Alboíno
Alboíno ou Alboim foi rei dos lombardos por volta de 560 até 572. Durante seu reinado os lombardos colocaram um fim às suas migrações e se assentaram de maneira permanente na Itália, cuja parte setentrional foi conquistada por Alboíno entre 569 e 572. Esta colonização lombarda teve um efeito duradouro na Itália e na planície da Panônia; na primeira, marcou o início de séculos de domínio lombardo, enquanto na segunda, sua derrota contra os gépidas e seu abandono da Panônia puseram um fim ao domínio dos povos germânicos na região.
Os lombardos, sob o rei Vacão (r. 510–539), haviam migrado para o leste rumo à Panônia, aproveitando-se das dificuldades enfrentadas pelo Reino Ostrogótico da Itália após a morte de seu fundador, Teodorico, o Grande (r. 493–526), em 526. A morte de Vacão, em 540, levou seu filho Valtário (r. 540–547) ao trono, porém como o último ainda era menor de idade seu reino foi governado pelo pai de Alboíno, Audoíno, do clã gáusio. Sete anos depois Valtário morreu, dando a Audoíno a oportunidade de se coroar e derrubar a dinastia reinante, os Letingos. Alboíno provavelmente nasceu na década de 530, na Panônia, filho de Audoíno e sua esposa, Rodelinda. Sua mãe pode ter sido sobrinha do rei Teodorico, e teria sido prometida a Audoíno por intermédio do imperador Justiniano (r. 527–565). Como seu pai, Alboíno foi criado como um pagão, embora Audoíno tenha se declarado católico como forma de conquistar apoio bizantino contra seus vizinhos. Alboíno teve como primeira esposa a católica Clodosvinda, filha do rei franco Clotário I (r. 511–558). Este casamento, ocorrido pouco após a morte do líder franco Teodebaldo (r. 548–555), em 555, teria refletido a decisão de Audoíno de se distanciar dos bizantinos, aliados tradicionais dos lombardos, por não terem lhe oferecido apoio contra os gépidas. A nova aliança com os francos era importante devido à célebre hostilidade dos francos com o Império Bizantino, o que daria aos lombardos mais de uma opção. A Prosopografia do Império Romano Tardio, no entanto, interpreta de maneira diferente os eventos e fontes, afirmando que Alboíno teria se casado com Clodosvinda quando já havia sido coroado, ou pouco antes de 561, ano da morte de Clotário.
Alboíno subiu ao trono após a morte de seu pai, entre 560 e 565. Como era o costume dos lombardos, Alboíno recebeu a coroa após uma eleição realizada pelos homens livres da tribo, que tradicionalmente escolhiam o rei dentre os membros do clã do soberano morto. Pouco tempo depois, em 565, eclodiu uma nova guerra contra os gépidas, esses agora sob a liderança de Cunimundo, filho de Turisindo. A causa do conflito é incerta, já que as fontes se dividem; o lombardo Paulo, o Diácono acusa os gépidas, enquanto o historiador bizantino Menandro Protetor põe a culpa em Alboíno, interpretação preferida pelo historiador austríaco Walter Pohl. Um relato da guerra feito pelo historiógrafo Teofilato Simocata sentimentaliza as razões por trás do conflito, alegando que ele teria se originado depois de Alboíno fazer a corte, sem sucesso, à filha de Cunimundo, Rosamunda, e posteriormente sequestrá-la e casar-se com ela. O conto é tratado, no entanto, com ceticismo por Walter Goffart, que comenta que esta versão entraria em conflito com a que é narrada pelo Origo Gentis Langobardorum, no qual ela teria sido capturada apenas após a morte de seu pai. Os gépidas obtiveram o apoio do imperador bizantino em troca da promessa de cessão da região de Sirmio (atual Sremska Mitrovica), sede do trono dos reis gépidas. Assim, em 565 ou 566, o sucessor de Justiniano, Justino II (r. 565–578), enviou seu genro, Baduário, no cargo de mestre dos soldados, à frente de tropas bizantinas para auxiliar Cunimundo contra Alboíno; os lombardos foram completamente derrotados.
Apesar de seu sucesso contra os gépidas, Alboíno não conseguiu ampliar seu poder, e agora se deparava com uma ameaça muito maior, vinda dos ávaros. Os historiadores consideram este um dos fatores decisivos que convenceram Alboíno a dar início à migração, mesmo com indícios de que, antes da guerra com os gépidas, a decisão de se fixar na península Itálica já vinha sendo amadurecida, por este ser um território conhecido pelos milhares de lombardos que foram contratados pelos bizantinos para combater na Guerra Gótica. Além disso, os lombardos também tinham conhecimento das fraquezas da Itália bizantina, que havia passado por uma série de problemas após ser reconquistada das mãos dos godos - especialmente a chamada Praga de Justiniano, que havia devastado a região - e os conflitos bélicos, que continuavam endêmicos, tais como a Controvérsia dos Três Capítulos, despertando rivalidades religiosas e interrompendo a administração da região depois que o hábil governador local, Narses, foi convocado de volta ao Império Bizantino. Ainda assim, os lombardos viam a Itália como uma terra rica, que prometia ricas pilhagens, bens cuja promessa Alboíno utilizaria para reunir uma horda que incluía não apenas os próprios lombardos, mas também muitos outros da região, como os hérulos, suevos, gépidas, turíngios, búlgaros, sármatas, alguns remanescentes dos romanos e alguns ostrogodos. O grupo mais importante, no entanto, além dos lombardos, era o dos saxões: 20 000 participaram da jornada. Estes saxões eram tributários do rei franco Sigeberto I, e sua participação indica que Alboíno tinha o apoio dos francos em sua empreitada.
Marcha à Itália
A migração lombarda se iniciou em 2 de abril de 568, uma segunda-feira de Páscoa. A decisão de combinar a partida com uma comemoração cristã pode ser compreendida no contexto da recente conversão de Alboíno ao cristianismo ariano, como atesta a presença de missionários góticos arianos em sua corte. A conversão provavelmente teria sido motivada por considerações políticas, e tinha como intenção tornar esta migração mais coesa, diferenciando seu povo dos católicos romanos. Também serviu como vínculo entre Alboíno e seu povo a uma herança gótica, garantindo desta maneira o apoio dos ostrogodos que serviam na corte bizantina como federados. Já se especulou que a migração de Alboíno poderia ter sido provocada, em parte, a pedido dos ostrogodos que ainda habitavam a Itália.
Fundação do Ducado do Friul
Os lombardos avançaram no interior da Itália sem encontrar qualquer resistência das tropas fronteiriças (limítanes). Os recursos militares bizantinos disponíveis no local eram escassos e de lealdade duvidosa, e é provável que os fortes das fronteiras estivessem até mesmo abandonados. O que parece certo é que as escavações arqueológicas não encontraram nenhum sinal de confrontos violentos nos sítios que foram estudados. Isto parece se adequar à narrativa de Paulo, o Diácono, que menciona a tomada lombarda do Friul "sem qualquer obstáculo". A primeira cidade a ser conquistada pelos lombardos foi Fórum de Júlio (Forum Iulii; Cividale del Friuli), sede do mestre dos soldados local. Alboíno escolheu esta cidade, cercada por muralhas e próxima à fronteira, para ser a capital do Ducado do Friul, e fez de seu sobrinho e escudeiro, Gisulfo, duque da região, com a função específica de defender as fronteiras orientais dos ataques bizantinos e ávaros. Gisulfo obteve de seu tio o direito de escolher para acompanhá-lo em seu ducado os faras, ou clãs, de sua preferência.
Conquista de Mediolano
De Fórum de Júlio, Alboíno avançou para Aquileia, o entroncamento viário mais importante no nordeste da Itália, e capital administrativa da Venécia. A chegada iminente dos lombardos teve um impacto considerável na população da cidade; o patriarca de Aquileia, Paulino, fugiu com o clero e seus fiéis para a ilha de Grado, território controlado pelos bizantinos. De Aquileia, Alboíno seguiu a Via Postúmia, e seguiu pela Venécia, conquistando rápida e sucessivamente Tarvísio (Treviso), Vicência (Vicenza), Verona, Bríxia (Bréscia) e Bérgomo (Bérgamo). Os lombardos encontraram dificuldade apenas em conquistar Opitérgio (Oderzo), que Alboíno decidiu evitar, da mesma maneira com que evitou enfrentar as principais cidades venécias próximas ao litoral, na Via Ânia, como Altino, Patávio (Pádua), Montanha Rochosa (Mons Silicis, Monselice), Mântua e Cremona. A invasão da Venécia gerou um nível considerável de distúrbio na região, desencadeando ondas de refugiados que se espalhavam desde o interior, controlado pelos lombardos, até o litoral, dominado pelos bizantinos, frequentemente sob a liderança de seus bispos, e resultando na fundação de novos povoados, como Torcello e Eraclea.
Impacto da migração sobre a Itália Anonária
O impacto da migração lombarda sobre a aristocracia do período romano tardio foi nocivo, especialmente quando combinado com a Guerra Gótica; este conflito teve fim, no norte, apenas em 562, quando o último bastião gótico, Verona, foi conquistado. Diversos homens abastados (os possessores de Paulo, o Diácono) perderam suas vidas ou seus bens; mas a exata dimensão da espoliação da aristocracia romana ainda é tema de debates acalorados. O clero também foi extremamente afetado. Os lombardos eram pagãos, em sua maior parte, e tinham pouco respeito pelos membros do clero e pelas propriedades da Igreja. Diversos clérigos tiveram de abandonar suas sedes para fugir dos lombardos, como os dois bispos mais experientes do norte, Honorato e Paulino. Muitos dos bispos sufragâneos do norte, no entanto, procuraram algum tipo de acordo com os lombardos; foi o que fez por exemplo, em 569, Félix, bispo de Tarviso, que viajou até o rio Piave para se encontrar com Alboíno, obtendo assim respeito para a Igreja e seus bens, em troca deste ato de deferência. Parece certo que muitas sedes mantiveram uma sucessão episcopal ininterrupta mesmo durante o período turbulento da invasão e dos anos que se seguiram. Esta transição foi facilitada pela hostilidade existente entre os bispos do norte da Itália para com o papado e as autoridades imperiais, devido a disputas religiosas envolvendo a "Controvérsia dos Três Capítulos"; em território lombardo os clérigos ao menos tinham garantia de evitar as perseguições religiosas imperiais.
Sítio de Ticino
O primeiro registro documentado de resistência à migração de Alboíno ocorreu na cidade de Ticino (atual Pavia), que ele começou a sitiar em 569 e conquistou depois de três anos. A cidade tinha importância estratégica, localizada na confluência dos rios Pó e Ticino, e ligada por meio de canais a Ravena, capital da Itália bizantina e sede da prefeitura pretoriana da Itália. Sua conquista interrompeu as comunicações diretas entre as guarnições bizantinas situadas nos Alpes Marítimos e as que se localizavam na costa do Adriático. Procurando manter a iniciativa contra os bizantinos, em 570 Alboíno já havia conquistado suas últimas fortificações no norte da Itália, com exceção das áreas litorâneas da Ligúria e Venécia, bem como alguns centros isolados no interior, tais como Augusta Pretória (Augusta Praetoria, Aosta), Segúsio (Susa) e a ilha de Amacina, no lago Lário (Larius Lucus, atual lago de Como). Durante o reinado de Alboíno os lombardos cruzaram os Apeninos e saquearam a Túscia; os historiadores, no entanto, não chegaram a um consenso sobre quem teria liderado estas incursões, e se elas de fato teriam constituído algo mais que meros saques. Para o historiador austríaco Herwig Wolfram, a Toscana teria sido conquistada provavelmente apenas em 578–579, enquanto Jörg Jarnut e outros acreditam que este processo teria sido iniciado de alguma forma já sob o domínio de Alboíno, embora não tivesse sido concluído na altura de sua morte.
Relatos antigos
Ticino (atual Pavia) acabou por ser conquistada pelos lombardos, em maio ou junho de 572. Alboíno, neste meio tempo, tinha escolhido Verona como sua sede de governo, fixando-se num palácio real construído na cidade por Teodorico. Esta escolha peculiar pode ter sido outra tentativa de se associar com o rei godo. Exatamente neste palácio, Alboíno foi morto, em 28 de junho de 572. No relato apresentado por Paulo, o Diácono, a versão mais detalhada de sua morte, fato histórico e saga se misturam de maneira quase inextricável. Um relato mais antigo e mais sucinto foi apresentado por Mário de Avenches em sua Crônica, escrita quase uma década após o assassinato de Alboíno. De acordo com seu relato, o rei teria sido morto numa conspiração iniciada por um homem de sua confiança, Helmiques, com a conivência da rainha. Helmiques então se casou com a viúva, porém ambos tiveram de fugir para a Ravena bizantina, levando com eles o tesouro real e parte do exército, o que sugere uma participação ou cooperação do Império Bizantino no ocorrido. O medievalista inglês Roger Collins descreve Mário como uma fonte especialmente confiável por sua antiguidade e por ter vivido nas proximidades da Itália lombarda.
Cálice de crânio
Elementos presentes no relato de Mário de Avenches também podem ser encontrados na Historia Langobardorum, de Paulo, o Diácono, que por sua vez também contém algumas características distintas. Um dos seus aspectos mais conhecidos, e que não consta de qualquer outra fonte, é o do cálice de crânio. Na versão de Paulo, os eventos que levaram à morte de Alboíno teriam ocorrido em Verona. Durante um grande banquete, Alboíno teria se embebedado e ordenado a Rosamunda, sua esposa, que bebesse do cálice feito a partir do crânio de Cunimundo, seu pai, morto pelo próprio Alboíno em 567, para que ele então desposasse a filha. Alboíno teria "convidado-a a beber alegremente com seu pai", o que reacendeu na rainha a determinação de vingar o progenitor.
Morte
Em seu plano para assassinar seu marido, Rosamunda encontrou um aliado em Helmiques, irmão adotivo do rei e seu espatário (mestre de armas). De acordo com Paulo, o Diácono, a rainha teria então recrutado o cubiculário (camareiro) do rei, Peredeu, para a trama, após tê-lo seduzido. Quando Alboíno deitou-se para seu sono vespertino, em 28 de junho, Peredeu certificou-se de que sua porta estava aberta e não havia ali guardas. A espada de Alboíno também foi removida, deixando-o inteiramente vulnerável quando o próprio Peredeu entrou no quarto e o matou. Os restos de Alboíno teriam sido, supostamente, enterrados sob os degraus do palácio. A figura e o papel de Peredeu foi introduzida principalmente por Paulo, o Diácono; o Origo havia mencionado seu nome, pela primeira vez, como "Periteu" (Peritheus), porém seu papel na narrativa era diferente, já que ele não era o assassino, e sim o instigador do assassinato. Seguindo a linha de sua interpretação do episódio do cálice de crânio, Goffart vê Peredeu não como uma figura histórica, mas um personagem alegórico, apontando uma semelhança entre o nome de Peredeu e a palavra latina peritus ("perdido"), uma representação dos lombardos que haviam passado a servir ao Império Bizantino.
Para completar o golpe de Estado e legitimar a sua reivindicação ao trono, Helmiques casou-se com a rainha, cuja boa reputação vinha não apenas por ela ser a viúva do rei, mas também por ser a integrante mais proeminente do que restou da nação gépida, e como tal seu apoio representava uma garantia da lealdade dos gépidas a Helmiques. Este também contava com o apoio da guarnição lombarda de Verona, onde muitos haviam manifestado oposição à política agressiva de Alboíno e talvez alimentassem a esperança de estabelecer um pacto com o Império Bizantino. Os bizantinos, quase certamente, estavam profundamente envolvidos nesta trama, já que era de seu interesse tentar colocar um freio na expansão lombarda, instaurar um regime pró-bizantino em Verona e, a longo prazo, talvez até mesmo fragmentar a unidade do Reino Lombardo, conquistando os duques com honrarias e gratificações. O golpe, no entanto, foi mal-sucedido, já que sofreu resistência da maioria dos guerreiros, que se opuseram ao assassinato do rei. Como resultado, a guarnição lombarda de Ticino (Pavia) proclamou o duque Clefo como seu novo rei, e Helmiques fugiu para Ravena, com a ajuda do prefeito de Ravena, Longino, em vez de tentar sua sorte em combate, levando consigo sua esposa, suas tropas, seu tesouro real e a filha de Alboíno, Albsuinda. Em Ravena, os dois amantes acabaram por entrar em amargo conflito, que acabou por levá-los à morte; Longino, então, enviou Albsuinda e o tesouro de Alboíno para Constantinopla.


