Pesquisa · Mapa mental

A Viagem do Beagle

A Viagem do Beagle é o título comumente dado ao livro escrito por Charles Darwin publicado em 1839 como Diário e Anotações, o que trouxe a ele considerável fama e respeito. O título se refere à segunda expedição de levantamento topográfico do navio HMS Beagle que zarpou em 27 de dezembro de 1831 sob o comando do capitão Robert FitzRoy.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 07/07/2026
01

Objetivos da Viagem

O principal propósito da expedição foi o levantamento cartográfico das costas da parte sulista da América do Sul como uma continuação do trabalho de levantamentos anteriores, produzindo gráficos para guerras navais e comércio, desenhos de colinas da perspectiva do mar, com medidas de suas alturas. Em particular, a longitude do Rio de Janeiro que havia formado pontos de discordância entre levantamentos anteriores devido a discrepâncias nas medidas. Uma longitude exata deveria ser encontrada, usando cronômetros calibrados que deveriam ser corroborados por repetitivas observações astronômicas. Registros contínuos das marés e das condições meteorológicas também foram exigidos. Em segundo plano estava o levantamento próximo às enseadas nas Ilhas Malvinas e, se estação permitisse, nas Ilhas Galápagos. Então o Beagle procederia para o Taiti e para Baía de Sydney, Austrália, pontos conhecidos para a verificação dos cronômetros. Uma exigência adicional foi realizar um levantamento geológico de um atol de coral circular no Oceano Pacífico, incluindo investigações do seu perfil e dos fluxos relativos a maré.

02

Contexto e preparações

As expedições anteriores de levantamento destinados a América do Sul envolveram o HMS Adventure e o HMS Beagle sob o comando geral do comandante australiano Philip Parker King. Durante o levantamento o capitão da Beagle, Pringle Stokes, cometeu suicídio e seu comando foi transferido para o jovem aristocrata Robert FitzRoy. Após o retorno da expedição em 14 de outubro de 1830 capitão King se aposentou, e em 25 de junho de 1831, FitzRoy com 26 anos foi apontado como líder de uma segunda expedição comandando o Beagle. Ele não poupou despesas nos reparos e melhorias do Beagle, com o levantamento do convés e a instalação do melhor e mais recentes equipamentos de navegação. Ele contratou um construtor de instrumentos matemáticos para manter os 22 cronômetros posicionados dentro de sua cabine, e o primeiro oficial desenhista Augustus Earle. Adoecendo este na cidade de Montevidéu, FitzRoy o substituiu por Conrad Martens, que estava no Rio de Janeiro a caminho da Índia e que recebeu o título de segundo oficial desenhista.

03

A Viagem

O Beagle não estava pronto para velejar até o início de novembro, e foi então repetidamente atrasado por ventos fortes, zarpando só em 27 de dezembro de 1831. Passou pela Ilha da Madeira (mas não aportou nela) indo então para Tenerife, mas proibido de desembarcar por causa da quarentena de cólera imposta a barcos vindo da Inglaterra. Eles fizeram sua primeira parada na ilha vulcânica de Santiago no Arquipélago do Cabo Verde, e é onde o Diário de Darwin começa. Enquanto leituras precisas eram feitas para confirmar dados sobre a longitude, ele foi à praia e ficou fascinado com sua primeira visão da vegetação tropical, e da geologia do lugar, analisando uma faixa branca bem elevada de conchas do mar, dando suporte a teses de Lyell da elevação e queda da crosta da Terra. Depois de passar pelos arquipélagos de São Pedro e São Paulo e de Fernando de Noronha, já no Brasil, eles chegaram à Bahia (Salvador), em 29 de fevereiro, onde Darwin ficou maravilhado com a floresta tropical. A visão da escravidão foi considerada ofensiva por Darwin. Ao retrucar isso a FitzRoy quando ele disse que a mesma era justificável, fez com que FitzRoy perdesse a calma e o baniu da expedição. Os oficiais do barco apelidaram o capitão de "hot coffe" (café quente) devido ao seu temperamento na situação, e após algumas horas ele pediu desculpas a Darwin e pediu para que ele permanecesse na expedição.

Levantamento na América do Sul

Enquanto o barquinho continuava com o seu trabalho de levantamento, navegando junto a costa, Darwin passou muito de seu tempo longe do navio. A certos intervalos, o Beagle retornava a certos portos em que a correspondência poderia ser recebida e onde as anotações, diários de Darwin e suas coleções eram mandadas de volta para Inglaterra. Darwin fez várias visitas ao continente, com companheiros de viagem das regiões que visitava. Na Patagônia ele percorreu o território com gaúchos e os viu usarem boleadeiras para derrubarem Emas, e até comeu tatu assado. Na praia de Punta Alta em setembro de 1832 ele encontrou ossos fossilizados de mamíferos gigantes extintos. Um que ele achou que poderia vir a ser de um rinoceronte, veio a ser um Megatherium, uma preguiça gigante, e o outro foi o de um tatu gigantes, o Glyptodonte. Em novembro, na cidade de Montevidéu a correspondência que chegava da Inglaterra incluía uma cópia do segundo volume dos Princípios da Geologia de Lyell, que apresentava uma variação de Criacionismo relatando a ideia de mudança gradual, onde espécies eram criadas em "centros de Criação" e iam a extinção a medida que o ambiente mudava, para sua desvantagem.

Costa oeste da América do Sul

O Beagle e o Adventure agora faziam o levantamento no Estreito de Magalhães antes de navegarem para o norte passando para a costa oeste, chegando a ilha de Chiloé no Arquipélago de los Chonos em 28 de junho de 1834, um lugar úmido e abundante em florestas. Eles então passaram os próximos seis meses coletando dados da costa e da parte sul da ilha. Em Valparaíso em 23 de julho de 1834, Darwin comprou cavalos e foi até ao Andes vulcânicos, mas quando retornava, adoeceu, e passou um mês de cama. É possível que ele tivesse contraído doença de Chagas, levando ao seu problema de saúde após seu retorno, mas o diagnóstico de seus sintomas até hoje é aberto a disputas.

Ilhas Galápagos

Uma semana fora de Lima, chegaram as Ilhas Galápagos em 15 de setembro de 1835. Na Ilha de San Cristóbal Darwin encontrou lava vulcânica negra rochosa queimando sob o Sol quente, e crateras vulcânicas que o faziam lembrar das casas de fundições de ferro da industrial Staffordshire. Ele notou um tipo de arbusto fino espalhado pela ilha sendo composto de 10 espécies, e encontrou poucos insetos. A impressionante tartaruga gigante para seu gosto pessoal parecia antedeluviana, embora ele tenha pensado naquela época que elas haviam sido trazidos para a ilha por piratas, como fonte de alimento. Na colônia prisão na Ilha de Santa Maria foi-lhe dito que as tartarugas apresentavam pequenas diferenças de ilha para ilha, mas aparentemente isso não foi óbvio nas ilhas que Darwin visitou, tanto é que ele nem se preocupou em coletar suas cascas. As iguanas marinhas eram tremendamente feias, e devido a um erro na colocação das etiquetas no museu ele achou que essas criaturas únicas eram uma espécies Sul Americana. Os pássaros, notavelmente não tinham medo da presença humana, e eram tipos diferentes, únicos, e que lembravam as espécies da America do Sul. Ele notou que os pássaros canoros eram diferentes de ilha em ilha e tomou cuidado etiquetando espécimes, mas não se preocupou em anotar onde outras espécies, como os tentilhões haviam sido encontradas. Felizmente, outros realizaram um processo mais metódico enquanto etiquetavam suas coleções. Eles saíram da ilha em 20 de outubro.

Taiti até Austrália

Eles partiram para outros destinos, jantando uma tartaruga de Galápagos, e em 9 de novembro avistaram as Ilhas da Sociedade, que à primeira vista pareceram desinteressantes para Darwin, somente praias brancas e palmeiras. No Taiti ele logo se interessou pela vegetação luxuriante e pelos nativos que mostraram uma visão amigável do cristianismo, refutando alegações que Darwin teria lido (que as missões estavam destruindo as culturas indígenas locais). Em 19 de dezembro eles chegaram na Nova Zelândia onde Darwin formou opiniões ruins sobre o lugar e seus habitantes. Ele viu os tatuados Maori como selvagens como características inferiores às dos taitianos, e notou que suas casas eram "imundas sujas e ofensivas". Ele viu os missionários trazendo benefícios e também com novas praticas agrícolas com um exemplo de "fazenda inglesa" com mão-de-obra nativa. Richard Matthews foi deixado aqui com seu irmão mais velho Joseph Matthews que eram um missionário em Kaitaia. Darwin e Fitzroy concordaram que os missionários haviam sido mal interpretados nos panfletos, especialmente um escrito por Augustus Earle o qual ele havia deixado no navio. Darwin também notou muitos residentes ingleses, a maioria deles de caráter deplorável, incluindo fugitivos condenados da Nova Gales do Sul. Em 30 de dezembro, Darwin estava feliz em deixar a Nova Zelândia. O primeiro registo visual da Austrália em 12 de janeiro de 1836 o lembrou muito da Patagônia, mas o continente do país se mostrou melhor e Darwin preferiu a movimentada cidade de Sydney. Em uma viagem ao interior do país ele deparou-se com um grupo de aborígenes que lhe deram uma demonstração de lançamento de lanças por um shilling, contradizendo a ideia comum de que eles eram "criaturas degredadas", e Darwin refletiu em com seus números estavam diminuindo rapidamente. Em uma grande fazenda de ovelhas ele se juntou a um grupo de caça e matou seu primeiro marsupial, um "potoroo", fazendo-o pensar que um incrédulo "poderia exclamar 'Claramente dois criadores distintos deviam estar a trabalhar'." Ele então foi apresentado ao ainda mais estranho ornitorrinco e ficou surpreso ao descobrir que muitos colonos acreditavam que ele colocava ovos como um réptil uma questão ainda muito debatida na comunidade científica britânica; Ainda na Austrália, O Beagle visitou Hobart, Vand Diemens Land (nome antigo dado a Tasmânia), depois velejaram para Albany no sudoeste da Austrália. Ali Darwin participou de uma dança aborígene, uma "cena rude e bárbara" "tudo se movimentado em uma horrível harmonia" embora ele tenha gostado dos "bem humorados" aborígenes "com espíritos tão elevados". A partida do Beagle foi atrasada devido a uma tempestade que o encalhou. Depois que o navio foi colocado a flutuar novamente eles continuaram a viagem.

Ilhas Cocos

Na chegada as Ilhas Cocos no Oceano Indico em 1 de abril, Darwin encontrou uma economia baseada no coco servindo tanto os habitantes quanto a vida selvagem. Eles investigaram as lagoas de coral, e os levantamentos de FitzRoy revelaram um perfil consistente com a teoria dos Atóis que Darwin havia desenvolvido em Lima. Novamente Darwin sofreu de fortes enjoos na viagem para Maurícia, onde ele ficou impressionado pelo grau de civilidade da colónia francesa, e fez um tour pela cidade, metade do tempo montado em um elefante. O Beagle chegou ao Cabo da Boa Esperança em 31 de maio. Na Cidade do Cabo, Darwin recebeu correspondência de sua irmã dizendo a ele que 10 de suas cartas sobre a geologia da América do Sul haviam sido editadas e imprimidas por Henslow para distribuição privada, estabelecendo sua reputação. Após uma semana na ilha, Darwin e FitzRoy visitaram o notável astrônomo Sir John Herschel que além de fazer observações astronômicas tinha um grande interesse em geologia, já que mantinha correspondência com Lyell sobre a formação dos continentes e sobre o mistério de como novas espécies de formas de vida surgiram, tópicos que ele pode ter discutido com ambos durante um jantar. Na Cidade do Cabo, FitzRoy foi convidado para contribuir ao South African Christian Recorder e após eles terem partido em 18 de junho ele escreveu uma carta aberta sobre o Estado Moral do Taiti, incorporando partes do diário de Darwin e defendeu a reputação dos missionários. A carta foi dada para um navio que passava, levando-a para a Cidade do Cabo. Essa carta tornou-se o primeiro trabalho publicado de FitzRoy (e Darwin).

Segunda passagem pelo Brasil

O Beagle então velejou para a Ilha de Ascensão onde Darwin viu os cones vulcânicos vermelhos de "cinza" no oceano. Em 23 de julho eles zarparam com a esperança (da maior parte dos tripulantes) de voltarem logo para casa, mas FitzRoy queria assegurar-se da exatidão das medidas longitudinais, levando o navio pelo Atlântico até Bahia no Brasil para fazer revisões nas leituras. Darwin aproveitou a oportunidade para revisitar a floresta por cinco dias, mas a viagem de retorno foi adiada devido ao tempo que forçou o Beagle a procurar abrigo mais acima na costa, e a intenção de fazer um curso direto para Cabo Verde foi frustrada. Em Pernambuco (Recife e Olinda), onde o Beagle passou doze dias, Darwin se revoltou com a escravidão e com a falta de hospitalidade local, e se impressionou com a barreira de recifes de corais. Descreveu Recife como uma grande cidade, com sobrados altos e sombrios, dividida em três partes ligadas entre si por duas longas pontes, e disse que devido à temporada de chuvas e ao terreno baixo (quase no nível do mar) as suas estreitas ruas estavam imundas e com problemas de pavimentação. E perto do terreno pantanoso e plano do Recife estava, sobre pequenas colinas, a antiga cidade de Olinda, que descreveu como mais amável e limpa que a sua vizinha. Darwin, com ironia, "comemorou" o fato de o Brasil — uma terra de escravidão, e portanto da degradação moral — ter sido o único lugar do mundo onde foi tratado com grosseria: em Olinda, com o intuito de visualizar a região a partir de um ponto mais elevado, foi recusado de forma ranzinza em duas casas, e obteve com dificuldade permissão para atravessar os jardins de uma terceira residência. Também disse que, ao ouvir qualquer grito distante, se recordava com dolorosa nitidez dos seus sentimentos ao passar por uma casa perto do Recife, quando ouviu gemidos de desespero, provavelmente de algum pobre escravo sendo torturado, e se sentiu impotente como uma criança até mesmo para protestar. Mas ficou positivamente impressionado com a barreira de recifes da cidade do Recife, e disse duvidar que em qualquer parte do mundo existisse uma estrutura natural com uma aparência tão artificial, em absoluta linha reta, paralela e próxima da costa. Darwin viria a descrever em detalhes a formação rochosa pernambucana na revista científica inglesa Philosophical Magazine.

04

Retorno

O Beagle partiu de Pernambuco para casa em 19 de agosto, numa viagem conturbada, incluindo uma parada para reabastecimento de suprimentos nos Açores. Estiveram na ilha Terceira entre 20 e 24 de setembro de 1836 e no seu relatório Darwin escreveu não ter visto nada de relevante. E finalmente chegou a Falmouth na Cornualha, Inglaterra, em 2 de outubro de 1836. Logo após seu retorno, Darwin rapidamente pegou uma carruagem para casa, chegando tarde da noite de 4 de outubro de 1836 ao Mount House, a casa da família em Shrewsbury, Shropshire. Darwin teria ido direto para cama e saudado sua família durante o café da manhã. Depois de passar dez dias "matando a saudade", ele foi para Cambridge, levando em conta o conselho de Huxley em organizar, descrever e catalogar suas coleções. O pai de Darwin o patrocinou, de tal forma que o permitiu colocar de lado outras carreiras, e como ele se tornou uma celebridade científica com uma reputação estabelecida por seus fósseis e da publicação de Huxley de suas cartas sobre a geologia da América do Sul, a também realizar uma turnê pelas instituições de Londres. Já nessa época ele fazia parte do "establishment científico", colaborando com especialistas naturalistas, classificando seus espécimes, e trabalhando em suas ideias que ele vinha elaborando durante sua viagem. Charles Lyell o deu suporte entusiástico. Em dezembro de 1836, Darwin apresentou uma palestra para Sociedade Filosófica de Cambridge. Ele escreveu um ensaio provando que o Chile, e o continente sul americano, estavam lentamente elevando-se, o qual ele leu para a Sociedade de Geologia de Londres em 4 de janeiro de 1837.

05

Publicação do livro de Darwin

Darwin foi convidado por FitzRoy para contribuir com a sessão de história natural do relatório do capitão acerca da viagem, e usando suas notas de campo e seu diário que ele vinha mandando para sua família ler, completou essa sessão em setembro de 1837. Além de escrever seu próprio relatório da viagem e de duas expedições anteriores, FitzRoy ainda tinha que editar as notas do capitão anterior do Beagle. O relatório foi completado e publicado em maio de 1839 como Narrativa da Viagem de Levantamento dos Navios de nossa Majestade Adventure e Beagle em quatro volumes. O volume um cobre a primeira viagem sob o comando de Philip Parker King, volume dois, é o relatório de FitzRoy sobre a segunda viagem. O Diário e Anotações de Darwin 1832-1836 forma o terceiro volume, sendo o quarto volume um extenso apêndice. A contribuição de Darwin provou ser bem popular, tanto que o editor, Henry Colburn de Londres, a tomou na reedição do mesmo texto em agosto com um novo título de pagina: Diário de Pesquisas na Geologia e Historia natural dos vários países visitados pelo HMS Beagle, aparentemente sem buscar qualquer permissão por parte de Darwin ou lhe pagando uma taxa.

Edições posteriores: mudanças na ideia da evolução

O livro passou através de várias edições, e foi subsequentemente publicado com vários títulos diferentes. O mais conhecido foi a segunda edição de 1845 que incorporava extensas revisões a luz da interpretação das coleções de Darwin e do desenvolvimento das ideias em relação à evolução. Essa edição foi autorizada pelo editor John Murray, que de fato pagou uma taxa a Darwin. Na primeira edição relacionando as similaridades da vida selvagem de Galápagos com a do continente da América do Sul, Darwin observa: "As circunstâncias seriam explicadas, de acordo com a visão de alguns autores, dizendo que o poder Criador havia agido de acordo com a mesma lei em uma extensa área" em referência as ideias de Charles Lyell nos "centros de criação". Ele notou as gradações do tamanho dos bicos de espécies de tentilhão, suspeitando que as espécies "estão confinadas a ilhas diferentes", "Mas não há espaço nesse trabalho, para entrar nesse assunto curioso."

06

Sumário - lugares que Darwin visitou

O sumário do livro que apresenta os lugares onde Darwin foi (não está em ordem cronológica)

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando