Actina
As actinas são uma família de proteínas globulares que formam os microfilamentos, um dos três componentes fundamentais do citoesqueleto das células dos organismos eucariotas. A actina pode ser encontrada como monómero em forma livre, denominada actina G, ou formando parte de polímeros lineares denominados microfilamentos ou actina F, que são essenciais para funções celulares tão importantes como a mobilidade e a contração da célula durante a divisão celular. Em vertebrados, identificaram-se três grandes grupos de isoformas da actina, chamadas alfa, beta e gama. As alfa encontram-se nos tecidos musculares, e são um dos constituintes principais do aparato contrátil do músculo. As beta e as gama coexistem na maior parte dos tipos celulares como componentes do citoesqueleto, e como mediadores da mobilidade celular interna.
A actina é uma das proteínas mais abundantes nos eucariotas e está presente por todo o citoplasma. Nas fibras musculares representa 20% em peso da proteína celular total e, noutras células animais, oscila entre 1 e 5%. Porém, não existe um único tipo de actina, senão que os seus genes codificantes formam uma família multigénica (família que, em plantas, compreende mais de 60 elementos, entre genes e pseudogenes e, em humanos, mais de 30). Isto significa que a informação genética de cada indivíduo possui instruções para gerar variantes da actina (denominadas isoformas) que possuirão funções ligeiramente distintas. Deste modo, os organismos eucariotas expressam distintos genes que dão lugar: à actina α, que se encontra em estruturas contráteis; à actina β, no bordo em expansão das células que empregam a projeção de estruturas celulares como método de mobilidade; e à actina γ, nos filamentos das fibras de stress. Para além das similitudes existentes entre as isoformas de um organismo, também existe uma conservação evolutiva no que respeita à estrutura e função entre organismos do domínio eucariota, e mesmo em bactérias, nas quais se conhece o homólogo MreB, uma proteína que pode polimerizar-se em microfilamentos, e em arqueias, nas quais existe um representante (Ta0583) ainda mais semelhante às actinas de eucariotas.
Actina G
No que respeita à sua estrutura molecular, a actina G possui uma aparência globular vista com o microscópio eletrónico de varrimento; não obstante, por cristalografia de raios X pode apreciar-se que está composta por dois lóbulos separados por uma fenda; a estrutura conforme o pregamento ATPase (dobramento), um centro de catálise enzimática ao qual pode unir-se o ATP e Mg2+ e pode hidrolisar o ATP a ADP e fosfato. Este pregamento é um motivo estrutural conservado que também está presente noutras proteínas que interagem com nucleosídeos trifosfato como a hexoquinase (uma enzima do metabolismo energético) ou as proteínas Hsp70 (uma família de proteínas que contribuem para que outras proteínas possuam estruturas funcionais). A actina G só é funcional quando possui ADP ou ATP na sua fenda; porém, na célula predomina o estado unido a ATP quando a actina está livre.
Actina F
A descrição clássica da actina F indica que tem uma estrutura filamentosa interpretável como uma hélice levógira monocatenária com um giro de 166º e aumento de 27,5 Å ou bem como uma hélice dextrogira bicatenária com meio passo de rosca de 350-380 Å, e cada actina está rodeada doutras quatro. A simetria do polímero de actina, que é de umas 2,17 subunidades por volta de hélice é incompatível com a formação de cristais, que só é possível quando estas são exatamente 2, 3, 4 ou 6 subunidades por volta. Portanto, devem ser realizados modelos interpretando dados procedentes de técnicas que superam estes inconvenientes, como a microscopia eletrónica, a criomicroscopia eletrónica, cristais de dímeros em distintas posições ou difração de raios X. Na realidade, falar de uma "estrutura" não é correto para algo tão dinâmico como um filamento de actina, pelo que seria melhor falar de distintos estados estruturais, entre os quais o dado mais constante é o aumento de 27,5 Å, enquanto que a rotação das subunidades mostra uma considerável variabilidade, sendo normal observar deslocamentos de até 10% da sua posição ideal. Algumas proteínas, como a cofilina, parecem aumentar o ângulo de giro, mas, novamente, pode interpretar-se que, em lugar disso, estabilizam alguns "estados estruturais" normais. Estes poderiam ser importantes no processo de polimerização.
Pregamento
A actina pode adquirir espontaneamente uma grande parte da sua estrutura terciária. Porém mostra um comportamento muito especial e quase único na forma em que adquire a sua forma plenamente funcional a partir da sua forma nativa recentemente sintetizada. A razão da existência de uma rota tão especial poderia ser a necessidade de evitar a presença de monómeros de actina mal pregados, que seriam tóxicos, porque poderiam atuar como terminadores inadequados da polimerização. Em qualquer caso, é chave para a estabilidade do citoesqueleto, e até poderia ser um processo essencial para a coordenação do ciclo celular. Para assegurar o correto pregamento emprega um tipo de chaperonina (proteína que ajuda outras a pregarem-se) citosólica do grupo II, chamada CCT, formada por um duplo anel de oito subunidades diferentes (heterooctamérica) que se distingue das demais chaperonas moleculares, e em especial da sua homóloga em arqueias GroEL, em que não precisa de uma co-chaperona que atue como tampa sobre a cavidade central catalítica. Aceita substratos unindo-se a eles por meio de domínios específicos, pelo que em princípio se pensou que era exclusiva da actina e tubulina, ainda que atualmente se comprovou por imunoprecipitação que pelo menos interage com um grande número de polipéptidos, que possivelmente funcionam como substratos. Atua mediante alterações conformacionais dependentes de ATP, e em ocasiões são necessárias várias rodadas de libertação e catálise para que complete o seu trabalho.
Mecanismo catalítico da ATPase
A actina é uma ATPase, ou seja, um enzima que hidrolisa ATP. Este conjunto de enzimas caracteriza-se por atuar com extrema lentidão. Esta ATPase "ativa-se", ou o que é o mesmo, a sua velocidade aumenta umas 40.000 vezes quando a actina faz parte de um filamento. Um valor de referência para esta taxa de hidrólise sob certas condições ideais seria 0,3 s-1. Posteriormente, o Pi permaneceria muito tempo unido à actina juntamente ao ADP, libertando-se perto do extremo do filamento. Pelo momento não se conhecem os detalhes moleculares do mecanismo catalítico. Mas, ainda que exista muita polémica a este respeito, parece claro que para a hidrólise do ATP é necessário que a proteína tenha uma conformação "fechada", e crê-se que aproxima à distância adequada os resíduos implicados. Um dos resíduos chave seria o Glu137, situado no subdomínio 1. A sua função seria ancorar a molécula de água que realiza um ataque nucleofílico ao enlace do fosfato γ do ATP, enquanto o nucleótido se une fortemente aos subdomínios 3 e 4. A lentidão do processo catalítico dever-se-ia à grande distância e posição enviesada desta molécula de água em relação ao seu reagente. Com muita probabilidade, a alteração conformacional que se produz por rotação de domínios entre as formas G e F da actina aproxima o Glu137, permitindo a sua hidrólise. Segundo este modelo, a polimerização e a função ATPase estariam desacopladas num primeiro momento.
A actina é uma das proteínas mais conservadas ao longo da evolução porque interage com um grande número de proteínas. Há 80,2% de conservação de sequência a nível de gene entre a de Homo sapiens e a da levedura Saccharomyces cerevisiae, e 95% de conservação da estrutura primária do produto proteico. Ainda que a maioria dos leveduras tenha só um gene para a actina, os eucariotas superiores, em geral, expressam várias isoformas de actina codificadas por uma família de genes relacionados. Os mamíferos têm pelo menos seis genes de isoformas de actina codificadas em genes separados, que se dividem em três classes (alfa, beta e gama) segundo os seus pontos isoelétricos. Em geral, as actinas alfa encontram-se no músculo (α-esquelética, α-liso aórtico, α-cardíaca, e γ2-liso entérico), enquanto que as isoformas beta e gama são abundantes em células não musculares (β- e γ1-citoplasmáticas). Embora as sequências de aminoácidos e as propriedades in vitro das isoformas sejam muito similares, estas isoformas não podem substituir-se completamente umas por outras in vivo.
A actina F combina as qualidades de ser resistente e dinâmica. Ao contrário de outros polímeros, como o ADN, que mantêm unidos os seus elementos constitutivos mediante ligações covalentes, nos filamentos de actina os monómeros montam-se por meio de ligações mais fracas de tipo não covalente. Isto, que em princípio debilita a estrutura, porque poderia romper por agitação térmica, é resolvido graças ao estabelecimento de ligações laterais com os monómeros vizinhos. Ao mesmo tempo, as ligações fracas têm a vantagem de que os extremos do filamento podem libertar ou incorporar facilmente monómeros, de maneira que se podem remodelar rapidamente e mudar a estrutura celular da qual são responsáveis em resposta a estímulos ambientais. Este último juntamente com o mecanismo bioquímico pelo qual se efetua é o que se conhece como "dinâmica de montagem". A polimerização e despolimerização da actina é necessária para a quimiotaxia e a citocinese. São necessários fatores nucleantes para estimular a polimerização da actina. Um desses fatores nucleantes é o complexo Arp2/3, que imita o dímero de actina G para estimular a nucleação (ou formação do primeiro trímero) de actina G monomérica. O complexo Arp2/3 une-se aos filamentos de actina com um ângulo de 70º para formar novos ramos de actina nos filamentos de actina existentes. Além disso, aos filamentos de actina une-se ATP, e a hidrólise deste ATP estimula a desestabilização do polímero.
Proteínas associadas
In vivo, o citoesqueleto de actina não é composto exclusivamente de actina, senão que para a sua geração, permanência e função requer outras proteínas; estas denominam-se proteínas de união a la actina ou proteínas que se unem à actina (ABP, actin binding proteins) e intervêm na sua polimerização e despolimerização, estabilidade, organização em feixes ou redes, e na sua fragmentação e destruição. A diversidade destas proteínas é tão grande, que se considera que a actina é a proteína que participa no maior número de interações proteína-proteína de todas as conhecidas. Por exemplo, existem elementos que sequestram a actina G, impedindo a sua incorporação aos microfilamentos. De igual maneira, existem proteínas que estimulam a sua polimerização ou que dotam de complexidade às redes em síntese. Entre elas estão:
Inibidores químicos
Existem várias toxinas que interferem com a dinâmica das actinas, tanto despolimerizando-as (latrunculina e citocalasina D) como estabilizando-as (faloidina): A latrunculina, uma toxina produzida por poríferos, une-se à actina G impedindo a sua união aos microfilamentos. A citocalasina D, um alcaloide produzido por fungos, une-se ao extremo (+) da actina F impedindo a adição de novos monómeros. Descreveram-se os efeitos da citocalasina D, mediados pela alteração da dinâmica de actinas, na atividade de p53 (em animais) ou em respostas gravitrópicas (em plantas). A faloidina, uma toxina isolada do fungo Amanita phalloides, une-se à interface existente entre os monómeros de actina adjacentes do polímero de actina F, o que evita a despolimerização da actina F.
A proteína actina encontra-se tanto no citoplasma como no núcleo celular. A sua localização está regulada pelas vias de transdução de sinais que integram os estímulos que a célula recebe e que permitem a reestruturação das redes de actina em resposta a eles. Em Dictyostelium, intervém a rota dos fosfoinosítidos mediada pela fosfolipase D. Os filamentos de actina são especialmente abundantes e estáveis nas fibras musculares. Dentro do sarcómero (a unidade morfológica e fisiológica das fibras musculares) a actina dispõe-se formando as bandas I e A; nestas últimas, apresenta-se conjuntamente com a miosina.
Citoesqueleto
Os microfilamentos intervêm no movimento de todas as células móveis, mesmo nas não musculares, porque se descreveu que os fármacos que desorganizam a actina F (como as citochalasinas) afetam a atividade de ditas células. A proteína actina supõe 2% do total de proteínas em hepatocitos, 10% em fibroblastos, 15% em amebas e até 50-80% em plaquetas ativadas. Existem distintos grupos de actina, com estrutura e funções ligeiramente distintas. A actina α é exclusiva das fibras musculares, e a actina presente noutras células costuma ser dos tipos β e γ. Além disso, a actina de tipos distintos ao α costuma ter uma alta taxa de renovação que provoca que a maior parte dela não faça parte de estruturas permanentes. Assim, os microfilamentos nas células não musculares aparecem de três formas:
Actina nuclear
A actina é essencial para a transcrição feita pelas ARN polimerases Pol I, Pol II e Pol III. Na transcrição feita por Pol I, a actina e a miosina (MYO1C, que se une ao ADN) atuam como motores moleculares. Para a transcrição feita por Pol II, é necessária β-actina para a formação do complexo de pré-iniciação. A Pol III contém β-actina como uma subunidade. A actina pode também ser um componente dos complexos de remodelação da cromatina e de partículas de pré-mRNP (formadas pelo pré-ARNm envolto em proteínas), e está implicada na exportação nuclear de ARNs e proteínas.
Contração muscular
No músculo, o filamento helicoidal da actina F contém também uma molécula de tropomiosina, que é uma proteína de um comprimento de 40 nanómetros que se enrola ao redor da hélice de actina F. Durante o estado de repouso celular, a tropomiosina recobre os sítios ativos da actina de modo que não se pode produzir a interação actina-miosina (esta interação dá lugar a um deslizamento entre ambos os filamentos que, por coordenação de muitas cópias destes elementos dispostos nos músculos, produz a sua contração). Unidas ao longo da fibra de tropomiosina há outras moléculas proteicas, as troponinas, complexos de três polímeros: troponina I, troponina T e troponina C. A função moduladora da tropomiosina depende da interação com a troponina na presença de iões de Ca2+.
Outros processos biológicos
O estudo clássico da função da actina circunscrevia-a à manutenção do citoesqueleto e, portanto, à organização e movimento dos organelos e determinação da forma celular. Porém, o papel da actina é bastante mais amplo na fisiologia celular eucariota; e mesmo existem elementos semelhantes em procariotas. Citocinese. Nas células animais e de leveduras, a divisão celular costuma supor a separação de uma célula em duas células filhas mediante a constrição da sua zona equatorial. Neste processo intervém um anel contrátil de actina, miosina e α-actinina. Na levedura de fissão Schizosaccharomyces pombe, a actina se assemble ativamente no anel contrátil com a participação de Arp3, a formina Cdc12, profilina e WASp, mas também intervêm microfilamentos pré-formados. Uma vez constituído o anel, a estrutura se mantém numa contínua montagem/desmontagem que, com a ajuda do complexo Arp2/3 e das forminas, é um processo central da citocinese. O conjunto formado pelo anel contrátil, os microtúbulos do fuso acromático e o material denso periférico denomina-se «corpo de Fleming» ou «corpo intermédio».
Na maioria dos mamíferos existem seis genes diferentes para a actina. Dois deles estão relacionados com o citoesqueleto (ACTB e ACTG1) enquanto que os quatro restantes o estão com o músculo esquelético (ACTA1), músculo liso (ACTA2), músculo liso entérico (ACTG2) e com o músculo cardíaco (ACTC1). As mutações que afetam estes genes eram desconhecidas até 1998, e viu-se que produzem miopatias, variações no tamanho e a função cardíaca e surdez. Além disso, a actina do citoesqueleto está implicada no mecanismo de patogenicidade de muitos agentes infeciosos, entre eles o VIH. A imensa maioria das mutaçãos que afetam a actina são de tipo pontual e têm um efeito dominante, exceto pelo menos seis mutações de miopatia nemalínica. Isto deve-se a que em muitos casos a variedade mutante do monómero de actina atua como uma "tampa" que impede o alongamento da actina F.
Associada ao gene ACTA1
ACTA1 é o gene que codifica a isoforma α da actina humana, presente principalmente no músculo esquelético, e que também se expressa no músculo cardíaco e na glândula tiroide. A sua sequência consta de sete exãos, que produzem cinco transcritos conhecidos. Em 2006, o ENMC (European Neuromuscular Centre) tinha publicado 116 mutações relacionadas com patologias conhecidas como actinopatias. A maior parte delas consiste em substituições pontuais de aminoácidos, que em muitos casos podem ser associadas com o fenótipo que determina a gravidade e o curso da doença. Manifestam-se alterando a estrutura e a função do músculo esquelético produzindo três formas de miopatia: miopatia nemalínica tipo 3, miopatia congénita com excesso de microfilamentos (CM) e miopatia congénita com desproporção de tipos de fibra (CFTDM). Também se detetaram mutações que produzem miopatias core (com zonas desprovidas de atividade oxidativa). Embora os seus fenótipos sejam similares, além da miopatia nemalínica típica e a de bastões intranucleares, alguns especialistas distinguem um tipo de miopatia, chamada actínica da miopatia nemalínica. Na primeira acumulam-se agregados de actina em vez dos típicos bastões. Um paciente pode mostrar mais de um destes fenótipos na biópsia. Os sintomas mais habituais consistem numa morfologia facial típica (fácies miopática), debilidade muscular e atraso no desenvolvimento motor e dificuldades respiratórias. O curso, a gravidade e a idade de aparecimento são muito variáveis, e encontram-se formas de miopatia sobrepostas. Na miopatia nemalínica aparecem umas estruturas não patognomónicas em diversas localizações das fibras musculares tipo 1 conhecidas como "bastões nemalínicos", com uma composição similar à dos discos Z do sarcómero.
No músculo liso
Existem duas isoformas que codificam actinas do músculo liso: ACTG2 codifica a isoforma mais longa de actina, que tem nove exões, um deles, o situado na extremidade 5', que não é traduzido. Trata-se de uma γ actina que se expressa no músculo liso entérico. Não se encontraram mutações que correspondam a patologias neste gene, embora se tenha visto mediante microarrays que esta é a proteína que, com diferença, mais aumenta a sua expressão nos casos de resistência à quimioterapia com cisplatino. ACTA2 codifica uma α actina localizada no músculo liso, e também no músculo liso vascular. A mutação MYH11 poderia ser responsável por pelo menos 14% dos casos de aneurismas de aorta torácica hereditários, concretamente o tipo 6, porque a variante mutada produz uma montagem incorreta dos filamentos e uma redução da capacidade de contração do músculo liso vascular. Nestes indivíduos observa-se uma degeneração aórtica medial, com áreas de desorganização e hiperplasia, e estenose dos vasa vasorum da aorta. O número de doenças nas quais se crê que este gene poderia estar implicado está em aumento. Foi relacionado com a doença de Moyamoya, e parece ser que algumas mutações em heterozigose poderiam predispor a muitas patologias vasculares, como o aneurisma de aorta torácica e a cardiopatia isquémica. A α-actina do músculo liso também é um interessante marcador para avaliar a progressão da cirrose hepática.
No músculo cardíaco
ACTC1 é o gene que codifica a isoforma da α actina presente no músculo cardíaco. Sequenciaram-no pela primeira vez Hamada e colaboradores em 1982, que comprovaram que estava interrompido por cinco intrãos. Foi o primeiro gene dos seis onde se encontraram alelos implicados em processos patológicos. Descreveram-se vários distúrbios estruturais que originam uma disfunção cardíaca associados a mutações pontuais neste gene, como a miocardiopatia dilatada tipo 1R e a miocardiopatia hipertrófica tipo 11. Recentemente viu-se que alguns defeitos do septo atrial também poderiam estar relacionados com estas mutações. No caso da cardiomiopatia dilatada estudaram-se dois casos nos quais em ambos se produz uma substituição em aminoácidos muito conservados pertencentes aos domínios que se unem aos discos Z e discos intercalados, tudo o que leva à hipótese de que a dilatação se produz por um defeito de transmissão da força contrátil nos miócitos.
Nas actinas citoplasmáticas
O locus ACTB é muito complexo. Existem muitos pseudogenes distribuídos por todo o genoma, e a sua sequência contém seis exões que podem dar lugar a até 21 transcritos diferentes por splicing alternativo, conhecidos como actinas β. Em correspondência com esta complexidade, os seus produtos também têm localizações e fazem parte de processos muito distintos (citoesqueleto, complexo NuA4 histona-acetiltransferase, núcleo celular) e associou-se a este mecanismo uma grande quantidade de processos patológicos (carcinomas, distonia juvenil, mecanismos de infeções, malformações no sistema nervoso e invasividade de neoplasmas, entre outras). Encontrou-se uma nova forma de actina kappa, que parece substituir a actina β em processos tumorais.
Outros mecanismos patológicos
Alguns agentes infecciosos utilizam a actina, especialmente a citoplasmática, no seu ciclo de vida. Nas bactérias existem basicamente duas formas desta utilização: Além do exemplo citado anteriormente, nas etapas iniciais da internalização de alguns vírus, notavelmente o VIH, estimula-se a polimerização da actina, por exemplo inativando a cofilina. Nos processos de invasão das células cancerosas, as protrusões baseadas em actina desempenham um papel ainda não determinado.
O citoesqueleto eucariota tem alguns componentes que apresentam uma grande semelhança ao longo da escala filogenética, especialmente a actina e a tubulina. Por exemplo, a proteína codificada pelo gene ACTG2 de humanos possui uma equivalência absoluta com os ortólogos presentes em rata e rato, embora a nível de nucleótidos a identidade diminua para 92 %. Contudo, existem maiores diferenças com os equivalentes em procariotas (FtsZ e MreB), que, por sua vez, apresentam uma identidade de sequência de entre 40 a 50% entre as distintas espécies de bactérias e arqueias. Alguns autores sugerem que a proteína ancestral que deu origem ao modelo básico de actina eucariota se assemelha às do citoesqueleto bacteriano presentes na atualidade. Alguns autores salientam que a actina, a tubulina e as histonas, um tipo de proteínas envolvidas na estabilização e regulação do ADN, apresentam similaridades na sua capacidade de ligar nucleótidos e no seu funcionamento baseado no aproveitamento do movimento browniano, e sugerem que todas elas poderão derivar de um antepassado comum. Portanto, os mecanismos evolutivos diversificaram a proteína ancestral nas variantes hoje presentes, conservando, entre outras, as actinas como moléculas eficazes para abordar processos biológicos antigos e essenciais, como a endocitose.
Equivalentes em bactérias
As bactérias não têm um citoesqueleto comparável em complexidade ao dos eucariotas, mas foram descritas proteínas que têm uma grande semelhança com os monómeros e polímeros de actina. A proteína MreB de bactérias polimeriza formando filamentos delgados, não helicoidais e, mais raramente, formando estruturas helicoidais semelhantes à actina F. Além disso, a sua estrutura cristalina é muito similar à da actina G (em conformação tridimensional), e até existem equivalências entre os protofilamentos de MreB e a actina F. O citoesqueleto bacteriano também possui entre os seus componentes as proteínas FtsZ, semelhantes à tubulina. Portanto, as bactérias possuem um citoesqueleto com elementos homólogos à actina (por exemplo, MreB, ParM, e MamK), mas a sequência aminoacídica destas proteínas diverge da das presentes em células animais. Não obstante, MreB e ParM possuem uma alta similaridade estrutural com a actina eucariota. Os microfilamentos, muito dinâmicos, gerados por agregação de MreB e ParM são essenciais para a viabilidade celular e participam na morfogénese da célula, segregação do xenóforo e polaridade celular. ParM, um homólogo da actina codificado num plásmido, intervém na regulação do ADN de plasmídeos.
O aproveitamento da actina nos laboratórios de ciência e tecnologia deriva da sua participação como pista sobre a qual se movem motores moleculares como a miosina (tanto no músculo como fora dele), e da sua presença necessária para o funcionamento celular. Também é usada como ferramenta de diagnóstico, já que algumas variantes anómalas da actina estão relacionadas com o aparecimento de patologias.
A actina foi observada experimentalmente pela primeira vez em 1887 por W.D. Halliburton, que extraiu do músculo uma proteína que coagulava preparações de miosina, à qual denominou "fermento da miosina". Contudo, Halliburton não foi capaz de efetuar a sua caracterização, pelo que a descoberta da actina é atribuída a Brúnó F. Straub, que naquela época era um jovem bioquímico a trabalhar no laboratório de Albert Szent-Györgyi no Instituto de Química Médica da Universidade de Szeged, na Hungria. Em 1942, Straub desenvolveu uma nova técnica para a extração de proteínas musculares que lhe permitia isolar quantidades substanciais de actina relativamente pura. Este é essencialmente o mesmo método que se utiliza nos laboratórios atualmente. Szent-Györgyi descrevera previamente uma forma mais viscosa de miosina, produzida por extrações lentas em músculo, como "miosina ativada", e, como a proteína de Straub produzia o efeito ativador, denominou-a actina. A viscosidade diminuía se fosse adicionado ATP à mistura de ambas as proteínas, conhecida como actomiosina. O trabalho de ambos os investigadores não pôde ser publicado nos países ocidentais devido ao ambiente bélico da Segunda Guerra Mundial, mas veio a público em 1945 ao ser publicado como suplemento na Acta Physiologica Scandinavica. Straub continuou a trabalhar na actina até 1950, publicando que podia ligar-se ao ATP e que, durante a sua polimerização para formar microfilamentos, se hidrolisava a ADP + Pi, que permanecia ligado ao microfilamento. Straub sugeriu que esta reação desempenhava um papel na contração muscular, mas isto só é verdade no caso do músculo liso e não foi verificado experimentalmente até 2001.


