Guilherme II de Inglaterra
Guilherme II, também conhecido como Guilherme, o Ruivo, foi o Rei da Inglaterra de 1087 até sua morte, com influência e poder indo até a Escócia e a Normandia. Era o filho de Guilherme I e Matilde de Flandres.
Nascido por volta de 1060 no ducado da Normandia, ele é o terceiro filho de Guilherme o Conquistador (morto em 1087) e de Matilde de Flandres (morta em 1083). É portanto mais novo que Roberto Courteheuse e Ricardo (morto antes de 1074), e mais velho que Henrique. O sobrenome de "Ruivo" vem ou da cor dos seus cabelos ou do seu tom avermelhado. Embora esse sobrenome pouco fosse usado enquanto vivo, serve para os historiadores o distinguirem de outros Guilhermes de sua época. O monge-historiador Orderico Vital, algumas centenas de anos mais tarde, nomeia-o dessa forma ao longo de todo a sua História Eclesiástica. Guilherme o Ruivo é, tal como os seus irmãos, um aventureiro, caçador e soldado. Segundo o historiador britânico Frank Barlow, apesar de menos inteligente que seus irmãos, ele é perseverante. Durante a sua infância, leva uma educação através do monge erudita Lanfranco de Cantuária, na época abade da Abadia aux Hommes em Caen. Como terceiro filho do duque, poderá ter recebido um apanágio, mas confiando-o a Lanfranco, os seus pais talvez o tenham destinado à ordem. A morte de Ricardo entre 1069 e 1074, o segundo filho, transtorna os projetos do casal real: Guilherme volta para o seu pai e é nomeado cavaleiro. Observadores descrevem-no como um rapaz respeitador e bom, leal e fiel ao seu pai.
Tomada do reino
Guilherme provavelmente embarca em Touques em direção à costa inglesa. Dirige-se para Winchester onde se assegura do tesouro real. Depois junta-se ao arcebispo de Cantuária, o seu antigo tutor Lanfranco de Cantuária, que praticamente assume o papel de vice-rei. Este respeita os votos do Conquistador e coroa Guilherme a 26 de setembro de 1087, na abadia de Westminster, dezassete dias após a morte do rei. Para o historiador Frank Barlow, é um "golpe de Estado". Quando Guilherme o Ruivo sobe ao trono, não tem nenhuma experiência de governo nem conhece muito bem o país. Mas é ajudado por Lanfranco e assegura-se sem grandes dificuldades da submissão da administração real, dos xerifes e da nobreza ministerial. Num primeiro tempo, os barões anglo-normandos não reagem, talvez porque a maioria está na Normandia ou porque esperam pela reação de Roberto Courteheuse. Este último voltou para a Normandia desde que soubera da morte do pai, e faz-se reconhecer como duque da Normandia e conde do Maine.
Rebelião de 1088
Guilherme o Ruivo não hesita em distribuir o tesouro real às igrejas e xerifes dos condados, e escolhe comprar os serviços de conselheiro de Guilherme de Saint-Calais, bispo de Durham. Rapidamente, ganha o apoio da Igreja e dos barões anglo-normandos. Comete então um erro: entregar ao seu tio Odo, libertado da prisão por um moribundo Guilherme I, as suas posses na Inglaterra. Pouco agradecido, Odo organiza uma conspiração para unir a Normandia e a Inglaterra sob o único governo de seu sobrinho Roberto Courteheuse. A obrigação de obedecer a dois suseranos diferentes, e ainda por cima inimigos, colocava problemas de lealdade nos aristocratas anglo-normandos. Odo reuniu à sua volta grandes barões do reino, tais como Rogério II de Montgommery, Geoffroy de Montbray e Roberto de Mortain. Os rebeldes fortificaram os castelos de Rochester, Pevensey e Tonbridge. Na primavera de 1088, lançaram uma campanha militar saqueando terras do rei e de seus aliados, e aguardam o desembarque do duque Roberto. Mas este demora a embarcar, e Guilherme o Ruivo aproveita para mobilizar todas as forças disponíveis, e responde em triplicado.
Após a derrota da rebelião, as relações entre os dois irmãos ficaram ainda mais tensas. Henrique, o irmão mais novo, decidido a herdar de pelo menos um dos dois irmãos, tenta tirar alguma vantagem da situação. A sua preferência vai para Guilherme, mas o fraco e dispendioso Roberto é o mais fácil de explorar. Assim, em 1087-1088 ele compra, com o dinheiro da herança, Avranchin e Cotentin. Por seu lado, Guilherme o Ruivo compra os serviços dos vassalos de Roberto Courteheuse e prepara a invasão da Normandia. No decorrer do verão de 1090, já corrompeu a maioria dos barões da Alta Normandia, com fiéis centralizados em Eu. A situação no ducado começa a deteriorar-se, e apoiantes do rei iniciam uma revolta em Rouen, a capital. Henrique aproveita para se aproximar de Roberto indo ao seu socorro, e a revolta em Rouen é eliminada sem que Guilherme pudesse entrar em ação.
O tratado de Caen de 1091
Em fevereiro de 1091 Guilherme prepara a última fase do seu plano para reunir os territórios paternos. Desembarca na Normandia e instala-se em Eu. Contudo, não há nenhum confronto sério entre os exércitos. Este status quo termina no tratado de Caen que Guilherme de Saint-Calais, acabado de se reconciliar com o rei, aparentemente negocia entre os dois irmãos. Com esse tratado, fazem as pazes e designam-se herdeiros um do outro. Guilherme mantém o condado d'Eu e o porto de Cherbourg. Em troca, Guilherme ajuda o seu irmão na recuperação dos territórios do ducado que tivera de conceder para comprar fidelidade. Os dois irmãos atacam então Henrique, senhor de Avranchin e de Cotentin, sitiam-no no Monte Saint-Michel. Derrotado, Henrique acaba por se exilar em França.
1093-1094
Guilherme o Ruivo mantém Eu e ativa uma aliança com o conde da Flandres. Orderico Vital indica que o rei inglês tem então cerca de vinte castelos no ducado da Normandia. No Natal de 1093 Roberto Courteheuse pede-lhe para respeitar os termos do tratado de Caen sob pena de o considerar como caducado. Espera uma ajuda que não vem para reconquistar o condado do Maine. Após um encontro infrutífero entre os dois irmãos (fevereiro de 1094), Guilherme o Ruivo denuncia ele também o tratado. Roberto assegura-se do apoio militar do seu suserano, o rei Filipe I de França, enquanto que Guilherme apela ao seu irmão Henrique para ajudá-lo. Finalmente, Guilherme consegue desligar o rei de França da causa de Roberto. Nenhum dos dois lados parte para uma batalha decisiva. Guilherme regressa ao seu reino, e deixa Henrique na luta contra o seu irmão.
O governo de Guilherme o Ruivo é essencialmente a continuação da política de seu pai. Consolida a maior parte das estruturas que o seu pai improvisara e que colocara rapidamente de pé após a conquista normanda da Inglaterra. Por uma lado retoma os tradicionais poderes dos reis anglo-saxões, anterior à conquista normanda. E de outro lado, a importação do feudalismo normando assegura-lhe um melhor controlo sobre a nobreza, pois permite-lhe intervir na sucessão das honras. O poder real alarga-se em direções por vezes impopulares tais como por exemplo a constituição de florestas reais (notavelmente o New Forest). A sua presença quase contínua no reino (até 1096) é igualmente uma novidade à qual a sua administração, barões e Igreja não estão habituados. Nos primeiros anos a sua principal preocupação é a proteção das fronteiras. Em 1091 luta contra os escoceses e os galeses (irá combater novamente os galeses em 1095 e 1097) e anexa Cúmbria em 1092. Em 1091, antes de os dois exércitos se confrontarem, obtém a paz dos escoceses, e entende-se com Malcolm III da Escócia para que as relações dos dois reinos sejam idênticas às do tempo do Conquistador. Assim, Malcolm faz uma homenagem condicional a Guilherme o Ruivo e jura-lhe fidelidade. Em troca recebe o condado de Huntingdon, que já possuíra antes de 1087. Com a sua morte em 1093, Guilherme toma partido pelos filhos de Malcolm quando é o seu irmão Donald III que subiu ao trono. E é o seu protegido Edgar I que toma o controlo do reino. Também este irá reconhecer Guilherme como seu suserano.
Presságio
Em março de 1093, Guilherme o Ruivo fica subitamente doente quando se encontrava no País de Gales. É repatriado para Gloucester e ali fica durante toda a Páscoa. Imagina então estar a morrer, e confessa-se a Anselmo, abade de Notre-Dame du Bec. Promete mudar de vida e de começar com uma série de reformas no reino. Libera todos os seus prisioneiros e anula as dívidas. Obriga Anselmo a ser arcebispo de Cantuária, lugar vago desde a morte em 1089 de Lanfranco de Cantuária, e faz doações nos mosteiros. Segundo Frank Barlow, é também possível que Anselmo o tenha feito prometido casar-se. Assim que recupera a saúde, Guilherme planeia casar com Edite da Escócia,[nota 2] filha de Malcolm III, então com doze anos de idade. Visita-a na abadia onde é educada, mas a abadessa convence-o de que ela teria seguido votos, e ele renuncia ao casamento. No outono do mesmo ano, Malcolm III invade a Inglaterra, mas cai numa armadilha e é morto por Roberto de Montbray, conde de Nortúmbria.
Regresso à Inglaterra
Em janeiro de 1095 Guilherme o Ruivo volta para a Inglaterra, depois de gastar muito dinheiro na Normandia com muito pouco resultado. Na sua ausência, uma revolta generalizada no País de Gales levou a que os senhores normandos perdessem o controlo de grande parte dos territórios conquistados. Guilherme descobre também uma conspiração para substituí-lo no trono pelo seu primo Étienne d'Aumale, sobrinho de Guilherme o Conquistador. No verão de 1095 o rei lidera um exército em Nortúmbria para sitiar o castelo do instigador da conspiração: Roberto de Montbray. Após a queda de Newscastle, obriga-o a refugiar-se na fortaleza de Bamburgo. Deixa aos seus tenentes a continuação do cerco e parte para o País de Gales, onde a situação piorava: os galeses tomaram Montgomery, o castelo do conde de Shrewsbury Hugo de Montgommery. Em novembro, tiveram lugar vários combates, mas os galeses não abandonavam a luta. Entretanto, Roberto de Montbray, sitiado no priorado de Tynemouth, rende-se. Ao contrário do que acontecera em 1088, desta vez os rebeldes são duramente punidos. Inicia-se um processo por traição em Salisbúria, no local de Sorvioduno. Roberto de Montbray fica preso para o resto da sua vida, o conde Guilherme d'Eu perde um duelo judicial e morre das feridas, depois de ser castrado. Vários outros são mutilados, presos, banidos ou tiveram de pagar pesadas indemnizações.
Relação com os barões
Para aconselhá-lo em diversos domínios, Guilherme coloca à sua volta companheiros de campanha e amigos como Urso de Abbetot e Roberto FitzHamon, Hamon e Roberto Blouet. Após as rebeliões de 1088 e 1095, retira as posses a alguns grandes barões do reino, com Odo de Bayeux, Eustácio II de Bolonha e Roberto de Montbray. Nomeia novos condes, pessoas de grandes famílias de barões, como Guilherme de Warenne, Henrique de Beaumont e Gualtério II Gifardo. Recompensa também alguns companheiros como Roger de Nonant. A sua administração é tão eficaz que em 1096 lhe bastam alguns meses para reunir 10 mil marcos (7 mil livras), necessários para a hipoteca do ducado da Normandia. E isso graças a um imposto especial. No entanto, os barões do reino julgam a pressão fiscal como excessiva. Quando de sua subida ao trono, o seu irmão Henrique julgará preferível prometer renunciar a essas práticas.
Relação com a Igreja
Perante a Igreja, Guilherme não mostra tanto respeito quanto o seu predecessor, nem manda construir nenhum mosteiro. Mas apesar da sua reputação anticlero, não desdenha os conselhos de Anselmo de Cantuária, Guilherme de Saint-Calais, Vulstano de Worcester, Roberto Bloet e, nos últimos anos, de Vauquelino de Winchester. Para a administração do seu reino, mantém uma parte dos que ajudaram o seu pai, como o capelão Rainulfo Flambardo, que o serve com lealdade durante todo o seu reinado. Este último torna-se um primeiro ministro antes do tempo. Flambardo é encarregado das finanças, e o seu objetivo principal é o de fazer entrar no tesouro real a maior quantidade de dinheiro possível. Graças a ele, Guilherme aumenta os rendimentos, aumentando ou criando novas taxas e concedendo diretamente a si mesmo alguns benefícios eclesiásticos. Vende também abadias reais, disfarçando o preço sob a forma de uma ajuda ou de uma doação, aos candidatos de sua escolha. Todavia, tudo indica que essas práticas eram aceites pelo Clero. A nomeação de Anselmo para arcebispo de Cantuária, quando Guilherme se encontrava doente em 1093, fora talvez um dos seus raros erros. O arcebispo está em permanente conflito com ele. Censura principalmente a sua moral e a exploração que faz dos benefícios eclesiásticos. Em 1094 Anselmo vê recusada a organização de um grande concílio da Igreja inglesa, principalmente para condenar as práticas de sodomia e incesto, práticas correntes no reino.
Quinta-feira, dia 2 de agosto de 1100, Guilherme o Ruivo participa de uma caça ao veado em New Forest (no condado de Hampshire, na Inglaterra), com seus companheiros[nota 3] quando, no final da tarde, é morto por uma seta no coração. Já por volta de 1070 o seu irmão Ricardo perdera a vida nesta floresta, e em maio de 1099 também o seu sobrinho ali tivera uma morte semelhante. Alguns anos mais tarde, o monge e historiador Guilherme de Malmesbúria acusaria Gualtério II Tirel, um nobre francês, de ser o responsável pela sua morte. Este participava da caça; assim que o rei foi encontrado morto, deixou a floresta e regressou precipitadamente a França. Mas Suger de Saint-Denis, amigo e biógrafo de Luís VI de França, inocenta Tirel afirmando que este jurara em várias ocasiões não ter estado, nesse dia, em companhia do rei, nem de o ter visto. A maioria dos cronistas contemporâneos viram o evento como vingança divina para punir um blasfemo.
O seu melhor retrato vem de Guilherme de Malmesbúria, embora este não seja um seu contemporâneo. Segundo o historiador, Guilherme o Ruivo era um homem pequeno, com uma proeminente barriga e de tom de pele avermelhada e gostava de se vestir com a última moda. Seria loiro, mas esse ponto é muito discutível. Como membro da aristocracia, adotara o estilo de corte inglês, com cabelos compridos, bem que o concílio de Rouen de 1096 tenha condenado o uso de cabelos compridos, associando-o à deturpação da moral. Em privado, com os amigos, adotava uma atitude informal e mostrava-se muito à vontade; mas em público fazia sentir a sua falta de eloquência. Tinha também tendência a gaguejar quando se enervava. Os que se aproximavam de Guilherme o Ruivo deviam ter a noção de que se tratava de um homem perigoso. A repressão e a conspiração de 1095 revelam a face negra do caráter do rei: ele cegou e castrou o seu primo Guilherme d'Eu, e mostrou-se impiedoso para com os rebeldes de baixo estatuto. Desenvolveu uma paranoia para com os aristocratas a seu redor. Anselmo descreve-o como um touro selvagem. Se o humor e a ironia de Guilherme o Ruivo, e a sua imagem cavalheiresca podem torná-lo simpático para alguns historiadores, a sua crueldade e brutalidade não podem ser esquecidas.
Sexualidade
Guilherme nunca tomou esposa ou amante, nem teve filhos. Como um rei solteiro e sem herdeiro, Guilherme teria sido pressionado a tomar uma esposa e teria recebido inúmeras propostas de casamento. Várias explicações alternativas surgiram para isso. Ele pode ter feito um voto de castidade ou celibato. Pode ter usado a promessa de um possível casamento como alavanca para fazer alianças. Pode não ter desejado uma mulher poderosa em sua corte: seu pai estava constantemente em desacordo com sua mãe. Alguns sugeriram que William pode ter sido homossexual, embora isso pareça estar em desacordo com os cronistas que afirmam que William teve amantes femininas e com o fato de que monarcas que, segundo rumores, tiveram amantes do mesmo sexo, como Eduardo II, eram conhecidos por se casar por motivos políticos.


