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Década Infame

A Década Infame na Argentina refere-se ao período entre 6 de setembro de 1930, com o golpe civil-militar que depôs o presidente Hipólito Yrigoyen, e 4 de junho de 1943, com o golpe militar que derrubou o presidente Ramón Castillo. O termo foi cunhado pelo historiador José Luis Torres.

Fonte: Wikipédia (pt)Texto didático por IAAtualizado em 29/07/2026

Pontos-chave

  • O período de 1930 a 1943 na Argentina é conhecido como a Década Infame.
  • Foi marcado por golpes de Estado, instabilidade política e governos autoritários.
  • A crise econômica mundial de 1929 teve forte impacto na Argentina, gerando tensão social.
  • Houve um declínio dos sistemas democráticos na América Latina durante este período.
  • Apesar da instabilidade política, a arte e a cultura argentinas viveram um período de grande produção e renovação.
01

Ditadura de Uriburu (1930-1932)

O governo de José Félix Uriburu, iniciado com um golpe militar, buscou implementar um modelo nacionalista e neocorporativista, mas enfrentou resistência e instabilidade.

Contexto do Golpe de 1930

A Crise de 1929 (Grande Depressão) afetou severamente a economia argentina, dependente do comércio exterior. Isso gerou tensão social com queda de salários e aumento do desemprego, criando um clima de incerteza e descontentamento que contribuiu para o contexto político do golpe. A crise dos sistemas democráticos era um fenômeno observado em toda a América Latina.

O Golpe de 6 de Setembro de 1930

Na manhã de 6 de setembro, Uriburu liderou tropas do Colégio Militar em marcha sobre Buenos Aires. Com apoio de civis, ele avançou até a Casa Rosada, forçando a renúncia do vice-presidente. Yrigoyen fugiu para La Plata, renunciou, foi detido e exilado na ilha Martín García, e sua casa foi saqueada.

Governo de Uriburu

Uriburu representava um nacionalismo católico neocorporativista, com um projeto de constituição mista que incluía uma câmara corporativa (com representação de sindicatos e empresários) e outra política. Ideologicamente, era influenciado pelo nacionalismo católico crescente desde os anos 20. A ditadura prendeu líderes radicais, proibiu manifestações públicas e greves, e decretou lei marcial.

Ensaio Corporativista

Inicialmente, Uriburu jurou respeitar a Constituição e a Lei Sáenz Peña, convidando à correção de "abusos" nas urnas, buscando apoio liberal. Contudo, logo retornou a ideais autoritários e corporativistas, propondo substituir o voto individual pela opinião de corporações, especialmente empresariais, com o movimento sindical em posição secundária e sujeito à "limpeza ideológica". O foco era restaurar a ordem, a propriedade e as hierarquias, com o Exército como chave do sistema político proposto, diferentemente dos fascismos europeus.

A Concordância

Após a dissolução do Partido Autonomista Nacional, os conservadores formaram uma aliança tácita entre partidos provinciais. Após o golpe, reuniram-se partidos antiyrigoyenistas, formando a Federação Nacional Democrática, que incluía conservadores de todas as províncias, a União Cívica Radical Antipersonalista e o Partido Socialista Independente. Uriburu tentou unificar esses grupos em um Partido Nacional, mas o líder democrata progressista Lisandro de la Torre resistiu.

02

Governo de Agustín P. Justo (1932-1938)

A aliança política "Concordância", composta pelo Partido Democrata Nacional, a União Cívica Radical Antipersonalista e o Partido Socialista Independente, governou a Argentina sob a presidência de Agustín P. Justo, enfrentando a oposição radical e os efeitos da Grande Depressão.

Revoluções Radicais

Durante o mandato de Justo, a oposição radical, que boicotava as eleições por considerá-las ilegítimas, promoveu levantes em 1933 e 1934 em várias províncias. Yrigoyen, doente, foi mantido em prisão domiciliar e faleceu em 1933. Muitos líderes radicais foram presos, exilados ou enviados para a Prisão de Ushuaia.

Economia e Pacto Roca-Runciman

A gestão de Alberto Hueyo, ministro da Fazenda, focou em restrições de gastos públicos e investimentos em transportes, com a criação da Direção Nacional de Estradas. Unificaram-se impostos provinciais e foi sancionado o primeiro imposto sobre a renda. O Pacto Roca-Runciman garantiu a compra de carne argentina pelo Reino Unido em troca de vantagens para empresas britânicas na Argentina.

Política Externa

Em 1933, a Argentina retornou à Sociedade das Nações. O chanceler Carlos Saavedra Lamas propôs o Tratado Antibélico de Não-Agressão e Conciliação. O governo de Justo mediou o fim da Guerra do Chaco entre Bolívia e Paraguai, rendendo a Saavedra Lamas o Prêmio Nobel da Paz em 1936. No entanto, Justo manteve uma postura distante em relação à política externa e à Guerra Civil Espanhola.

Política Econômica

Sob Federico Pinedo, a intervenção estatal na economia aumentou com a criação de juntas reguladoras para grãos, carnes, algodão e erva-mate. Foi criado o Banco Central da República Argentina em 1935, dirigido por Raúl Prebisch. A Corporação de Transportes protegeu os serviços ferroviários britânicos. O primeiro censo industrial registrou 600.000 trabalhadores, e as condições fomentaram a industrialização.

Situação Política

Em 1935, Marcelo T. de Alvear retornou do exílio, encerrando a abstenção eleitoral. A Concordância recorreu à fraude e repressão. A oposição uniu-se em 1936, e a pressão sindical resultou na Lei 11.729 de contrato de trabalho. O Escândalo da CHADE, envolvendo suborno de políticos, acentuou as divisões no radicalismo.

03

Governo de Roberto M. Ortiz (1938-1940)

Roberto M. Ortiz buscou restaurar a democracia, combatendo a fraude eleitoral e intervindo em províncias onde a sua própria coligação havia vencido por meios ilícitos. Sua presidência foi marcada pela doença e pela renúncia.

Contra a Fraude, Intervenções Federais

Ortiz decretou intervenção federal em províncias como Buenos Aires, Santiago del Estero, San Juan e Catamarca, onde a fraude eleitoral era evidente, mesmo que sua própria coligação tivesse vencido. Em Catamarca, a intervenção foi drástica após uma eleição extremamente fraudulenta, com o objetivo de garantir eleições livres.

Política Internacional

Na Oitava Conferência Pan-Americana em Lima (1938), a Argentina, sob a liderança de José María Cantilo, recusou um pacto de segurança coletiva proposto pelos EUA, mantendo sua tradição de neutralidade e dependência do Reino Unido. Após o Pacto Ribbentrop-Molotov e a invasão da Polônia, Ortiz declarou a neutralidade argentina.

Doença e Licença de Ortiz

O agravamento da diabetes de Ortiz, com perda de visão, e o luto pela morte de sua esposa levaram-no a solicitar licença do cargo em junho de 1940. O governo ficou à deriva, e o Escândalo das Terras de El Palomar, envolvendo corrupção, aumentou a crise política. Ramón Castillo assumiu a presidência interinamente.

04

Governo de Ramón Castillo (1940-1943)

Ramón Castillo, que já exercia o poder devido à doença de Ortiz, adotou uma política autoritária, reprimindo a oposição e intervindo em províncias. Seu governo foi marcado pelo retorno da fraude eleitoral e pela neutralidade na Segunda Guerra Mundial.

O Regresso da Fraude Patriótica

Castillo interveio em governos provinciais de oposição para consolidar o poder do Partido Democrata Nacional, dissolvendo a Concordância. Essa virada contra a luta contra a fraude eleitoral, antes apoiada por Ortiz, levou os partidos de oposição a buscarem uma união para combater o previsível retorno da fraude.

O Plano Pinedo

Federico Pinedo, ministro da Fazenda, apresentou o "Plano de Reativação Econômica" em setembro de 1940. O plano propunha sustentar preços de colheitas, estimular a construção com créditos, fomentar a procura interna e a indústria, e explorar a união aduaneira com o Brasil e a amortização da dívida com o Reino Unido através da nacionalização de ferrovias.

Indústria e Empresas Públicas

A crise econômica e a Segunda Guerra Mundial impulsionaram o desenvolvimento industrial. O Estado assumiu um papel ativo na promoção econômica, com obras públicas em larga escala e a criação de instituições de fomento. A suspensão das relações econômicas com os EUA, focados no esforço de guerra, forçou a Argentina a reconfigurar sua estrutura industrial.

Neutralidade e Militares

A Argentina manteve uma política de neutralidade na Segunda Guerra Mundial, apesar da pressão dos EUA após o ataque a Pearl Harbor. Castillo declarou estado de sítio para impedir manifestações pró-aliadas. A neutralidade era crucial para o comércio marítimo, especialmente com a Grã-Bretanha, e levou à criação da Frota Mercante do Estado.

Mais Escândalos

Escândalos como o "dos meninos cantores da Lotaria Nacional" e o "dos cadetes" (envolvendo relações sexuais consentidas entre cadetes e personalidades influentes) minaram a confiança na democracia liberal. A imprensa explorou esses casos, associando a "depravação moral" à decadência do governo de Castillo, gerando perseguições a homossexuais.

Reclamações Antárticas

Em 1940, a Argentina protestou formalmente contra o decreto chileno que estabelecia limites para suas reclamações antárticas. O Reino Unido também protestou. Em 1942, a Argentina declarou seus direitos antárticos e realizou a tomada de posse formal do território continental. Em 1943, houve um incidente com um navio britânico que removeu evidências da posse argentina.

05

Administrações Provinciais

As províncias argentinas viveram diferentes realidades durante a Década Infame, com intervenções federais, fraudes eleitorais e, em alguns casos, políticas progressistas e desenvolvimento de obras públicas.

Buenos Aires

Após o golpe, o governo de Buenos Aires foi intervencionado. As eleições de 1931 foram anuladas após a vitória do radical irigoyenista Honorio Pueyrredón. A UCR foi proibida de apresentar candidaturas irigoyenistas. Formou-se a Concordância, que venceu as eleições com Federico Martínez de Hoz em 1932, após o radicalismo abster-se.

Córdova

Carlos Ibarguren e Enrique Torino foram interventores federais em Córdova, expulsando radicais de seus cargos. O orçamento provincial foi reduzido, mas o déficit aumentou. Torino criou o Conselho Econômico e a Junta Econômica. Em 1931, a chapa Emilio Olmos-Pedro J. Frías venceu com quase 90% dos votos, com o radicalismo em abstenção.

Santa Fé

Interventores federais buscaram garantir o triunfo conservador em 1931, mas Luciano Molinas (Partido Democrata Progressista) venceu. O presidente Justo interveio na província, e Manuel María de Iriondo assumiu em 1937 após eleições fraudulentas organizadas pelo interventor Alvarado.

Tucumã

O governador irigoyenista de Tucumã, José Graciano Sortheix, foi deposto em 1930. Ramón S. Castillo e Horacio Calderón foram interventores. Juan Luis Nougués foi eleito em 1931, mas enfrentou conflitos com produtores de cana-de-açúcar. Em 1934, Justo decretou a intervenção federal.

Entre Ríos

San Luis e Entre Ríos foram as únicas províncias não derrubadas pelo golpe de 1930. Em Entre Ríos, Luis Etchevehere promoveu a substituição de vinhas por citrinos, fundou o Banco da Província e reformou a Constituição, estabelecendo o voto feminino e a laicidade do Estado. Apesar da fraude em 1937, o radical Enrique Mihura venceu as eleições seguintes, mas foi preso após o golpe de 1943.

Corrientes

A província esteve sob intervenção desde 1929. Atilio Dell'Oro Maini enfrentou a revolução de Gregorio Pomar. Pedro Numa Soto, do radicalismo antipersonalista, foi eleito, mas lidou com falta de fundos e revoltas. Juan Francisco Torrent desenvolveu obras públicas, mas usou fraude e perseguiu professores. Soto foi deposto por intervenção federal em 1942.

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Atividade Política

A Década Infame foi um período de intensa agitação política, com partidos consolidados, grupos de pressão atuantes e busca por novas formas de organizar a Nação Argentina, apesar do desencanto com a democracia eleitoral.

Partidos Políticos

O Partido Democrata Nacional (conservador) dominava a política nacional e provincial, organizado como aliança de forças provinciais. Formava a Concordância com a União Cívica Radical Antipersonalista e o Partido Socialista Independente, grupos liberais conservadores que dependiam do apoio conservador para ter influência eleitoral.

Movimentos Ideológicos

Na Federação Universitária Argentina, debatia-se a Reforma Universitária, com grupos defendendo uma reforma integral da sociedade. Havia também a Frente de Afirmação da Nova Ordem Espiritual, que propunha uma saída espiritualista para a crise, com intelectuais como Saúl Taborda e Carlos Astrada.

Grupos de Pressão

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) foi fundada em 1930, unificando centrais operárias. O movimento operário dividia-se entre socialistas e "sindicalistas" (antigos anarquistas focados em reivindicações laborais). A União Sindical Argentina (USA) foi refundada pelos sindicalistas após tentativas socialistas de tomar a CGT.

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Arte, Música e Literatura

Apesar da "infâmia" política e social, a Década Infame foi um período de grande produção e renovação artística, com o auge do tango, movimentos literários distintos e inovações nas artes plásticas.

A Era de Ouro do Tango

Após a morte de Carlos Gardel em 1935, a "guarda nova" do tango ganhou destaque, levando à sua "era de ouro". Maestros como Julio de Caro e Osvaldo Fresedo continuaram influentes. Surgiram orquestras maiores como as de Aníbal Troilo e Ángel D'Agostino, e cantores como Agustín Magaldi e Alberto Castillo se consagraram.

Literatura

A literatura argentina dividiu-se em dois movimentos: o Grupo de Florida, formado por escritores da classe alta focados na forma e influenciados pela Europa; e o Grupo de Boedo, composto por escritores da classe média preocupados com a denúncia social.

Artes Plásticas

O período foi rico em renovações nas artes plásticas. O Grupo de Paris (Pettoruti, del Prete, Xul Solar) atingiu seu auge. Artistas como Raúl Soldi, Antonio Berni e Raquel Forner alcançaram maturidade estilística. Surgiu o Grupo Orión, com pintores neorromânticos com toques surrealistas.

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Golpe Militar de 4 de Junho de 1943

A crescente pressão dos EUA para que a Argentina entrasse na Segunda Guerra Mundial, a instabilidade no Exército e a intenção de Castillo de impor uma fraude eleitoral em favor de Robustiano Patrón Costas levaram a um novo golpe militar em 1943.

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Outros Usos do Termo

O termo "Década Infame" também foi aplicado à presidência de Carlos Menem (1989-1999) e, por vezes, ao período 1999-2001, devido a críticas sobre políticas neoliberais e corrupção.

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