Wernher von Braun
Wernher Magnus Maximilian Freiherr von Braun foi um engenheiro aeroespacial alemão e uma das principais figuras no desenvolvimento do foguete V-2 na Alemanha Nazista e do foguete Saturno V nos Estados Unidos. Ele foi uma das principais figuras no desenvolvimento de tecnologias de foguetes para a Alemanha, embora alegasse que seu envolvimento com o Partido Nazista fosse apenas visando não interromper suas pesquisas e proteger-se de caçadas anticomunistas.
Wernher von Braun nasceu em Wirsitz, na província de Posen, hoje chamada Wyrzysk na Polónia e à época parte da Prússia e do Império Alemão. Era o segundo de três irmãos. Ele pertencia a uma família de aristocratas, que herdaram o título de Freiherr (equivalente ao título de barão). Seu pai, Magnus Freiherr von Braun (1878–1972), foi funcionário público de carreira, serviu como ministro da Agricultura durante a República de Weimar. Sua mãe, Emmy von Quistorp (1886–1959), tinha ancestrais na realeza medieval europeia. Descendente de Filipe III da França, Valdemar I da Dinamarca, Roberto III da Escócia, Eduardo III da Inglaterra e Miecislau I. Como presente de batismo na Igreja Luterana, sua mãe o presenteou com um telescópio, e ele desenvolveu uma paixão por astronomia. Quando a cidade de Wyrzysk foi transferida para a Polônia, ao final da Primeira Guerra Mundial, von Braun e sua família, como várias outras, se mudaram para a Alemanha. Eles se fixaram em Berlim, onde von Braun, então com 12 anos, inspirado pelos records de velocidade de Max Valier e Fritz von Opel, em carros movidos a foguetes, causou um rebuliço nas ruas ao acionar uma carroça de brinquedo com fogos de artifício, tendo sido recolhido sob custódia pela polícia local até que seu pai viesse buscá-lo.
Peenemünde
Já ao final de 1935, ficava muito claro que as instalações de Kummersdorf eram insuficientes para acomodar a rápida expansão do programa de mísseis. Para testar os mísseis muito maiores que estavam sendo planejados, eles necessitariam de algumas centenas de quilômetros de área de testes. Com essa necessidade em mente, uma área próxima ao Mar Báltico passou a ser seriamente considerada. O Exército e a Força Aérea concordaram em usar a área da ilha de Usedom para esse fim. Entre 1937 e 1945, Wernher von Braun foi o diretor técnico do recém-criado centro de pesquisas do Exército de Peenemünde, onde ele liderou o desenvolvimento do míssil Aggregat 4 (A4), um grande foguete movido a combustível líquido. A partir de 1943, esse míssil foi posto em produção, e logo depois das suas primeiras missões sobre Londres, passou a ser conhecido como: Vergeltungswaffe 2 (V-2), ou "Arma de Vingança 2". Esse foi o primeiro míssil terra-terra a combustível líquido operacional do Mundo, contando com sistemas de controle por giroscópio que permitiam estabilizar e controlar o voo de forma automática e autônoma.
Envolvimento com o regime Nazista
Wernher von Braun teve um relacionamento complexo e ambivalente com o regime do terceiro Reich. Quando já nos Estados Unidos, ele sempre negou qualquer envolvimento político com o regime da época, alegando que a sua filiação ao Partido Nazista teve a intenção apenas de permitir que ele continuasse no "trabalho de sua vida". A sua filiação ao Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, foi registrada em 1 de dezembro de 1938, sob o número 5 738 692. Em 1 de maio de 1940, ele se tornou membro da Allgemeine SS (SS-Nr. 185 068), uma unidade desarmada daquela força. Von Braun também alegou mais tarde que sua associação a esta força foi para se proteger de caçadas anticomunistas, dizendo que vestiu aquele uniforme apenas uma vez, havendo controvérsias quanto a essa afirmação. Na SS, ele começou com a patente de segundo tenente, tendo sido promovido três vezes por Himmler, a última delas em 1943 para major. Von Braun argumentou que essas promoções eram técnicas, recebidas todo ano pelo correio.
Trabalho escravo
Um dos episódios mais bárbaros da Segunda Guerra esteve diretamente ligado ao programa de foguetes V-2 e consequentemente a von Braun, que mais tarde negou veementemente seu envolvimento com qualquer atividade nesse campo de concentração. No entanto, documentos da época mostram que em pelo menos uma ocasião ele selecionou pessoalmente os escravos que trabalhariam no projeto. Logo depois do bombardeio sofrido pelo Centro de pesquisa e produção em Peenemünde, o alto comando resolveu transferir a produção dos mísseis para uma instalação subterrânea. Com essa finalidade, foi criado um subcampo do campo de Buchenwald, chamado Mittelbau-Dora, lugar ao qual Von Braun negou terminantemente ter comparecido. Com a expansão do campo Dora e a subsequente produção do foguete V-2 e outras armas, estimou-se inicialmente que cerca de 12 mil prisioneiros morreram. De acordo com estimativas mais recentes, mais de 20 mil prisioneiros morreram. Devido ao uso da V-2, estima-se que tenham ocorrido cerca de 8 mil vítimas, fazendo da V-2 a única arma cuja produção gerou mais vítimas que o seu uso.
Uso da V-2 e final da guerra
O uso da V-2 como arma teve início em setembro de 1944, com um lançamento sobre Paris. Pouco mais de 3 200 V-2 foram lançadas. Os principais alvos foram Londres (1358) e Antuérpia (1610). Surpreendentemente, a força explosiva de todas essas V-2 em conjunto era pouco maior que a capacidade de um bombardeiro médio da época. O seu trunfo era psicológico, porque contra essa arma inédita não havia defesas nem avisos, mas a sua importância militar estratégica era baixa. Os lançamentos continuaram até 27 de março de 1945, quando os dois últimos foguetes foram lançados contra Londres. Em janeiro de 1945, os principais membros da equipe de Peenemünde, liderada por von Braun, decidiram por uma retirada para a região central da Alemanha, de forma a ter mais chances de se renderem aos norte-americanos, temendo a conhecida crueldade dos soviéticos para com os prisioneiros de guerra. Tirando proveito de ordens e documentos conflitantes, von Braun forjou alguns documentos e com eles conseguiu evacuar e transportar cerca de 500 técnicos, engenheiros e cientistas para a região onde ficava a fábrica das V-2, conhecida como Mittelwerk, onde continuaram trabalhando. Poucas semanas depois da evacuação, souberam que Peenemünde fora capturada pelas tropas soviéticas. Temendo que os seus importantes documentos fossem destruídos pelo pessoal da SS, von Braun ordenou que os documentos fossem escondidos numa mina abandonada nos campos da região de Harz.
Exército
Em 20 de junho de 1945 o Secretário de Estado dos Estados Unidos aprovou a transferência de von Braun e seus especialistas para a América, no entanto, isso não foi tornado público até 1 de outubro de 1945. Von Braun estava entre os cientistas para os quais a Joint Intelligence Objectives Agency (JIOA) criou históricos falsos e excluiu qualquer registro de envolvimento com o Partido Nazista, concedendo a eles total liberdade para trabalhar nos Estados Unidos. Os primeiros sete técnicos alemães chegaram aos Estados Unidos no campo da Força Aérea de New Castle ao Sul de Wilmington, no Delaware em 20 de setembro de 1945. De lá eles voaram para Boston onde foram alojados no posto de serviço de inteligência do Exército de Fort Strong na ilha Long Island. Mais tarde, com exceção de von Braun, foram transferidos para o campo de provas de Aberdeen em Maryland, para separar e catalogar os documentos salvos de Peenemünde, permitindo que os cientistas dessem continuidade aos trabalhos com foguetes.
Popularizando o conceito
Repetindo o padrão estabelecido no início de sua carreira, von Braun, enquanto dirigia programas de desenvolvimento de mísseis no mundo real, continuava envolvido no processo de divulgar seus sonhos de um futuro onde os foguetes fossem usados para viagens espaciais. Desde 1950, publicando artigos no "The Huntsville Times", esse esforço resultou numa onda de publicidade ao redor de voos à Lua, impulsionada por dois filmes de ficção científica: "Destination Moon" e "Rocketship X-M". Em 1952, von Braun publicou pela primeira vez o seu conceito de uma estação espacial tripulada numa série de artigos intitulados "Man Will Conquer Space Soon!", na revista Collier's Weekly. Esses artigos eram ilustrados pelo artista Chesley Bonestell ajudando a divulgar suas ideias. Frequentemente, von Braun trabalhou em conjunto com seu amigo Willy Ley para publicar seus conceitos, os quais não por acaso, tinham um forte embasamento científico, antecipando muitos aspectos técnicos que mais tarde se tornaram realidade. Nesse mesmo período foram publicados trabalhos sobre viagens tripuladas à Marte, usando a estação espacial como ponto de partida.
NASA
A tarefa de construir um foguete capaz de colocar satélites em órbita foi atribuída à Marinha dos Estados Unidos, mas o foguete Vanguard resultante não se mostrou pronto para a tarefa. Em 1957, com o lançamento do Sputnik 1, havia um sentimento crescente de que os Estados Unidos haviam ficado para trás da União Soviética na corrida espacial. Isso fez com que as autoridades americanas decidissem usar a experiência de von Braun e sua equipe de alemães para criar um veículo de lançamento com capacidade orbital, algo que von Braun já havia proposto em 1954, mas foi rejeitado. A NASA foi formalizada por lei em 29 de julho de 1958. Um dia depois, o 50º foguete Redstone foi lançado com sucesso do Atol Johnston no Pacífico Sul como parte da operação Hardtack I. Dois anos depois, a NASA inaugurou o Marshall Space Flight Center no arsenal Redstone em Huntsville, a equipe de desenvolvimento da ABMA liderada por von Braun foi transferida para a NASA. Num encontro direto com Herb York no Pentágono, von Braun deixou claro que ele só iria para a NASA somente se o desenvolvimento do foguete Saturno continuasse. De julho de 1960 a fevereiro de 1970, von Braun se tornou o primeiro diretor do Marshall Space Flight Center.
Visitas ao Brasil
São conhecidas e documentadas, duas visitas de von Braun ao Brasil: uma informal em fevereiro de 1964 no Rio de Janeiro, e outra formal entre 12 e 15 de novembro de 1972, quando ele visitou Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Nesta segunda visita, conheceu o Cta, o INPE e a Embraer.
Depois da NASA
Depois de deixar a NASA, von Braun se tornou Vice-presidente de Engenharia e Desenvolvimento na Fairchild Industries em Germantown, Maryland em 1 de julho de 1972. Em 1973, um exame de saúde de rotina revelou um câncer renal, o qual não pôde ser controlado cirurgicamente nos anos seguintes. Von Braun continuou seu trabalho de acordo com as suas possibilidades, aceitando convites para palestras em colégios e universidades, dando sequência à sua campanha de cultivar o interesse de estudantes e novas gerações de engenheiros em voos espaciais tripulados e foguetes. Em uma dessas visitas na primavera de 1974 ao Colégio Allegheny, von Braun revelou alguns aspectos de sua vida pessoal, como uma alergia a travesseiros de pena e um certo desdém quanto a algumas músicas de rock daquela época.
O final
Em 16 de junho de 1977, Wernher von Braun morreu de câncer pancreático em Alexandria, Virgínia, aos 65 anos de idade, sendo enterrado no cemitério Ivy Hill.


