Abu Iúçufe Iacube Almançor
Abu Iúçufe Iacube, também chamado Iacube I Almançor ou somente Almançor, ou Miramolim na historiografia portuguesa, foi califa almóada entre 1184 e 1199. Seu reinado coincidiu com o período de máximo esplendor do Califado Almóada no Alandalus. Filho do califa Abu Iacube Iúçufe I (r. 1163–1184) e uma escrava de Silves, foi proclamado califa em Sevilha em 10 de agosto de 1184, dias após a morte de seu pai. Em setembro volta ao Magrebe, onde reafirma sua posição ao ser novamente proclamado em Rabate e então segue para Marraquexe, sua capital.
Ascensão
Nascido no começo de 1160, Iacube era filho do califa Abu Iacube Iúçufe I (r. 1163–1184) com a escrava dada a Iúçufe pelo senhor de Silves, Sidrai ibne Uazir. Em 1183, o Alandalus (Hispânia) sofria enorme pressão de forças castelhanas e portuguesas em Sevilha e os leoneses sitiaram Cáceres. Em resposta, em dezembro, Iúçufe reuniu um grande exército que dirigiu-se contra o Alandalus. Cruzou o estreito de Gibraltar e entrou em Sevilha em 25 de maio de 1184. Saiu da cidade em 7 de julho à Badalhouce e então dirigiu-se a oeste rumo a Santarém, onde chegou em 27 de junho. A cidade estava sob defesa do rei Afonso I (r. 1112–1139), mas Iúçufe decidiu sitiá-la. O cerco durou até 3 ou 4 de julho, quando Iúçufe retirou-se e foi ferido mortalmente na confusa manobra. Sua morte foi escondida até o exército alcançar Sevilha, onde seu filho foi proclamado.
Tumultos na Ifríquia
Aproveitando o revés em Santarém, os Banu Gania se recusaram a se submeter aos almóadas e lançaram uma investida contra o Magrebe Central e Ifríquia sob Ali. Eles tomaram Bugia em 12 de novembro de 1184 (ou 22 de maio de 1185 segundo A. Huici Miranda) e marcharam ao Magrebe Central, capturando Argel, Muzaia, Miliana, Achir, Alcalá dos Banu Hamade e Constantina. Como contra-ataque, Iacube enviou de Ceuta expedição marítima e terrestre sob seu sobrinho, o saíde Abu Zaíde, que recapturou Argel, Bugia e demais regiões perdidas aos Banu Gania na primavera de 1186 e marchou contra Ali, que estava sitiando Constantina. Ali, abandonando o cerco, retirou-se rapidamente para Jaride, onde tomou Tozir e Gafsa. Abu Zaíde cometeu grave erro ao julgar que Ali estivesse fora de combate. Refugiado com seus irmãos na Ifríquia, Ali se recuperou para retomar a luta e reuniu vários dos grupos árabes e berberes da região e Caracuxe, escravo liberto de origem armênia de um sobrinho do sultão Saladino (r. 1174–1193), com quem se aliou em Trípoli.
Campanha em Portugal
Em 1189, durante o Cerco de Acre conduzido pelos cruzados, o sultão Saladino tentou obter o apoio da frota almóada, um apelo que Iacube se recusou a atender; ibne Caldune relata que o califa depois muda de ideia e envia 190 navios ao Egito. Simultaneamente, o rei Sancho I (r. 1185–1211) tomou Silves e Lagos, no Algarve, dos mouros e em 1190, a trégua acordada pelo pai de Iacube com o Reino de Castela terminou e o rei Afonso VIII (r. 1158–1214) aproximou-se de Sevilha e atacou Magacela, Reina, Alcalá de Guadaíra e Calasparra. Aproveitando-se da trégua já firmada com o Reino de Leão e a que refirma com Castela após chegar em abril em Tarifa, na Andaluzia, Iacube organiza expedição contra o Algarve, onde captura Paderne e ataca, sem sucesso, Silves. Marchou ao norte, atacando Torres Novas, que foi capturado e destruído, e Tomar, que foi cercado em 05 de julho; a resistência templária sob Gualdim Pais, a quebra dos abastecimentos feitos a partir de Sevilha e doenças que se espalharam nas fileiras almóadas obrigaram-nos a levantar o cerco e voltar a Sevilha em 11 de julho. As fontes portuguesas que relatam tais eventos também citam o ataque almóada em Alcobaça e Leiria, mas é improvável devido ao curto período em que Tomar foi sitiada. Contudo, a presença moura deixou o Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra e Santarém em alerta para possível ataque. Também se fala nas fontes do ataque de Lisboa, no qual possíveis três mil mulheres e crianças foram capturadas.
Batalha de Alarcos e morte
Por volta de 1194, aproveitando o fim da trégua com os almóadas e as novas alianças com Leão e Navarra, Afonso VIII retomou os ataques dirigidos ao sul e chegou, provavelmente, às imediações de Sevilha. Em 1 de junho de 1195, Iacube desembarcou suas tropas no Alandalus na linha costeira entre Alcácer-Ceguer e Tarifa. Em 6 de junho foi para Sevilha e em 30 de junho chegou em Córdova, de onde partiu em 4 de julho em direção a Alarcos, onde acampou em 18 de julho. Iacube conseguiu uma esmagadora vitória contra os catalães e seus aliados na famosa Batalha de Alarcos, tomou cinco fortalezas na região de Campo de Calatrava. e capturou, segundo Ibne Caldune, quase cinco mil cristãos nas cercanias de Badalhouce. Ao retornar para Sevilha, marcou a sua vitória ao adotar o título honorífico de Almançor Bilá ("o vitorioso pela vontade de Alá [Deus]");
Iacube esteve, mais do que os califas anteriores, muito interessado em obras públicas. Dentre suas obras se destacou a construção do Castelo de Aznalfarache, que desejava usar como residência durante suas campanhas no Alandalus, a conclusão do minarete da Mesquita de Sevilha — que constituiu o corpo principal da Giralda (torre sineira da Catedral de Sevilha) — iniciada por seu pai Abu Iacube Iúçufe, a edificação das muralhas do alcáçova de Sevilha e vários edifícios importantes (um conjunto palaciano, um hospital e a ampliação da casbá (cidadela amuralhada) da qual sobrevive o decorado Portão Agnau) em Marraquexe. Também finalizou a Mesquita Cutubia inciada por Abde Almumine, cujo mimbar (púlpito) comissionado por ele tem estilo cordovês. Iacube quis fazer do local em volta da cidadela de Salé, no atual Marrocos, uma grande cidade como "prova do seu poder e fé". Para tal mandou erguer extensas muralhas que rodeavam uma grande área, cujo canto noroeste era ocupado pela antiga casbá. No interior das muralhas mandou construir a grande Mesquita Haçane, que pretendia que fosse a maior do mundo. O futuro não correspondeu às expetativas — da grande mesquita só foi finalizado o imponente minarete, a atual Torre Haçane — e o local pouco se desenvolveu para além de um campo militar onde às vezes se concentravam tropas reunidas à jiade, ficando o interior amuralhado praticamente vazio.
Seu reinado é tido como apogeu do Califado Almóada. Segundo A. Huici Miranda, seu caráter energético, o cuidado e rigor com que supervisionou a administração de seus domínios e sua coragem pessoal permitiram-lhe derrotar todos os seus inimigos na Ifríquia e Alandalus, elevar a moral de seus exércitos e passar à memória da posteridade cercado pela auréola da lenda. Miranda entende que suas obras mostram-no como um continuador glorioso da obra monumental iniciada por seu avô e pai. Suas riquezas, o esplendor de sua corte, seu desejo de estar cercado por estudiosos, seu sucesso na guerra santa (jiade), cegou seus admiradores e os impediu de observar os germes de decomposição ocultos por trás de uma fachada tão brilhante: no Alandalus, apesar de seus sucessos contra Portugal e Castela, dificilmente poderia conter o avanço cristão, enquanto na Ifríquia, a revivente revolta árabo-maiorquina expôs uma profunda ferida no flanco do império, que logo drenaria toda sua força e energia.


