História do espiritismo no Brasil
Com a eclosão dos modernos fenômenos espíritas em Hydesville, nos Estados Unidos, pela mediunidade das irmãs Fox (1848), em pouco tempo estes se propagaram na Europa onde, na França, as chamadas "mesas girantes" se tornaram um modismo popular. Na França, esse tipo de fenômeno, em 1855, despertou a atenção do pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail. Como resultado de sua pesquisa, publicou a primeira edição de O Livro dos Espíritos, sob o pseudônimo de "Allan Kardec". A base da doutrina espírita esta contida nesta e em mais quatro obras publicadas posteriormente: O Livro dos Médiuns, 1861; O Evangelho segundo o Espiritismo, 1864; O Céu e o Inferno, 1865; A Gênese, 1868. Estes livros reunidos são chamados de "Pentateuco Kardequiano".
No Brasil, as ideias que deram origem ao espiritismo remontam às primeiras experiências com o chamado "fluido vital" (magnetismo animal, mesmerismo) por parte dos praticantes da homeopatia, nomeadamente os médicos Benoît Jules Mure, natural de França, e João Vicente Martins, de Portugal, que chegaram ao país em 1840 e o aplicavam em seus clientes. Entre as personalidades que se interessaram pelo estudo do "fluido vital" destacam-se José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da Independência, também cultor da homeopatia, e Mariano José Pereira da Fonseca (Marquês de Maricá), que, em 1844, publicou uma obra com ensinamentos de fundo espírita. O grupo mais antigo desses estudiosos e praticantes constituiu-se no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, em torno da figura do médico e historiador Alexandre José de Mello Moraes, sendo integrado por Pedro de Araújo Lima (Marquês de Olinda), Bernardo José da Gama (Visconde de Goiana), José Cesário de Miranda Ribeiro (Visconde de Uberaba) e outros vultos do Segundo Reinado.
Afirma-se que a história do espiritismo no Brasil remonta ao ano de 1845, quando, no então distrito de Mata de São João, na então Província da Bahia, teriam sido registradas as primeiras manifestações.[carece de fontes]? De acordo com Divaldo Pereira Franco, o ano teria sido 1849, tendo se caracterizado por um confronto entre elementos da Igreja Católica e espíritas, com a interveniência de força policial.[carece de fontes]? O fenômeno das mesas girantes foi noticiado pela primeira vez no país pelo jornal "O Cearense", 1853.[carece de fontes]? Em Salvador, capital da Bahia, foi fundado em agosto de 1857 o Conservatório Dramático da Bahia, do qual fazia parte Luís Olímpio Teles de Menezes. Foi neste grupo que Teles de Menezes travou contato com os estranhos fenômenos, vindo a corresponder-se com espíritas franceses. Nas páginas da Revue Spirite, sob o título "O Espiritismo no Brasil", Kardec informou aos seus leitores que o periódico "Diário da Bahia" em suas edições de 26 e 27 de setembro de 1865, trouxera dois artigos, tradução em língua portuguesa dos que haviam sido publicados, seis anos antes, pelo Dr. Amédée Dechambre (1812-1886), coordenador de publicação do "Dictionnaire encyclopédique des sciences médicales". Os artigos eram transcrições da "Gazette Médicale", onde aquele médico fizera uma exposição semiburlesca do assunto, referindo, por exemplo, que o fenômeno das mesas girantes e falantes já havia sido referido pelo poeta grego Teócrito (300-250 a.C.), pelo que concluía que, não sendo novo esse fenômeno, não tinha nenhum fundo de realidade.
O período Imperial
Na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, as primeiras sessões espíritas foram realizadas por franceses, muitos deles exilados políticos do regime de Napoleão III de França (1852-1870), na década de 1860. Alguns desses pioneiros foram o jornalista Adolphe Hubert, editor do periódico "Courrier du Brésil", o professor Casimir Lieutaud, e a médium psicógrafa, Madame Perret Collard. Em 1860, o professor Casimir Lieutaud, fundador e diretor do Colégio Francês no Rio de Janeiro, publicou, em francês, a obra "Les Temps sont arrivés" ("Os tempos são chegados"), considerada a primeira obra espírita impressa no Brasil. A tradução para a língua portuguesa de "O Espiritismo na sua mais simples expressão" ("Le Spiritisme à sa plus simple expression"), feita por Alexandre Canu, foi impressa em Paris em 1862, mesmo ano da primeira edição francesa.
O período Republicano
Com a Proclamação da República do Brasil (15 de novembro de 1889), a 22 de dezembro a FEB congratula-se com o Governo Provisório pelo advento do novo regime. Entretanto, estando o país ainda sem uma Constituição, o Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890, promulgou o Código Penal da República. Este diploma, de inspiração positivista, associava a prática do Espiritismo a rituais de magia e curandeirismo, conforme expresso em seu Artigo 157, que rezava: Os espíritas protestaram junto a Campos Sales, então Ministro da Justiça, sem sucesso. O relator do Código, João Batista Pinheiro, limitou-se a afirmar que o texto referia-se à prática do chamado "baixo Espiritismo". Em 22 de dezembro de 1890, Bezerra de Menezes, enquanto presidente do "Centro da União Espírita do Brasil", oficiou ao Presidente da República, Marechal Deodoro da Fonseca, acerca do novo Código Penal.
Desde a década de 1920 registravam-se no Brasil choques entre o espiritismo e a psiquiatria, que só vieram a acabar por volta da metade do século XX, devido a avanços como as pesquisas realizadas entre as décadas de 1950 e 1960 sobre a mediunidade no país pelo sociólogo e etnólogo francês Roger Bastide, que demonstrou os preconceitos e etnocentrismos nos anteriores estudos sobre o tema. Henrique Roxo (1877-1969), em seu "Manual de Psiquiatria" (1921) dedica um capítulo inteiro ao espiritismo, reproduzindo o discurso médico e católico da época, ainda marcado pelo escravismo, que remetia a crença, no país, a resquícios do fetichismo africano, observando: "Vê-se muito frequentemente o que se observa no cinema, nessas danças de negros, com seus movimentos extravagantes, suas contorções e seus gestos." Os profissionais formados na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro consideravam o espiritismo como uma patologia contagiosa, capaz de incapacitar grandes contingentes humanos para o trabalho. Devia, por essa razão ser reprimida pelas autoridades e erradicada por meio de campanhas de saúde pública:
O Espiritismo no país foi marcado, na década de 1950 e na de 1960, por dois grandes fenómenos: José Pedro de Freitas, popularmente conhecido por "Zé Arigó" - cuja prática mediúnica não se filiava estritamente à Doutrina Espírita ou a qualquer instituição oficial -; e Francisco Cândido Xavier, popularmente conhecido por "Chico Xavier". Zé Arigó, "recebendo" o espírito do Dr. Fritz, realizou gratuitamente tratamento mediúnico em milhares de pessoas e sofreu dois processos acusando-o de feitiçaria e exercício ilegal de medicina: um em 1958, no qual não foi preso pois recebeu indulto do então presidente Juscelino Kubitschek - cuja filha havia sido tratada por Arigó -, e outro em 1964, no qual ficou alguns meses preso mas sem parar de aplicar os tratamentos mediúnicos. Chico Xavier chegou a completar o 100º livro psicografado, sendo que sempre cedeu os direitos autorais de seus livros psicografados à instituições de caridade, e fundou em Uberaba junto com o médium e médico Waldo Vieira o centro espírita "Comunhão Espírita Cristã", onde realizaram grande atividade mediúnica e filantrópica; também sofreu acusação de fraude (não provada e depois retirada), em 1958, pelo seu sobrinho Amauri Pena, e esteve envolvido, com Waldo Vieira, no escândalo das chamadas "materializações de Uberaba", em 1964, que ocupou 70 páginas da revista "O Cruzeiro", ilustradas por 87 fotografias, em onze edições, ao longo de três meses.
A década de 1970 iniciou-se com as duas entrevistas históricas a Chico Xavier, veiculadas pela extinta TV Tupi Canal 4 de São Paulo, no programa "Pinga-Fogo", a primeira na noite de 28 de julho, que conseguiu a maior audiência da história da TV brasileira, e a segunda na de 21 de dezembro de 1971, que também foi um grande sucesso de audiência. No Rio de Janeiro, foi fundada a Rádio Rio de Janeiro (1971), a primeira emissora de rádio espírita do país. No início dos anos 70, houve também o começo do movimento "pedagogia espírita", tendo o filósofo José Herculano Pires como pioneiro. Em 1975 foi ao ar, pela Tv Tupi, a primeira telenovela brasileira com temática central espírita, A Viagem. No cinema, chegou às telas, em 1980, o filme Joelma 23º Andar, rodado em 1979 e dirigido por Clery Cunha e protagonizado por Beth Goulart, baseado na obra "Somos Seis", psicografada por Chico Xavier. Este é o primeiro filme brasileiro com temática central espírita e o único que retratou o incêndio do Edifício Joelma que deixou 179 mortos e mais de 300 feridos (1 de fevereiro de 1974). Também em 1979 houve um dos mais famosos casos envolvendo Chico Xavier, e que teve repercussão mundial: o caso em que José Divino Nunes, acusado de matar o melhor amigo, Maurício Henriques, foi inocentado pelo juiz, que aceitou como prova válida (entre outras que também foram apresentadas pela defesa) um depoimento da própria vítima, já falecida, através de texto psicografado por Chico Xavier.
A década de 1990 foi marcada pela constituição, em outubro de 1992, do Grupo de Estudos Avançados Espíritas, um grupo de estudos e divulgação de notícias virtual, que trouxe o movimento espírita para a Internet. No plano editorial, a literatura espírita popularizou-se com os chamados "romances espíritas", através de autores como Vera Lúcia Marinzeck ("Reconciliação", 1990; "Violetas na Janela", 1993) e Zíbia Gasparetto ("Vencendo o Passado", 2008). A popularidade desses autores e a crescente comercialização do livro espírita geraram, porém, tensões no movimento. Zíbia Gasparetto, que mantinha editora própria, rompeu com o movimento espírita institucional ao contrariar a norma segundo a qual o médium não deve lucrar com o que psicografa, e muitos leitores passaram a conhecer o espiritismo por esses romances, e não pelas obras de Kardec ou de Chico Xavier. Na década de 1990, o investimento em projetos gráficos mais elaborados, em distribuidoras especializadas e em ações de marketing mais agressivas causou desconforto num meio habituado a associar o livro espírita à caridade e ao desprendimento. Isso não impediu, entretanto, o surgimento de autores de sucesso como Elisa Masselli ("Nada Fica sem Resposta", 2001); Mônica de Castro ("Gêmeas", 2009); Marcelo Cezar ("O Amor É para os Fortes", 2010); Robson Pinheiro ("Tambores de Angola") e Rubens Saraceni (estes dois últimos também classificados como literatura umbandista), entre outros.
Ao longo da história do espiritismo no país, destacam-se as seguintes cisões ou dissidências ao kardecismo: Surgida também como uma dissidência do movimento espírita, desde setembro de 2002. Sem deixar de seguir a Doutrina Espírita, afirma fazê-lo com maior seriedade do que o movimento brasileiro em si, argumento usado para o afastamento.
Roustainguismo
O francês Jean-Baptiste Roustaing, contemporâneo de Allan Kardec, defendeu entre outras, a tese de que Jesus Cristo manifestou-se na Terra não em um corpo físico, mas sim espiritual. No Brasil a polêmica histórica resultante contribuiu para, e alimentou, uma longa cizânia entre os espíritas ditos "místicos" e os "científicos", com desdobramentos até aos dias de hoje.
Umbanda
Em 15 de novembro de 1908, durante uma visita de Zélio Fernandino de Moraes a uma sessão da Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro (sediada em Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro), um incidente culminou com a manifestação da entidade que se identificou como Caboclo das Sete Encruzilhadas, que anunciou a fundação de uma nova religião no país: a Umbanda.
Racionalismo Cristão
Na cidade de Santos, os imigrantes portugueses Luís José de Matos e Luís Alves Tomás fundaram, em 1910, o Centro Espírita Amor e Caridade, e lançaram, em 1914, "Espiritismo Racional e Científico Cristão", obra fundamental da nova doutrina, hoje distribuída sob o título "Racionalismo Cristão". Matos, que frequentava centros espíritas em Santos desde 1909, julgava haver excesso de religiosidade e misticismo entre os adeptos do espiritismo, e que este deveria ser "a ciência das ciências, a filosofia das filosofias, mas não deveria se vincular a qualquer dimensão religiosa".
Ramatisismo
Inicialmente denominado de "Espiritismo de Ramatis", e atualmente espiritualismo universalista, remonta à segunda metade da década de 1950, quando alguns centros espíritas começaram a estudar e defender as obras e ideias ditada pelo espírito Ramatis (corporificada sobretudo nas obras psicografadas por Hercílio Maes). Distinguem-se dos centros espíritas tradicionais em função da maior ênfase ao universalismo (origem comum das religiões) e ao estudo comparado de religiões e filosofias espiritualistas ocidentais e orientais. Nota-se também a influência mais acentuada de correntes de pensamento orientais, tais como o budismo e o hinduísmo.
Apometria
Embora não se trate de uma corrente religiosa ou doutrinária, fundamentou-se em ensinamentos ditados pelos espíritos. Surgiu na década de 1960, como uma forma de tratamento alternativo a doentes desenganados. Através de um trabalho de sistematização coordenado pelo Dr. José Lacerda de Azevedo, do Hospital Espírita de Porto Alegre, foram fixadas as Leis da Apometria.
Conscienciologia
Surgiu em meados da década de 1960, com o fim da parceria entre os médiuns Chico Xavier e Waldo Vieira, quando este último iniciou pesquisa própria com o que denominou projeção da consciência.


