Fuga de Alcatraz em junho de 1962
A fuga de Alcatraz de junho de 1962 foi uma operação de evasão da Penitenciária Federal de Alcatraz, localizada na ilha homônima da Baía de São Francisco, estado norte-americano da Califórnia, realizada pelos detentos Frank Morris, John Anglin e Clarence Anglin. Inicialmente, participaria, além de Morris e os irmãos Anglin, o também detento Allen West, mas este não conseguiu chegar a tempo para fugir, devido a problemas com sua rota de fuga. Mais tarde, West ajudaria o FBI na busca pelos outros prisioneiros.
Atrás das celas dos prisioneiros no Bloco B, onde os fugitivos estavam aprisionados, havia um corredor de serviços com 91 centímetros de largura. Os prisioneiros esculpiram o concreto danificado pela umidade, ao redor de um respiradouro que levava a este corredor, usando ferramentas improvisadas, como uma colher de metal soldada com prata de uma moeda e uma furadeira elétrica feita com um motor de aspirador de pó furtado. O barulho foi disfarçado pelo som de acordeões tocados durante a hora da música, e o progresso foi encoberto por paredes falsas que, nos recessos escuros das celas, enganaram os guardas. A rota de fuga conduzia através de um duto de ventilação. Os prisioneiros retiraram o ventilador e o motor, substituindo-os por uma grade de aço, deixando um poço grande o suficiente para um prisioneiro passar. Furtaram um abrasivo de carborundum da oficina da prisão e com ele removeram os rebites da grade. Em suas camas, eles colocaram bonecos feitos com papel machê e cabelo humano contrabandeados da barbearia. Durante semanas, os fugitivos construíram no topo do bloco das celas, uma jangada inflável, utilizando mais de 50 capas de chuva furtadas, que eles ocultavam com lençóis. Na noite de 11 de junho, os três detentos colocaram as cabeças falsas em suas camas, saíram do prédio principal da prisão através de um corredor de serviços e partiram da Ilha de Alcatraz a bordo da balsa inflável improvisada para um destino incerto.
Dos 36 detentos que tentaram 14 fugas em mais de 29 anos de operação de Alcatraz, 23 foram recapturados, seis foram abatidos, dois se afogaram e cinco, sendo os três da fuga de 1962, mais Theodore Cole e Ralph Roe, foram listados como "desaparecidos e presumidamente afogados".
Frank Morris
Frank Lee Morris (1 de setembro de 1926 – desaparecido em 11 de junho de 1962) nasceu em Washington, D.C. Foi abandonado por sua mãe e pai durante sua infância e ficou órfão aos 11 anos de idade. Passou a maior parte de seus anos de formação em lares adotivos. Ele foi condenado por seu primeiro crime aos 13 anos e no final de adolescência foi preso por crimes que variaram de posse de drogas até roubo à mão armada. Seus primeiros anos na prisão passou servindo almoço para os demais detentos. Quando ficou mais velho, foi preso em Miami Beach por roubo de carros e roubo a mão armada. Morris foi supostamente classificado nos 2% da população geral em inteligência, medida pelo teste de QI, exibindo um QI de 133. Ele cumpriu sua sentença na Flórida e na Geórgia, escapou da Penitenciária do Estado de Louisiana quando cumpria sentença de 10 anos por assalto a banco. Foi recapturado um ano mais tarde cometendo roubo e enviado para Alcatraz em 1960, como interno número AZ1441.
John e Clarence Anglin
Os irmãos Anglin, John William (2 de maio de 1930 – desaparecido em 11 de junho de 1962) e Clarence (11 de maio de 1931 – desaparecido em 11 de junho de 1962) nasceram em uma família com treze crianças, em Donalsonville, Geórgia. Seus pais, George Robert Anglin e Rachael Van Miller Anglin, eram trabalhadores agrícolas sazonais; no começo dos anos 1940, a família se mudou para Ruskin, Flórida, 20 milhas ao sul de Tampa, onde as fazendas e os campos de tomate forneciam uma fonte de renda mais confiável. A cada junho eles migravam para o norte até Michigan para colher cerejas. John e Clarence eram inseparáveis quando jovens, se tornaram grandes nadadores e impressionavam seus irmãos nadando nas águas gélidas do Lago Michigan, com gelo visível na superfície. Clarence Anglin tinha uma tatuagem com o nome "Zona" no pulso esquerdo e "Nita" na parte do braço direito.
Allen West
Allen Clayton West (25 de março de 1929 – 21 de dezembro de 1978) nasceu em Nova Iorque. Foi preso por roubo de carros em 1955, primeiro na Penitenciária de Atlanta, depois na Prisão Estadual da Flórida. Após uma tentativa fracassada de fuga na prisão da Flórida, ele foi transferido para Alcatraz em 1957, aos 28 anos de idade, como interno AZ1335. West foi preso mais de 20 vezes em toda sua vida. Faleceu em 1978 aos 49 anos, vítima de peritonite.
Os quatro internos começaram a formular um plano de fuga, sob a liderança de Morris, o orquestrador da operação, depois que foram aprisionados em celas adjacentes em dezembro de 1961. (Além disso, alguns dos homens poderiam ter se conhecido pois foram encarcerados juntos na penitenciária federal em Atlanta.) Trabalhando à noite nos seis meses subsequentes, eles gradualmente ampliaram as aberturas do duto de ventilação nas paredes de suas celas, usando lâminas de serra que encontraram descartadas nos terrenos da prisão, colheres roubadas e uma broca improvisada feita do motor de um aspirador quebrado. Eles esconderam os buracos com papelão e tinta, e o barulho do trabalho de escavação era abafado com Morris tocando acordeão. Os orifícios alargados abriram-se num corredor de serviço público não vigiado, atrás do nível das celas. Do corredor eles subiram para o telhado de seu bloco de celas, dentro do prédio, onde montaram uma pequena oficina. Lá, eles reuniram uma variedade de materiais roubados e doados, incluindo mais de 50 capas de chuva da qual confeccionaram os coletes salva-vidas, com base em um projeto que eles viram na revista Popular Mechanics, e um bote de borracha medindo 1,8 m. por 4,3 m. As costuras foram cuidadosamente feitas e seladas com o calor dos tubos de vapor próximos. Eles roubaram um pequeno acordeão do tipo concertina de outro preso para servir de fole para inflar a jangada e construíram remos improvisados de madeira e parafusos roubados. Finalmente, eles escalaram um poço de ventilação que levava a um grande ventilador com grade no telhado e cortaram os rebites que seguravam ambos no lugar.
A fuga não foi descoberta até a manhã de 12 de junho de 1962, devido à incrível semelhança dos bonecos que estavam nas camas dos prisioneiros. Uma extensa busca aérea, marítima e terrestre envolvendo várias forças militares e policiais foi conduzida nos 10 dias seguintes. Em 14 de junho, um navio da Guarda Costeira recolheu um remo flutuando por volta de 180 metros da costa sul da Angel Island. No mesmo dia, no mesmo local, trabalhadores de outro barco encontraram uma carteira embrulhada em plástico contendo nomes, endereços e fotos dos amigos e parentes dos Anglins. Em 21 de junho, pedaços de material de capa de chuva, que se acredita serem remanescentes da jangada, foram encontrados em uma praia não muito longe da Ponte Golden Gate. No dia seguinte, um barco de prisão pegou um colete salva-vidas esvaziado, feito do mesmo material, a 46 metros da Ilha de Alcatraz. Nenhuma outra evidência física do destino dos homens foi encontrada.
West foi o único detento a não participar da fuga em si; foi deixado para trás quando uma grade de ventilação presa inicialmente impediu que ele saísse de sua cela. Ele cooperou totalmente com a investigação de fuga e não foi penalizado por seu papel na tentativa. West foi transferido para McNeil Island em Washington, quando Alcatraz foi desativada em 1963, e posteriormente, de volta para a Penitenciária de Atlanta. Após cumprir sua sentença, seguida por duas sentenças adicionais na Geórgia e Flórida, foi solto em 1967, sendo preso novamente na Flórida no ano seguinte acusado de roubo. Na Prisão Estadual da Flórida, ele esfaqueou e matou outro prisioneiro em outubro de 1972, em um incidente motivado por racismo. Ele estava cumprindo múltiplas sentenças, incluindo prisão perpétua sobre a condenação por homicídio, quando morreu de peritonite aguda em 1978. Em 16 de dezembro de 1962, o interno John Paul Scott, nadou com sucesso uma distância de 5 km. da ilha até Fort Point, no extremo sul da ponte Golden Gate. Ele foi encontrado por adolescentes, sofrendo de hipotermia e exaustão. Após se recuperar no Lettermant Army Hospital, foi imediatamente levado de volta à Alcatraz. É o único caso comprovado de um preso de Alcatraz chegando à costa nadando. A fuga de Scott, realizada em condições um pouco mais desfavoráveis do que Morris e os Anglins enfrentaram, e usando um meio de flutuação que era muito inferior à jangada construída por Morris e os Anglins (Scott fez flutuadores de luvas de borracha roubadas que ele inflou) deixou dúvidas de que Morris e os Anglins provavelmente se afogaram. Hoje, multidões de atletas nadam na mesma rota de Alcatraz-Fort Point como parte de um dos dois eventos de triatlo chamados Escape from Alcatraz.
Desde a fuga, tem havido muitos avistamentos relatados dos três homens ao longo dos anos, bem como pistas de seu paradeiro. Alguns desses avistamentos foram relevados, mas outros foram levados a sério. Um dia depois da fuga, um homem que alegava ser John Anglin ligou para uma advogada, Eugenia MacGowan, em São Francisco para marcar uma reunião com o escritório dos delegados, quando MacGowan recusou, o interlocutor encerrou a ligação. O FBI rejeitou a ligação como sendo uma brincadeira. Em janeiro de 1965, o FBI investigou um boato de que Clarence Anglin estava morando no Brasil. Considerou-se tão significativo que os agentes foram enviados para a América do Sul para encontrá-lo. Um informante ligou para o FBI em 1967, alegando ter estudado com Morris e tê-lo conhecido por 30 anos. Disse que se deparou com ele em Maryland e descreveu-o como usando "uma pequena barba e bigode", mas se recusou a dar mais detalhes.
A fuga foi investigada por Robert Stack em 1989 em um segmento do programa Unsolved Mysteries. Duas teorias foram testadas, uma com um triatleta nadando de Alcatraz para o continente e outra com três caiaquistas experientes remando na mesma rota em uma réplica da balsa improvisada usada pelos Anglins e Morris. Enquanto os caiaquistas falharam pois a jangada era segura e tiveram que ser resgatados por um barco a motor que acompanhava seu progresso, o nadador conseguiu chegar à costa. O programa concluiu que as chances eram de que os três fugitivos sobrevivessem Em 1993, um ex-preso de Alcatraz chamado Thomas Kent disse ao programa de televisão America's Most Wanted que ele havia ajudado a planejar a fuga, e alegou ter fornecido "novas pistas significativas" aos investigadores. Ele disse que a namorada de Clarence Anglin havia concordado em encontrar os homens em terra e levá-los ao México. Se recusou a participar da fuga, disse ele, porque não sabia nadar. As autoridades estavam céticas em relação ao relato de Kent, pois este havia recebido US$ 2 000 pela entrevista.
O livro de J. Campbell Bruce de 1963 Escape from Alcatraz documenta a fuga de 1962, juntamente com outras tentativas de fuga durantes os 29 anos em que a Ilha de Alcatraz serviu como prisão. O filme Alcatraz - Fuga Impossível de 1979 estrelado por Clint Eastwood, Fred Ward e Jack Thibeau como Morris, John Anglin e Clarence Anglin, respectivamente. West (com o nome fictício de Charley Butts) foi caracterizado pelo ator Larry Hankin. A fuga foi mostrada em duas partes no filme para TV de 1980 da Telepictures Corporation (agora operada pela Warner Bros.): Alcatraz: The Whole Shocking Story, estrelado por Ed Lauter como Morris e Louis Giambalvo e Antony Ponzini como os irmãos Anglins. Terror on Alcatraz (1987) estrelando Aldo Ray como Morris, retorna décadas depois para a cena de sua fuga de Alcatraz, vasculha sua antiga cela de prisão atrás de um mapa com uma chave de cofre.


