Bashar al-Assad
Bashar Hafez al-Assad é um político sírio que foi presidente da Síria e secretário-geral do Partido Baath de 2000 a 2024, quando foi derrubado do poder pela oposição síria após uma guerra civil de quase quatorze anos. Ele ascendeu à presidência após a morte de seu pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria por vinte e nove anos. Seu regime foi marcado por constantes abusos de direitos humanos, com seu governo sendo caracterizado como uma ditadura personalista sob um estado policial totalitário.
Nascido em Damasco, Bashar al-Assad veio de uma família muito envolvida com política, sendo seu pai, Hafez al-Assad, o próprio Presidente da Síria. Assim como seus irmãos, ele não via seu pai com muita frequência e afeto não era algo demonstrado dentro da família. Ele foi descrito como uma pessoa tímida e de voz mansa, com sua irmã Bushra o acusando de não ter pulso firme. Assad recebeu sua educação primária e secundária na Escola Árabe-Francesa de al-Hurriya, em Damasco. Depois estudou oftalmologia em sua cidade natal e em seguida foi para Londres concluir os estudos. Inicialmente tinha poucas aspirações políticas e seu pai educara seu irmão mais velho, Basil al-Assad, para ser o futuro presidente. Porém a morte deste em um acidente de automóvel mudou a situação e Bashar converteu-se no herdeiro político de seu pai, que viria a falecer em 10 de junho de 2000. Bashar al-Assad tornou-se então General do Estado Maior e Chefe Supremo das Forças Armadas Sírias. Nomeado candidato único pelo Partido Árabe Socialista Baath (único partido do regime) para a Presidência da República, foi eleito mediante referendo em 10 de julho de 2000, tomando posse em 17 de julho, um mês após o falecimento de seu pai. Em dezembro de 2000 casou-se com Asma al-Assad.
Bashar al-Assad foi inicialmente tachado como um "reformista" quando assumiu a presidência da Síria no ano 2000. Ele, contudo, perpetuou o sistema político deixado por seu pai Hafez al-Assad, concentrando em si toda a autoridade política, silenciando a oposição e colocando apoiadores e familiares em posições de poder dentro do governo. No auge da Primavera Árabe, a imprensa estatal síria divulgou negativamente a imagem do presidente egípcio Hosni Mubarak, destacando-o como aliado dos Estados Unidos. Em entrevista ao The Wall Street Journal, Assad afirmou-se "anti-Israel" e "anti-Ocidente" e que por conta destas posições ele não correria risco de ser deposto pelo povo. Em 2009, Assad reuniu-se com cientistas e líderes políticos norte-americanos durante um evento diplomático e expressou seu interesse em construir centros e pesquisa visando utilizar ciência e tecnologia ao crescimento econômico.
Período pré-guerra civil: 2000–2011
O começo de seu mandato foi marcado por uma esperança de mudanças democráticas, que foi frustrada com a continuidade das políticas de seu antecessor. Ante à ameaça da ideia de guerra preventiva levada a cabo pelo governo dos Estados Unidos a partir de 2001, a instabilidade no Líbano, na qual a Síria mantinha uma forte presença militar, e as constantes tensões com seu vizinho Israel, Bashar al-Assad procurou manter um discurso reformista que poderia satisfazer os anseios da União Europeia e dos Estados Unidos, mas que na prática não produziu nenhuma concessão ao movimento de oposição do país. A forte pressão internacional sobre Bashar al-Assad após a morte do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, cuja autoria foi atribuída aos serviços de inteligência sírios, fez com que as tropas mantidas no Líbano fossem retiradas em 2005.
Economia
De acordo com a ABC News, como resultado da guerra civil, "as regiões da Síria controladas pelo governo estavam truncadas em tamanho, devastadas e empobrecidas". As sanções econômicas impostas por Estados Unidos e Europa antes e durante a guerra ajudaram ainda mais a desintegrar a economia nacional. A pouca indústria que ainda existe no país era estritamente controlada pelo governo, com as políticas de liberalização da economia sendo revertidas por causa do conflito. Um estudo da London School of Economics afirmou que, como resultado da guerra civil, uma "economia de guerra" se desenvolveu na Síria. A economia e infraestrutura do país está em ruínas, com o desemprego sendo superior a 50% em áreas já pacificadas pelo regime Assad e 85% da população vivendo na linha da pobreza. Ainda assim, segundo um estudo, a economia de guerra permitiu que, do caos e da violência, alguns negócios começassem a prosperar.
Abuso de direitos humanos
A imprensa na Síria sob o regime Assad era fortemente controlada pelo Estado. Websites como a Wikipédia em árabe, YouTube e Facebook foram intermitentemente bloqueados entre 2008 e 2011. Grupos de direitos humanos como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, emitiram relatórios detalhados sobre como a polícia secreta de Assad supostamente torturava, aprisionava e matava vários oponentes políticos e aqueles que falavam contra o regime. Assad, numa entrevista para a ABC News em 2007, afirmou: "Nós não temos presos políticos". Contudo, o The New York Times reportou que dos mais de 30 dissidentes políticos sírios, que organizaram um grupo de oposição em 2007, ao menos 3 dos cabeças foram presos pelo regime. O premiado jornalista William R. Polk afirmou que a Síria sob o Partido Baath era uma "tirania" e o povo "vivia com medo" e que Assad, assim como seu pai, utiliza de eleições fraudulentas e controladas para dar uma aparência de legitimidade, embora mantenha a sociedade civil sob pressão. Já James Denselow, do jornal britânico The Guardian, afirmou, logo no começo da guerra civil, que Assad não poderia realizar reformas nem se quisesse, o descrevendo como "o ditador que não pode ditar", argumentando que os grupos que formam a base de sustentação do regime não aceitariam isso. No livro Syria at Bay, por Carsten Wieland, afirmou ainda que uma fonte jornalistica síria anônima descreveu Assad como alguém que "faz sua opinião baseado na última pessoa com quem falou", enquanto sua irmã, Bushra, referiu ao irmão como "estúpido e nervoso".
Apoio interno e oposição
A oposição síria sempre foi fragmentada e teve dificuldades em se articular. Os líderes seculares e que desejavam uma "mudança democrática" optavam ou foram forçados ao exílio. Os movimentos anti-Assad recebiam apoio dos Estados Unidos, da Europa e de potências do Oriente Médio (como a Arábia Saudita). Internamente, a oposição era dividida entre facções de secularistas, moderados e fundamentalistas islâmicos. Dentro do Parlamento Sírio, não há partidos de oposição ao regime, mas existem grupos de parlamentares que afirmam ser independentes, embora tais políticos tenham que ser "sancionados" pelo governo. Durante a guerra civil, a população drusa permaneceu majoritariamente neutra, tentando ficar de fora do conflito, enquanto era citado que boa parte destes apoiavam o governo Assad. Esse apoio foi abalado em fevereiro de 2015 quando o influente Xeique Wahid al-Balous foi assassinado. Isso levou a uma série de protestos em regiões drusas, que deixou ao menos seis policiais mortos. Foi reportado que durante boa parte da guerra civil síria a maioria das minorias religiosas, como os alauitas e os cristãos, favoreciam o regime Assad devido o seu secularismo e o medo diante dos radicais islâmicos. Contudo, o apoio entre os cristãos assírios era pequeno pois estes acreditavam que o governo os utilizava como "marionetes" e negava sua distinta etnia, como não árabes. A comunidade síria alauita foi descrita como a principal base de apoio ao regime da Família Assad e domina o governo (incluindo postos nos gabinetes de segurança), mas este apoio não seria unanime.
Relações exteriores
Antes da guerra civil, a Síria de Bashar al-Assad era definida por seu alinhamento estratégico com o Irã e a Rússia, e por seu relacionamento adversarial com os Estados Unidos, a União Europeia e seus aliados regionais no Oriente Médio. A pedra angular de sua política externa era o "Eixo da Resistência", uma aliança estratégica com a República Islâmica do Irã e seus grupos aliados, notadamente o Hezbollah no Líbano. Essa parceria fornecia a Damasco apoio político e econômico crucial, posicionando-o como um ator chave na oposição à influência israelense e americana na região. Simultaneamente, a Síria mantinha uma parceria fundamental e de longa data com a Rússia, que incluía cooperação militar e o acesso à instalação naval russa em Tartus, a única base mediterrânea de Moscou. Regionalmente, as relações da Síria eram tensas; ela estava isolada pelos estados do Golfo liderados por sunitas, era hostil em relação a Israel, com quem tinha um estado de guerra oficial, e sua influência no Líbano era profundamente ressentida após uma presença militar de vinte e nove anos. Apesar de um engajamento ocasional e limitado com o Ocidente, o regime estava amplamente isolado e sujeito a sanções dos Estados Unidos devido ao seu apoio ao terrorismo e ao seu envolvimento no Líbano.
Guerra do Iraque
Assad foi um dos principais opositores da Invasão ao Iraque em 2003 apesar da histórica animosidade entre os dois países. Neste período, o líder sírio fez uso de seu assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas votando contra a resolução encabeçada pelos Estados Unidos. De acordo com o veterano da inteligência norte-americana Malcolm Nance, o governo sírio havia desenvolvido profundas relações com Izzat Ibrahim al-Douri, um dos líderes do Conselho do Comando Revolucionário. Apesar das divergências históricas entre as duas facções do Baathismo, al-Douri teria aconselhado Hussein a abrir seus dutos petrolíferos para a Síria, construindo uma relação financeira com a Família Assad. Após a Invasão do Iraque, al-Douri organizou o Comando Nacional de Resistência Islâmica que coordenava as maiores operações contra as forças armadas estadunidenses. Em 2009, David Petraeus, que liderava o Comando Central dos Estados Unidos, informou que al-Douri estaria vivendo na Síria.


