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Transtorno de personalidade esquizotípica

O transtorno de personalidade esquizotípica é um transtorno de personalidade do cluster A e parte do espectro da esquizofrenia. É caracterizado por desordens do pensamento, ansiedade social, despersonalização e episódios breves de psicose. Os portadores deste transtorno apresentam dificuldades em criar e manter laços sociais, comportamentos tido como excêntricos, ideias de referência e dificuldades em manter a concentração.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 17/07/2026
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Origens Históricas

Em 1908 Eugen Bleuler cunhou o termo "esquizóide" para descrever indivíduos que tendiam ao isolamento, tinham expressões emocionais limitadas e falhavam em estabelecer contato com o mundo externo. Embora algum grau de esquizoidia fosse considerado comum entre a população, indivíduos altamente esquizóides eram propensos à desenvolverem esquizofrenia. Ernst Kretschmer enfatizava que estes indivíduos frequentemente relatavam a sensação de que uma parede de vidro os separava da humanidade, sentindo a entrada de novas pessoas em sua vida como um estímulo doloroso. Décadas depois, o conceito de temperamento esquizóide se ampliaria e se dividiria em três perturbações de personalidade distintas, dando origem ao transtorno de personalidade esquizotípica, transtorno de personalidade esquizóide e o transtorno de personalidade esquiva. O próprio Kretschmer, no entanto, não pregava essa divisão, acreditando que o indivíduo esquizóide incorporava em si a ambivalência

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Estrutura do Transtorno

Os sintomas do transtorno esquizotípico são usualmente organizados em três domínios diferentes: Disfunções cognitivo-perceptuais, déficits interpessoais e sintomas desorganizados. Há também sugestões de que o transtorno apresenta uma estrutura dividida em dois ou mesmo quatro domínios. O método de três domínios continua sendo, no entanto, o mais aceito, especialmente pois coincide com a organização feita com os sintomas de esquizofrenia.

Disfunções cognitivo-perceptuais

Pacientes com transtorno esquizotípico vivenciam uma severa despersonalização que afeta sua percepção corporal e identitária. Alguns pacientes sentem partes do seu corpo se tornando completamente dormentes, como se deixassem de existir, ou vivenciam partes corporais tão alheios à seu ser quanto um objeto. Há relatos de pacientes que sentem como se partes de seu corpo tivessem sido amputadas sem explicação, ou mesmo adquirem a convicção de que seus órgãos internos estão em processo de decomposição. Essas experiências não são meras metáforas, mas ilusões somáticas que desafiam a noção básica de integridade física. Assim como pacientes com esquizofrenia, indivíduos esquizotípicos apresentam dificuldade em processar informações relacionadas à si mesmos, demonstrando maior agilidade para reconhecer rostos alheios do que os próprios, por exemplo.

Déficits interpessoais

A anedonia social constitui um dos aspectos centrais desse quadro, representando a incapacidade de experimentar prazer através de vínculos sociais. Muitas vezes esses pacientes desconfiam excessivamente dos outros e desenvolvem sentimentos de aversão social que poderão fazê-los adotar um comportamento defensivo. A antagonomia se refere à tendência a se distanciar radicalmente do senso comum, inclinando o indivíduo a assumir espontaneamente pontos de vista considerados excêntricos, e a idionomia representa a fidelidade inexorável à própria excentricidade. Como destacou o psiquiatra suiço Ludwig Binswanger, as peculiaridades comportamentais destes pacientes não provem de uma escolha e nem de um mero desejo em ser diferente: Estes indivíduos não 'tentam' ser excêntricos, eles de fato o são. A excentricidade é, para esses indivíduos, tão natural quanto a conformidade o é para outros.

Sintomas desorganizados

Embora as pesquisas a respeito desse grupo de sintomas em específico ainda sejam contraditórias, a hipótese dominante é de que o discurso peculiar produzido por estes pacientes provêm dos mesmos processos dos distúrbios encontrados nas habilidades de comunicação de pacientes com esquizofrenia. Esses distúrbios na linguagem seriam caracterizados pelas chamadas 'associações soltas', um conceito inicialmente proposto por Bleuler no início do século XX e que tem sido apoiado por pesquisas modernas. Nas associações soltas, o discurso do paciente se torna vago e tangencial, por vezes fundindo duas ideias que não possuem forte semelhança. O paciente aparenta ter dificuldades em limitar seu discurso ao contexto ou à um tópico:

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Transtorno esquizotípico na infância

Apesar de geralmente diagnosticado em jovens adultos, o transtorno esquizotípico pode ser diagnosticado em crianças com idades entre 5 e 12 anos. O diagnóstico não costuma ser feito, no entanto, devido a profissionais optarem por um diagnóstico de autismo (pelas dificuldades de integração social), o que ofusca a presença de casos registrados de transtorno esquizotípico. Também pode ser confundido com um quadro de esquizofrenia infantil, mas os casos de transtorno esquizotípico possuem severidade flutuante e são agravados com o stress. Estudos realizados com indivíduos diagnosticados com transtorno esquizotípico revelam que adultos com transtorno esquizotípico comumente foram crianças extremamente sensíveis à críticas, sérias e socialmente desengajadas. Há suposições de que a elevada sensibilidade ao criticismo presente em crianças esquizotípicas ou pré-esquizotípicas reflita o fato de que um adulto esquizotípico possui elevada ansiedade social.

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Relação com outras desordens

Esquizofrenia

Embora na primeira vez que o transtorno esquizotípico tenha aparecido listado no DSM, o manual considerasse que o paciente poderia ter alucinações transitórias, a última edição do DSM considera o transtorno esquizotípico como uma desordem do espectro da esquizofrenia que se distingue desta pela ausência de alucinações. O CID, por outro lado, considera o transtorno esquizotípico como uma forma atenuada de esquizofrenia e lista a presença de alucinações como um critério diagnóstico, desde que estas sejam breves. As diferenças na classificação do DSM e do CID tem raízes histórias: a classificação do DSM foi mais influenciada pela ideia de esquizofrenia simples ou latente, e a do CID, pela ideia de esquizofrenia pseudoneurótica. Deve-se ressaltar de que a maioria dos estudos feitos sobre o transtorno esquizotípico levam o DSM em consideração, interpretando assim que alucinações não fazem parte dos critérios de diagnóstico.

Autismo

Por vezes o paciente esquizotípico é descrito como tendo pensamento autístico, podendo passar a impressão de que as duas desordens estão fortemente relacionadas, mas se trata de uma confusão de termos. 'Pensamento autístico' ou 'autismo' era originalmente usado para definir um sintoma da esquizofrenia, bem como desordens associadas à esquizofrenia, e se referia à tendência em se afastar da realidade. Tal uso do termo era especialmente comum no século passado. Posteriormente, o termo 'autismo' passou a designar um transtorno que nada tinha a ver com afastamento do mundo real: "Autismo significa afastamento da realidade em direção à fantasia, mas isto não ocorre na síndrome do autismo. O esquizofrênico pode se afastar da realidade para a fantasia, mas a criança autista não se afasta, ao invés disso, ele falha em desenvolver relações sociais - uma distinção crucial. Além disso, até onde podemos ver, o jovem autista tem deficits na sua capacidade de fantasiar, não um excesso."

Transtorno de personalidade esquizóide

Tanto o transtorno de personalidade esquizotípica quanto o Transtorno de Personalidade Esquizóide surgiram através da definição de sujeito esquizóide feitas no inicio do século passado. No entanto, a criação da categoria "personalidade esquizotípica" representou o estreitamento da definição de Transtorno de personalidade esquizóide. Na primeira versão do DSM, o transtorno esquizoide definia um indivíduo isolado e que possuía características excêntricas em sua personalidade: "Evitam relacionamentos próximos com os outros, há inabilidade de expressar hostilidade diretamente, mesmo sentimentos hostis comuns, e pensamento autístico [...] na puberdade há introversão, quietude, associabilidade, frequentemente com excentricidade.''

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Causas

Teoria genética

Embora listado no Eixo II da última edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV-TR), o transtorno de personalidade esquizotípica é geralmente compreendido como um transtorno do espectro da esquizofrenia. Está classificado no CID-10 na seção "esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes" não como um transtorno de personalidade e sim como uma versão mais moderada de esquizofrenia. Indivíduos diagnosticados com transtorno esquizotípico são muito mais comuns em famílias com pessoas diagnosticadas com esquizofrenia, transtornos do espectro da esquizofrenia e transtorno afetivo bipolar com sintomas psicóticos. O transtorno de personalidade esquizotípica é um "fenótipo estendido" que ajuda os geneticistas a rastrear a transmissão genética ou familiar dos genes que estão implicados na esquizofrenia.

Aspectos sociais / ambientais

Pessoas com transtorno de personalidade esquizotípica, assim como pacientes com esquizofrenia, podem ser bem sensíveis a críticas pessoais e hostilidade, e existem evidências que atualmente sugerem que certos modos de educação familiar, separação precoce, e negligência infantil podem levar ao desenvolvimento de traços esquizotípicos. Múltiplas formas de abuso infantil e sintomas de stress pós-traumático são associados com altos níveis de esquizotipia e sintomas de personalidade esquizotípica. Pacientes com transtorno de personalidade esquizotípica (bem como pacientes com transtorno de personalidade borderline) comumente sofreram tipos mais variados de trauma em comparação com pacientes com depressão e outros transtornos de personalidade. Indivíduos com traços esquizotípicos representam maior vulnerabilidade a apresentar pensamentos intrusivos relacionados à eventos traumáticos.

Neurodesenvolvimento

Há evidências crescentes de que o transtorno esquizotípico se trata de uma desordem do neurodesenvolvimento, e que eventos pré e pós-natais podem resultar no seu aparecimento, como por exemplo, exposições à influenza e à baixas temperaturas no quinto e sexto mês de gestação. Na China, indivíduos que foram expostos à terremotos de alta intensidade durante o sexto mês de gestação tinham maior presença de traços esquizotípicos na idade adulta, o que sugere que o stress pré-natal é um fator para o desenvolvimento do transtorno. Nos Estados Unidos, foi identificado que adolescentes diagnosticados com o transtorno frequentemente possuíam anomalias físicas menores, refletindo o mal desenvolvimento nos primeiros semestres de gestação. Má nutrição durante a gestação, complicações no parto e falta de amamentação foram também associadas à prevalência do transtorno.

Neuroquímica

Distúrbios relacionados aos níveis de cortisol foram observados em indivíduos esquizotípicos, tanto adultos quanto adolescentes. Estes níveis elevados de cortisol contribuem para a tendência aos sentimentos de stress experienciados por estes indivíduos, da mesma forma, níveis anormais de cortisol podem ser sequelas de seus danos psicossociais e traumas experienciados no começo da vida e contribuem para o mau funcionamento do hipocampo.

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Critérios de diagnóstico

O diagnóstico é baseado nas experiências reportadas pelo paciente, como também em marcadores do transtorno observados por um profissional da saúde mental. A lista de critérios, que precisam ser alcançados para o diagnóstico, está descrita no DSM-V. A última versão do DSM define o transtorno de personalidade esquizotípica como: "Um padrão difuso de déficits sociais e interpessoais marcado por desconforto agudo e capacidade reduzida para relacionamentos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico, que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos". O transtorno não ocorre exclusivamente durante o curso de esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressivo com sintomas psicóticos, outro transtorno psicótico ou transtorno do espectro autista. Se os critérios são atendidos antes do surgimento de esquizofrenia, é caracterizado como "“transtorno da personalidade esquizotípica (pré-morbido)”.

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Prevalência

O transtorno de personalidade esquizotípica ocorre em 2% da população geral e é um pouco mais comum em homens.

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Tratamento

Frequentemente eles buscam terapia para transtornos afetivos, ansiosos ou sociais, sendo o mais comum depressão maior (cerca de 30 a 50% dos casos). O terapeuta não deve desafiar e contrariar diretamente as crenças e pensamentos socialmente inadequados. Primeiro ele deve oferecer um ambiente acolhedor, solidário e dar atenção ao paciente procurando estabelecer um sentimento de confiança e segurança, pois trata-se de um indivíduo que carece de um sistema adequado de apoio social e normalmente não consegue estabelecer interações sociais saudáveis por causa de ansiedade extrema e por possuir pouca experiência formando amizades duradouras. Muitas vezes o paciente relata sensação de ser "diferente" e não se "encaixar" com os outros com facilidade, geralmente por causa de suas crenças e hábitos não compartilhados socialmente. A terapia é difícil e os resultados demoram a aparecer. Treinamento de habilidades sociais e outras abordagens comportamentais que enfatizam a aprendizagem das noções básicas das relações sociais e interações sociais podem ser benéficas. Deve-se ensinar o paciente a questionar suas próprias crenças e a buscar evidências sólidas para sustentá-las. Para isso o terapeuta pode se mostrar interessado e disposto a acreditar nas mesmas crenças do paciente desde que ele produza evidências, estimulando-o assim a fazer testes de realidade e questionando de forma educada se aquelas evidências são a explicação mais provável ou se existem outras possibilidades e explicações possíveis. Terapia em grupo pode ser útil para estimular o treino de habilidades sociais, porém a desconfiança e suspeitas podem tornar a ajuda em grupo e dinâmicas ineficientes ou até prejudiciais.

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Fontes consultadas

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