A Paixão dos Fortes
My Darling Clementine é um filme estadunidense de 1946, dos gêneros drama e faroeste, dirigido por John Ford, com roteiro baseado no livro Wyatt Earp: Frontier Marshal, de Stuart N. Lake, que conta a história do mítico tiroteio no O.K. Corral.
Imagem: Tiago Vidal Dutra · BY · Openverse
O vaqueiro Wyatt Earp torna-se xerife e lidera seus irmãos para vingar a morte do caçula James. Os primeiros suspeitos são os Clanton mas Doc Holliday é incriminado pela namorada Chihuahua. Quando as coisas se esclarecem e os Clanton são confirmados como sendo os assassinos, Wyat e Virgil juntamente com Doc vão para o célebre duelo no Curral OK.
Antecedentes
Em 1931, o escritor Stuart N. Lake publicou o romance Wyatt Earp, Frontier Marshal, que apresentou a história de vida de Earp de uma maneira higienizada e "épica", de acordo com suas próprias especificações. Depois de se tornar rapidamente um best-seller, foi adaptado em filme duas vezes pelo estúdio 20th Century Fox: em 1934, protagonizado por George O'Brien, e Frontier Marshal (1939), a partir de um roteiro de Sam Hellman e dirigido por Allan Dwan, com Randolph Scott como Earp e Cesar Romero como Doc Holliday. Em novembro de 1945, Darryl F. Zanuck escolheu o material como base para o filme que John Ford ainda devia à Fox pois seu contrato com o estúdio era de dez filmes, e pediu então ao Winston Miller que escrevesse um roteiro. Ford, que tinha acabado de retornar do seu serviço de guerra, concordou com o projeto após ser informado de que Henry Fonda e Tyrone Power poderiam assumir os papéis principais. O salário do diretor a qual era de US$ 85.000 foi aumentada para US$ 150.000. Embora o diretor tenha afirmado mais tarde nunca ter visto o filme de Dwan, Paixão dos Fortes mostra semelhanças tanto no conteúdo quanto na encenação com a adaptação de Dwan. A cena de abertura com o nativo-americano em Tombstone, por exemplo, é uma adaptação quase idêntica do roteiro de Hellman de 1939; Até o ator que interpreta o indígena é o mesmo.
Produção e Pós-Produção
As filmagens de A Paixão dos Fortes ocorreram do mês de maio a junho de 1946 em Kayenta, Arizona e no adjacente Monument Valley. O orçamento foi de dois milhões de dólares, com os cenários para a cidade cinematográfica de Tombstone custando US$ 250.000. Zanuck não ficou satisfeito com o corte bruto do material original, Após uma exibição de teste, ele informou ao diretor em um memorando datado de 25 de junho de 1946, que pretendia fazer cortes extensos no longa-metragem. A "impaciência de Zanuck com o estilo casual de Ford, sua ênfase em cenas espirituosas e ornamentação" levou-o a remover pessoalmente cerca de dez minutos de material do filme para tornar a história, aos seus olhos, mais rigorosa e menos preocupada com momentos cômicos e atmosféricos.
Imagem: gi varga. · BY-NC-ND · Openverse
Bilheteria
A Paixão dos Fortes foi lançado nos cinemas dos EUA em 7 de novembro de 1946. Arrecadando US$ 2.800.000 em seu primeiro lançamento no país e US$ 4.500.000 na bilheteria mundial. O filme recuperou assim os seus elevados custos para a época, mas não foi considerado pelo estúdio como um sucesso modesto.
Resposta Crítica
Em sua época de lançamento o filme recebeu análises positivas porém ainda um pouco modéstias. Bosley Crowther elogiou o longa-metragem e escreveu "O eminente diretor, John Ford, é um homem que tem um jeito com um faroeste como ninguém no ramo cinematográfico. Sete anos atrás, seu clássico Stagecoach (1939) se aconchegou muito perto das belas artes neste gênero. E agora, por George, ele quase igualou com A Paixão dos Fortes [...] Mas mesmo com a ficção de faroeste padrão — e é isso que o roteiro ordenou — o Sr. Ford pode evocar sensações finas e humores curiosamente cativantes. A partir do momento em que Wyatt e seus irmãos são descobertos na ampla e poeirenta cordilheira, seguindo um rebanho de gado para uma distante terra prometida, um tom de autoridade pictórica é atingido — e é mantido. Cada cena, cada tomada é o produto de um olhar aguçado e sensível — um olhar que tem profunda compreensão da beleza de pessoas rudes e de um mundo rude". A revista Variety afirmou que "a direção de John Ford está claramente estampada no filme com suas luzes sombrias, humores suavemente contrastados e ritmo medido, mas uma tendência é perceptível em direção à estilização pela estilização. Em vários pontos, o filme para completamente para deixar Ford ir atrás de algum efeito artístico". A revista Times classificou a película como “uma ópera cômica para gostos sofisticados” e que Ford “criou mais do que apenas uma releitura inteligente de uma lenda moderna”.
Reconhecimento
Atualmente o filme é considerado como um dos melhores longa-metragens de 1946 e um dos melhores filmes do John Ford. A Paixão dos Fortes é um dos pontos de desenvolvimento entre os primeiros westerns do início da década de 1940, que não eram acessíveis e infantilizados (Stagecoach (1939), The Westerner (1940), Western Union (1941) e outros) e os faroestes “psicológicos” ou requintados do final dos anos 40 e por toda a década de 1950, com seus heróis carregados de conflitos (Red River (1948), Pursued (1947), Winchester '73 (1950) etc...). Hanisch também observa que Paixão dos Fortes é “um filme de maturidade” que tem pouco em comum com os outros de mesmo gênero. Com este filme, o faroeste “finalmente perdeu sua inocência” e “agora se tornou amplamente divertido para um público adulto”. Uma série de outras adaptações cinematográficas da lenda de Earp e Holliday se seguiram (Gunfight at the O.K. Corral (1957), The Five Outlaws (1967), Doc (1971), Tombstone (1993), Wyatt Earp (1994) e outros), mas todos acabaram sendo muito mais sombrios e pessimistas do que a adaptação de Ford.
Encenação
Desde as primeiras sequências, Ford deixa claro que quer retratar um mito do Oeste e seus protagonistas lendários. Em close-ups médios com um ângulo de câmera baixo, ele mostra os irmãos Earp, um após o outro, montando seus cavalos calmamente e realizando seu trabalho pensativamente ao ar livre. Jim Kitses observa que nesse momento eles pareciam “estátuas em movimento”. De acordo com JA Place, o diretor usa o conhecimento prévio do espectador sobre a lenda de Earp "para intensificar o mito que ele conta" e usa um "estilo visual semelhante ao expressionismo alemão" para realizar isto. Utilizando principalmente ângulos estáticos, John Ford cria composições semelhantes a pinturas no estilo das primeiras fotografias cinematográficas. Thomas Jeier observa que a história é contada “em imagens calmas e líricas que contrastam repetidamente a cidade e seu povo com o vasto céu e as rochas gigantescas do Monument Valley”. O céu “à la El Greco”, como nota Eyman, está sempre presente mesmo nas cenas ambientadas na cidade. A paisagem circundante entre as casas amplamente espaçadas permanece sempre à vista; Tombstone está se tornando uma comunidade urbana, mas a natureza ainda não foi afastada.
Temas
Ford afirmou que conheceu Wyatt Earp pouco antes de sua morte, na década de 1920. Apesar da autodeclaração do diretor servir de justificativa da autenticidade de A Paixão dos Fortes, o filme contém uma série de imprecisões históricas e interpretações errôneas. Os acontecimentos no O.K. Corral ocorreram em 1881 e não em 1882. Doc Holliday, que era dentista e não cirurgião, não morreu no tiroteio e sim de tuberculose em um sanatório seis anos depois. Old Clanton também não foi vítima do evento, mas já estava morto antes do acontecimento. Wyatt Earp não era o marechal de Tombstone, isso era função do seu irmão Virgil que era o irmão mais velho de Wyatt e não de Morgan.


