Pesquisa · Mapa mental

Adão e Eva

Segundo o mito de criação das religiões abraâmicas, Adão e Eva foram o primeiro homem e a primeira mulher criados por Deus, sendo o centro da crença na humanidade como essencialmente uma única família, com todos descendendo de um par original de ancestrais. Proveem também a base das doutrinas da queda do homem e do pecado original, embora estas não sejam pregadas no judaísmo ou no islamismo.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 01/07/2026
01

Etimologia

Adão, originalmente em hebraico: אָדָם; romaniz.: Adám; 'homem', radical de 'terra' (em hebraico: אֲדָמָה; romaniz.: adamá); emprestado como Ādam em árabe: آدم, lit. 'homem'. Também, já que דם significa 'sangue,' o nome também significaria 'homem de sangue.' Logo, devido a ligação entre o sangue e o fôlego de vida, Adão significaria 'homem vivo.' Eva, originalmente em hebraico: חוה; romaniz.: Chavá, derivado do de em hebraico: חָוָה; romaniz.: chavá; lit. 'vivo',; emprestado como Ḥawwāʼ, em árabe: حواء, translit. Raua. O nome de Eva nunca é revelado ou usado no Alcorão, sendo mencionada pelo nome apenas no Hádice.

02

Narrativa da Bíblia Hebraica

Nos 11 primeiros capítulos do Gênesis, é contada a história mítica dos primeiros anos de existência do mundo. A história conta que Deus criou o mundo e todos seus seres, e colocou o primeiro homem e mulher no Jardim do Éden, sobre como foram banidos da presença de Deus, como ocorreu o primeiro assassinato, e a decisão de Deus de destruir o mundo e salvar apenas Noé e seus filhos; a nova humanidade descendeu desses filhos e se espalhou pelo mundo. Apesar do novo mundo ser tão pecaminoso quanto o antigo, Deus resolveu nunca mais destruir o mundo por inundação, e a História acaba com Terá, pai de Abraão, do qual descendeu o povo escolhido, os Israelitas. Nem Adão nem Eva são mencionados em outras partes das escrituras hebraicas, exceto por uma única menção a Adão em uma genealogia em I Crônicas 1:1, sugerindo que, embora sua história veio a ser prefixada à história judaica, tem pouco em comum com ele.

Narrativa da Criação

Adão e Eva são considerados o primeiro homem e mulher da Bíblia. Em Gênesis 1, nenhum nome é citado, sendo que "homem" parece ter um sentido coletivo, como humanidade, e homem e mulher são criados simultaneamente. Já na narrativa em Gênesis 2-3, ele carrega o artigo definido ha, indicando que esse é "o homem". Nesses capítulos Deus molda "o homem" (ha adam) do barro (adamah), soprando vida em suas narinas, e fazendo-o o cuidador de sua criação. Deus então cria para o homem uma ezer kenegdo, uma "ajudante consoante a ele", da sua costela. Ela é chamada de ishah, "mulher", porque, diz o texto, ela é formada de ish, "homem". O homem então a recebe feliz, e ao leitor é dito que nesse momento o homem deixa seus pais para se ligar a uma mulher, tornando-se uma só carne.

A Queda

O primeiro homem e mulher estão no Jardim do Éden, de Deus. A eles eram permitido comer e desfrutar de todas as árvores, exceto uma, a árvore do conhecimento do bem e do mal. A história continua em Gênesis 3 com a narrativa da expulsão do Éden. A mulher é tentada por uma serpente falante a comer o fruto proibido, e dá para o homem, que também come. Deus amaldiçoa os três, o homem a uma vida de trabalho duro seguida de morte, a mulher à dor do parto e à subordinação ao marido, e a serpente a rastejar-se sobre sua barriga e sofrer o ódio do homem e da mulher. Deus então cria roupas para o homem e a mulher, que agora tem o aspecto quase divino de conhecer o bem e o mal, e então os bane do jardim antes de serem capazes de comer o fruto da segunda árvore, a Árvore da Vida, e viver para sempre.

Descendentes

Gênesis 4 conta a história fora do jardim, incluindo o nascimento dos primeiros filhos de Adão e Eva, Caim e Abel, e a história do primeiro assassinato. Nasce o terceiro filho homem Sete, assim como "outros filhos e filhas" (Genesis 5:4). Gênesis 5 lista os descendentes de Adão, de Sete a Noé, com as idades que tinham no nascimento de seus primogênitos, e as idades de suas mortes. A idade de Adão é dada como 930 anos. De acordo com o Livro dos Jubileus, Caim casou-se com sua irmã Avan e Sete casou com outra irmã Azura.

03

Tradições abraâmicas

Judaísmo

No Judaísmo antigo, haviam duas narrativas distintas sobre a criação do homem. A primeira afirma, "Homem e mulher, Ele criou", implicando a criação simultânea de Adão e Eva. Na segunda narrativa Eva é criada depois de Adão. O Midrash Rabá (Genesis 8:1) reconcilia ambas as narrativas, dizendo que "Homem e mulher, Ele criou", indicando que Deus originalmente criou Adão como hermafrodita, fisicamente e espiritualmente tanto homem quanto mulher, ao mesmo tempo, antes de separá-lo nos seres que seriam Adão e Eva. Rashi, o mais influente dos intérpretes judeus, disse que Deus criou Adão "com duas faces, depois separou-as". Como o comentário do rabino, escrito na Idade Média, era considerado indistinguível da Torá por muitos judeus, essa ideia foi aceita por séculos.

Cristianismo

Alguns Pais da Igreja acusavam Eva como responsável pela queda do homem, e portanto também todas as mulheres, por ter tentado Adão a cometer o tabu. "Vocês são a porta do diabo", Tertuliano dizia a suas leitoras, e ainda explicava que eram também responsáveis pela morte de Cristo: "Por causa de sua deserção [i.e. um pecado punível por morte], até o Filho de Deus teve que morrer". Em 1486 os Dominicanos Kramer e Sprengler usaram argumentos semelhantes no Malleus Maleficarum ("Martelo de Bruxas") para justificar a perseguição de "bruxas". A arte cristã medieval frequentemente retratava a Serpente Edênica como mulher (muitas vezes identificada como Lilith), portanto enfatizando tanto o charme da serpente quanto sua relação com Eva. Muitos dos primeiros Santos Padres, incluindo Clemente de Alexandria e Eusébio de Cesareia, interpretavam a palavra hebraica "Heva" não como o nome de Eva, e sim como "serpente fêmea".[carece de fontes?]

Islão

No Islão, Adão (Ādam; em árabe: آدم), cujo papel é de pai da humanidade, é reverenciado pelos muçulmanos. Eva (Ḥawwāʼ; árabe: حواء ) é a "mãe da humanidade". A criação de Adão e Eva é referenciada no Alcorão.[Alcorão 4:1] Na interpretação presente no al-Qummi sobre Jardim do Éden, tal lugar não seria inteiramente mundano. De acordo com o Alcorão, tanto Adão quanto Eva comeram a fruta proibida, em um Éden Celeste. Como resultado, ambos foram mandados para a Terra por representantes de Deus. Cada um enviado para o topo de uma montanha: Adão sobre al-Safa, e Eva sobre al-Marwah. Na tradição islâmica, Adão chorou por 40 dias até finalmente se arrepender. Em seguida Deus enviou-o a Pedra Negra, ensinando-o o Haje. De acordo com o Hádice, Adão e Eva se reuniram no plano de "Arafat, próximo a Mecca. Tiveram dois filhos juntos, Qabil and Habil. Há também a lenda de um filho mais novo, chamado Rocail, que teria criado o palácio e sepulcro contendo estátuas autônomas que viveram as vidas de homens tão realisticamente, que enganou-se que possuíssem almas.

Gnosticismo

No gnosticismo cristão falou-se de Adão e Eva em dois textos ainda existentes, o "Apocalipse de Adão", encontrado nos documentos de Nag Hammadi e o "Testamento de Adão". Outra tradição gnóstica afirma que Adão e Eva foram criados para ajudar na derrota de Satanás. A serpente, ao invés de ser identificada como Satanás, é visto como heróica pelos Ofitas. Outros gnósticos acreditavam ainda que a queda de Satanás após a criação da humanidade. Assim como na tradição islâmica, nessa história, Satanás, por conta de seu orgulho, se nega a curvar-se diante de Adão. Satanás afirma que Adão é inferior a ele, pois enquanto ele é feito de fogo, Adão é feito de barro.

Fé bahá'í

Na fé bahá'í a narrativa de Adão e Eva é vista como simbólica. Em Esplendor da Verdade, 'Abdu'l-Bahá rejeita a interpretação literal e declara que a história contém "mistérios divinos e significados universais". Adão representaria o "espírito divino", Eva a "alma humana", a Árvore do Conhecimento o "o mundo humano" e a serpente a "ligação ao mundo humano". A queda de Adão representaria a ciência, por parte da humanidade, do bem e do mal.

04

Adão e Eva como parábola

O padre Ariel Álvarez Valdez sustenta que trata-se de uma parábola composta por um catequista hebreu, a quem os estudiosos chamam de "yahvista", escrita no século X a.C., que não pretendia dar uma explicação científica sobre a origem do homem, mas sim fornecer uma interpretação religiosa, e elegeu esta narração na qual cada um dos detalhes tem uma mensagem religiosa, segundo a mentalidade daquela época. Ilia Delio, teóloga americana, sustenta que a teologia pode "tirar proveito" das aquisições de uma ciência que vê na "mutação" o núcleo essencial da matéria. O rabino Nilton Bonder sustenta que "a Bíblia não tem pretensões de ser um manual eterno da ciência, e sim da consciência. Sua grande revelação não é como funciona o Universo e a realidade, mas como se dá a interação entre criatura e Criador". Alguns estudiosos ressaltaram as semelhanças entre as figuras de Eva e de Pandora, pois em ambas as perspectivas mitológicas, uma mulher teria contribuído decisivamente para trazer os males ao mundo.

05

Patriarcalismo hebreu

Eva como metáfora

Segundo Joseph Campbell a "metade da população mundial acha que as metáforas das suas tradições religiosas são fatos. A outra metade afirma que não são fatos de forma alguma. O resultado é que temos indivíduos que se consideram fiéis porque aceitam as metáforas como fatos, e outros que se julgam ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras". Uma dessas grandes metáforas é a de Eva. Campbell expõe que o Cristianismo, originalmente uma seita do judaísmo, abraçou a cultura e a história pagã e a metáfora da costela de Adão exemplifica o distanciamento dos hebreus da religião cultuada entre os antigos—o do culto à Mãe Terra, Mãe Cósmica ou deusa-mãe. Campbell argumenta que Adão foi criado a partir do barro vermelho ou argila, ou terra (adamá ou adão, seu próprio nome revela a origem divina na Deusa), que por sua vez se misturava com o sangue menstrual.

Eva e a representação da mulher no cristianismo

Devido ao fato de Eva ter partilhado com Adão o fruto da árvore proibida, justificou-se por longos anos no cristianismo uma suposta inferioridade da mulher. Principalmente porque, após o pecado original, Deus disse que a mulher seria governada pelo marido.

06

Adão e Eva nos apócrifos

Imagem: Albrecht Dürer · CC0 · Openverse

De acordo com o Livro dos Jubileus, no Bereshit Adão e Eva teriam passado sete anos no Paraíso, antes de serem tentados pela serpente, e expulsos do Éden. E de acordo com O Primeiro Livro de Adão e Eva, uma obra extracanônica do século XI, eles quando saíram do jardim, receberam a ordem de habitarem numa caverna, que foi chamada de A Caverna dos Tesouros. O livro diz que eles sofreram muito após terem saído do jardim, principalmente no primeiro ano após a expulsão; por várias vezes tentaram cometer suicídio ou retornar ao Paraíso, até que tiveram os primeiros filhos (Caim, Abel e suas irmãs—não mencionadas na Bíblia). Conforme O Primeiro Livro de Adão e Eva, o casal teria se arrependido amargamente, e alcançado perdão; e por várias vezes receberam de Deus a promessa de um resgate, de um redentor que nasceria na semente humana, para resgatar sua descendência, e essas promessas os consolavam.

07

Historicidade da narrativa de Adão e Eva

Imagem: Marcio Cabral de Moura · BY-NC-ND · Openverse

Enquanto uma visão tradicional é de que o Livro de Gênesis foi escrito por Moisés, os estudiosos modernos consideram a narrativa da criação de Gênesis como um dos vários mitos de origem antiga. Análise da hipótese documental também sugere que o texto é resultado da compilação de múltiplas tradições anteriores, como a Gênesis de Eridu, escrita em sumério, datada c. 1 600 a.C., explicando aparentes contradições. Com os desenvolvimentos científicos em paleontologia, geologia, biologia e outras disciplinas, descobriu-se que os seres humanos e todos os outros seres vivos compartilham um antepassado comum e evoluíram através de processos naturais, com formas de vida anteriores voltando a bilhões de anos. A arqueologia, paleontologia e antropologia, estabelecem o aparecimento do Homo sapiens sapiens (o homem moderno) a partir de outras espécies de hominídeos, há cerca de 100 mil anos, num período geológico muito recente, a partir da África, no Vale de Omo, no Sudoeste da Etiópia. Na biologia, os antepassados comuns mais recentes da espécie Homo sapiens, quando rastreados usando o cromossomo Y para a linhagem masculina e o DNA mitocondrial para outra linhagem, feminina, são comumente chamados de Adão cromossomial-Y e Eva Mitocondrial, respectivamente. Estes não foram um único casal na mesma época, mesmo que os nomes fossem emprestados do Tanakh.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando