Maomé
Abu Alcácime Maomé ibne Abedalá ibne Abedal Motalibe ibne Haxime, mais conhecido somente como Maomé (em árabe: مُحَمَّد; romaniz.: Muḥammad, Mohammad ou Moḥammed foi um líder religioso, político e militar árabe. Segundo a religião islâmica, Maomé é o mais recente e último profeta do Deus de Abraão. Para os muçulmanos, Maomé foi precedido em seu papel de profeta por Jesus, Moisés, Davi, Jacó, Isaac, Ismael e Abraão. Como figura política, ele unificou várias tribos árabes, o que permitiu as conquistas árabes daquilo que viria a ser um califado que se estendeu da Pérsia até à Península Ibérica.
O nome completo de Maomé em árabe pode ser transliterado como abū al-qāsim muḥammad ibn ʿabd allāh ibn ʿabd al-muṭṭalib ibn hāshim (Abu Alcácime Maomé ibne Abedalá ibne Abedal Motalibe ibne Haxime), sendo que Muhammad significa "louvável" e seu nome completo inclui o nome Abedalá (Abd Allah), que significa "servo de Deus". Este nome já era comum na Arábia antes do surgimento do islão, não sendo por isso necessário ver nele um epíteto criado pelo próprio. Maomé é uma forma aportuguesada do francês Mahomet, que por sua vez é uma deformação do turco Mehmet,[carece de fontes?] tendo daí derivado os adjetivos portugueses maometano e maometismo para designar, respectivamente, o seguidor e a crença difundida por ele. Na África Negra muçulmana, o nome foi deformado para Mamadou, e entre os berberes encontra-se a forma Mohand. Nos textos portugueses mais antigos, este antropónimo aparece grafado de variadíssimas formas, como Mafoma, Mafamede, Mafomede, Mafomade, Mahamed, Mahoma, Mahomet, Mahometes ou Mahometo, sendo Mafamede e Mafoma por ventura as mais divulgadas (de resto, a última forma é correlata do nome do profeta nas outras línguas ibéricas, sendo que em castelhano, catalão, galego e até basco, se diz Mahoma). Desde o século XIX, porém, que tais termos caíram completamente em desuso no português, sendo até considerados ofensivos, posto que o seu uso, nas crónicas antigas, se fez sempre associado num contexto de cruzada contra a religião muçulmana.
A Península Arábica era em grande parte árida e vulcânica, tornando a agricultura difícil, exceto perto dos oásis ou nascentes. A paisagem era pontilhada de povoações, sendo 2 das mais proeminentes Meca e Iatrebe (Medina). Medina era um florescente assentamento agrícola, e Meca era um centro financeiro importante para muitas tribos circunvizinhas. A vida comunal era essencial para a sobrevivência nas duras condições do deserto. A afiliação tribal, baseada no parentesco ou em alianças, era uma importante fonte de coesão social. Os árabes indígenas eram nômadas ou sedentários, os primeiros viajando constantemente de um lugar para outro buscando água e pasto para seus rebanhos, enquanto os segundos se estabeleceram e se concentraram no comércio e/ou na agricultura. A sobrevivência nómada também dependia de raides habituais de caravanas ou de oásis; os nômadas não viam isso como um crime, embora tivessem o cuidado de não cometer assassínio, para evitar vinganças. Comenta Karen Armstrong na sua biografia de Maomé, que os raides eram uma espécie de desporto local, conduzido com estilo, para redistribuir a pouca riqueza existente.
Maomé teria nascido em Meca no dia 12 do mês de Rabi Alual (terceiro mês do calendário árabe) no "ano do Elefante". Esse ano recebeu esta denominação porque nele se pensa ter verificado o ataque pelas tropas de Abraha (governador do sul da Arábia ao serviço do imperador da Etiópia) que estavam equipadas com elefantes. A empreitada não obteve sucesso. Seu exército foi derrotado e dizimado pelas epidemias. Na era cristã este ano corresponderia a 570. Estudos recentes, no entanto, sugerem que o episódio, tenha ocorrido substancialmente antes do nascimento de Maomé. Maomé pertencia ao clã dos hachemitas, por sua vez integrado na tribo dos coraixitas (Quraysh, "tubarão"). Era filho de Abedalá e de Amina. Seu pai morreu pouco tempo antes do seu nascimento, deixando à esposa como herança cinco camelos e uma escrava. Entre as famílias de Meca existia na época a tradição de entregar temporariamente as crianças às famílias beduínas que viviam no deserto, uma vez que se considerava que o clima de Meca era pouco saudável; para além disso, acreditava-se que uma temporada de vida no deserto prepararia melhor a criança para a vida adulta. Em troca desta adopção temporária, os beduínos recebiam presentes dos habitantes de Meca. Apesar das limitações económicas, Amina entregou Maomé aos cuidados de uma ama-de-leite chamada Halíma (Haleemah).
Vida familiar
Durante a sua vida e depois da morte de Cadija, Maomé viria a casar com um grande número de outras mulheres, de onze a quinze consoante as fontes na sua maioria viúvas, excepto Aixa. Algumas destas mulheres eram viúvas de companheiros de Maomé, tinham uma idade avançada e o casamento com o profeta surgia como uma forma de garantir protecção e/ou estabilidade económica; outras eram viúvas da guerra com Meca, algumas sendo parte do saque, como Sufiá binte Huiai, cujo marido tinha sido torturado e executado; algumas ainda eram escolhidas também pela sua beleza, como Juai Riá binte Alharite, que tinha sido feita prisioneira num ataque. Em outros casos os casamentos serviram para cimentar alianças políticas.
Morte e legado
Um ano antes da sua morte, Maomé dirigiu-se pela última vez aos seus seguidores naquilo que ficou conhecido como o sermão final do profeta — o sermão do adeus. Partes do seu texto encontram-se nos livros de hádices e várias versões traduzidas do sermão foram publicadas. O texto que se segue é um dos vários frequentemente citados: Ó gentes, ouvi-me atentamente porque não sei se estarei entre vós depois deste ano. Portanto, ouvi o que tenho a dizer com muita atenção e levai essas palavras àqueles que não puderam estar presentes aqui, hoje. Ó gentes, da mesma forma que guardai este mês, este dia, esta cidade como sagrados, respeitai também a vida e propriedade de todo muçulmano, como uma responsabilidade sagrada. Devolvei os bens que vos foram confiados aos seus legítimos donos. Não feri ninguém porque assim ninguém vos ferirá. Lembrem-se de que verdadeiramente vós vos encontrareis com o vosso Senhor e que Ele ajustará as contas. Deus proibiu a usura (juros), portanto, todas as obrigações decorrentes de juros devem ser postas de lado.
Maomé tinha por hábito passar noites nas cavernas das montanhas próximas de Meca, praticando o jejum e a meditação. Sentia-se desiludido com a atmosfera materialista que dominava a sua cidade e insatisfeito com a forma como órfãos, pobres e viúvas eram excluídos da sociedade. A tradição muçulmana informa que no ano de 610, enquanto meditava numa caverna do Monte Hira, Maomé recebeu a visita do arcanjo Gabriel (Jibrīl), que o declarou como profeta de Deus. Desde este momento e até à sua morte, também recebeu outras revelações. Ao receber estas mensagens, Maomé teria transpirado e entrado em estado de transe. A visão do arcanjo Gabriel o teria perturbado, mas sua mulher Cadija o reconfortou, assegurando que não se trataria de uma possessão de um génio. Para tentar compreender o sucedido, o casal consultou Uaraca ibne Naufal, um primo de Cadija que se acredita ter sido cristão. Com a ajuda deste, Maomé interpretou as mensagens como sendo uma experiência idêntica à vivida pelos profetas do judaísmo e cristianismo.
Apesar da mensagem monoteísta de Maomé ter sido aceita por alguns habitantes de Meca, muitos rejeitaram-na. Os conceitos religiosos por ele apresentados, e em particular a ideia de um Julgamento Final, geravam incredulidade e zombaria junto dos mequenses. Pediam-lhe que fizesse um milagre capaz de comprovar as suas alegações ou então acusavam-no de estar possuído por um djiin (um espírito maligno). Para além disso, ele tornou-se muito impopular com os governantes, e seus seguidores foram alvos de ataques físicos repetidos, bem como de ataques às suas propriedades. De acordo com os relatos, alguns dos habitantes de Meca lançaram ataques vigorosos e brutais contra esta nova religião: forçaram pessoas a deitar-se sobre areia ardente, colocaram enormes pedras sobre seus peitos, derramaram ferro derretido sobre eles. Alguns teriam morrido. Esta perseguição não atingiu inicialmente o próprio Maomé, pelo simples motivo de que a sua família detinha muita influência. Assim, a perseguição dos convertidos exerceu-se preferencialmente sobre os escravos, não protegidos por uma tribo ou um patrono. Sumaia binte Caiate, uma escrava negra, é celebrada como a primeira mártir do Islão. Estas circunstâncias tornaram-se intoleráveis e Maomé aconselhou alguns dos seus seguidores a irem para a Abissínia, por volta do ano 615.
Em 622, e em resultado do incremento da perseguição aos muçulmanos, estes começaram a deixar Meca em direcção a Iatrebe, uma cidade a cerca de 350 km a norte de Meca, que mais tarde passaria a ser conhecida por Medina. Esta migração é conhecida como a Hégira, palavra por vezes traduzida como "fuga", embora o seu sentido preciso seja de "emigração", mas não num sentido geográfico, mas de separação em relação à família e ao clã. O calendário islâmico tem início no dia em que começou a Hégira, 16 de Julho de 622. A migração de Meca para Medina não foi um acto impulsivo, mas o resultado de contactos prévios. No Verão de 621, doze homens de Medina visitaram Meca durante a peregrinação anual e declararam-se muçulmanos. Em Junho do ano seguinte uma delegação de setenta e cinco medineneses também se declara muçulmana em Meca e jura proteger Maomé de qualquer ataque. Os primeiros muçulmanos começaram a abandonar Meca em Julho de 622; na época a viagem duraria nove dias. Os muçulmanos partiram em pequenos grupos e como tal não se gerou desconfiança entre os mequenses.
A deslocação para Medina colocou grandes dificuldades financeiras para o grupo de seguidores de Maomé. Os vindos de Meca (muhajirun) tiveram de ser apoiados pelos muçulmanos de Medina (ançares, ou seja, ajudantes ou auxiliadores). Entre as primeiras coisas que o profeta Maomé fez com a preocupação de encerrar as disputas de longa data entre as tribos de Medina foi elaborar um documento conhecido como a Constituição de Medina, "estabelecendo uma forma de aliança ou confederação" entre as oito tribos de Medina e os emigrantes muçulmanos de Meca; o documento especificou os direitos e deveres de todos os cidadãos e as relações das diferentes comunidades em Medina (incluindo incluindo as relações da comunidade muçulmana com outras comunidades, especificamente os judeus e outros Povos do Livro). A comunidade definida na Constituição de Medina (Umma), tinha uma orientação religiosa, também moldada por considerações práticas e preservava substancialmente as formas legais das antigas tribos árabes.
Guerras
Em Março de 624, Maomé preparou um ataque a uma caravana de Meca que regressava da Síria. A caravana, liderada por Abu Sufiane (líder do clã omíada), conseguiu enganar os muçulmanos. Contudo, Anre ibne Hixame, de Meca (líder do clã maquezumita) que se tinha previamente oposto a Maomé e organizado um boicote contra o clã haxemita, pretendia ensinar-lhe uma lição. A 15 de Março de 624, próximo de um lugar chamado Bader, as duas forças colidem. Apesar de serem apenas 300 mal equipados contra 800 mequenses melhores equipados na batalha, os muçulmanos, com maior disciplina e saber militar, tiveram sucesso, matando pelo menos 45 naturais de Meca, incluindo Anre ibne Hixame, e tomando 70 prisioneiros, com apenas 14 baixas muçulmanas. O Alcorão, pela voz de Alá, esclarece que ajudou os fiéis na batalha, enviando milhares de anjos. Para os muçulmanos a vitória foi encarada como uma confirmação da missão profética de Maomé. Muitos habitantes de Medina converteram-se ao Islão e Maomé tornou-se o governador de facto da cidade.
Conquista de Meca
Por volta de 627 Maomé tinha unido Medina sob o Islão, com o desaparecimento dos seus inimigos internos. Os beduínos, após um período de batalhas e negociações, tornaram-se aliados de Maomé e aceitaram a sua religião. Depois de muito contacto com a cidade e com os muçulmanos, alguns converteram-se gradualmente. Por esta altura, as revelações que supostamente tinham visitado Maomé, chegaram ao fim. Ele regressou então a Meca para tomar posse da Caaba. Maomé colocou os cidadãos de Meca sob pressão económica, destinada primeiramente a ganhar a adesão deles ao Islão. Em Março de 628, ele partiu para a "peregrinação" a Meca, com 1 600 militares que o acompanhavam. Os naturais de Meca no entanto, puseram travo ao avanço destas forças nos limites do seu território, em Hudaibia. Alguns dias depois, os de Meca fizeram um tratado com Maomé. Com negociação e o consentimento dos mais velhos Coraixitas, ele fez uma peregrinação à Caaba, desarmado. O tratado estabelecia uma trégua de dez anos, e os muçulmanos tinham permissão para fazer a peregrinação a Meca no próximo ano. O casamento de Maomé com Ramla binte Abi Sufiane, filha de seu antigo inimigo Abu Sufiane, cimentou ainda mais o tratado.
Após a Hégira, Maomé começou a estabelecer alianças com tribos nómadas. À medida que a sua força e influência cresceu, insistiu que as tribos potencialmente aliadas se tornassem muçulmanas, e enviou grupos armados convidando à conversão. Quando estava em Meca, Maomé foi informado de que havia uma grande concentração de tribos hostis e partiu para as defrontar, com um exército de 12 000 homens. A batalha teve lugar em Hunain, contra a tribo beduína dos Hawazin (inimigos de longa data de Meca) e os seus aliados os Tacifes, no ano de 630, com um poderoso grupo de cerca de 20 000 guerreiros, e pese embora uma retirada inicial dos muçulmanos no meio de grande confusão, os inimigos foram derrotados, muitos dos seus mortos ou aprisionados, capturadas cerca de 6 000 mulheres e crianças, gado e armas, 24 000 camelos e outros bens. A importância da batalha verifica-se pela sua menção no Alcorão (9.25, 9.26) Como seria de esperar, a maior parte dos Hawazin converteu-se ao Islão nesta mesma ocasião, tendo Maomé ordenado, em consequência, a devolução das mulheres e crianças que tinham sido cativas.
Usualmente, quando um muçulmano se refere a Maomé, Jesus ou outro dos profetas, imediatamente após o nome diz ou escreve "que a paz e bênção de Alá estejam sobre ele" ou expressão equivalente em outra língua (frequentemente árabe), ou ainda usa a sigla dessa expressão. A sigla tradicional em árabe é "swas". Maomé é considerado pela comunidade muçulmana como um modelo a seguir. A devoção à sua pessoa tem sido expressa ao longo dos séculos das mais variadas formas, como por exemplo através da escrita de poemas. Um dos poemas mais famosos, a "Burda" (ou "Poema do Manto") foi composto no século XIII por Al-Busiri. Embora não exista registro de milagres feitos por Maomé, alguns relatos populares atribuem-lhe essa capacidade. Em vários locais do mundo muçulmano existem santuários dedicados a um pelo da sua barba. No Palácio Topkapı, em Istambul, um relicário guarda aquilo que se acredita ter sido o seu manto, as suas espadas, bem como uma pegada que ficou registada numa superfície enlameada e alguns pelos da sua barba.
As representações visuais do profeta podem eventualmente ser proibidas e consideradas insultuosas. Geralmente os xiitas e os sufis aceitam mais a ideia da representação, que em geral o Islão rejeita. A proibição pretende-se estender a todo o mundo não muçulmano. Segundo Azzam Tamimi, ex-chefe do Instituto de Pensamento Islâmico, "é aceite por todas as autoridades islâmicas que o profeta Maomé e os demais profetas não podem ser desenhados e não podem ser reproduzidos em fotos, porque são, segundo a fé islâmica, indivíduos infalíveis, modelos de comportamento, e portanto não podem ser representados em nenhuma maneira que seja desrespeitosa." Recentemente, charges de Maomé criticando o terrorismo que foram publicadas na Europa causaram muita polêmica, grande furor do mundo islâmico e protestos em todo o mundo. Como vingança, o jornal iraniano Hamshahri fez uma competição internacional de charges sobre o Holocausto.


