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Guerra de Canudos

A guerra de Canudos ou campanha de Canudos foi um conflito armado ocorrido no final do século XIX entre, por um lado, as tropas regulares do estado da Bahia primeiro, e da república do Brasil depois, e por outro lado, um grupo de cerca de 30 000 colonos estabelecidos em comunidade autônoma num povoado fundado por eles no nordeste da Bahia, perto da antiga fazenda de Canudos, e rebatizado de Belo Monte.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 12/07/2026
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Contextualização

Antecedentes históricos

Entre 1888 e 1889, o Brasil atravessou um período de transformação revolucionária e de comoções sociais, econômicas e políticas as mais profundas de sua história desde o descobrimento pelos portugueses no ano de 1500. Em 13 de maio de 1888, a escravidão foi abolida pelo imperador reinante Dom Pedro II, por meio de uma lei assinada por sua filha, a princesa Isabel. Mais de cinco milhões de negros, que de um dia para o outro se viram sem trabalho, abandonaram as propriedades agrícolas para engrossar as fileiras dos extremamente pobres nas cidades e no campo. Dezenas de milhares de fazendeiros foram arruinados e, por um tempo, a atividade agrícola quase parou, especialmente nas culturas de mão de obra intensiva, como café, algodão, tabaco e cana-de-açúcar, que constituíam os pilares da economia brasileira naquela época.

Meio natural

Por pelo menos dois motivos, o ambiente natural de Canudos merece que nos detenhamos nele: primeiro, o meio natural pôde, direta ou indiretamente, contribuir para modular a estrutura mental da população local; e, segundo, as características físicas da região (e sobretudo o desconhecimento delas por parte das tropas republicanas) puderam ter consequências militares por vezes determinantes. Da Cunha dá uma descrição impressionante e espetacular, mas geralmente adequada, embora certa tendência ao inchaço gongórico o leve a ver em tudo o desmedido e o extremo: as montanhas não são tão altas na realidade, e os barrancos não tão encaixados. Canudos situa-se no sertão do norte do Estado da Bahia, numa zona compreendida entre o rio Itapicuru ao sul e o baixo curso do Rio São Francisco ao norte, ou, mais precisamente, numa extensão particularmente árida situada ao norte da pequena cidade de Monte Santo, cidade a partir da qual, de fato, se se vai do sul para o norte, sucede-se ao sertão habitual uma zona de montículos nus, de encostas escorregadias, de terra parcimoniosa, cuja cobertura vegetal é característica da caatinga, isto é, uma zona onde a maioria das plantas perde as folhas e seus caules branquejam e se retorcem durante o período seco. A vegetação é assim composta de arbustos quase sem pegamento no solo, de ramos entrelaçados, no meio dos quais surgem, solitários, alguns cactos rígidos. Embora a caatinga não possua as espécies raquíticas dos desertos e seja rica em vegetais diversos, suas árvores, vistas em conjunto, parecem formar apenas uma única família, quase reduzida a uma espécie invariável, e só diferem pelo tamanho, tendo todas a mesma conformação, a mesma aparência de vegetais moribundos, quase sem troncos, com ramos que brotam da própria terra, dando ao conjunto a aparência de uma zona de transição para o deserto. Nos períodos de seca, essa vegetação, no entanto, oferece os últimos recursos a quem conhece suas secretas possibilidades; assim os guardadores de gado do sertão (os vaqueiros) sabem que cortar em pedaços o mandacaru permite hidratar-se mesmo em período de extrema seca, e conhecem a quixabeira, cujas folhas podem servir de forragem ao gado. Se a palavra sertão vem de desertão, 'grande deserto', vê-se no entanto que não se trata de modo algum de um deserto de areia, e Canudos mais particularmente, assim como a zona circundante, era na verdade bem regada de cursos d'água sazonais e, por conseguinte, era na maioria dos anos nitidamente mais habitável do que as extensões do sertão situadas mais ao norte e mais a oeste nos Estados do Ceará, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco.

Aspectos antropológicos

A porção de território circunvizinha à fazenda de Canudos aparece, mesmo segundo as normas do sertão, como muito fracamente povoada, com uma densidade populacional de apenas 0,6 habitante por km 2 (segundo o recenseamento de 1890), e confinava para o noroeste com o Raso da Catarina, extensão muito árida e quase inabitável. A parte do sertão e do agreste que Antônio Maciel percorreu durante seus vinte anos de peregrinações, chamada por essa razão sertão do Conselheiro, e na qual se situa também Canudos, estendia-se nos Estados contíguos da Bahia e do Sergipe, abrangia uma dezena de municípios (os municípios de Pombal, Soure, Conde, Inhambupe, Entre Rios, Alagoinhas, Itapicuru, Tucano, Monte Santo e Jeremoabo), e contava com perto de 220 000 habitantes (para 1,9 milhão de habitantes em todo o Estado da Bahia). Em 1872, ou seja, 16 anos antes da abolição da escravatura, a porcentagem de escravos nessa mesma região se estabelecia em 10,75% em média; em Jeremoabo, esse número era baixo (menos de 4%), mas muito elevado em Monte Santo (12,7%) e em Entre Rios (23,7%).

Organização socioeconômica do sertão

Se Da Cunha dá uma descrição bastante fiel da vida cotidiana no sertão, é notável que ele não se demore muito nas estruturas sociais e nas relações econômicas. Contudo, esses aspectos são sem dúvida os mais capazes de explicar o êxodo de parte da população para Canudos. Além disso, Da Cunha tende a caracterizar como pastoril a população sertaneja toda inteira, quando a maioria da população vivia na realidade de agricultura sedentária e de pequeno comércio. O elemento central da organização social do sertão era a grande propriedade fundiária. Nos séculos anteriores, a coroa portuguesa havia outorgado sesmarias, vastas extensões de terra (até seis léguas, ou seja, mais de trinta quilômetros de profundidade) a um certo número de indivíduos. Algumas famílias, notadamente o clã Garcia d'Ávila, adquiriram assim domínios atingindo por vezes mais de 200 léguas na Bahia. Em meados do século XIX, menos de 5 por cento com certeza, e provavelmente menos de um por cento da população rural era proprietária de terras. Uma categoria à parte são os proprietários absentistas, contentes em deixar suas propriedades nas mãos de feitores, a fim de levar de preferência uma vida citadina na costa. Os proprietários fundiários, e também as elites políticas, eram os mais ferrenhos a combater a menor ameaça ao status quo, e desse ponto de vista, o fenômeno Canudos, que abalava a relação tradicional trabalho-terra (só pelo fato de que tinha por efeito desfalcar o pessoal das grandes explorações agrícolas), inevitavelmente haveria de suscitar uma reação hostil da parte da grande propriedade fundiária.

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A comunidade de Canudos

Ao contrário do que transparece da descrição dramática dada por Da Cunha, a zona de Canudos não era tão árida que não tivesse oferecido muito poucos recursos à atividade agrícola e comercial; ao contrário, o sítio foi escolhido justamente em razão de sua capacidade de sustentar a agricultura. Belo Monte com efeito se situa no local onde o afluxo de água pela bacia hidrográfica superior do rio Vaza-Barris era no máximo. Água podia ser extraída não apenas do rio, mas também — raridade para a região — do subsolo, mediante escavação de poços na rocha porosa. Acessoriamente, pela configuração acidentada do terreno, as faculdades de defesa da cidade se viam multiplicadas, facilitando em particular as emboscadas e ataques surpresa por parte dos canudenses; os comandantes militares de Conselheiro deviam aliás mostrar-se hábeis em atrair e enredar as tropas regulares em labirintos naturais isentos de água.

A figura de Antônio Conselheiro

Antônio Conselheiro, fundador e líder espiritual até a sua morte da comunidade de Belo Monte, nasceu em 1830, sob o nome de Antônio Maciel, numa vila da caatinga do Estado do Ceará, no norte do Brasil. Tinha a tez olivácea, atribuída mais tarde a uma ascendência em parte indígena. Seus pais, criadores de gado e comerciantes, pertencentes à classe conservadora, submetiam seus filhos a uma estrita disciplina religiosa e destinavam Antônio ao estado de padre. A morte prematura de sua mãe decidiu de outra forma, mas Antônio Conselheiro recebeu, no entanto, alguma instrução de seu avô, que era professor. Depois de ter abandonado, por insucesso, o comércio que herdara de seus pais, ganhou a vida como professor, depois como advogado sem título, a serviço dos desvalidos. Contraiu um casamento infeliz com uma prima sua, de 15 anos; na sequência do adultério desta com um miliciano, e colocado, segundo o código de honra sertanejo, diante da escolha ou de se vingar (isto é, assassinar mulher e amante), ou de uma humilhação interminável, escolheu a terceira opção, a fuga. Deixou portanto a terra natal e foi residir nos sertões do Cariri para aí trabalhar como professor rural, mas logo manifestou uma inclinação para o misticismo cristão.

Belo Monte: gênese e expansão

A violência eclodiu finalmente em 1893, quando os conselheiristas, depois que se rebelaram abertamente em Bom Conselho e protestaram contra as imposições decididas pelo novo governo republicano, e, em seguida, medindo a gravidade de seu feito, tomaram o partido de deixar a localidade tomando a estrada do norte em direção a Monte Santo, foram perseguidos por uma importante força policial, partida da capital do Estado, onde se havia tomado conhecimento dos eventos de Bom Conselho. Maciel/Conselheiro e seus sectários, cujo número não excedia então a duzentos homens e mulheres, foram alcançados pelo dito destacamento policial em Maceté, entre Tucano e Vila do Cumbe (na atual municipalidade de Quijingue). Os trinta policiais bem armados e seguros de si mesmos esbarraram, no entanto, em valorosos jagunços, pelos quais foram postos em debandada e compelidos a fugir. Antônio Conselheiro e seus adeptos, receando perseguições mais enérgicas, preferiam agora evitar os lugares povoados e se dirigiram para o "deserto", para a caatinga, certos de aí encontrar um abrigo seguro na natureza selvagem e de difícil acesso. Esse raciocínio se confirmou, pois os 80 soldados de infantaria enviados de Salvador não ultrapassaram Serrinha, onde voltaram atrás sem ter ousado se aventurar mais adentro no sertão.

Composição e origem social da população canudense

A maioria dos migrantes, que não foram senão algumas centenas no início, tinham pouco a perder; mas mesmo para esses, juntar-se a Canudos requeria ousadia, pois poucos sertanejos deixavam jamais sua terra de forma permanente salvo em caso de dura necessidade. De forma geral, os habitantes de Canudos apresentavam um espectro socioétnico muito mais amplo do que é admitido tradicionalmente. Os adeptos de Conselheiro estavam longe de ser todos pobres e de tez escura, como afirma Da Cunha. Alguns habitantes tinham sido mesmo ricos em sua vida anterior: um homem vendera três casas antes de se juntar à colônia com sua família, e conhece-se também o caso de dois proprietários de fazenda em casa de quem Antônio Conselheiro se havia alojado alguns anos antes e que venderam seu bem para se juntar à comunidade.

Efetivos

Canudos não era, administrativamente falando, senão um arraial, um povoado no interior de um município, uma comuna, mas isso não obstante era uma das aglomerações mais povoadas da Bahia. O número de habitantes de Canudos foi e continua sendo objeto de controvérsias e as estimativas de seus efetivos populacionais oscilam entre 10 000 e 35 000 habitantes. Cabe notar primeiramente que o número de população de Canudos variou fortemente ao longo de seus quatro anos de existência. Igualmente controverso é o número dos acompanhantes de Antônio Conselheiro antes da fundação de Belo Monte em 1893. Um correspondente do Jornal de Notícias de Salvador estimou esse número, pouco antes da fundação de Canudos, em 3 000 homens, mulheres e crianças; outro observador contou por volta da mesma época uma a duzentas centenas de combatentes, constatando que as mulheres representavam dois terços do grupo inteiro. Se se contabilizam as mulheres e os homens inaptos ao combate, são cerca de 800 pessoas que se fixaram na fazenda de Canudos, onde encontraram, supondo fidedignos os dados de Da Cunha sobre esse ponto, um grupo de 250 residentes já instalados.

Motivações

Para dar conta de um êxodo tão massivo para a colônia de Canudos, a só privação material, tão fortemente quanto os canudenses tivessem dela sofrido em sua vida anterior, não é um fator explicativo nem necessário nem suficiente. O fator determinante próprio a desencadear a mobilização milenarista e a empurrar ao êxodo foi sem dúvida o que Robert Levine chama a desrotinização geral da vida cotidiana, o fato de que, por uma mudança política profunda, as categorias normais através das quais a realidade social era até então apreendida não se aplicavam mais doravante. Muitos rurais desconfiavam da nova ordem laica republicana, e alguns puderam mesmo interpretar as novas práticas de registro civil e certas questões do censo relativas à ascendência racial como uma ameaça de restauração da escravidão, abolida pela monarquia um ano antes da queda desta. Por seus esforços para estender seus poderes até as terras interiores mais afastadas, o novo Estado republicano representava uma reviravolta estrutural propriamente cataclísmica. Mesmo a eleição de um presidente em lugar da investidura vitalícia de um monarca paternal suscitou temores. A pregação de Conselheiro comportava uma crítica dessa ordem republicana existente e oferecia a alternativa de um universo simbólico (potencialmente explosivo) diferente. Muitos sertanejos escolheram portanto procurar refúgio em Canudos, colônia coletivista dirigida por um patriarca protetor, e aí levar uma vida coletiva estruturada, como meio de alcançar a redenção individual. A maioria das pregações de Antônio Conselheiro exigia simplesmente uma moralidade pessoal e um trabalho assíduo, em troca de uma proteção espiritual contra o mundo temporal corrompido e em prostração econômica. Os crentes podiam aí levar uma vida disciplinada de acordo com os preceitos católicos, ao abrigo tanto das infâmias modernas quanto da fome e da necessidade. Canudos não atraiu os desviantes e os fanatizados, mas homens e mulheres racionais que, sentindo-se doravante alienados em sua sociedade, buscavam a redenção indo voluntariamente viver num ambiente penitencial regulado e seguro, aceitando voluntariamente um conjunto de preceitos aptos a dar à sua vida uma estrutura e uma direção tranquilizadoras. À sua chegada a Canudos, os residentes recebiam a designação de um trabalho e viviam segundo uma rotina que deve ter trazido um sentimento de segurança a pessoas traumatizadas pelas privações e pelas vicissitudes da seca, das querelas de clã e da precariedade econômica.

Estruturas de poder e centros de decisão

As pesquisas recentes trouxeram à luz a presença em Canudos de estratificações sociais e funcionais, e de um sistema hierárquico de repartição dos poderes, nomeadamente no seio do grupo dirigente, o qual não era isento de tendências divergentes e de fricções. O movimento de Canudos era impulsionado por um núcleo funcionalmente diferenciado de indivíduos bem colocados. No domínio estritamente religioso, Maciel tinha sob suas ordens um grupo restrito de beatos e beatas (devotos), que formavam uma espécie de confraria leiga chamada Companhia do Bom Jesus, a qual estava encarregada de cuidar do santuário, onde vivia Maciel e onde eram conservadas as imagens de santos, de proteger Maciel contra o exterior, de assisti-lo na liturgia, de tocar os sinos e de organizar coletas de esmolas nos arredores. A mais considerada entre as beatas recebia a incumbência da alimentação do Conselheiro e, na qualidade de parteira diplomada, ajudava também a vir ao mundo as crianças de Canudos.

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Desenrolar da guerra

Prelúdio e elemento desencadeador

As operações armadas contra Conselheiro e seus seguidores começaram logo nos primeiros anos da República, isto é, antes mesmo de sua instalação em Canudos. Quando correu o boato de que ele excitava a população contra o novo regime, uma força policial de uma trintena de homens bem armados partiu da Bahia para dispersar os cerca de duzentos insurgentes, mas foram postos em fuga pelos jagunços perto de Masseté. Uma segunda incursão ocorreu, mas fracassou nos arredores de Serrinha, pois os conselheiristas possuíam a arte de se tornar invisíveis na caatinga, onde ninguém se aventurava a segui-los. Essas descidas policiais foram uma das razões pelas quais Conselheiro resolveu se sedentarizar num local que conhecia há muito tempo, a fazenda abandonada de Canudos.

Primeira expedição (novembro de 1896)

No início de novembro de 1896, pouco tempo após o incidente da madeira de construção, o magistrado da cidade de Juazeiro acabou por dar o alarme, afirmando num telegrama ao governador da Bahia que os sectários de Conselheiro se encontravam a duas jornadas de marcha da cidade. Um destacamento de tropa regular de uma centena de homens, que havia sido requisitado antes junto ao general comandante do distrito e estava pronto para partir para Juazeiro assim que chegasse a mensagem do juiz dessa comuna, foi colocado sob o comando do tenente Manuel da Silva Pires Ferreira e partiu de trem expresso para Juazeiro. Chegada ao destino na manhã de 7 de novembro, a pequena tropa não pôde contudo impedir o êxodo, já em curso, de grande parte da população, desejosa de esquivar-se de um assalto supostamente iminente. O tenente Manuel da Silva Pires Ferreira, após vários dias passados à espera em Juazeiro, vendo que o boato de uma algazarra de Conselheiro era infundado, convenceu-se no entanto com o magistrado a ir ao encontro dos bandidos, a fim de evitar que invadissem a cidade.

Segunda expedição (janeiro de 1897)

A derrota de Pires Ferreira em Uauá e os relatos sobre a ferocidade e o fanatismo dos insurgentes provocaram um grande clamor nacional e exigiam uma reação radical. O exército nacional estava agora intimado a submeter a aldeia, que não cessava entretanto de crescer e já havia atingido uma população de 30 000 habitantes. No entanto, existia uma divergência de ponto de vista entre o governador do Estado da Bahia, que tendia a ver aí uma desordem banal, controlável por simples forças policiais, e o chefe das tropas federais, para quem se tratava de um movimento mais temível, capaz de verdadeiras operações de guerra. Contudo, o governo da Bahia, apegado à sua soberania enquanto Estado federado e durante muito tempo relutante a aceitar a intervenção federal, acabou cedendo, compreendendo que a desordem de Canudos, ainda pontual por enquanto, era suscetível de se tornar por contágio o foco de uma deflagração em todo o sertão do Nordeste brasileiro, tratando-se por conseguinte de uma questão que concernia ao país inteiro e exigia a colaboração de todos os Estados federados.

Terceira expedição (fevereiro de 1897)

A nova vitória dos insurgentes, complacentemente amplificada e romanceada por aqueles que a contavam, teve o efeito de atrair quantidade de novos adeptos a Canudos, cuja população conheceu em três semanas um aumento considerável. Grupos de novos peregrinos, levando amiúde todas as suas posses, vieram instalar-se nesses lugares que passavam por lendários. Eram, como nos anos anteriores, pessoas de todas as categorias: pequenos criadores ou vaqueiros crédulos, ao lado dos diferentes tipos de sertanejos — bandidos libertos, sicários disponíveis ou com vontade de novas aventuras etc., vindos a juntar-se ao « santo homem ». Dirigiam-se também, amiúde transportados em redes, uma multidão de doentes, de moribundos desejosos de dormir seu último sono no solo de Belo Monte, de cegos, de paralíticos, ou de leprosos, que esperavam um milagre e uma pronta cura pelo taumaturgo Antônio Conselheiro. Os recém-chegados não eram apenas baianos mas também nativos de todos os Estados vizinhos. Por outro lado, a localidade viu convergir para si, ao longo dos dias e vindo de todas as direções, carregamentos cheios de toda sorte de víveres, expedidos por adeptos que reabasteciam a aldeia de longe, fazendo aí reinar uma verdadeira abundância.

Quarta expedição e liquidação do foco (junho — outubro de 1897)

No Rio de Janeiro, a comoção provocada por essa nova derrota foi considerável, ainda mais que se atribuía a Conselheiro o projeto de restaurar a monarquia. Jornais monarquistas sofreram depredações e o coronel Gentil José de Castro, administrador e proprietário de dois deles, foi acusado de entregar armas aos canudenses e assassinado num atentado em 8 de março. Sob a pressão do governo britânico que havia apoiado o governo republicano, mas que temia que os numerosos investimentos britânicos no nordeste fossem ameaçados se a desordem civil e a resistência monarquista continuassem, o governo federal preparou uma nova expedição. Desta vez, foi planificada de forma mais profissional, com a ajuda de um gabinete de guerra.

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Iluminações particulares

Ligações entre Canudos e a política

Se é justo que Da Cunha refutasse que Canudos fosse um elo, ou mesmo o núcleo, de uma vasta trama monarquista, ele errou ao afirmar que a comunidade, não obstante seu chefe espiritual ser um antirrepublicano declarado, representava apenas uma insana regressão social e moral, totalmente separada do contexto político de sua época. De fato, parece que houve conexões demonstráveis entre conselheiristas e certos meios políticos baianos, e que os adeptos de Antônio Conselheiro ocuparam, por um tempo ao menos, uma posição precisa nas relações de força políticas do estado da Bahia. Essas relações de força podem ser esboçadas como segue. Na Bahia, no final de 1889, a maioria dos políticos era contrária à instalação da república, temendo que uma mudança institucional dessa magnitude viesse a agravar a crise econômica. Negociantes e homens de negócios receavam que a retórica republicana sobre a justiça social e sobre um acesso ampliado à tomada de decisão política não resultasse na anarquia. Num primeiro momento, o município de Salvador votou contra a ditadura militar nacional e fez questão de reafirmar sua fidelidade à monarquia; só aceitou a república depois que a família imperial tomou definitivamente o rumo do exílio para a Europa. A nova constituição de 1891, que instituiu um federalismo muito avançado, teve o efeito de alimentar ainda mais a tensão política existente ao dar um poder inédito às regiões social e economicamente mais poderosas. O novo sistema federalista recompensava os estados federados mais dinâmicos, em detrimento dos outros, relegados ao status de quase párias. O estado da Bahia, em decadência já há longas décadas, já não tinha mais muita influência no nível federal. Além disso, esse estado, e sua capital em particular, era suspeito de ter permanecido secretamente monarquista, e durante o caso de Canudos, os representantes baianos se empenharam em provar que essas alegações eram infundadas.

Barbárie contra civilização

Quando alcançaram Queimadas, os combatentes (=os soldados do exército regular) da nova expedição perceberam essa transição violenta. Essa discordância absoluta e radical entre as cidades da costa e as cabanas cobertas de telha do interior, que desequilibra tanto o ritmo de nossa evolução, e transtorna lamentavelmente a unidade nacional. Viam-se em terra estrangeira. Outros hábitos. Outras paisagens. Outras gentes. E até outra língua, articulada em um jargão original e pitoresco. Tinham a impressão de atravessar a fronteira para ir fazer a guerra. Sentiam-se fora do Brasil. A separação social era total, dilatava as distâncias geográficas e criava a sensação nostálgica de um longo afastamento da pátria.

Aspectos religiosos do conflito

Os adeptos de Antônio Conselheiro obedeciam, para segui-lo, a uma ampla gama de motivos; mas antes de tudo sem dúvida, viam nele um poderoso chefe religioso leigo, cuja ação se inscrevia na tradição católica popular particular à região. Em todo caso, o que pode ser reconstituído a partir dos documentos históricos sobre a vida e a carreira de Antônio Conselheiro contradiz fortemente a imagem do zelote fanático, irreverente, malévolo, herege e antissocial tal como veiculada por Da Cunha e as elites do litoral. O elemento de desvio religioso não estava ausente da imagem catártica de que o novo Brasil republicano precisava como justificativa para reprimir a dissidência rural, e Antônio Conselheiro, por sua teimosia e carisma, se prestava muito bem a essa imagem, entregando-se assim de bandeja aos jacobinos apressados em lançar o Brasil na via do progresso civilizador.

Fatores econômicos, sociais e psicológicos

A insegurança gerada pelo sistema coronelista, os impasses econômicos, os esforços da Igreja Católica para pôr fim às práticas tradicionais consideradas não ortodoxas, a abolição da escravatura, depois a queda da monarquia e as novas prescrições republicanas (em particular o casamento civil, a supressão das prerrogativas da Igreja em matéria de registro civil, e mais geralmente o abatimento visível da unidade tradicional entre Igreja e sociedade), eram tantos elementos que se somavam ao desnorteamento e à ansiedade dos camponeses do sertão e contribuíam para sua predisposição a seguir Antônio Conselheiro, quando em 1893 e 1894 a notícia sobre o estabelecimento do refúgio de Antônio Conselheiro se espalhou pelos campos.

Tese da psicose coletiva

Entre os diferentes pretextos usados para justificar o aniquilamento de Canudos — proselitismo monarquista, barbárie contra civilização, atentado à ordem pública, depredações etc. —, houve ainda um outro, não menos desprovido de base sólida, e que o só fato de Canudos ter podido se manter e prosperar durante vários anos bastaria para refutar, mas que muitos promotores da república e observadores vindos do litoral se compraziam, todavia, em pôr em evidência, a saber: a alegação de que Canudos seria fruto de uma psicose coletiva. Em Salvador, a personalidade de Antônio Conselheiro era medida, avaliada e interpretada por médicos e universitários de proa, à frente dos quais o médico legista e pesquisador Raimundo Nina Rodrigues, que era então professor de medicina legal na faculdade de medicina de Salvador e que se aplicava a buscar com extrema minúcia em cadáveres de loucos e delinquentes comprovados os estigmas físicos de seu desvio. Seus escritos, que dão conta desses trabalhos e dos quais Da Cunha teve conhecimento, estabeleceram os marcos de uma antropologia criminal do Brasil, preocupada em também levar em conta as particularidades raciais e culturais do país. Ele examinou os caracteres físicos dos criminosos e, mais especialmente, da população mulata, para tentar detectar os sintomas de degenerescência devidos à mistura das raças. Foi a ele que o crânio do Conselheiro seria confiado para perícia, em consideração à reputação que havia adquirido nesse domínio por suas teorias sobre os efeitos degenerativos da miscigenação racial e do elo que havia estabelecido entre doença mental e «contágio messiânico». Suas teses a esse respeito, que não faziam senão traduzir o pensamento da elite citadina não apenas sobre a personalidade e o estado mental do Conselheiro, mas também sobre a população do sertão em geral, são expostas mais particularmente em dois artigos de sua lavra, que será interessante pôr em contraponto com certas passagens da obra de Da Cunha; são, por um lado, A loucura epidêmica de Canudos. Antônio Conselheiro e os jagunços (N.B. loucura = loucura), redigido pouco antes da liquidação de Canudos e publicado em novembro de janeiro, e por outro, A loucura das multidões. Nova contribuição das loucuras epidêmicas no Brasil, publicado primeiro na França nos Annales médico-psychologiques em maio-junho de fevereiro sob o título Épidémie de folie religieuse au Brésil. Nina Rodrigues aí desenvolve, quando se encontrava em Salvador, sua própria visão da guerra de Canudos, centrando sua interpretação na figura anacrônica de Antônio Conselheiro, o louco de Canudos, cuja loucura lhe parece comprovada, a despeito do caráter parcial dos dados que tem de sua biografia. Pode-se estranhar esse diagnóstico à distância, estabelecido com base em testemunhos não verificáveis (e, mais geralmente, do julgamento peremptório sobre Antônio Conselheiro por diversos cronistas que, contudo, nunca lhes fora dado encontrá-lo), mas, escreve ele no primeiro desses dois artigos, «a alienação que o atinge é conhecida até nos seus mínimos detalhes, e pode perfeitamente ser objeto de um diagnóstico a partir de dados truncados ou insuficientes, como aqueles que se possuem sobre a história pessoal desse alienado». Assim não hesita em aplicar sobre Antônio Conselheiro seus pressupostos teóricos inspirados nas teses lombrosianas, e observam-se, em sua análise da personalidade do Conselheiro, termos e segmentos de frase tais como «alienado», «cristalização do delírio de Antônio Conselheiro no terceiro período de sua psicose progressiva», «delírio crônico», «psicose sistemática progressiva», «paranoia primária», «loucura alucinatória», «relação com Deus de natureza provavelmente alucinatória», «delírio de perseguição», «loucura hipocondríaca», «alienado migrante», «fase megalomaníaca de sua psicose», «alienado tomado de um Predefinição:Lien» etc., sem esquecer o título mesmo de seu artigo, A Loucura epidêmica de Canudos, por si só muito revelador. O texto comporta, por outro lado, algumas asserções surpreendentes, notadamente que Antônio Conselheiro infligia maus-tratos a sua mulher, que esta foi violada por um policial em Ipú antes de deixar o Conselheiro; que sua personalidade comportava um lado violento e que em certo momento ele tinha ferido seu cunhado; e que suas frequentes mudanças de emprego eram o reflexo de sua instabilidade e denotavam um «delírio de perseguição». Segundo Nina Rodrigues, Antônio Conselheiro teria encontrado «uma fórmula para seu delírio» e uma expressão para sua «megalomania» nomeadamente sob a forma da fustigação do luxo e do prazer.

Experiência coletivista?

No início, e durante muitas décadas, a maioria dos historiadores e intelectuais brasileiros acreditou na visão de Da Cunha, que via Canudos simbolicamente como o resultado de impulsos primitivos de camponeses atrasados manipulados por um falso messias. Posteriormente, os autores de esquerda se apropriaram dos eventos de Canudos para ilustrar sua análise particular dos fenômenos sociais e quiseram reinterpretar Canudos como um núcleo de resistência política contra a opressão, magnificando o conflito em uma rebelião heroica sem precedentes contra o feudalismo — era, segundo os termos de Abguar Bastos, «uma das manifestações mais estarrecedoras de coragem humana no Brasil». Os teólogos da libertação, p. ex., se esforçaram por remodelar esse episódio histórico moldando Canudos em uma comunidade de caridade, praticando uma solidariedade fraterna, e destruída por fazendeiros-exportadores plutocratas e seus clientes burgueses. Os ideólogos do partido comunista brasileiro apresentaram Canudos como o desfecho da conscientização e da mobilização camponesas, e promoveram o conflito como paradigma da luta de classes. Outros, pondo em relevo a estrutura feudal da sociedade do sertão e postulando o antagonismo de classe como a principal mola por trás do fenômeno Canudos, exaltaram os jagunços como soldados lutando contra o sistema latifundiário; segundo os termos de Rui Facó, Antônio Conselheiro levantou uma «rebelião inconsciente mas espontânea contra a monstruosa e secular opressão pela grande propriedade semi-feudal». Contudo, não há elementos de prova indicando que Antônio Conselheiro jamais tivesse preconizado a insurgência social. Todas essas interpretações não contribuem em nada para uma melhor compreensão da trajetória de vida e das motivações daqueles que seguiram Antônio Conselheiro em direção ao lugar santo. Nenhuma ajuda a melhor apreender Canudos como um fenômeno dinâmico de natureza ao mesmo tempo religiosa e política.

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Desdobramentos

Imediato pós-guerra

A notícia da destruição de Canudos deu lugar em todo o país a manifestações e a encenações de euforia. Os editoriais dos jornais, os oradores em cerimônias improvisadas, os políticos nos conselhos municipais, nos parlamentos das entidades federadas e no congresso nacional rivalizavam em retórica triunfal e em homenagem aos heróis. Em Salvador em particular, o governo do estado da Bahia exultou com o anúncio da vitória do exército republicano, e os jornais baianos organizaram conjuntamente uma celebração triunfal em honra do general Oscar. A oposição política tratou de sublinhar, em sua mensagem de felicitações, sua própria parte nessa vitória. Na capital federal, os jacobinos exultavam, enquanto o presidente Prudente de Morais se esforçava para fazer passar a queda de Canudos como uma performance de seu único governo. A vitória foi exaltada inclusive pelo mais insignificante dos jornais de província, e celebrada com pompa nos povoados mais distantes. Alguns governos estaduais proclamaram feriados nos dias seguintes ao anúncio da vitória.

Repercussões políticas

Nos últimos meses da guerra, a popularidade do presidente Prudente de Morais não cessara de cair. O alto custo das operações agravava o déficit orçamentário do Estado. Por outro lado, tanto as decisões táticas e estratégicas da guerra quanto os potenciais benefícios simbólicos escapavam ao governo. Com efeito, com o general Oscar encontrava-se à frente das tropas um afiliado dos jacobinos e uma de suas figuras emblemáticas, logo após Floriano Peixoto e Moreira César. De fato, a oposição jacobina via nele seu melhor instrumento político, e já circulavam rumores associando seu nome a uma revolta militar iminente contra o governo em vigor. Ele podia à vontade fazer arrastar a guerra para dar assim aos jacobinos tempo e argumentos para aumentar o caos político na capital, e se encontrava em posição de manipular a informação em proveito da oposição, p. ex., privando o governo de informações sobre o desenrolar dos combates, ao mesmo tempo que mantinha informados sua esposa em Recife, o jornal O Paiz e alguns políticos da oposição. Ele se certificava de que os (presumidos) sucessos militares e as ações heroicas fossem creditados ao comando e ao florianismo, omitindo mencionar o ministro da Guerra ou o presidente. Essas manobras testemunham a forte carga simbólica e o alcance político que tinha a vitória sobre Canudos aos olhos dos protagonistas políticos de ambos os campos.

Escritos não literários sobre Canudos publicados após a guerra

Terminada a guerra de Canudos e pertencendo doravante à história, ela se fixou num objeto acabado e circunscrito e pôde se prestar a diversas formas de análise e contemplação: o estudo científico, a reflexão política, os testemunhos pessoais, os escritos apologéticos e — categoria à parte, tratada adiante — a exploração literária (nesta seção, deixaremos de lado as produções literárias, ainda que no caso de algumas obras a linha de demarcação entre ficção e não ficção seja difícil de traçar). Aqueles desses livros que consignam as memórias de antigos combatentes da guerra seguem a cronologia dos eventos e tomam a feição de uma narrativa heroica. Têm a pretensão de mostrar as coisas «tal como se passaram realmente». Como observa o historiador Bartelt, quanto mais essa ambição se afirma ruidosamente no prefácio, mais bem perceptível é a função ideológica do texto. Se os crimes de guerra, que já tinham então sido mencionados em todos os jornais, nunca são evocados explicitamente, ficando os autores em alusões veladas, preferindo falar de «falhas» isoladas do exército, as acusações de barbárie e fratricídio, contudo, irrigam subterraneamente todos esses textos, e essas acusações estão subjacentes à interpretação que é dada dos fatos descritos e conferem a todas essas obras um comum aspecto apologético.

Os sobreviventes e o Comitê Patriótico

No campo dos desdobramentos imediatos da guerra de Canudos, convém acrescentar a fundação em Salvador, em agosto de janeiro, do Comitê Patriótico, constituído de cidadãos que decidiram, por iniciativa do jornalista Amaro Lélis Piedade, associar seus esforços com o objetivo inicial de ajudar os soldados republicanos feridos. No final de julho de janeiro, em Salvador, o pastor protestante Franz Wagner lançara uma iniciativa pública visando ajudar o governo baiano sobrecarregado a tomar a cargo os soldados feridos e sua família e a socorrer as viúvas e os órfãos. A iniciativa fora aparentemente cuidadosamente preparada e encontrou ampla eco. Em 28 de julho foram eleitos um comitê de direção bem como uma comissão central representativa. Esta última reunia 50 altos funcionários oriundos de todos os setores sociais concernentes, do governo baiano até os meios científicos e a Igreja, passando pelos grandes bancos e as casas de comércio. A associação dos trabalhadores enviará também um representante. No comitê diretoria sentavam, além do presidente Wagner, o secretário (e jornalista) Lélis Piedade e o tesoureiro Fernando Koch, ao lado de delegados dos sete principais quotidianos de Salvador · . A questão dos beneficiários, que inicialmente formavam um grupo nitidamente circunscrito, foi objeto em setembro de discussões no seio do Comitê Patriótico quanto a saber se a ajuda deveria se estender às crianças dos soldados caídos no campo de honra. Após ter visitado o front, e não obstante que o Comitê Patriótico havia no momento de sua fundação aderido ao consenso de aniquilamento, os membros do comitê logo se puseram a socorrer também os sobreviventes do campo adverso. Com efeito, em setembro de janeiro, Lélis Piedade se dirigiu à cidade de Cansanção a fim de aí estabelecer uma enfermaria de campo, onde se pudesse prestar os primeiros socorros aos feridos. Essa viagem teve como resultado imediato uma mudança de postura do Comitê que, a partir desse momento, se erigiria em principal organização de cuidado e proteção para os sertanejos, em particular os órfãos de guerra. Em 21 de outubro de 1897, diante do espetáculo quotidiano de soldados chegando a Salvador e trazendo consigo jaguncinhos, cuja questão da tutela não estava resolvida, o presidente Wagner fez pôr na ordem do dia a sorte das crianças de Canudos. Demais, muitas dessas crianças não eram manifestamente órfãs, mas haviam sido arrancadas do seio de sua mãe · . Prontamente, o Comitê convenceu-se a tomar essas crianças sob sua proteção e a conduzi-las a orfanatos. Um padre, missionado pelo Comitê a Queimadas, tinha por tarefa recolher todos os órfãos, quer fossem filhos de soldados republicanos ou de jagunços. Em 17 de novembro, Lélis Piedade declarou que o número de crianças abandonadas e postas nas mãos de gente incapaz de as educar era impossível de estimar. Além disso, havia sido solicitado por camponeses a ajudar as numerosas pessoas que, ilegalmente ou de maneira injustificada perseguidas como conselheiristas, tinham tido de se refugiar nos bosques e visto suas casas incendiadas. Na sequência dessas constatações e com base em relatórios tornados públicos relatando que esses sobreviventes eram reduzidos à servidão e à prostituição, o Comitê entrou em ação e se esforçou por trazer de volta a Salvador os jagunços sobreviventes, ao mesmo tempo que a boa centena de mulheres e crianças sobreviventes encontradas em Canudos, a maioria feridas e chorando silenciosamente. O Comitê encontrou e recolheu crianças abandonadas ao longo da estrada, das quais uma com apenas três anos. Os órfãos foram ou colocados junto a seus parentes próximos, quando se pudera localizá-los, ou confiados aos cuidados de famílias voluntárias. Por outro lado, o exército encaminhou para Salvador cerca de 800 novos prisioneiros; os homens eram amarrados de forma tão bárbara que as cordas lhes talhavam a carne.

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Canudos e a construção da nação brasileira

As aporias do conceito de nação brasileira

Desde sua criação em 1824, o Brasil possuía vários dos grandes pilares sobre os quais se apoiavam no século XIX a maioria das nações europeias: um território nacional nitidamente delimitado e (grosso modo) imutável, uma língua oficial e de cultura única (o português), uma constituição, e um governo legítimo. Faltava-lhe, em contrapartida, o que na Europa será a principal motivação da formação dos conjuntos nacionais, a saber, uma representação global de um povo mais ou menos homogêneo, dotado de um caráter nacional distintivo. Em lugar desse sentimento nacional reinava no Brasil a consciência de um «atraso» histórico em relação à Europa ocidental, a qual havia sido erigida em norma histórica e social, e se encontrava encarnada mais particularmente na Revolução Francesa. Durante o período de 1870 a 1910 ocorreu, pela primeira vez sem dúvida, uma tentativa de cernir o que é o caráter nacional brasileiro, a brasilidade, busca identitária que ocupará verdadeiramente largos setores da elite intelectual, e que, operando com critérios qualitativos sistematizados, conseguirá superar o antigo nacionalismo negativista tal como herdado da época colonial e propenso a se nutrir prioritariamente da rejeição do status de colonizado e da antiga potência colonial. Contudo, no final do século XIX, a capacidade de conceber de alguma maneira a unidade territorial do Brasil permanecia limitada a uma porção mínima da população brasileira. Com efeito, até o fim do século, em largas partes do território e da população, o «poder central só era representado simbolicamente, sob o aspecto da ordem pública; na prática, no entanto, a população não manifestava lealdade senão para com potentados privados, os proprietários de terras. Não se identificava de nenhuma maneira a uma unidade territorial que ultrapassasse essas estruturas rurais de poder».

O sertão e a nação republicana

No início da república, o sertão havia obtido já direito de cidade como espaço paradigmático, equivalendo a seca, relações sociais quase feudais, pobreza extrema, vadiagem, criminalidade e violência, e encerrando uma categoria pseudoétnica própria, o jagunço. Esse espaço permanecia por enquanto excluído da idealização romântica ufanista. O termo jagunço, no início limitado aos homens de confiança dos grandes proprietários de terras, em particular aqueles que se enfrentavam brutalmente na Chapada Diamantina, iria se estender, nas colunas dos jornais, a partir da 3ª expedição, para abranger toda a população de Canudos, e para definir assim o sertão como espaço de anarquia, insegurança, reinado das armas, e não civilização. Da Cunha designou por esse termo não apenas a horda de «fanáticos» em torno de Maciel, mas o sertanejo nordestino em geral; os termos de vaqueiro, de jagunço e de sertanejo são, em Da Cunha, tornados sinônimos.

Inflexão do discurso sobre Canudos

Terminada a guerra sem glória, brechas logo se fizeram dia no discurso dominante sobre Canudos, que concorrerão para modificar as relações entre sertão e nação republicana. Apareceu que essa guerra havia na realidade sido travada contra uma comunidade de pobres gentes, estranhas a qualquer conspiração política que fosse, sem ligação de nenhuma sorte com grupos monarquistas organizados — os quais, aliás, pertenciam a uma classe social totalmente diferente, branca e urbana, tendo jagunços e fanáticos em horror — e não tendo beneficiado de nenhum apoio logístico ou outro, quer do próprio Brasil, quer do estrangeiro. Ademais, foi revelado que o comportamento do exército não tinha sido irrepreensível, manchado em particular pela prática da denominada gravata vermelha e pela venda das crianças sobreviventes.

Esboço de conciliação entre sertão e nação republicana

Vimos que em apenas algumas semanas após o fim da guerra, devido aos danos colaterais do conflito, o discurso sobre Canudos se transformou de maneira duradoura sob a superfície de sua retórica triunfalista. A revelação dos crimes de guerra teve um retumbante impacto, pondo a nu, no espelho estendido pela Europa, graves falhas civilizacionais —, a glória da vitória se transmudando agora em «inglória» do exército, que assume o papel de bode expiatório. Após se ter dado conta do equívoco, isto é, que o conflito não era um entre sistemas políticos, a população canudense reapareceu no debate público, mas sob outra figura, tendo com efeito, «num esforço notável e trágico, feito a demonstração de sua existência e escrito de seu próprio sangue uma veemente protestação contra o desdém de que era objeto».

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Canudos hoje

A Canudos atual é, na verdade, a terceira com este nome na região. A primeira surgiu no século XVIII nas margens do rio Vaza-Barris, a 10 km (em linha reta) a oeste-sudoeste da localidade atual, e era no final do século XIX apenas um pequeno vilarejo agrupado em torno da fazenda de Canudos. Com a chegada de Antônio Conselheiro e seus adeptos em 1893, o domínio, rebatizado de Belo Monte, conheceu um crescimento vertiginoso, abrigando, antes de ser destruído pelo exército em 1897, cerca de 25 000 habitantes. Terminada a guerra, as autoridades militares presentes no local e as autoridades civis republicanas trataram de apagar todo vestígio do povoado, a fim de que Canudos servisse de exemplo e que fosse evitada a proliferação de experiências similares. Segundo Aristides Augusto Milton, os generais trataram de não deixar o mínimo muro de pé, a mais ínfima viga intacta; só deviam reinar dali em diante a solidão e a morte. Assim, no fim da guerra, o sítio de Canudos oferecia o espetáculo da mais total desolação, com cadáveres insepultos, casas incendiadas, as duas igrejas arrasadas pelo canhão. Só ainda se erguia, no meio da praça, a grande cruz ali erigida por Antônio Conselheiro em 1893. Um certo Manoel Ciríaco, que em 26 de setembro de 1897, após ter confirmação da morte do Conselheiro, escapara com sua família (ao mesmo tempo que Vilanova também deixava Belo Monte), voltou ao local após a guerra, e deu a seguinte descrição:

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A guerra de Canudos na cultura universal

Transposições literárias

Nos anos seguintes à guerra de Canudos, esta forneceu a matéria para um romance: Os Jagunços (1898) de Afonso Arinos de Melo Franco, e para um poema épico: Tragédia épica. Guerra de Canudos (1900), de Francisco Mangabeira. Registra-se também uma coletânea de poesias, Canudos, história em versos (1898), do poeta Manuel Pedro das Dores Bombinho, que havia participado como militar da quarta expedição contra o povoado. Já foi assinalado que alguns textos dessa época desprezam a distinção entre obra de ficção e trabalho documentário. Manoel Benício, com seu O Rei dos jagunços, e Euclides da Cunha, com seu Os Sertões, amalgamam cada qual à sua maneira um projeto de relato objetivo ou científico com elementos literários. Por outro lado, Canudos logo apareceu na literatura de cordel, chamada no Nordeste brasileiro literatura de cordel.

No cinema

Canudos pôde fazer sua aparição nas telas de cinema sob diferentes formas, indo de uma adaptação direta de Os Sertões, a incontornável obra-prima de Euclides da Cunha (adaptação direta da qual não existe até hoje senão um único exemplo, a saber o filme de Sérgio Rezende, de 1997), até a encenação de elementos díspares emprestados do sertão nordestino (decoração, religiosidade particular, personagens de jagunços ou de cangaceiros, beatos, pregadores etc.) e remetendo pouco ou muito ao conflito de Canudos. Se a extensão e a natureza específica do texto de Da Cunha, obra inclassificável, ao mesmo tempo ensaio, texto de tese, e relato histórico, de estilo barroco mas se querendo ao mesmo tempo rigoroso, o tornam pouco propício a uma transposição cinematográfica, o legado euclidiano se impôs em contrapartida no Brasil de maneira mais profunda e mais difusa, ao fixar o Nordeste como uma referência identitária incontornável de um ponto de vista socioeconômico: as tensões norte/sul, rural/urbano, pobre/rico, a importância do fato religioso e o hábito das migrações internas constituem temáticas recorrentes no cinema brasileiro a partir dos anos 1950, e a imagem tradicional do sertão, nomeadamente através da figura do cangaceiro, tornou-se emblemática do país inteiro. Com efeito, Os Sertões não cessou de ser reeditado, e faz parte integrante da cultura geral de todo brasileiro, e nomeadamente daquela dos cineastas nascidos nos anos 1920-1930. Essa influência de Euclides da Cunha sobre os cineastas, bem como a tomada de consciência pelos brasileiros da dimensão sertaneja que terá necessariamente de adotar sua identidade em curso de construção, impregnam várias gerações de realizadores de cinema. O apogeu dessa tendência se situa incontestavelmente nos anos 1960 com o cinema novo, mas os cineastas das décadas 1990 e 2000 quiseram por sua vez se debruçar sobre suas raízes nacionais.

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Fontes consultadas