importantes vias da cidade do Rio de Janeiro, como a Avenida Brasil, Linha Amarela, Linha Vermelha, Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá, Centro, Rio Comprido, Tijuca, Vila Isabel, Engenho Novo, Méier, Cascadura, Engenho da Rainha, Freguesia, Taquara, Cidade de Deus, Anchieta, Guadalupe, Chapadão, Complexo do Alemão e Complexo da Penha, além da BR-101, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Os trens, metrô, VLT e barcas seguiram funcionando normalmente — com eventuais filas nos acessos devido ao alto número de passageiros que tentavam embarcar simultaneamente na volta antecipada para casa — mas como eles não abrangem todas as áreas da cidade, muitas pessoas tiveram de transitar para suas casas a pé, em especial na Zona Sudoeste. O sindicato das empresas de ônibus determinou que as empresas recolhessem os ônibus, fato até então inédito.
Três policiais civis e dois policiais militares foram mortos. Outros quinze policiais ficaram feridos, dois em estado grave. Um dos feridos, o delegado-adjunto da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, Eduardo Leal, precisou ter uma perna amputada após ser baleado na coxa. Os policiais que morreram foram: Rodrigo Velloso Cabral (34 anos, inspetor da Polícia Civil); Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho (51 anos, policial civil); Rodrigo Vasconcellos Nascimento (policial civil); sargento do BOPE Cleiton Serafim Gonçalves (42 anos) e o também sargento do BOPE Heber Carvalho da Fonseca (39 anos). Alguns deles deixaram filhos e esposas. Os policiais foram homenageados em cerimônias na Praia de Copacabana e no Distrito Federal. Até 29 de outubro, foram contabilizados 119 mortos pelo governo estadual, entre eles quatro policiais. Há indícios de que os números superem 136 mortos, considerando corpos ainda não verificados. Do total, ao menos 74 corpos foram resgatados pelos próprios moradores, que os carregaram da mata próxima até a Praça São Lucas, no Complexo da Penha, sem a ajuda de bombeiros, policiais ou qualquer órgão público. Em muitas regiões, o acesso por ambulâncias e rabecões do IML era impossível, visto que diversas das principais vias das localidades foram bloqueadas pelo próprio crime organizado.
Lista de mortos
Em 31 de outubro, três dias após a operação, a cúpula da Segurança Pública do Rio de Janeiro divulgou uma lista com 99 mortos identificados até aquele dia, número que subiu para 115 em 02 de novembro com a perícia de outros dois sendo inconclusiva. Dos 115 identificados, 97 tinham histórico criminal relevante, e 59 possuíam mandados de prisão em aberto. Dos 17 sem histórico criminal, 12 apresentaram indícios de participação no tráfico em suas redes sociais. Todos eram homens; mulheres não foram mortas na operação. 62 dos neutralizados eram de outros estados: 19 do Pará, 12 da Bahia, 9 do Amazonas, 9 de Goiás, 4 do Ceará, 3 do Espírito Santo, 2 da Paraíba, 1 do Distrito Federal, 1 do Maranhão, 1 do Mato Grosso e 1 de São Paulo.
No primeiro dia da operação
Dentre os 123 presos, estão Thiago do Nascimento Mendes, vulgo Belão do Quitungo, um dos chefes do Comando Vermelho na região, e Nicolas Fernandes Soares, apontado como operador financeiro de Doca, que conseguiu escapar. Vinte e seis criminosos que se escondiam na casa de uma moradora da comunidade, e a faziam de refém, exigiram a ela que filmassem o momento de sua rendição, como forma de garantir que não seriam agredidos ou mortos pela polícia. Nós vai descer. Qual é, rapaziada, um atrás do outro, ninguém com nada. Tá geral sem camisa, pegou a visão? Tá geral sem camisa, nós vai descer aqui devagar, hein?! Sem esculacho, mano, vai sair geral. Sem esculacho.
Após o primeiro dia da operação
No dia seguinte à operação, informações fornecidas ao Disque Denúncia levaram à captura de três suspeitos que fugiram da operação e se esconderam no bairro do Campinho: Luiz Carlos Mourão de Matos, Celso Luiz Gitahy Ferreira e Rodrigo dos Santos Lourenço, vulgo Rodriguinho. Todos tem anotações criminais pelos crimes de adulteração, remarcação ou supressão de sinais identificadores de veículos automotores; falso testemunho, roubo, receptação e organização criminosa. No interior do seu esconderijo, foram apreendidos pela polícia uma pistola Glock G7; um carregador alongado 9mm; 31 munições intactas de 9mm; cinco rádios transmissores; 21 frascos de lança-perfume; 1 fuzil; 64 unidades de erva seca; 11 celulares e uma granada de gás lacrimogêneo.
De acordo com o instituto Paraná Pesquisas, 69,9% dos moradores da capital fluminense aprovaram a operação. Para 53,1% das pessoas, a operação ajuda a reduzir a criminalidade. Segundo pesquisa do Datafolha de 30 de outubro, 57% dos moradores do Rio de Janeiro concordaram com a operação e 27% a rejeitaram. Nas redes sociais ao nível nacional, segundo a AP Exata, 58% dos usuários aprovaram a operação. Outro levantamento, do AtlasIntel, mostrou que 62,2% dos moradores da cidade do Rio apoiaram a operação; em âmbito nacional, a aprovação seria de 55,2%. Nas favelas cariocas, o apoio chegava a 87,6%. A coordenadora-geral da ONG Rio de Paz, filiada à Organização das Nações Unidas, Fernanda Vallim, criticou a divulgação da pesquisa, chamando os habitantes de favelas de "maioria desinformada" e atribuindo-lhes um "histórico conservador" e "baixa escolaridade". Uma pesquisa da Quaest constatou a aprovação de 64% dos moradores do Estado do Rio à operação, com 58% entendendo-a como um sucesso, 73% defendendo mais operações do tipo e 72% apoiando o enquadramento do Comando Vermelho como organização terrorista, medida proposta por políticos de direita após a operação. A operação teria aumentado em 10 pontos a aprovação do governo de Cláudio Castro. Segundo a Quaest, a operação teria sido rejeitada apenas por eleitores de esquerda. Entre estes, no entanto, a rejeição não era unânime, mas fortemente dividida: a maioria dos eleitores de esquerda não-lulistas, por exemplo, aprovavam a operação; mesmo os eleitores lulistas, porém, afirmaram em sua maioria desejar mais operações semelhantes. Entre os eleitores independentes, 72% dizem que a polícia deve continuar no mesmo estilo de operações. A taxa de aprovação entre bolsonaristas é de quase 100%.
O governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) classificou a ação como "a maior operação das forças de segurança do Rio de Janeiro" contra, segundo ele, o narcoterrorismo. Cláudio também disse que o governo federal negou empréstimos de veículos blindados das Forças Armadas para operações policiais anteriormente, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se opõe à decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que é necessária para a cessão dos veículos. Temos muita tranquilidade de defendermos tudo que fizemos ontem. Queria me solidarizar com a família dos quatro guerreiros que deram a vida para salvar a população. De vítima ontem lá, só tivemos esses policiais. Em contrapartida o ministro da Justiça Ricardo Lewandowski disse que não recebeu nenhum pedido de GLO por parte de Cláudio para a operação e que a responsabilidade pela operação é do governador. Gleisi Hoffmann, ministra das Relações Institucionais, disse que o governo federal não foi informado previamente sobre a operação e defendeu a articulação dos governos federal e estaduais no combate ao crime organizado. O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, declarou que houve contato prévio da Polícia Militar com a unidade da PF no Rio de Janeiro para avaliar uma possível participação federal na operação, mas que a PF entendeu que a ação não se adequava ao modo de atuação da instituição. Por outro lado, Lewandowski retrucou dizendo que o contato deveria ter sido feito de forma "oficial" e não uma comunicação informal em "terceiro escalão":
Protestos
Dois dias após a ação, familiares dos mortos fizeram um protesto na Avenida Francisco Bicalho, em frente ao necrotério onde os corpos se encontram, por não receberem informações sobre seus parentes. O deputado federal Reimont (PT-RJ) negociava com os participantes a liberação pacífica da via, mas antes que isso fosse feito, a polícia militar reprimiu o protesto, atingindo seus participantes com spray de pimenta e assim liberando a circulação na via que é um dos acessos ao Centro da cidade. No dia 31 de outubro, três dias após a ação, um ato com moradores vestidos de branco em motocicletas percorreu ruas do bairro da Penha. A manifestação contou com ativistas e políticos como a vereadora Monica Benicio, viúva de Marielle Franco, e os deputados federais Glauber Braga e Tarcísio Motta, todos do PSOL. Dezenove atos foram convocados para o mesmo dia em diversas cidades do país.
Repercussão internacional
Genocídio imenso no Sudão, o genocídio continua em Gaza, a morte se espalha pelo Caribe, mais por mísseis do que pelo furacão; a maior quantidade de mortes chega à América Latina, os nazistas de Bolsonaro no Rio de Janeiro, a política anticrime focada na morte é um fracasso total. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, se manifestou em suas redes sociais classificando a ação como "barbárie", culpando "nazistas de Bolsonaro", por mortes e traçando paralelos com a Operação Orion, realizada na Comuna XIII em Medellín. No dia seguinte à operação, o governo da Argentina classificou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações narcoterroristas, declarando "alerta máximo" na segurança de suas fronteiras com o Brasil. Patricia Bullrich, ministra da Segurança do país, determinou que brasileiros sejam "rigorosamente inspecionados" nas fronteiras. "Esse alerta máximo significa observar com muita atenção todos os brasileiros que venham à Argentina, verificando se têm ou não antecedentes, mas sem confundir turistas com integrantes do Comando Vermelho", disse.
As emissoras de televisão como a TV Globo do Rio de Janeiro, Record Rio, SBT Rio e a Band Rio, além dos canais de notícias, modificaram as suas respectivas programações para transmitir os desdobramentos da operação policial e informações de utilidade pública. A TV Globo e a Record do Rio suspenderam grande parte da programação nacional vespertina para priorizar a cobertura do evento. No caso da TV Globo, um jogo amistoso de futebol feminino entre Brasil e Itália, originalmente programado para as 14h10, não foi levado ao ar para o estado do Rio de Janeiro, sendo substituído por transmissões jornalísticas locais. Em 2 de novembro, o Fantástico exibiu uma reportagem de 20 minutos sobre o caso, incluindo o resgate de um policial ferido pelos criminosos, Bernardo Leal Annes Dias, que viria a ter uma das pernas amputada devido aos ferimentos, e a tentativa de resgate de um policial alvejado na cabeça, que viria a falecer no local.
Governamentais
No dia 31 de outubro, o governo Lula assinou um "projeto de lei antifacção" para tentar sufocar o crime organizado, com foco no aumento das penas para quem participar de organizações criminosas – ponto que gerou resistência interna no governo, e a criação de novas ferramentas de investigação. No dia 29 de outubro, um grupo de governadores de oposição decidiu em reunião virtual pressionarem pela aprovação do projeto de lei que classifica o CV e o PCC como organizações terroristas, num movimento liderado pelo governador Jorginho Mello. "Nossa proposta é que os governos cedam homens de suas polícias, tanto na área de inteligência quanto no efetivo, para auxiliar o Rio de Janeiro neste momento. O combate ao crime organizado não pode ter fronteiras. É uma responsabilidade de todos", disse à CNN Brasil o governador. O governo Lula posicionou-se contra classificar as organizações criminosas como terroristas, em alinhamento com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), cujo ministro, Ricardo Lewandowski, declarou:
Legislativo
Em 04 de novembro de 2025, foi instaurada uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para "apurar a atuação, a expansão e o funcionamento de organizações criminosas no território brasileiro, em especial de facções e milícias, investigando-se o modus operandi de cada qual, as condições de instalação e desenvolvimento em cada região, bem como as respectivas estruturas de tomada de decisão, de modo a permitir a identificação de soluções adequadas para o seu combate, especialmente por meio do aperfeiçoamento da legislação atualmente em vigor."


