UHF (banda)
UHF é uma banda portuguesa de rock formada na Costa de Caparica, em Almada, em 1978. São os principais responsáveis pelo surgimento do boom do rock em Portugal, em 1980, e os fundadores do movimento de renovação musical denominado "rock portuguêsa int". São uma das bandas portuguesas mais prestigiadas e a mais antiga em atividade. A formação inicial foi composta por António Manuel Ribeiro, Renato Gomes (guitarra), Carlos Peres (baixo) e Américo Manuel (bateria). Atualmente são formados por António Manuel Ribeiro, António Côrte-Real (guitarra), Ivan Cristiano (bateria), Nuno Correia (baixo) e Miguel Urbano.
A 29 de janeiro de 2015 António M. Ribeiro editou em livro as 35 histórias que escreveu para a Antena 1, aquando das comemorações dos 35 anos da banda. É um documento histórico que reconhece os UHF como fundadores do movimento 'rock português' e a sua influência na criação da indústria rock. É também um testemunho para os jovens conhecerem parte da memória do país através de algumas canções dos UHF. O autor refere que é preciso unir as pontas da história e chamar as coisas pelo nome sem pruridos ou abrangências contranatura: O aparecimento do rock português é como está aqui factualmente apresentado: com datas, locais, acontecimentos, lançamentos discográficos. Está tudo no livro exposto de forma matemática (...) As histórias foram mal contadas e passaram a ser verdade." A 27 de fevereiro de 2015 saiu com a revista Blitz o disco Uma História Secreta dos UHF. Tem quatro maquetas do início da carreira, três temas registados ao vivo, o inédito "Um MMS Teu" e recupera as versões "Amores de Estudante", de Aureliano da Fonseca e Paulo Pombo de Carvalho, e "Os Vampiros" de José Afonso, ambas editadas no formato digital em 2013 e 2014, respetivamente.
Formação e primeiros anos (1977–1979)
Em 1976, enquanto o emergente estilo musical punk rock cativava Inglaterra e os Estados Unidos, Portugal procurava ajustar-se à liberdade recém conquistada com a revolução de Abril. O rock era visto pelos jovens como um movimento de contracultura, uma fuga aos princípios ditatoriais do regime salazarista. O rock era sinónimo de liberdade, uma linguagem musical sem ligação ao passado. Os UHF foram dos primeiros a saciar uma imensa sede de rock nessa nova realidade social e política do pós 25 de abril. António Manuel Ribeiro (voz e guitarra), Carlos Peres (baixo), Alfredo Antunes (bateria) e um guitarrista brasileiro formaram em 1976, em Almada, uma banda de covers chamada Purple Legion que atuava no circuito de bailes, que era o panorama musical da época, pois o rock que se fazia pelo mundo era pouco divulgado tanto pela imprensa como pela rádio. No final de 1977, Alfredo abandonou o grupo e o baterista Américo Manuel juntou-se a Carlos Peres e a António M. Ribeiro para iniciarem as composições de autor. Com a entrada do guitarrista Renato Gomes alteraram o nome da banda para À Flor da Pele e depois para UHF. De certa forma os Purple Legion funcionaram como embrião dos UHF, pois foi aí que o futuro se começou a desenhar. O vocalista explica como encontrou o nome para a banda:.mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}
Sucesso e o boom do rock português (1980–1982)
No início de 1980, Xutos & Pontapés, GNR, Heróis do Mar, IODO, Street Kids, António Variações, entre outros, foram lançados nos concertos dos UHF. Com o desaparecimento dos Aqui d’el-Rock, Minas & Armadilhas e dos Faíscas (depois Corpo Diplomático), foram os UHF que passaram a dirigir o motor do rock nacional. Cognominados de 'Locomotiva de Almada', impulsionaram o nascimento de novas bandas..mw-parser-output .side-box{margin:4px 0;box-sizing:border-box;border:1px solid #aaa;font-size:88%;line-height:1.25em;background-color:var(--background-color-interactive-subtle,#f8f9fa);color:inherit;display:flow-root}.mw-parser-output .infobox .side-box{font-size:100%}.mw-parser-output .side-box-abovebelow,.mw-parser-output .side-box-text{padding:0.25em 0.9em}.mw-parser-output .side-box-image{padding:2px 0 2px 0.9em;text-align:center}.mw-parser-output .side-box-imageright{padding:2px 0.9em 2px 0;text-align:center}@media(min-width:500px){.mw-parser-output .side-box-flex{display:flex;align-items:center}.mw-parser-output .side-box-text{flex:1;min-width:0}}@media(min-width:640px){.mw-parser-output .side-box{width:238px}.mw-parser-output .side-box-right{clear:right;float:right;margin-left:1em}.mw-parser-output .side-box-left{margin-right:1em}}.mw-parser-output .listen .side-box-text{line-height:1.1em}.mw-parser-output .listen-plain{border:none;background:transparent}.mw-parser-output .listen-embedded{width:100%;margin:0;border-width:1px 0 0 0;background:transparent}.mw-parser-output .listen-header{padding:2px}.mw-parser-output .listen-embedded .listen-header{padding:2px 0}.mw-parser-output .listen-file-header{padding:4px 0}.mw-parser-output .listen .description{padding-top:2px}.mw-parser-output .listen .mw-tmh-player{max-width:100%}@media(max-width:719px){.mw-parser-output .listen{clear:both}}@media(min-width:720px){.mw-parser-output .listen:not(.listen-noimage){width:320px}.mw-parser-output .listen-left{overflow:visible;float:left}.mw-parser-output .listen-center{float:none;margin-left:auto;margin-right:auto}}
Desconforto na editora e o primeiríssimo álbum ao vivo (1982–1985)
No início de 1982, os UHF tinham um sistema empresarial envolvente que englobava escritório, relações públicas, logística e gestão de sistemas de luz e som, que permitia à banda uma autonomia ímpar no panorama do espetáculo em Portugal. Quem fazia a primeira parte dos concertos do grupo tinha pela primeira vez direito a um som profissional, como lembrou o vocalista: "Por exemplo, no encarte do álbum 78/82 dos Xutos & Pontapés estão lá agradecimentos aos UHF", referindo-se aos aspetos técnicos que na altura só a banda tinha no país e que emprestava. Descontentes com a pouca atenção que a Valentim de Carvalho dava ao mediatismo da banda, decidiram quebrar o contrato de cinco anos e mudaram-se para a Rádio Triunfo, numa transferência que cobriu as manchetes dos jornais na época, a primeira em Portugal a envolver uma grande editora. A precipitada decisão, que apesar de submetida a votação não fora tomada por unanimidade, causou desconforto na banda. Em outubro lançaram Persona Non Grata (1982), o terceiro álbum de estúdio e o mais ferozmente rock, escrito ao longo desse verão quente e agitado. O tema "Um Mau rapaz" reflete, a partir do título, o clima psicológico que envolvia o grupo, não só pela troca da editora mas também pela fotografia da capa do disco em que António M. Ribeiro aparece isolado alimentando a especulação de uma foto promocional para uma futura carreira a solo; Suspeita que nunca se confirmou. Partiram em digressão passando por França e Alemanha, no ano em que totalizaram 86 concertos. No final de 1982, a maioria das bandas resultantes do boom perderam-se pelo caminho, fosse por ingenuidade, falta de solidez nos projetos, escolha voluntária ou desencanto. Apesar das claras dificuldades musicais e sociais da época, António Manuel Ribeiro, compositor e mentor da banda, conseguiu dar continuidade ao projeto sólido dos UHF.
Novo ciclo e retorno ao sucesso (1986–1996)
Os meandros do rock português começaram a melhorar em 1986, mas os UHF vivam uma crise profunda que originou uma digressão com alguma instabilidade. O guitarrista Renato Gomes foi o último elemento da formação inicial a deixar o grupo, "saturado das tantas voltas a dar neste país tão pequeno." Em 1987 os UHF estavam sem editora e António M. Ribeiro aventurou-se a solo, de forma discreta, aproveitando assim para renovar a banda e iniciar um novo ciclo. A Fernando Delaere (baixo) juntaram-se o baterista Rui Beat Velez e o guitarrista Rui Rodrigues que substituíram, respetivamente, Manuel Hippo e Renato Gomes. Na última quinzena desse ano regressaram à Alemanha para alguns concertos junto da comunidade portuguesa.
Independência e consolidação da formação (1997–2009)
Atento às más experiências vividas no passado, e saturado das obrigações contratuais, António M. Ribeiro criou a editora AM.RA Discos, no final de 1997, de forma a ter controlo sobre a sua obra, tornando os UHF editorialmente independentes. Antevendo o encolhimento da indústria discográfica nacional, arrastado pelo que acontecia no resto do mundo, a banda decidiu negociar apenas a distribuição com outras editoras. Com essa decisão, acrescida da intrépida atitude independente desde o início da carreira, os UHF foram perdendo alguma exposição mediática. O líder da banda aponta o dedo a uma imprensa "que não gosta de falar de nós e para quem as pessoas que têm sucesso e vivem de cabeça erguida são um alvo a abater. É uma imprensa que faz apostas que saem furadas e que depois tem falta de honestidade para assumir o erro", desabafa, e recordou o fragoso percurso da emancipação da banda:
Reforço no rock de intervenção (2010–2014)
Em 2010 os UHF regressaram aos originais com o lançamento do 14º álbum de estúdio Porquê? É o trabalho mais politizado com proeminência da canção de combate social, como sumarizou o autor: "Trata-se de um disco em que, entre o amor e a canção política, o rock intervém", reforçando a linha ideológica da intervenção há muito reconhecida nos UHF. Destaque para "Cai o Carmo e a Trindade" e "Porquê (Português)", canções que responsabilizam a justiça e a medíocre classe política pelo critico estado da nação. Assertivo, o vocalista comentou: O porquê fica mesmo como a grande pergunta. Depois de todas as discussões possíveis - económicas, financeiras, sociais, partidárias e não partidárias - há sempre uma pergunta que fica: Porquê? (...) O melhor da nação são os portugueses: os portugueses não são números, não são pedras, não são estradas. São pessoas!
Estilo e instrumentação
A música dos UHF é categorizada como rock direto e espontâneo de características urbanas, produzindo também uma sonoridade acústica e hard rock. No início da carreira corporizavam a vivência do 'estar à margem', o grito de revolta dos jovens, dos operários e as desigualdades socais, para depois se focarem na intervenção social e na denúncia da classe política e justiça, bem como na defesa dos cidadãos. Os UHF refletem a nação portuguesa, a nossa sociedade, ora vogando pelo romantismo ora tomando posição em causas comuns. "A verdade é que nós somos mais do que uma banda de rock. Nunca fizemos canções para mastigar e deitar fora." – Os UHF distanciam-se das canções comerciais.
Letras e temas
O conteúdo lírico da banda é muitas vezes trabalhado com textos autobiográficos e de intervenção social. As canções "Notícias de El Salvador", "Comédia Humana" e "Sarajevo" foram motivadas por acontecimentos atuais do tempo. O primeiro fala da devastadora guerra civil em El Salvador, enquanto o segundo faz uma abordagem ao primeiro conflito no Golfo, relatando a barbaridade entre os homens na guerra. "Sarajevo" dá continuidade ao capitalismo bélico, dessa vez, na luta pela independência das repúblicas que formavam a Federação Jugoslava. É apresentado ao vivo como uma canção contra todas as guerras. Outros temas sociais são abordados, como a violência policial ("Caçada"), as drogas duras ("Jorge Morreu") ou o retrato do sucesso artístico no ardil fascínio da droga ("Rumo ao Céu"). A interrogação e o existencialismo encontraram nas letras de "Ébrios (pela vida)" e "Suave Dança do Vento" a serenidade de Jim Morrison, tornando-se mais filosófico no tema "Estou de Passagem". As dificuldades superadas no início da carreira conhecem no tema "Hey! Hey! Bora Lá" a palavra estímulo, perante qualquer contrariedade.
Influências
A sonoridade inicial dos UHF assentou no punk com alguma influência dos Ramones. O vocalista fala dos primeiros gostos musicais: "A minha primeira ligação à música britânica foi através dos Rolling Stones. Com o rádio de pilhas debaixo da almofada ia ouvindo aquelas vozes mágicas e descobrindo música." No que se fazia no seu país referiu: "Seguia a carreira do Filipe Mendes, do Quarteto 1111 e do Pop Five Music Incorporated. Os Chinchilas eram uma banda fantástica". A influência do Quarteto 1111, no início dos anos 70, e o percurso poético de José Afonso, foram determinantes para a atribuição do português na escrita das canções, reforçado com a necessidade do vocalista em comunicar com o público. O seu crescimento musical foi também acompanhado pelo folk rock dos Fairport Convention, Bob Dylan e Neil Young, permitindo-lhe contar histórias do folk em união com a violenta explosão do punk. O líder dos UHF revela admiração pela poesia punk de Patti Smith e pela simplicidade musical de Lou Reed, uma das influências, como salientou: "É uma referência da minha geração, é um mito como o John Lennon, que me ajudou a ser músico". Por outro lado, a paixão confessa pelos Doors, associada à vida desenfreada no início da carreira, eram atributos que davam a António M. Ribeiro o direito de ser conhecido como Jim Morrison português. Foi na adolescência que os Doors bateram à porta de Ribeiro com "Light My Fire". Descobriu depois "Hello, I Love You" e caiu definitivamente vidrado pelo som psicadélico do grupo com "Touch Me". Os UHF rapidamente criaram uma sonoridade própria e os Doors ficaram como uma referência entre muitas que os músicos sempre têm. No entanto, o talento de José Afonso continua presente no repertório da banda, como afirmou Ribeiro: "Quando anuncio em palco uma canção do José Afonso afirmo que um homem não morre, parte, e a obra que nos deixou prolonga a sua existência entre nós. É isso que queremos levar aos mais novos, canções de outro tempo que não têm data certa. Pertencem-nos." Sucintamente os UHF referem as suas principais influências:
Falar dos UHF implica recuar ao final da década de setenta para assistir ao nascimento do movimento de renovação musical 'rock português', por vezes com um tom de intervenção social e político. Desde então, a banda alcançou marcas consideráveis, vários prémios e condecorações. "Os UHF complementavam o ramalhete de forma perfeita. O Rui Veloso era o singer-songwriter puro, os GNR a banda mais arty e os UHF o grupo de rua, de garagem, com uma energia muito forte." – Comentário de Francisco Vasconcelos, A&R da Valentim de Carvalho. Nos primeiros 28 anos percorreram 700 mil quilómetros, venderam mais de 1,5 milhão de discos e receberam onze discos de prata, sete de ouro e três de platina. Em junho de 2017 totalizaram 1 700 concertos. O primeiro sucesso ocorreu com "Cavalos de Corrida" (1980), considerada a canção génese do rock português, e foi o primeiro single a conquistar um galardão por uma banda nacional nesse estilo musical; "Passámos do oito aos 800 sem parar no 80", recorda António M. Ribeiro. À Flor da Pele (1981) foi aclamado pela crítica como um pilar do rock português e assinalou o início da idade dourada desse movimento. O álbum é considerado a 'Bíblia do rock português' e uma referência para novas bandas. Receberam o "Prémio da Imprensa" na categoria "Melhor agrupamento rock", pela proeza alcançada com a venda de mais de 100 mil discos e a realização de 134 concertos num só ano, registo que foi imbatível em Portugal em 1981. A revista Blitz considerou À Flor da Pele como um dos "40 melhores álbuns dos anos 80 em Portugal". Na digressão do álbum Estou de Passagem (1982) atuaram no Cine Jardim no Funchal, tornando-se o primeiro grupo de rock a visitar a ilha da Madeira. São também pioneiros na edição de Ao Vivo em Almada–No Jogo da Noite (1985), o primeiro disco português do universo rock gravado ao vivo, e são a primeira banda portuguesa de rock a celebrar 40 anos de carreira no activo.
Até ao ano de 2015 os UHF totalizaram 240 participações em diversas ações sociais e concertos de beneficência. Com o álbum Este Filme - Amélia Recruta (1990) propuseram oferecer os direitos de venda à Associação dos Deficientes das Forças Armadas mas que gentilmente foi declinado; "Heranças que o Império tece" comentou o vocalista, não surpreendido com a recusa. Em 1995 o single "Por ti e Por Nós Dois", em parceria com a Associação Abraço, foi associado à campanha da luta contra a SIDA. Em 2004 lançaram o disco Podia Ser Natal, com edição limitada a 500 exemplares, e entregaram à Assistência Médica Internacional um euro por cada disco vendido – sendo os 500 euros entregues na totalidade em antecipação ao resultado das vendas – felicitando as nobres causas dessa instituição. Em julho de 2009 a compilação de rock norte americana da Quickstar Productions convidou os UHF a participarem na edição Rock4Life International - Vol.11 (2009) com o tema "Alguém (que há de chegar)", tornando-se a primeira banda portuguesa a colaborar nessa compilação internacional que se concentra no apoio a causas filantrópicas. Meses depois foram novamente convidados a participarem na nova compilação com o tema "Matas-me Com o Teu Olhar". Em 2017 os UHF fizeram a primeira parte do concerto dos Deep Purple, em Lisboa, e doaram 10% do seu cachet aos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, associando-se à causa a favor das vítimas dos incêndios daquela localidade. A 12 de outubro de 2019, participaram num concerto solidário para recolha de donativos a favor dos bombeiros mistos de Amora e Seixal.


