Alan García
Alan Gabriel Ludwig García Pérez foi um advogado e político peruano que serviu como Presidente do Peru por dois mandatos não consecutivos, de 1985 a 1990 e de 2006 a 2011. Foi o segundo líder da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) e o único membro do partido a ter exercido a presidência. Sob a mentoria de Víctor Raúl Haya de la Torre, fundador da APRA, serviu na Assembleia Constituinte de 1978–1979. Eleito para o Congresso Peruano em 1980, chegou à posição de secretário-geral da APRA em 1982 e foi subsequentemente eleito presidente em 1985, numa vitória expressiva, tendo apenas 36 anos na época.
Nascido na Clínica Maison de Santé, no distrito de Barranco, em uma família de classe média, García conheceu seu pai pela primeira vez aos cinco anos de idade, devido ao encarceramento deste na Prisão El Sexto por ser membro do Partido Aprista Peruano. Sua mãe fundou a base do partido na província de Camaná, na região de Arequipa. Desde muito jovem, García acompanhava o pai às reuniões do partido e tornou-se próximo de futuros líderes da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), como Luis Alva Castro e Mercedes Cabanillas. Aos 14 anos, já era considerado um orador imensamente talentoso, tendo feito seu primeiro discurso em homenagem ao fundador do partido, Víctor Raúl Haya de la Torre, a quem admirava e seguia até sua morte. García estudou Direito, inicialmente na Pontifícia Universidade Católica do Peru e, posteriormente, formou-se bacharel pela Universidade Nacional Maior de São Marcos, em 1971. Um ano depois, partiu para a Espanha, onde iniciou um doutorado em Direito Constitucional sob orientação de Manuel Fraga. Durante anos, García afirmou ter concluído o doutorado; contudo, em 2014, documentos da universidade comprovaram que ele jamais finalizou o trabalho necessário. Em 1974, mudou-se para a França, junto com outros membros da APRA, para estudar na Universidade Sorbonne Nouvelle Paris 3 e no Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL). Após obter um diploma em Sociologia pelo IHEAL, foi convocado por Víctor Raúl Haya de la Torre a retornar ao Peru para concorrer à Assembleia Constituinte de 1978. García foi eleito membro da Assembleia, onde impressionou os colegas por sua oratória e retórica habilidosa. Como Secretário de Organização da APRA, passou a conduzir os assuntos públicos do partido após a morte de Haya de la Torre, em 1979.
García ganhou a eleição presidencial em 14 de abril de 1985 com 45% dos votos. Por não ter recebido os 50% necessários para vencer já no primeiro turno, um segundo turno foi realizado entre ele e o ex-prefeito de Lima, Alfonso Barrantes, do Partido da Esquerda Unida. Barrantes, porém, retirou sua candidatura, dizendo que não queria prolongar a incerteza política no país. García então foi declarado presidente em 1º de junho e tomou posse em 28 de julho de 1985. Pela primeira vez em sua história de quase 60 anos, o APRA chegava ao poder no Peru. Com 36 anos, García foi chamado de "Kennedy da América Latina", tornando-se o presidente mais jovem da região naquela época, e o segundo mais jovem presidente da história peruana (sendo o mais jovem Juan Crisóstomo Torrico, em 1842, aos 34 anos). Sua política econômica era baseada no pensamento anti-imperialista do seu partido, o APRA, com García distanciando o Peru dos mercados internacionais, resultando em pouco investimento no país. Apesar de sua popularidade inicial entre os eleitores, o mandato de García foi marcado por picos de hiperinflação, que chegou a 7.649% em 1990 e teve um total cumulativo de 2.200.200% ao longo dos cinco anos, desestabilizando completamente a economia peruana. A dívida externa do Peru no mandato de García aumentou para 19 bilhões de dólares em 1989. Devido à inflação crônica, a moeda peruana, o sol, foi substituída pelo inti em fevereiro de 1985 (antes de sua presidência iniciar), que, por sua vez, foi substituída pelo nuevo sol ("novo sol") em julho de 1991, quando o novo sol tinha um valor cumulativo de um bilhão (1.000.000.000) de velhos soles.
Em 5 de abril de 1992, Alberto Fujimori realizou um autogolpe no qual dissolveu inconstitucionalmente o Congresso Peruano e interveio no Judiciário, além de em outras instituições públicas. Por conta dessas ações, vários políticos foram perseguidos e impedidos de deixar suas casas. Alan García, que exercia o cargo de senador vitalício desde 1990, estava impedido de atuar plenamente devido a acusações apresentadas pela Câmara dos Deputados. Em 18 de outubro de 1991, o Senado debateu a proposta da câmara baixa para indiciar García pelos supostos crimes de enriquecimento ilícito e crime contra a fé pública, supostamente cometidos durante o exercício de suas funções públicas. O Senado decidiu então suspender o ex-presidente Alan García do cargo de senador vitalício e submetê-lo a julgamento pelas acusações de enriquecimento ilícito durante seu mandato presidencial, com 38 votos a favor e 17 contra. Ele conseguiu retornar ao Senado em março de 1992, um mês antes do autogolpe, após a Suprema Corte do Peru anular todas as acusações constitucionais contra ele. Segundo Jorge Del Castillo, em declaração de 2008, Alberto Fujimori teria ordenado a Vladimiro Montesinos que capturasse e assassinasse García no dia do golpe. De acordo com o próprio testemunho de García, ele conseguiu fugir de sua casa enquanto tanques militares tomavam o bairro onde residia.
Eleição presidencial de 2001
Alan García retornou a Lima no dia 27 de janeiro de 2001, às 17:35 horas. O seu regresso grande expetativa e uma enorme multidão de apoiantes o aguardava no aeroporto cantando o seu nome e manifestando o seu apoio com centenas de cartazes com as palavras “ALAN VUELVE”. Nesse mesmo dia, às 20h30, foi convocado um comício na Plaza San Martin de Lima, onde Garcia discursou perante uma grande multidão. Garcia candidatou-se à presidência nas novas eleições convocadas pelo presidente interino Valentín Paniagua e, numa campanha eleitoral de 60 dias, terminou em segundo lugar no primeiro turno, atrás de Alejandro Toledo, qualificando-o para o segundo turno. A popularidade de Toledo manteve-se estável, enquanto a de Garcia se baseou nas suas propostas sobre a questão do banco agrário, a não continuação do modelo neoliberal etc. No entanto, isso não foi suficiente para obter mais apoio entre os eleitores peruanos e Alejandro Toledo venceu as eleições gerais no segundo turno com 53,1% dos votos contra 46,9% de Garcia. Após as eleições de 2001, Garcia, enquanto líder do partido APRA, tornou-se líder da oposição.
Eleição presidencial de 2006
García iniciou oficialmente sua campanha para as eleições presidenciais de abril de 2006 em Lima, no dia 20 de abril de 2005. Ollanta Humala venceu o primeiro turno com 32,50% dos votos válidos, seguido por García, que obteve 24,32% (à frente de Lourdes Flores, que teve 23,81%). Como nenhum candidato conquistou a maioria absoluta dos votos, foi realizado um segundo turno em 4 de junho de 2006 entre Humala e García. Resultados oficiais preliminares deram vantagem a García, levando Humala a reconhecer a derrota. Em 28 de abril de 2006, antes do segundo turno, García se envolveu em uma polêmica com o presidente venezuelano Hugo Chávez. Pela segunda vez em uma eleição presidencial no Peru, Chávez declarou apoio a Ollanta Humala, oponente de García, e referiu-se a García como um "ladrão", "bandido" e "o Carlos Andrés Pérez do Peru". Em resposta, García afirmou que Chávez "não estava agindo como um estadista" e o desafiou para um debate a ser transmitido pela CNN. García também pediu a intervenção da Organização dos Estados Americanos (OEA) no caso.
Em 28 de julho de 2006, García tomou posse como Presidente, depois de ter obtido cerca de 53% dos votos a nível nacional nas eleições de 4 de junho contra Ollanta Humala. Durante seu segundo mandato tentou melhorar a sua reputação em comparação com o seu primeiro mandato. Ganhou na capital, Lima, e na costa norte, uma base geográfica do partido APRA, mas perdeu na região sul (maioritariamente empobrecida, mas incluindo grandes cidades como Cuzco e Arequipa) e nas zonas de floresta tropical, consideradas redutos de Humala. Um terço dos eleitores disse que votar em Humala era “votar no mal menor”: embora muitos peruanos tivessem uma impressão muito negativa de García após o seu primeiro mandato, ficaram assustados com os rumores de que Humala criaria um governo baseado na Cuba de Fidel Castro e transformaria Hugo Chávez, Presidente da Venezuela, no governante virtual do Peru, devido ao patrocínio de Chávez ao partido de Humala. Estes receios foram acompanhados de declarações de militarização, da reintrodução da pena de morte e da criminalização e desrespeito pelas comunidades LGBT. Humala negou estes rumores, mas as suas declarações contraditórias sobre a visão do seu governo e a forte campanha de Chávez a seu favor criaram suspeitas suficientes entre os eleitores para lhe custar a eleição. Com 36 assentos, o APRA foi o segundo maior bloco no Congresso unicameral de 120 assentos, que foi empossado alguns dias antes do presidente. Com 45 assentos, o partido de Humala, União pelo Peru, embora dividido em três facções, era o maior bloco.
Relações exteriores
Após ser eleito, nos meses que antecederam sua posse, García buscou reconstruir a relação do Peru com o Chile, abalada pelas divergências entre os governos de Alejandro Toledo e Ricardo Lagos e severamente comprometida pelo caso de extradição do ex-presidente Alberto Fujimori. As intenções de García foram bem recebidas por Michelle Bachelet, presidente do Chile, com quem se reuniu e firmou alguns acordos preliminares. Essas conversas eventualmente levaram ao rascunho final de um importante acordo econômico com o Chile, um mês após García assumir o cargo. Em 9 de novembro de 2006, três meses após sua posse, García assinou 12 acordos comerciais com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, fortalecendo a relação entre os dois países. Como parte do programa IIRSA e dos esforços contínuos de integração – incluindo as negociações de agosto de 2006 entre a Petrobras e a Petroperú, esses novos acordos buscavam ampliar a cooperação bilateral. García ofereceu energia hidrelétrica peruana para atender às crescentes necessidades energéticas do Brasil, embora mais detalhes não tenham sido divulgados.
Após as eleições presidenciais de 2011, Alan García, conforme prometido durante sua campanha, se colocou à disposição do novo Chefe de Estado para colaborar com os interesses do Peru da forma que fosse solicitada. Nesse período, também passou a se dedicar à escrita de artigos de opinião, nos quais compartilhava suas visões sobre a realidade interna e externa do país, com foco na redução da pobreza, atração de investimentos estrangeiros e crescimento econômico com sensibilidade social — temas centrais em seu discurso político. Em fevereiro de 2014, o aumento salarial dos ministros do governo gerou forte crítica de García. Durante seu segundo mandato, ele havia reduzido pela metade o salário de seu gabinete ministerial, o que, segundo fontes oficiais, teria ocasionado uma fuga de talentos da administração pública. Pelo Twitter, García ironizou a medida chamando-a de "o grande negócio". Na eleição presidencial de 2016, Alan García tentou pela terceira vez retornar à presidência, dessa vez como candidato da coalizão Aliança Popular, formada pelo seu partido, o APRA, e seu antigo rival histórico, o Partido Popular Cristão (PPC), tendo Lourdes Flores como sua primeira vice na chapa. No entanto, a candidatura teve desempenho fraco: García obteve apenas 5,83% dos votos, ficando longe de chegar ao segundo turno. A eleição foi vencida por Pedro Pablo Kuczynski.
Mega-comissão
Em 2013, uma mega-comissão foi formada e, durante cinco anos, investigou supostas irregularidades do segundo governo de Alan García, tendo o nacionalista Sergio Tejada como presidente da comissão. Dos oito casos analisados, em nenhum deles foi possível dar continuidade às investigações contra o ex-presidente, pois ele havia apresentado um recurso de amparo contra a comissão, alegando violação do devido processo legal. Consequentemente, o Judiciário anulou tudo o que havia sido feito em relação a García, impedindo a continuidade das investigações.
Escândalo da Odebrecht
A imprensa peruana informou que, em maio de 2012, após deixar o cargo, García 100 mil dólares para fazer um discurso a empresários brasileiros em São Paulo, valor que mais tarde foi caracterizado pela mídia e suspeito pelos promotores peruanos como uma propina da construtora brasileira Odebrecht. Como García declarou e pagou impostos sobre cada pagamento recebido, e várias organizações estavam dispostas a pagá-lo para tê-lo como palestrante, sua defesa e seus advogados estavam otimistas de que poderiam demonstrar que os pagamentos não constituíam suborno. m 2016 e 2017, cinco ex-ministros de García foram acusados de corrupção pelo sistema de justiça peruano: Yehude Simon (Primeiro-Ministro), Rosario Fernández (Ministra da Justiça), Mercedes Cabanillas (Ministra do Interior), Ántero Flores Aráoz (Ministro da Defesa) e Luis Nava Guibert (Ministro da Produção).
Em 17 de abril de 2019, García atirou contra a própria cabeça enquanto se escondia em seu quarto, no momento em que lhe era apresentado um mandado de prisão preventiva de dez dias, relacionado às investigações de corrupção e subornos que seu secretário teria recebido da Odebrecht. Relatórios iniciais afirmaram que os policiais violaram o protocolo, permitindo que García ficasse sozinho sob a desculpa de que iria falar com seu advogado. Ele foi levado ao hospital Casimiro Ulloa e passou por um procedimento cirúrgico de emergência, durante o qual sofreu três paradas cardíacas. Após quatro horas, sua morte foi anunciada pelos líderes do partido político Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) e por Nidia Vílchez, sendo a causa uma hemorragia cerebral “massiva” e parada cardiorrespiratória. Segundo fontes policiais, García teria se matado com seu revólver Colt Anaconda, que lhe foi dado como presente pela Marinha do Peru durante seu segundo mandato, e fazia parte de outras nove armas de fogo que o ex-presidente tinha autorização legal para possuir.
García foi considerado "Líder do Ano" pela revista Latin Business Chronicle em um período em que o Peru figurava entre os três melhores países da América Latina para negócios.
Alan García Pérez escreveu diversos livros, entre os quais destacam-se:


