Palácio de Aquisgrão
O Palácio de Aquisgrão era um conjunto de edificações de tipo residencial, político e religioso, que foi erigido pelo imperador Carlos Magno como centro do poder carolíngio. O palácio encontrava-se na atual cidade de Aquisgrão, no atual estado federado da Renânia do Norte-Vestfália, a oeste da Alemanha.
O palácio antes de Carlos Magno
Já na Antiguidade, os romanos escolheram o lugar da atual Aquisgrão devido à existência de umas fontes termais, bem como pela sua posição de posto avançado à província da Germânia. Denominada Aquae Granni, o lugar foi adaptado com termas sobre uma superfície de 20 hectares, em uso entre o século I e o IV. A cidade romana cresceu intimamente unida a tais termas segundo um desenho urbano em plano hipodâmico clássico, que sucedia o anterior acampamento legionário. Um palácio era destinado a residência do governador da província romana ou inclusive do próprio imperador se for o caso. No século IV, tanto a cidade quanto o palácio romanos resultaram destruídos como consequência da Invasão dos bárbaros.
A escolha de Aquisgrão
A escolha de Aquisgrão como local de residência fixa foi uma consequência de uma reflexão por parte de Carlos Magno, e ocorreu num momento chave do seu reinado. Após chegar a ser rei dos francos, Carlos Magno levara a cabo numerosas expedições militares que permitiram enriquecer-se e engrandecer o seu reino, especialmente para leste. Conquistara a Saxônia pagã entre 772 e 780, mas a região resistia-se, sendo necessárias constantes guerras contra os Saxões, com uma duração total de trinta anos. Carlos Magno acabou por romper com o uso germânico de uma oste itinerante e estabeleceu uma autêntica capital. Com a idade, foi diminuindo o ritmo das suas expedições militares e, após 806, apenas abandonou já Aquisgrão.
Um projeto importante confiado a Eudes de Metz
Os historiadores praticamente não dispõem de dados biográficos sobre o arquiteto do Palácio de Aquisgrão, Eudes de Metz. O seu nome aparece citado num texto de Eginhardo (775–840), o biógrafo de Carlos Magno. Supõe-se que se tratava de um sacerdote com conhecimentos culturais, familiarizado com as artes liberais, em particular com o quadrívio. Parece indubitável que lera os tratados de arquitetura de Marco Vitrúvio. A decisão de proceder à construção do palácio foi tomada em finais da década de 780, ou até mesmo em princípios da década seguinte, num momento em que Carlos Magno ainda não possuía o título de imperador. As obras começaram em 794 e prolongaram-se durante vários anos. Aquisgrão tornou-se cedo na residência favorita do monarca, até o ponto de não se ausentar apenas do seu palácio após 807.
Situada a norte do complexo palatino, a grande sala da assembleia (aula regia ou aula palatina em latim) era destinada a acolher as "queixas gerais", uma vez por ano. Tratava-se da reunião dos "Grandes do Reino" (e depois do Império), ou seja, altos dignitários que ocupavam os recursos do poder: condes, fidelis e vassalos do rei, bispos e abades. A assembleia geral decorria habitualmente durante o mês de maio; os participantes na mesma discutiam ali dos assuntos políticos e judiciários de importância. Os capitulários, redigidos pelos escribas da chancelaria de Aquisgrão resumiam, por escrito, as decisões que se adotaram. Também aconteciam no mesmo edifício as cerimônias oficiais, bem como as recepções dos embaixadores estrangeiros. Descrevendo a cerimônia de coroação de Luís, o filho de Carlos Magno, Ermoldo, o Negro, indica que Carlos Magno falava "desde o alto do seu trono de ouro". As dimensões da sala (1000 m²) eram adaptadas para receberem simultaneamente várias centenas de pessoas: embora o edifício não se tenha conservado, é sabido que media 47,42 metros de longo por 20,76 metros de largo, e com uma altura de 21 metros. A sua planta parece ter-se inspirado na aula palatina romana de Tréveris. A estrutura era construída com tijolos e a sua forma era a de uma basílica provida de três absides: o maior (17,2 metros), situado a oeste, estava destinado a acolher o rei e o seu entorno mais imediato. Os outros duas absides eram menores, e encontravam-se a norte e a sul. A luz penetrava através de duas filas de janelas. O interior era possivelmente ornamentado com pinturas representando cenas de heróis da antiguidade, bem como contemporâneos. Uma galeria em madeira rodeava todo o edifício, entre as duas filas de janelas. Desde essa galeria era possível a vista do mercado que se celebrava a norte do palácio. Entrava-se por uma galeria porticada a sul da sala. O absidíolo sul cortava em dois este acesso.
Descrição
A capela palatina encontrava-se ao outro lado do complexo palatino, para sul. Estava unida à aula regia por meio de uma galeria de alvenaria. Esta capela representava o outro aspecto do poder de Carlos Magno, o poder religioso. O Papa Leão III consagrou o edifício em 805, consagrando-o à Virgem Maria. Os clérigos encarregados da capela ocupavam vários edifícios, que apresentavam uma planta em forma de cruz latina: a leste uma cúria, a norte e a sul umas oficinas ou áreas de trabalho e a oeste um ante-corpo (Westbau) e um átrio com êxedras. Contudo, a peça central era a capela, coberta por uma cúpula octogonal, com um diâmetro de 16,54 metros e uma altura de 31 metros. Oito maciços pilares suportavam as grandes arcadas. No piso térreo, uma nave colateral rodeava a nave situada sob a cúpula; ali se encontravam os servidores do palácio.
Simbolismo
Eudes de Metz levou em conta o simbolismo cristão de cifras e números. O edifício estava concebido como uma representação da Jerusalém celestial (ou seja, do reino de Deus), tal e qual aparecia descrita no Apocalipse. O perímetro exterior da cúpula media exatamente 144 pés carolíngios, enquanto o da Jerusalém celestial, cidade ideal planejada para os anjos, era de 144 côvados. O mosaico da cúpula, atualmente coberto por uma restauração do século XIX, mostrava a figura de Cristo majestática, acompanhado pelos 24 anciãos do Apocalipse. Outros mosaicos, nas abóbadas da nave lateral, recuperam tal temática ao representar Jerusalém celestial. Finalmente, o trono de Carlos Magno, localizado no primeiro andar a oeste, encontrava-se sobre o sétimo degrau de um estrado.
O tesouro e os arquivos
O tesouro e os arquivos do palácio encontravam-se numa torre encostada à grande sala, a norte do complexo. O chambelão era o oficial responsável pelo tesouro e pela guarda-roupa dos soberanos. A administração das finanças encontrava-se pelo arquicapelão, que era ajudado por um tesoureiro. O tesouro reunia as doações dos Grandes do Reino nas assembleias gerais ou os presentes dos embaixadores, ou seja, uma heteróclita coleção de objetos que abrangia de livros preciosos a armas e a vestimenta. Igualmente, o rei adquiria mercadorias aos mercadores que frequentavam Aquisgrão. Os arquivos encontravam-se sob responsabilidade do chanceler. A Chancelaria empregava vários escrevas e notários que punham por escrito os diplomas, os capitulares ou a correspondência real. Os empregados das oficinas do rei eram com frequência clérigos da própria capela.
A galeria de ligação
A galeria coberta media um centenar de metros. Esta galeria unia a sala da assembleia com a capela; um vestíbulo monumental, localizado no seu centro, servia como acesso principal. No primeiro andar encontrava-se uma sala para as audiências judiciárias, na que o rei dava justiça, embora alguns assuntos que afetassem os Grandes do Reino fossem ventilados na aula regia. Quando o rei se ausentava, esta atividade recaía no comes palatinus ou conde palatino. O edifício devia albergar igualmente uma guarnição militar.
As termas
O complexo termal, localizado ao sudeste, media 20 hectares e compreendia vários edifícios construídos próximos das fontes do imperador e de Quirino. Eginhardo menciona uma piscina ao ar livre capaz de atender simultaneamente cem nadadores:
Outros edifícios, outras funções
O restante dos edifícios não estão por enquanto identificados. A zona de residência privada de Carlos Magno e da sua família parece ocupar a parte nordeste do complexo palatino; o seu quarto encontrava-se provavelmente no primeiro andar. Os funcionários públicos e os criados do palácio residiam, alguns, na parte ocidental, e outros na cidade de Aquisgrão. Sabe-se que o imperador era proprietário de uma biblioteca mas é difícil conhecer o seu local exato. O palácio albergava igualmente centros de produção de obras de arte: um scriptorium que produziu vários preciosos manuscritos (como o Missal de Drogon, o Evangeliário de Godescalco ou outros) e uma oficina que elaborava peças de ourivesaria e de marfim. Havia também uma fábrica de moeda, a qual ainda seguia em uso em finais do século XIII.
A herança romana, o modelo bizantino
Se bem que Carlos Magno não quis restaurar o Império Romano, mas fundar um novo império com componentes mistos (francos e cristãos ao mesmo tempo), o palácio tomou prestados diversos elementos da civilização romana: a aula palatina retoma a planta basilical; a basílica era um edifício público no qual na Antiguidade era discutido o desenvolvimento dos assuntos da cidade. A capela, pela sua vez, inspirou-se igualmente nos modelos da antiguidade romana: as grades recuperam uma decoração arcaizante (as folhas de acanto) e as colunas estão terminadas por capitéis coríntios. O imperador foi inumado na capela palatina no interior de um antigo sarcófago reutilizado do século II, manufaturado em mármore e no que aparece representado o tema do rapto de Proserpina. Finalmente, os letrados contemporâneos de Carlos Magno denominavam Aquisgrão como a "segunda Roma".
O palácio de um franco
O Palácio de Aquisgrão contém múltiplas referências aos modelos arquitetônicos romanos e bizantinos. Porém, Eudes de Metz usou o seu talento como arquiteto franco e introduziu elementos claramente diferentes dos anteriores. O Palácio distingue-se igualmente dos exemplos da arquitetura merovíngia pelo seu espírito de grandiosidade e pela multiplicação volumétrica. O abobadamento da capela expressa perfeitamente uma original capacidade de trabalho carolíngia, de modo especial na charola, coberta por uma cúpula de aresta. Enquanto o imperador bizantino se sentava a leste para assistir aos ofícios litúrgicos, Carlos Magno sentava-se a oeste. Finalmente, o trabalho da madeira e do colombage são materiais e trabalhos característicos do norte da Europa.
A centralização e a unidade imperiais
A planta do complexo encenava a aliança entre os dois poderes: o poder espiritual, que era representado pela capela sul, e o poder temporário, representado pela assembleia, a norte do complexo. Ambos os polos de poder encontravam-se simbolicamente unidos por uma galeria. Desde Pepino o Breve, o pai do imperador Carlos Magno, a pessoa do rei carolíngio era sagrada, por ser considerado que obtinha diretamente o seu poder do próprio Deus. O próprio Carlos Magno visava exercer influência sobre a vida religiosa através dos numerosos concílios ou sínodos que se produziam sucessivamente em Aquisgrão. Ao estabelecer em Aquisgrão a sede do poder civil e da Corte, Carlos Magno sabia que ia poder controlar muito mais facilmente o seu entorno. O Palácio de Aquisgrão era, pois, o lugar no que se concentravam os altos dignitários do Império Carolíngio, o cerne da capital do Império.
Aquisgrão, modelo para outros palácios?
É difícil discernir se outros palácios carolíngios imitaram o Palácio de Aquisgrão, pois muitos deles foram demolidos. Em qualquer caso, as obras executadas em Aquisgrão não foram as únicas realizadas à época de Carlos Magno: 16 catedrais, 232 mosteiros e até 65 palácios reais foram construídos entre 768 e 814. Parece que a capela palatina de Aquisgrão foi imitada por outros edifícios do mesmo tipo: a filiação é clara no caso do oratório octogonal de Germigny-des-Prés, construído nos primórdios do século IX por Teodulfo de Orleães. A igreja de Ottmarsheim na Alsácia retoma a planta centrada, mas é mais tardia (do século XI). Há também influências da capela palatina em Compiègne, ou em vários outros edifícios religiosos na Alemanha, como por exemplo a igreja abacial da Trindade na cidade de Essen.
História do Palácio após Carlos Magno
Carlos Magno foi enterrado na capela em 814. O seu filho e sucessor, o imperador Ludovico Pio, ocupou o Palácio de Aquisgrão, embora sem fazer deste uma residência fixa. Residia ali geralmente no Inverno e até Semana Santa. Vários concílios importantes decorreram em Aquisgrão em princípios do século IX. Os que se celebraram em 817 e em 836 decorreram nos edifícios contíguos à capela. Em 817, Ludovico Pio mandou coroar o seu filho maior Lotário I no Palácio, em presença do conjunto do povo franco. Como consequência do Tratado de Verdun de 843, o Império Carolíngio ficou fragmentado em três reinos diferentes. Aquisgrão ficou no Reino da Lotaríngia. Lotário I (r. 840–855) e Lotário II (r. 855–869) fixaram a sua residência no Palácio. Mas após a morte deste último, o palácio perdeu depressa o seu papel estelar na cultura e na política. A Lotaríngia passou a ser desde então o prêmio de um jogo entre os reis dos outros dois reinos francos, o da França Ocidental (cujo sucessor é a atual França) e o da França Oriental, cujo sucessor foi o Sacro Império Romano Germânico. A antiga Lotaríngia foi repartida em várias ocasiões para finalmente passar sob controle do reino da Alemanha sob Henrique I da Germânia (r. 876–936).


