Alain Oulman
Alain Bertrand Robert Oulman ComIH foi um compositor, autor-compositor, encenador teatral e editor luso-francês, o grande responsável por alguns dos maiores sucessos de Amália Rodrigues. Foi também o editor do livro "Le Portugal Baillonné - témoignage" de Mário Soares.
Alain Oulman nasceu a 15 de junho de 1928, na Cruz Quebrada, distrito de Lisboa, no seio de uma família judaico-francesa tradicional a viver em Portugal. O pai, Albert Emile José Bensaúde Oulman era industrial de compra e venda de cereais, café, carvão e minérios, e a mãe, Nicole Germaine Calmann-Lévy era editora, ligada a uma das mais antigas e famosas editoras francesas. Tinham deixado Paris durante a Primeira Guerra Mundial para se instalar inicialmente na ilha de S. Miguel, Açores, onde viviam os avós paternos, mudando-se para a Quinta de S. Mateus no Dafundo em 1922, data da morte do avô. Oulman era o mais novo de quatro filhos do casal. Em pequeno, Oulman era tratado pelos mais próximos por "Pitou" ou "Petit Larousse", alcunha que ganhou pelo amor à leitura que mostrou desde cedo. Frequentou o colégio St Julian's em Carcavelos e completou o curso de engenharia química na Universidade de Lausanne e em França, continuando a aprender música em paralelo. Quanto terminou os estudos, viveu brevemente em Paris, onde escreveu para Yves Montand, e musicou Guillaume Apollinaire para Juliette Gréco e Germaine Montero; e depois em Nova Iorque, onde conheceu James Baldwin, com quem criaria uma amizade duradoura.
Encenador
Oulman é encenador no grupo de teatro amador Lisbon Players (um grupo constituído por estrangeiros residentes em Lisboa, que é a companhia de teatro mais antiga de Lisboa e a segunda mais antiga de Portugal), e dirige ao longo de uma década, produções no Estrela Hall. É aqui que conhece Felicity Jane Harrington, com quem casa em 1962. O casal terá dois filhos, Nicholas Oulman (1967) e Alexandre Oulman (1970). Entre 1962 e 1964 encena com os Lisbon Players peças de René de Obaldia, Eugène Ionesco, Edward Albee e Harold Pinter. Em 1964 recomenda ao grupo Raul Solnado, e em virtude de um incêndio no Teatro Nacional D. Maria II, recebe no Estrela Hall a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro. A Companhia Portuguesa de Comediantes (Cêpêcê) estreia a peça O Homem Que Fazia Chover de Richard Nash, encenada por Oulman, que conta com a participação de Eunice Muñoz, João Perry e José de Castro, entre outros.
Compositor de Amália
Tal como há um Zeca Afonso antes e depois do José Mário Branco, também há uma Amália antes e depois do Alain. - Ruben de Carvalho Alain Oulman conheceu Amália Rodrigues em Paris, no Olympia, em 1959. Antes do espectáculo dela, abordou-a nos bastidores com uma música sem poema, que tocou num piano. Amália sugeriu que ele entrasse em contacto com o poeta Luís de Macedo (pseudónimo literário de Chaves de Oliveira, que era adido da embaixada de Portugal em Paris), para lhe fazer a letra. Desta colaboração surgiu Vagamundo, que Oulman mostra novamente a Amália num acampamento de férias na Praia do Lisandro, Ericeira, no verão desse mesmo ano. Assim se dá início à sua parceria com a fadista, com ensaios regulares em que lhe mostra novos temas, ao piano.
Activismo político
Oulman esteve ligado à Frente de Acção Popular (FAP) desde 1962, apesar da sua afinidade política com a esquerda anteceder esta ligação, sendo próximo do Partido Comunista Português. Tinha contacto com José Carlos Andrade, João Pulido Valente, Francisco Martins Rodrigues e Rui d'Espiney, membros da FAP, e prestava ocasionalmente ajuda à organização, através da transmissão de mensagens, organização de esconderijos ou impressão de panfletos de esquerda, como o jornal clandestino Estudante Revolucionário, impresso num duplicador Gestetner na Companhia Nacional de Produtos Coloniais, escritório do seu pai. Foi depositário de fundos usados pela FAP nas movimentações entre Portugal e o estrangeiro, e cedeu a Vivenda Ararat, situada no Alto do Penedo, em Colares a Francisco Martins Rodrigues e à sua companheira Maria Fernanda Ferreira Alves, para que ali se pudessem esconder.
Editor
Desde Janeiro de 1968 é editor de livros na Callman-Lévy, juntamente com o seu tio e padrinho Robert. Em Paris, contacta portugueses aí exilados, como Mário Soares e também Manuel Alegre, com quem contactara inicialmente quando este se encontrava em Argel. Alegre virá a passar algum tempo em casa de Oulman em Paris durante o seu tempo em clandestinidade, a convalescer de uma pneumonia com septicemia. É aí que Alegre conhece Amália, que irá cantar Meu Amor é Marinheiro, poema musicado por Oulman, a partir d'A Trova do Amor Lusíada, que o poeta escrevera quando preso em Caxias. Na editora, edita livros de Patricia Highsmith, Amos Oz e Catherine Clement, entre outros. Traduz ainda vários autores portugueses, e publica o livro Le Portugal Baillonné - témoignage, depois traduzido para português como Portugal Amordaçado, da autoria de Mário Soares. Depois da morte do tio, em 1982, dedica-se em exclusivo à editora.
Apoio a Amália no pós-25 de abril
Após o 25 de Abril de 1974, Alain Oulman fez parte da minoria que defendeu Amália, quando esta foi acusada de estar ligada ao anterior regime, escrevendo cartas para os jornais "República" e "O Século".
Morte
Alain Oulman morreu vítima de crise cardíaca, na cidade de Paris, a 29 de março de 1990, quando contava 61 anos de idade.
"Cantei porque para mim era fado. A nobreza que está lá dentro é que conta. Se não tem fado para os outros, para mim tem" (Amália) "Alain Oulman, que em sucessivos discos publicados nos anos 1950 e 1960 soube transformar a fadista Amália Rodrigues — cuja popularidade era incontestada desde o final da Segunda Guerra Mundial — na «Amalia», sem acento, que se tornou diva internacional. Oulman divulgou a voz, mas soube renovar-lhe a cada passo os atributos com desafios ousados: primeiro, já não apenas a guitarra e a viola, mas também os acompanhamentos orquestrais, depois as variações sobre estes, conduzindo-a ao extremo de um «jazz combo»." (Jorge P. Pires, Expresso, 1998) "Eu tenho uma proximidade muito maior com a Amália dos anos 1960, do período do Oulman. Cabe tudo ali — e é isso que lhe dá dimensão. Nós não podemos reduzi-la — como ela nunca se quis reduzir — a um qualquer sub-género do seu repertório." (Rui Vieira Nery, DN, 2002)


