Abderramão I
Abderramão ibne Moáuia ibne Hixame ibne Abedal Maleque ibne Maruane, melhor conhecido somente como Abderramão I ou Abdarramão I, foi um membro da dinastia omíada, emir de Córdova entre 756 e 788 e fundador do Emirado de Córdova e de uma dinastia muçulmana que governou grande parte da Península Ibérica durante quase três séculos. Os muçulmanos chamaram à região da Península sob o seu domínio de Alandalus.
Infância e fuga da Síria
Abderramão era neto de Hixame ibne Abedal Maleque, o décimo califa omíada e filho do general Moáuia ibne Hixame. Dizia-se que o jovem príncipe era alto e esbelto. Sua mãe pertencia ao povo berbere, da tribo de Nafza e dela ele herdou o cabelo ruivo. Características curiosas atribuídas a Abderramão são as de que ele não enxergava de um olho, tinha uma verruga no rosto e seu olfato não era muito apurado. Quando o califa Maruane II foi derrotado e morto em 750 no Egito e instaurou-se a nova dinastia dos Abássidas, o jovem omíada tinha menos de vinte anos de idade. Foi um dos poucos membros da dinastia que conseguiu escapar do massacre de Abú Futrus. Abderramão e uma pequena parte de sua família fugiram de Damasco, que tinha sido até então o centro do poder omíada. Alguns desses membros de sua família eram: seu irmão Iáia, seu filho de quatro anos Solimão e algumas de suas irmãs. Também fugiu com Abderramão seu ex-escravo (um liberto) Bedr. A família seguiu ao longo do rio Eufrates em direção ao sul.
O exílio
Depois de escaparem da Síria apenas com a roupa do corpo, Abderramão e Bedre continuaram a fuga em direção ao sul passando pela Palestina, Sinai e Egito. Abderramão seguiu em direção ao noroeste da África, onde pretendia refugiar-se entre os berberes da Mauritânia da tribo Nafza de onde era originária sua mãe. Os muçulmanos referiam-se àquela parte do Império Islâmico de "Magrebe", ou o "oeste". Seus predecessores Omíadas haviam conquistado partes do Magrebe e da Ibéria e agora com a confusão generalizada que se estabeleceu no califado pela mudança da dinastia, aquela região havia ficado nas mãos das autoridades locais, antigos emires ou tenentes dos califas de omíadas, mas agora aspirando pela independência. A travessia do Egito provaria ser muito perigosa. Abderramão ibne Habibe Alfiri era o governador da África Oriental e tinha sido um antigo colaborador do Califado Omíada. Porém, com os Abássidas agora no controle ibne Habibe enviou espiões para procurarem pelo príncipe sobrevivente dos Omíadas. Com seu cabelo ruivo, Abderramão não seria difícil de ser identificado. Abderramão e Bedre ficaram no acampamento de um comandante berbere solidário com sua difícil situação. Um dia, os soldados de ibne Habibe entraram no acampamento procurando pelo fugitivo omíada. Tecfá, a esposa do comandante berbere escondeu Abderramão sob os seus pertences pessoais e conseguiu salvá-lo.
A luta
Abderramão foi saudado pelos comandantes locais ao desembarcar no Alandalus. Durante sua curta estadia em Málaga, Abderramão conseguiu rapidamente o apoio local. Caravanas de pessoas dirigiram-se para Málaga a fim de prestarem solidariedade ao príncipe omíada que eles pensavam estar morto. Uma das mais famosas histórias sobre o período em que Abderramão esteve em Málaga diz respeito ao presente que lhe foi ofertado. O presente foi uma bela jovem escrava, mas Abderramão humildemente a devolveu ao seu proprietário dizendo: "Eu não me entregarei a nenhuma distração, seja ela de visão ou de coração, até que a Espanha esteja sobre o meu controle".[falta página] A notícia sobre a chegada do príncipe espalhou-se pela Península.
Um tênue governo
Realmente, Abderramão apenas proclamou-se emir e não califa. Isto provavelmente foi devido ao fato de que Alandalus fosse uma terra formada por diferentes facções e a proclamação como califa teria causado grande inquietação entre elas. Os descendentes de Abderramão, contudo, teriam uma melhor oportunidade para ficarem com o título de califa. Enquanto isso, a notícia de que Alandalus havia tornado-se um território seguro para os amigos da dinastia omíada e para os membros de sua família, que conseguiram escapar da perseguição dos Abássidas, espalhou-se pelo mundo muçulmano. Abderramão finalmente conseguiu obter notícias de seu filho Solimão, que ele havia deixado com suas irmãs por ocasião de sua fuga às margens do rio Eufrates. As irmãs de Abderramão não podiam fazer essa longa viagem até Alandalus. Abderramão colocou os membros de sua família nos altos escalões de seu governo por todo o país, sem dúvida ele sentia-se mais confiança neles do que em pessoas fora de sua família. A família Omíada cresceria novamente e prosperaria por sucessivas gerações. Porém, em 763 Abderramão teve que voltar aos assuntos de guerra. Alandalus foi invadida por um exército abássida.
Problemas na fronteira norte
Saragoça provou ser uma cidade muito difícil de ser governada, não apenas por Abderramão, mas também por seus predecessores. Nos anos 777 e 778, vários homens notáveis incluindo Solimão Alárabe, o autoproclamado governador de Saragoça, encontrou-se com delegados do líder dos Francos, Carlos Magno. "O exército de Carlos Magno foi chamado para ajudar os governadores muçulmanos de Barcelona e Saragoça para lutar contra o emir omíada em Córdova [...]". Essencialmente Carlos Magno foi contratado como um mercenário, embora talvez ele tivesse um plano de conquistar a área para o eu próprio império. Depois da chegada do exército de Carlos Magno aos portões de Saragoça, Solimão mudou de ideia e não autorizou a entrada dos Francos na cidade. É possível que ele tenha percebido que Carlos Magno queria tirar-lhe do poder. As forças de Carlos Magno retornaram então para a França via uma estreita passagem nos Pirenéus, onde este perdeu sua retaguarda, comandada pelo duque da Bretanha, Rolando, que recebeu o ataque de montanheses bascos e rebeldes gascões no desfiladeiro de Roncesvales (feitos guerreiros celebrados na Canção de Rolando). Esses acontecimentos fortaleceram ainda mais o poder de Abderramão, sem ter precisado envolver-se no conflito. Agora Abderramão poderia ocupar-se de Solimão e a cidade de Saragoça sem ter que enfrentar um numeroso exército cristão.
Legado
Depois desse período de conflitos, Abderramão pode voltar-se para a melhoria da infra-estrutura de Alandalus. Ele ordenou que fossem construídas ou melhoradas estradas, aquedutos e que uma nova mesquita fosse construída em sua capital, Córdova. A construção da nova mesquita iniciou-se por volta do ano 786 aproveitando a estrutura original de uma basílica visigótica dedicada a São Vicente. Na época ela tornou-se muito conhecida e foi considerada um local santo para muitos muçulmanos. Posteriormente, ela seria chamada de Mesquita de Córdova (hoje catedral). Abderramão sabia que um de seus filhos herdaria um dia o governo de Alandalus, mas a região ainda encontrava-se sendo fonte de constantes revoltas. Abderramão então sentiu que ele não poderia contar sempre com a população local para formar um exército leal e decidiu formar um exército pago e fixo constituído principalmente por berberes do Norte da África. Como era comum durante os anos de expansão islâmica da Arábia, a tolerância religiosa era praticada. Abderramão continuou a permitir que judeus e cristãos mantivessem e praticassem a sua fé. Eles tinham, entretanto, que pagar uma taxa por tal privilégio.
Próximo ao final de sua vida, Abderramão tornou-se paranoico e isolou-se em seu palácio. O emir tratou muitos de seus antigos amigos, tais como Bedr, com crueldade.[falta página] Ele mandou matar alguns de seus apoiadores, exilou outros e rebaixou a patente de outros. A data de morte de Abderramão é incerta, mas geralmente é aceita como tendo ocorrido entre 785 e 788. Abderramão morreu em sua adotada cidade de Córdova e foi supostamente sepultado no interior da Grande Mesquita da cidade. O filho primogênito de Abderramão foi escolhido como seu sucessor e mais tarde ficou conhecido por Hixame I. Abderramão foi um bom exemplo de um fundador de uma dinastia oriental, e fez tão bem seu trabalho que a dinastia omíada durou no Alandalus cerca de dois séculos e meio (1031), ocorrendo seu apogeu durante o governo de Abderramão III.


