Ella Fitzgerald
Ella Jane Fitzgerald foi uma cantora e compositora estadunidense. Com uma extensão vocal que abrangia três oitavas, era notória pela pureza de sua tonalidade, sua dicção, fraseado e entonação impecáveis, bem como uma habilidade de improviso "semelhante a um instrumento de sopro", particularmente no scat.
Nasceu em Newport News, Virgínia, filha William Fitzgerald e Temperance. Seus pais tinham um casamento conturbado, e ele abandonou sua mãe para viver com a amante quando a cantora tinha apenas três anos, não tendo mais nenhum contato com o pai. Sua mãe, então, decidida a melhorar de vida, se mudou para Yonkers, Nova York. Lá, conheceu um imigrante português chamado Joseph da Silva e com ele se casou. Em 1923 deu a luz sua segunda filha, Frances da Silva, a meia-irmã de Ella. Apesar de ter construído uma nova família, seu segundo casamento também foi infeliz, sofrendo novamente com agressões e humilhações. Em 1932, quando Ella tinha quinze anos de idade e sua meia-irmã apenas nove, perderam a mãe, vítima de um infarto. O trauma provocado pela perda repentina da mãe provocou uma queda brutal no desempenho escolar de Ella, que desenvolveu depressão, abandonando a escola. Como se não bastasse este sofrimento, passou a ser responsável pelos cuidados da irmã pequena, já que seu padrasto não dava atenção à menina e sempre agredia a criança.
Cantando em big bands
Em janeiro de 1935, Fitzgerald conquistou a oportunidade de se apresentar por uma semana com a big band de Tiny Bradshaw, na Harlem Opera House. Lá conheceu o baterista e líder de banda, Chick Webb. Webb já havia contratado o cantor Charlie Linton para trabalhar com a banda e estava, como apontou posteriormente o New York Times, "relutante em contratá-la... porque era desajeitada e malcuidada, um diamante bruto". Webb ofereceu-lhe a oportunidade de fazer um teste com a banda quando tocaram num baile na Universidade de Yale. Ella começou a cantar regularmente com a Orquestra de Webb por todo o ano de 1935, no Savoy Ballroom, também no Harlem. Gravou diversos sucessos com a banda, incluindo "Love and Kisses" e "If You Can't Sing It You'll Have to Swing It". Foi, no entanto, sua versão de 1938 da canção infantil "A-Tisket, A-Tasket", canção que ela compôs, que lhe trouxe uma maior atenção do público.
Os anos na Decca
Em 1942, Fitzgerald abandonou a banda em busca de uma carreira solo. Contratada pela gravadora Decca, obteve diversos sucessos, gravando com artistas como Ink Spots, Louis Jordan e os Delta Rhythm Boys. Com Milt Gabler, da própria Decca, administrando sua carreira, começou a trabalhar regularmente para o empresário do jazz Norman Granz, e apareceu regularmente na sua série de concertos Jazz at the Philharmonic (JATP). A relação de Fitzgerald com Granz foi solidificada quando ele se tornou seu empresário, embora ele só tenha sido capaz de trazê-la para uma de suas muitas gravadoras quase uma década depois. O declínio da era do swing e das grandes turnês das big bands trouxe uma grande mudança no jazz. O advento do bebop provocou uma alteração no estilo vocal de Ella, influenciado por seu trabalho com a big band de Dizzy Gillespie. Foi neste período que Fitzgeraldd começou a incluir o scat como uma das marcas registradas de seu repertório. Sobre cantar com Gillespie, Ella comentou mais tarde: "Eu apenas tentava fazer [com minha voz] o que eu ouvia os sopros da banda fazerem".
Mudança para a Verve e sucesso com o grande público
Ella ainda estava se apresentando nos concertos JATP, de Granz, em 1955, quando deixou a Decca e Granz, agora seu empresário particular, criou a Verve Records em torno dela. Fitzgerald descreveu posteriormente o período como tendo sido crucial, estrategicamente; segundo ela, "eu havia chegado a um ponto onde apenas cantava be-bop. Eu achava que o be-bop era tudo, e que o que eu precisava fazer era ir para algum lugar e cantar bop. Mas finalmente chegou um ponto em que eu não tinha mais lugar para cantar. Eu percebi que havia mais, na música, do que o bop. Norman... achou que eu deveria fazer outras coisas, e então ele produziu o Songbook de Cole Porter comigo. Foi uma guinada na minha vida".
Anos finais
Em 1963 a Verve Records foi vendida por três milhões de dólares à MGM, que não renovou o contrato de Fitzgerald. Nos cinco anos seguintes, ela alternou entre a Atlantic, Capitol e Reprise. Seu material na época havia se distanciado muito do repertório típico de jazz; para a Capitol ela havia gravado Brighten the Corner, um álbum de hinos, Ella Fitzgerald's Christmas, um álbum de canções natalinas tradicionais, Misty Blue, um álbum com influências country and western, e 30 by Ella, uma série de seis medleys gravados apenas para cumprir com suas obrigações contratuais. Nessa época, Ella teve um último single nas paradas de sucesso dos Estados Unidos, com um cover de "Get Ready", de Smokey Robinson, que havia sido sucesso com The Temptations, e "Rare Earth".
Ella Fitzgerald foi casada por três vezes. Em 1941 casou-se com Benny Kornegay, um traficante de drogas condenado. Após dois anos de casamento, Ella sofria com agressões físicas e humilhações, ele foi preso por associação ao tráfico, e então, o casal se divorciou. Seu segundo casamento, em dezembro de 1947, foi com o famoso contrabaixista Ray Brown. Eles haviam se conhecido durante a turnê com a banda de Dizzy Gillespie, um ano antes. Apesar de diversos tratamentos, Ella não conseguiu engravidar, ficando muito decepcionada. Então o casal decidiu adotar o sobrinho dela, filho de Frances, sua meia-irmã, que havia sido mãe solteira e não tinha condições financeiras de cuidar da criança. Eles, então, registraram e batizaram o menino de de Ray Brown Jr. Como Fitzgerald e Brown estavam sempre envolvidos com turnês e gravações, a criança acabou sendo criada por sua tia avó, Virgínia, mas Ella e o marido sempre visitavam o menino, que os chamavam de pai e mãe, e lhe proporcionavam uma vida digna. Nesta época havia perdoado e voltado a falar com sua tia, a quem pagava para tomar conta do menino. Após o falecimento dela, sua meia-irmã Frances voltou para buscar o filho, e Ella e Brown passaram a ajudá-los financeiramente. A cantora Ella Fitzgerald e seu marido Brown se divorciaram amigavelmente em 1953, devido às diversas pressões pelas quais as carreiras artísticas de ambos passavam no período, o que afetava a vida pessoal deles - embora tenham continuado a se apresentar juntos.
Em seu papel de maior destaque no cinema, Ella interpretou a cantora Maggie Jackson, no filme de jazz de Jack Webb, Pete Kelly's Blues, rodado em 1955. O filme também contou com a atriz Janet Leigh e a cantora Peggy Lee. Embora já tivesse trabalhado em outros filmes anteriormente (havia cantado rapidamente no filme Ride 'Em Cowboy, dos humoristas Abbott e Costello, de 1942), ela teria ficado "encantada" quando Norman Granz negociou o papel por ela, e, "na época... teria considerado seu papel no filme da Warner Brothers como a maior coisa que já lhe tinha acontecido". Segundo o crítico que comentou sobre o filme para o New York Times em agosto de 1955, "cerca de cinco minutos (de noventa e cinco) deste filme sugerem o que ele poderia ter sido. Pegue o ingênuo prólogo... ou as cenas rápidas nas quais a maravilhosa Ella Fitzgerald, a quem foram concedidas algumas poucas falas, enche a tela e a trilha sonora com suas fortes características expressivas e com sua voz".
Imagem: Courtesy the Fraser MacPherson estate c/o Guy MacPherson · BY · Openverse
Colaborações
As colaborações mais famosas de Ella Fitzgerald foram com o trompetista Louis Armstrong, o guitarrista Joe Pass e os bandleaders Count Basie e Duke Ellington. Ella teve diversos músicos e solistas de jazz famosos acompanhando-a ao longo de sua carreira. Os trompetistas Roy Eldridge e Dizzy Gillespie, o guitarrista Herb Ellis, e os pianistas Tommy Flanagan, Oscar Peterson, Lou Levy, Paul Smith, Jimmy Rowles e Ellis Larkins trabalharam com ela, quase sempre em pequenos grupos e em apresentações ao vivo. Talvez a maior parceria de Ella Fitzgerald a não ter sido realizada (em termos de música popular) foi um álbum, ao vivo ou de estúdio, com Frank Sinatra. Ambos apareceram no mesmo palco apenas periodicamente ao longo dos anos, em especiais de televisão, em 1958 e 1959, e novamente em 1967, no programa A Man and His Music + Ella + Jobim, uma apresentação que também contou com Tom Jobim. Segundo o pianista Paul Smith, "Ella adorava trabalhar com [Frank]. Sinatra lhe deu o seu próprio camarim em A Man and His Music, e não se cansava de fazer coisas por ela". Quando perguntado sobre o assunto, Norman Granz citava "motivos contratuais complexos" para justificar o fato dos dois artistas nunca gravarem juntos. A aparição de Fitzgerald com Sinatra e Count em junho de 1974 para uma série de concertos no Caesar's Palace, em Las Vegas, foi vista como um importante ímpeto para o retorno de Sinatra de seu exílio voluntário, no início da década de 1970. Os shows foram um grande sucesso, e, em setembro daquele ano, renderam um milhão de dólares durante duas semanas na Broadway, num 'triunvirato' com a Count Basie Orchestra.
Imagem: Trondheim byarkiv · BY · Openverse
Ella Fitzgerald venceu 14 prêmios Grammy, incluindo um de Lifetime Achievement, em 1967. Entre outros prêmios e homenagens que recebeu durante sua carreira estão o Kennedy Center for the Performing Arts Medal of Honor Award, National Medal of Art, o primeiro Society of Singers Lifetime Achievement Award (batizado de "Ella" em sua homenagem), a Medalha Presidencial da Liberdade, e o e George and Ira Gershwin Award pela sua carreira, da UCLA Spring Sing. Ella Fitzgerald apoiou de maneira discreta porém intensa diversas organizações de caridade e sem fins lucrativos, incluindo a American Heart Association e o United Negro College Fund. Em 1993 fundou a "Ella Fitzgerald Charitable Foundation", que continua a custear programas que perpetuam seus ideais.


