Império Aquemênida
O Império Aquemênida (português brasileiro) ou Aqueménida (português europeu), por vezes referido como Primeiro Império Persa, foi um império iraniano situado no sudoeste da Ásia e Ásia Central, e fundado no século VI a.C. por Ciro, o Grande, que derrubou a Confederação Meda. Expandiu-se a ponto de chegar a dominar partes importantes do mundo antigo; por volta do ano 500 a.C. estendia-se do vale do Indo, no leste, à Trácia e Macedônia, na fronteira nordeste da Grécia — o que fazia dele o maior império a ter existido até então. O Império Aquemênida posteriormente também controlaria o Egito. Era governado através de uma série de monarcas, que unificaram suas diferentes tribos e nacionalidades construindo um complexo sistema de estradas. Denominando-se Parsa, do nome tribal ariano Parsua, os persas fixaram-se numa terra que também denominaram Parsua, que fazia fronteira a leste com o rio Tigre, e, ao sul, com o golfo Pérsico. Este tornou-se o centro nevrálgico do império durante toda a sua duração. Foi a partir desta região que Ciro, o Grande partiu para derrotar os impérios Medo, Lídio e Babilônico, abrindo o caminho para as conquistas posteriores do Egito e Ásia Menor.
Origem
O Império Persa recebeu seu nome da tribo indo-europeia chamada Parsua. O nome 'Pérsia' é uma latinização do nome deste povo, que dava o nome de Pérsis à região encerrada em suas fronteiras territoriais, uma área localizada a norte do Golfo Pérsico e a leste do rio Tigre, conhecida atualmente como a província iraniana de Fars. Apesar de seu rápido sucesso e expansão, o Império Aquemênida não foi o primeiro império iraniano, já que no século VI a.C. outro grupo de povos iranianos antigos já haviam fundado o Império Medo. Os medos haviam sido originalmente o grupo iraniano dominante na região, conquistando o poder no início do século VII a.C. e incorporando os persas em seu império. Os povos iranianos chegaram na região por volta do ano 1 000 a.C., e haviam sido dominados inicialmente pelo Império Assírio (911-609 a.C.). Os medos e os persas, no entanto, juntamente com os citas e babilônios, tiveram um papel crucial na destruição da Assíria depois de uma sucessão de revoltas internas.
Formação e expansão
O império assumiu sua forma unificada com uma administração centrada em torno de Pasárgada, cidade construída por Ciro, o Grande. Posteriormente, conquistou o Império Medo e ampliou ainda mais seu território, adicionando às suas fronteiras o Egito e a Ásia Menor. Durante o reinado de Dario I e seu filho, Xerxes I, envolveu-se em conflitos militares com algumas das principais cidades-estado da Grécia Antiga, e embora tenha chegado muito perto de derrotar o exército grego, esta guerra acabou por levar o império à sua derrocada. A história do chamado Império Aquemênida remonta a pelo menos 559 a.C., ano em que Cambises I, rei de Ansã, morreu e foi sucedido por seu filho, Ciro II. Ciro II sucedeu também Arsames — que ainda estava vivo — como rei (Xá) da Pérsia, unindo assim os dois reinos. Ciro é considerado o primeiro monarca legítimo do Império Persa, já que seus antecessores eram vassalos dos medos. Ciro conquistou a Média, Lídia e a Babilônia. Politicamente astuto, Ciro modelou sua imagem para se tornar um "salvador" das nações que conquistou, frequentemente permitindo o retorno às suas terras de povos que haviam sido deportados, e dando a seus súditos a liberdade de praticar os costumes locais. Para reforçar essa imagem, instituiu políticas de liberdade religiosa, reconstruindo templos e a infraestrutura local nas cidades recém-conquistadas (principalmente entre os habitantes judeus da Babilônia, como foi registrado no Cilindro de Ciro e no Tanakh). Como resultado de suas políticas de tolerância, passou a ser conhecido entre os judeus como "ungido do Senhor".
Guerras Greco-Persas
No século V a.C., os reis da Pérsia dominavam territórios que equivalem aproximadamente aos atuais Irã, Iraque, Armênia, Azerbaijão, Paquistão, Afeganistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Quirguistão, Geórgia, Macedônia, Uzbequistão, Turquia, Bulgária, Chipre, Kuwait, Egito, Síria, Jordânia, Israel, Líbano, bem como diversas partes da Grécia, Líbia e o norte da Arábia. A Revolta Jônia, em 499 a.C., e as revoltas associadas a ela ocorridas na Eólida, Dórida, Chipre e Cária, foram rebeliões militares iniciadas em diversas regiões da Ásia Menor contra o domínio persa, que duraram de 499 a 493 a.C. No cerne dessas revoltas estava a insatisfação das cidades-estado gregas do litoral da atual Turquia contra os tiranos indicados pela Pérsia para governá-los, além das ações individuais de dois tiranos específicos de Mileto, Histieu e Aristágoras. Em 499 a.C.. Aristágoras, então tirano milésio, deu início a uma expedição conjunta com o sátrapa persa Artafernes, que visava conquistar a ilha de Naxos, numa tentativa de se promover em Mileto, tanto financialmente quanto em termos de prestígio. A missão foi um fracasso, e percebendo que estava prestes a perder o poder, Aristágoras optou por incitar toda a Jônia a rebelar-se contra Dario, o Grande.
Fase cultural
Xerxes I foi sucedido por Artaxerxes I (465–424 a.C.), que mudou a capital de Persépolis para a Babilônia. Foi durante seu reinado que o elamita deixou de ser o idioma oficial, e o aramaico ganhou importância. Foi provavelmente durante seu reinado que o calendário solar foi introduzido como calendário nacional. Sob Artaxerxes, o zoroastrianismo se tornou a religião oficial de facto, e por este motivo até os dias de hoje o monarca é conhecido como o Constantino de sua fé. Artaxerxes morreu em Susã, e seu corpo foi levado a Persépolis, para ser enterrado na sepultura de seus antepassados. Foi sucedido por seu filho mais velho, Xerxes II, que acabou por ser assassinado por um de seus meio-irmãos algumas semanas mais tarde. Dario II conquistou o apoio das tropas para si e marchou para o leste, capturando e executando o assassino, e coroando-se em seu lugar.
A queda do império
De acordo com Plutarco, o sucessor de Artaxerxes, Artaxerxes III (358-338 a.C.), subiu ao trono de maneira sangrenta, conquistando o poder após assassinar oito de seus meio-irmãos. Em 343 a.C., Artaxerxes III derrotou Nectanebo II, expulsando-o do Egito, e fez da nação africana novamente uma satrapia persa. Em 338 a.C. Artaxerxes III morreu em circunstâncias pouco claras; segundo as fontes na escrita cuneiforme ele teria morrido de causas naturais, porém Diodoro Sículo, um historiador grego, relata que Artaxerxes teria sido assassinado por Bagoas, seu ministro. enquanto Filipe da Macedônia uniu as cidades-estado gregas à força, e começou a planejar a invasão do império.
Descendentes nas dinastias iranianas posteriores
Dinastias posteriores do Império Persa, como os partas e os sassânidas, ocasionalmente alegaram descendência dos aquemênidas. Recentemente, houve alguma corroboração para a pretensão parta evidenciada numa doença hereditária (neurofibromatose), demonstrada através das descrições físicas dos governantes e das evidências de doenças familiares em moedas antigas.
Ciro, o Grande fundou o Império Aquemênida como um império multi-estatal, governado a partir de quatro capitais: Pasárgada, Babilônia, Susã e Ecbátana. Os aquemênidas permitiam uma determinada quantidade de autonomia regional, na forma do sistema de satrapias. Cada satrapia era uma unidade administrativa distinta, geralmente organizada com base na geografia local. O 'sátrapa' era o rei vassalo, que administrava a região em nome do imperador, um 'general' supervisionava o recrutamento militar e garantia a ordem, e um 'secretário de estado' mantinha os registros oficiais. O general e o secretário de estado reportavam diretamente para o sátrapa, bem como para o governo central. Em diferentes períodos da história persa, chegaram a existir de 20 a 30 satrapias. Ciro criou um exército organizado, que incluía a unidade conhecida como Imortais, que consistia de 10 000 soldados altamente treinados. Ciro também desenvolveu um sistema postal inovador por todo o império, com base em diferentes estações de revezamento, chamadas de Chapar Khaneh.
Apesar de suas origens humildes, em Persis, o império atingiu um tamanho enorme sob a liderança de Ciro, o Grande. Ciro criou um império formado por diversos estados, no qual permitiu que os líderes regionais, os sátrapas, governassem em seu nome sob determinadas regiões do império, as satrapias. A regra básica de governo era a lealdade e a obediência de cada satrapia ao poder central, o rei, e a obediência às leis de impostos. Devido à diversidade etnocultural das nações submetidas ao jugo da Pérsia, a seu enorme tamanho geográfico, a às constantes disputas por poder pelos rivais regionais, a criação de um exército profissional foi necessária para a manutenção da paz, e para exercer a autoridade do rei em casos de rebeliões e ameaças externas. Ciro conseguiu criar um exército terrestre forte, e utilizou-o em suas campanhas na Babilônia, na Lídia e na Ásia Menor; após sua morte, seu filho, Cambises II, utilizou-o no Egito, contra Psamético III. Ciro acabou morrendo durante um combate contra uma insurgência iraniana local, antes de ter a chance de desenvolver uma força naval. A tarefa de criar uma marinha real coube a Dario, o Grande, o que permitiu que os persas pudessem enfrentar seus inimigos nos diversos mares que banhavam seu vasto império, do mar Mediterrâneo, Negro e Egeu ao golfo Pérsico e oceano Índico.
Marinha
Desde sua fundação por Ciro, o Império Persa foi primordialmente um império terrestre, com um forte exército, porém desprovido de forças navais. No século V a.C. isto mudaria, já que o império passou a enfrentar tropas gregas e egípcias, cada qual com suas próprias tradições e capacidades marítimas. Dario, o Grande (Dario I) é creditado como o primeiro xá a investir numa frota persa. Ainda assim, não existia uma "marinha imperial" legítima, semelhante às armadas grega e egípcia. A Pérsia se tornaria o império, sob a liderança de Dario, a inaugurar e utilizar em combate a primeira marinha imperial regular. Apesar deste feito, os marinheiros desta armada imperial não vinham da Pérsia propriamente dita, mas em sua maioria eram fenícios (a maior parte de Sídon), egípcios, cipriotas e gregos escolhidos por Dario para operar os veículos navais de combate do império.
Exército aquemênida
O exército estava organizado sobre uma base decimal: divisões com dez mil homens tinham dez batalhões de mil homens, e cada batalhão, cem grupos de dez homens; cada grupo, batalhão e divisão tinha um oficial comandante. Em tempo de guerra, o exército era composto por soldados de todas as nações do império, sob o comando de persas ou medos. Havia um corpo de elite exclusivamente persa ou, em menor proporção, medo. Quando Gaumata tentou usurpar o trono de Cambises II, no ano 521, foi derrotado por contingentes persas e medos. Dos oito generais mais importantes mencionados por Dario na inscrição de Beistum, seis eram persas, um medo, e um armênio.
Heródoto, em seu relato escrito no século V a.C. dos persas que habitavam o Ponto, relata que os jovens persas, dos cinco aos vinte anos, aprendiam três coisas: "a andar a cavalo, atirar com arco e flecha e falar a verdade." Heródoto ainda acrescenta que a maior desgraça, para um persa, era mentir; a segunda pior, era se endividar, porque, entre outras coisas, a dívida obriga quem a assumiu a mentir. Na Pérsia aquemênida, a mentira, druj, é considerado um pecado capital, punível com a morte em alguns casos extremos. Inscrições em tabuletas descobertas por arqueólogos na década de 1930 no sítio de Persépolis forneceu evidências adequadas sobre o amor e o culto dedicados à verdade durante o período aquemênida. Estas tabuletas contêm o nome de persas comuns, principalmente comerciante e donos de armazéns. De acordo com o professor Stanley Insler da Universidade de Yale, até 72 destes nomes de funcionários públicos e trabalhadores comuns encontrados nestas tabuletas contêm a palavra verdade. Alguns exemplos, segundo Insler, seriam Artapana, "protetor da verdade", Artakama, "amante da verdade", Artamanah, "inclinado à verdade", Artafarnah, "que tem o esplendor da verdade", Artazusta, "que se deleita com a verdade", Artastuna, "pilar da verdade", Artafrida, "prosperando na verdade", e Artahunara, "que tem a nobreza da verdade". Durante seu reinado Dario, o Grande decretou a Ordenança das Boas Normativas, em inscrições cuneiformes, abordando a batalha constante contra a mentira. Esculpida no alto da montanha de Beistum, na estrada para Quermanxá, Dario testemunha:
Línguas
Durante o reinado de Ciro e Dario, enquanto a sede de governo ainda era Susã, em Elão, o idioma da chancelaria era o elamita. Isto pode ser atestado principalmente nas fortificações de Persépolis e nas tabuletas do tesouro, que revelam detalhes do funcionamento cotidiano do império. Nas inscrições colossais dos reis esculpidas na parede rochosa, os textos em elamita estão sempre acompanhados por textos em acádio e persa antigo, e parece que, nestes casos, os textos em elamita seriam inicialmente traduções dos textos em persa. É provável então que, embora o elamita tenha sido usado pelo governo da capital de Susã, não era uma língua de governo padronizada no resto do império. O uso do elamita não é atestado após 458 a.C.
Costumes
Heródoto menciona que os persas eram convidados a grandes banquetes de aniversário, a que se seguiam diversas sobremesas, uma parte da refeição pela qual eles repreendiam os gregos por omitirem-na de suas refeições. Heródoto também comentou que os persas bebiam vinho em grande quantidade, utilizando-os até mesmo em seus conselhos, deliberando sobre assuntos importantes sob a influência da bebida, e decidindo no dia seguinte, quando estavam sóbrios, a respeito de como agir sobre a decisão tomada.
Religião
Foi durante o período aquemênida que o zoroastrianismo alcançou o sudoeste do Irã, onde passou a ser aceito pelos governantes locais e, através deles, tornou-se um elemento definidor da cultura persa. A religião foi acompanhada não apenas uma formalização dos conceitos e divindades do panteão tradicional indo-iraniano, mas também por diversas novas ideias, incluindo a do livre arbítrio. Sob o patrocínio dos reis aquemênidas, tornando-se a religião de facto do estado por volta do século V a.C., o zoroastrianismo alcançou todos os cantos do império. A Bíblia registra que Ciro, o Grande teria permitido o regresso dos judeus à sua terra natal após anos de cativeiro pelos impérios Assírio e babilônio.
Arte e arquitetura
Entre os feitos arquitetônicos dos persas aquemênidas está a construção de cidades espetaculares, utilizadas para o governo e para habitação, templos para culto e reuniões sociais, e mausoléus erguidos em homenagem aos reis mortos (como a Tumba de Ciro). A característica fundamental da arquitetura persa deste período era sua natureza eclética, que misturava elementos da arquitetura meda, assíria e greco-asiática, mas ainda assim mantinha uma identidade persa única. Entre seus feitos artísticos estão intrincados relevos em frisos, trabalhos sofisticados em metais preciosos (como o Tesouro do Oxo), a decoração de seus palácios, alvenaria de tijolos esmaltados, delicadas obras de artesanato, jardinagem e decoração. É crítico para se compreender a arte aquemênida, no entanto, que embora os persas tenham absorvido técnicas de todos os cantos de seu império, ela não era apenas uma combinação de estilos, mas uma síntese deles que formou um estilo persa novo. Ciro, o Grande tinha, na realidade, uma extensa e antiga herança iraniana atrás de si; as ricas obras em ouro aquemênidas, que as inscrições sugerem terem sido uma especialidade dos medos, seguem a tradição das delicadas obras de metal da Idade do Ferro encontradas em Hasanlu, e as ainda mais antigas encontradas em Marlik.
O Império Aquemênida deixou uma impressão duradoura sobre a herança e a identidade cultural da Ásia e do Oriente Médio, e influenciou o desenvolvimento e a estrutura de vários impérios futuros. Os próprios gregos e, mais tarde, os romanos copiaram o que viam como os melhores aspectos do método com que os persas governavam o império, e acabaram por adotá-los. O filósofo alemão Georg W. F. Hegel, em sua obra Lições sobre a Filosofia da História, apresenta o Império Persa como "o primeiro império a morrer", e seu povo como o "primeiro povo histórico" na história. Segundo o célebre orientalista americano Arthur Upham Pope (1881 1969), "o mundo ocidental tem uma dívida enorme a ser paga à civilização persa". Já o historiador e filósofo americano Will Durant, em um de seus discursos sobre a Pérsia e a histórica da civilização, diante da Sociedade Irã-América, em Teerã, 21 de abril de 1948, declarou:
Atestados
No início do reinado de Artaxerxes II, em 399 a.C., os persas perderam o controle do Egito. Reconquistaram-no 57 anos mais tarde – em 342 a.C. – quando Artaxerxes III conquistou novamente aquele território.


