Omar II
Omar ibne Abedalazize, também conhecido como Omar II, foi o oitavo califa do Califado Omíada, governando de 717 até sua morte, em 720. Membro da dinastia omíada, pertencia ao ramo maruânida por parte de pai e era bisneto materno do segundo califa ortodoxo, Omar (r. 634–644). Distinguiu-se dos demais governantes omíadas por sua reputação de piedade, justiça e austeridade, sendo frequentemente apresentado pela tradição muçulmana como um modelo de governante islâmico.
Primeiros anos
Omar provavelmente nasceu em Medina por volta de 680. Seu pai, Abedalazize ibne Maruane, pertencia à família reinante da dinastia omíada, estabelecida na cidade, enquanto sua mãe, Laila binte Ácime, pertencia ao clã dos aditas, da tribo dos coraixitas, e era neta do segundo califa ortodoxo, Omar (r. 634–644). Assim como seu bisavô, Omar possuía a cúnia (tecnônimo) Abu Háfece. Sua descendência do segundo califa seria posteriormente bastante enfatizada pelos historiadores, que procuravam distinguir seu caráter e governo daqueles dos demais califas omíadas. Na época de seu nascimento, outro ramo dos omíadas, os sufiânidas, governava a partir de sua capital, Damasco. Após as mortes sucessivas do califa Iázide I (r. 680–683) e de seu filho e sucessor, Moáuia II (r. 683–684), em 683 e 684, a autoridade omíada entrou em colapso em grande parte do califado. Os omíadas do Hejaz, incluindo os de Medina, foram expulsos pelos partidários do califa rival Abedalá ibne Azobair (r. 683–692), estabelecido em Meca. Os exilados omíadas refugiaram-se na Síria, onde tribos árabes leais apoiavam a dinastia. O avô de Omar, Maruane I (r. 684–685), foi reconhecido como califa por essas tribos e, com seu apoio, restabeleceu o domínio omíada sobre a Síria.
Governo do Hejaz
Pouco depois de sua ascensão, Alualide I (r. 705–715), filho e sucessor de Abalmaleque, nomeou Omar governador de Medina, cargo que exerceu de 706 a 712. Segundo Julius Wellhausen, Alualide pretendia utilizar Omar para reconciliar os habitantes de Medina com o domínio omíada e apagar as lembranças negativas dos governadores anteriores, especialmente Hixame ibne Ismail Almaquezumi, cujo governo havia sido severo com a população. Omar assumiu o cargo em fevereiro ou março de 706, e sua jurisdição foi posteriormente ampliada para incluir Meca e Taife. As informações sobre seu governo são escassas, mas a maioria dos relatos tradicionais descreve-o como um governador justo, segundo o historiador Paul M. Cobb. Frequentemente dirigia a peregrinação anual do haje em Meca e favorecia os estudiosos da jurisprudência islâmica de Medina, especialmente Saíde ibne Almuçaíbe. Omar tolerava as críticas abertas que muitos desses estudiosos dirigiam à conduta do governo omíada. Outros relatos, entretanto, apresentam-no como materialista durante o início de sua carreira. Por ordem de Alualide, Omar iniciou em 707 a reconstrução e ampliação da Mesquita do Profeta, em Medina. Sob seu governo geralmente moderado, o Hejaz tornou-se um refúgio para exilados políticos e religiosos iraquianos que fugiam das perseguições de Alhajaje ibne Iúçufe, poderoso vice-rei de Alualide sobre a metade oriental do califado. Segundo Cobb, essa circunstância acabou provocando sua destituição, pois Alhajaje pressionou o califa a afastá-lo em maio ou junho de 712. Por influência de Alhajaje, Alualide convocou Omar de volta e dividiu o Hejaz em províncias separadas, nomeando Otomão ibne Haiane Almurri governador de Medina e Calide ibne Abedalá ibne Calide ibne Acide governador de Meca.
Cortesão de Alualide e Solimão
Apesar de sua destituição, Omar permaneceu nas boas graças de Alualide, pois era irmão da primeira esposa do califa, Ume Albanine binte Abedalazize. Permaneceu na corte de Alualide, em Damasco, até a morte do califa, em 715, e, segundo o historiador do século IX Aliacubi, dirigiu suas orações fúnebres. O irmão e sucessor de Alualide, Solimão ibne Abalmaleque (r. 715–717), tinha Omar em elevada consideração. Ao lado de Rajá ibne Haiua, influente figura religiosa da corte omíada, Omar atuou como um dos principais conselheiros de Solimão. Acompanhou-o quando dirigiu a peregrinação do haje a Meca, em 716, e no retorno a Jerusalém. Também esteve ao lado do califa no acampamento de mobilização muçulmano em Dabique, no norte da Síria, de onde Solimão dirigia o enorme esforço militar destinado à conquista de Constantinopla, capital do Império Bizantino, em 717.
Califado
Segundo as fontes tradicionais muçulmanas, quando Solimão se encontrava em seu leito de morte, em Dabique, Rajá convenceu-o a designar Omar como sucessor. O filho de Solimão, Aiube ibne Solimão, havia sido inicialmente escolhido como herdeiro, mas morreu antes do pai, enquanto seus outros filhos eram demasiado jovens ou estavam ausentes, combatendo na fronteira bizantina. A nomeação de Omar contrariava os desejos de Abalmaleque, que pretendia restringir o califado a seus descendentes diretos. A escolha de Omar, integrante de um ramo secundário da dinastia, em detrimento dos numerosos descendentes de Abalmaleque, surpreendeu esses príncipes. Segundo Wellhausen, ninguém esperava essa decisão, nem mesmo Omar. Rajá conduziu os preparativos sucessórios, convocando os príncipes omíadas à mesquita de Dabique e exigindo que reconhecessem o testamento de Solimão, cujo conteúdo mantivera em segredo. Somente depois de os omíadas aceitarem revelou que Omar era o sucessor escolhido pelo califa. Hixame ibne Abalmaleque manifestou oposição, mas cedeu após ser ameaçado com o uso da força. Um possível conflito dinástico foi evitado mediante a designação de outro filho de Abalmaleque, Iázide II, como sucessor de Omar. Segundo o historiador Reinhard Eisener, o papel de Rajá nesses acontecimentos provavelmente foi exagerado. Para ele, uma explicação mais plausível seria que a sucessão de Omar resultou de padrões tradicionais de senioridade e de direitos sucessórios fundamentados, derivados da designação original de seu pai, Abedalazize, por Maruane I como sucessor de Abalmaleque. Essa sucessão não se concretizara porque Abedalazize morreu antes de Abalmaleque. Omar assumiu o califado sem oposição significativa em 22 de setembro de 717.
Morte
Durante uma viagem de regresso de Damasco para Alepo, ou possivelmente para sua propriedade em Cunacira, Omar adoeceu. Morreu entre 5 e 10 de fevereiro de 720, aos 39 anos, na aldeia de Dair Simã, também conhecida como Dair Anaquira, nas proximidades de Maarate Anumane. Omar havia adquirido ali um terreno com seus próprios recursos e foi sepultado na aldeia, onde ainda são visíveis as ruínas de seu túmulo, construído em data desconhecida. Foi sucedido por Iázide II (r. 720–724). Durante a Guerra Civil Síria, seu túmulo e santuário foram atacados duas vezes por milícias, e um dos ataques deixou o santuário quase completamente destruído. O local foi restaurado em 2025 pela Fundação Kalem, mediante acordo oficial com o Ministério dos Auqaf da Síria.
Segundo o historiador britânico Hugh N. Kennedy, as fontes tradicionais muçulmanas são unânimes em apresentar Omar como um governante piedoso, que governou como um verdadeiro muçulmano, em contraste com os demais califas omíadas, geralmente considerados usurpadores ímpios, tiranos e libertinos. De maneira semelhante, Gerald Hawting observa que a tradição reconhecia Omar como um califa legítimo, enquanto os demais omíadas eram vistos como reis. Para Hawting, essa distinção fundamenta-se parcialmente nos fatos históricos, bem como no caráter e nas ações de Omar. O historiador considera que todas as evidências indicam que Omar era um homem honrado e digno, além de um governante merecedor de respeito. Sua reputação de piedade fez dele o representante muçulmano na célebre, embora provavelmente apócrifa, Correspondência entre Leão III e Omar II. Essa reputação era reconhecida até mesmo pelos críticos mais ferrenhos da dinastia. O rebelde carijita Abu Hâmeza Almoquetar, por exemplo, absteve-se de condená-lo. Da mesma forma, os Abássidas, apesar de terem sistematicamente exumado e profanado os corpos dos califas omíadas anteriores, pouparam Omar II desse tratamento e também preservaram seus descendentes. Em consequência dessa reputação e da curta duração de seu governo, é difícil avaliar as realizações de seu califado e suas motivações. Kennedy considera Omar a figura mais enigmática entre os governantes maruânidas. Segundo ele, Omar era um indivíduo piedoso que procurou resolver os problemas de sua época conciliando as necessidades de sua dinastia e do Estado com as exigências do Islão. Na avaliação de H. A. R. Gibb, Omar procurou impedir o colapso do califado mediante a preservação da unidade dos árabes, a eliminação das queixas dos maulas e a conciliação da vida política com as exigências religiosas.
Reconhecimento como Mádi
Antes e durante sua ascensão ao poder, Omar era amplamente considerado pelos círculos religiosos conservadores, especialmente em Medina, como o Mádi, o restaurador da justiça divinamente guiado. Essa percepção estava estreitamente relacionada à sua descendência materna do califa Omar, cuja linhagem, segundo os estudiosos medinenses, estava destinada, conforme antigas profecias, a produzir um governante justo. Tradicionalistas como Saíde ibne Almuçaíbe teriam identificado Omar com essa figura muito antes de sua ascensão ao califado. Essa reputação também desempenhava uma função político-teológica ao contrapor-se às reivindicações rivais provenientes de Cufa, segundo as quais o líder esperado surgiria exclusivamente entre os álidas. O imame xiita Maomé Albaquir é mencionado como tendo reconhecido que a figura aguardada pertencia aos abedexemecitas, na pessoa de Omar II. Entretanto, nem todos os contemporâneos compartilhavam dessa interpretação. Em Meca, o tradicionalista Taus ibne Caiçane sustentava que, embora Omar fosse corretamente guiado, não correspondia à definição plena do Mádi, argumentando que a verdadeira era dessa figura seria caracterizada pela recompensa e pela punição absolutas.
Após Omar ter sido convocado de volta a Damasco, em consequência da morte de seu pai, Abalmaleque ibne Maruane providenciou seu casamento com a própria filha, Fátima binte Abalmaleque. Omar teve outras duas esposas: sua prima materna Ume Xuaibe, também chamada Ume Otomão, filha de Xuaibe ibne Zabane ou Saíde ibne Zabane, da tribo dos calbitas, e Lamis binte Ali, dos alharititas. Segundo a análise do historiador Andrew Marsham, Omar teve catorze filhos, distribuídos igualmente entre suas esposas e concubinas. Os relatos clássicos divergem quanto à relação completa de seus descendentes. A lista de filhos homens foi preservada principalmente por Aliacubi, enquanto Ibne Sade apresenta uma relação diferente, com nomes alternativos. Além disso, Atabari menciona um filho chamado Abalmaleque, que morreu antes do pai. Vários de seus descendentes alcançaram destaque político ou militar nas décadas posteriores ao seu reinado. Seu filho Abedalazize ibne Omar ibne Abedalazize exerceu o governo de Medina em 744, durante o califado de Iázide III. Outro filho, Abedalá ibne Omar ibne Abdalazize, nascido de sua esposa calbita, governou brevemente o Iraque em nome dos omíadas, antes de desertar para os carijitas e aliar-se ao líder Adaaque ibne Caice Axaibani. Abedalá atuou como governador de Adaaque em Uacite, no leste do Iraque e no oeste da Pérsia, enquanto Adaaque governava o oeste do Iraque a partir de Cufa. Posteriormente, Abedalá morreu na prisão do califa Maruane II, em Harrã. A linhagem de Omar também sofreu com os expurgos abássidas, como demonstra o caso de seu neto Issa ibne Alualide, estabelecido no Egito, que foi executado pelos abássidas em 750, juntamente com vários parentes na Palestina. Entretanto, seu filho Abedalazize conseguiu obter um amã (salvo-conduto ou garantia de proteção).


