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Revolução Constitucionalista de 1932

Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida como Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi um movimento armado no Brasil para derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas, de julho a outubro de 1932, com suas principais frentes ao redor do estado de São Paulo. O movimento é largamente creditado como tendo possibilitado a Assembleia Nacional Constituinte de 1934 e evitado a extensão indefinida do Estado de exceção de 1930 por meios ditatoriais.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 24/07/2026
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Antecedentes

Revolução de 1930

Na primeira metade do século XX, o estado de São Paulo vivenciou um acelerado processo de industrialização e enriquecimento devido aos lucros da lavoura de café e à articulação da política do café com leite. Por essa política, criada pelo presidente da república Campos Sales, se alternavam na presidência da República políticos dos estados de São Paulo e de Minas Gerais, os estados mais ricos e populosos da União. No início de 1929, o Governo Washington Luís, ao nomear o paulista Júlio Prestes, apoiado por dezessete estados, preteriu a vez de Minas Gerais no jogo da sucessão presidencial, rompendo a "política do café com leite", que vinha sendo aplicada desde o governo de Afonso Pena (1906-1909), que substituiu o paulista Rodrigues Alves na presidência da República. De acordo com este revezamento Minas Gerais—São Paulo na presidência da república, o candidato oficial, em 1930, deveria ser um mineiro, que poderia ser o presidente de Minas Gerais Antônio Carlos Ribeiro de Andrada ou o vice-presidente da república Fernando de Melo Viana, ou ainda o ex-presidente Artur Bernardes, entre outros próceres políticos mineiros.[carece de fontes?] Porém, Washington Luís, depois de consultar os 20 presidentes de estado, em julho de 1929, recebeu o apoio de 17 deles a Júlio Prestes e o indicou como candidato oficial à presidência da república nas eleições marcadas para 1 de março de 1930. Minas Gerais, então, rompeu com São Paulo, uniu-se à bancada gaúcha no Congresso Nacional e prometeu apoio a Getúlio Vargas, se este concorresse à presidência.

Revolta paulista

Em 1932, a irritação dos paulistas com Getúlio Vargas não cedeu com a nomeação do paulista Pedro de Toledo como interventor do estado, pois tanto este quanto Laudo Ferreira de Camargo (que havia renunciado por causa da interferência dos tenentes no governo) não conseguiam autonomia para governar.[carece de fontes?] A primeira grande manifestação dos paulistas foi um grande comício na Praça da Sé, no dia do aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1932, com um público estimado em 200 mil pessoas. Em maio de 1932, ocorreram vários comícios constitucionalistas. As interferências da ditadura no governo de São Paulo eram constantes, não se deixando os interventores formarem livremente seu secretariado, nem do Chefe de Polícia de São Paulo. Pedro de Toledo não governava de fato: as interferências de Miguel Costa, Osvaldo Aranha, João Alberto Lins de Barros, Manuel Rabelo e Pedro Aurélio de Góis Monteiro eram constantes. O político Paulo Nogueira Filho descreve João Alberto Lins de Barros e Miguel Costa como pessoas que "se arvoravam como donatários de São Paulo".

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Conflito armado

O levante armado foi deflagrado na cidade de São Paulo às oito horas e trinta minutos da noite de 9 de julho de 1932, com o engajamento da Força Pública de São Paulo, unidades do Exército da 2ª Região Militar e grupos civis armados. O telegrama enviado pelo então comandante geral da Força Pública, o coronel Júlio Marcondes Salgado ao general Bertoldo Klinger, Comandante Supremo do Exército Constitucionalista, no dia seguinte ao início da revolução, dá detalhes das circunstâncias em que ocorreu aquele evento político e militar: Irrompeu movimento hontem vinte e trinta tornando-se triumphante dentro poucas horas. Comquanto ficasse combinado iniciativa movimento cabia guarnição federal, teve elle inicio mediante acção conjugada Exercito, Força Publica e milicias civis, dentro da melhor harmonia e vibração civica. Não houve resistencia alguma. Collaboraram modo saliente General Izidoro e Coroneis Euclydes Figueiredo e Palimercio Rezende. Tropas Exercito e Força Publica seguem direcção Cruzeiro. Governo paulista inteiramente integrado movimento constitucionalidade. Peço avisar hora provavel sua chegada São Paulo e dar informações sobre movimento tropas guarnição Matto Grosso. Respeitosas saudações. (a) JULIO SALGADO, commandante.

Separatismo

Entre os grupos que formavam a direção da Revolução Paulista, existiam os separatistas que desejavam a independência de São Paulo como uma república soberana ou a formação de uma federação onde os estados adquiririam a soberania (confederação). Entre os principais defensores do separatismo destacavam-se o presidente do Tribunal de Justiça, Costa Manso, os escritores José Alcântara Machado e Monteiro Lobato e o historiador Alfredo Ellis Junior. Monteiro Lobato, especificamente, foi o que mais deixou documentos e relatos sobre o desejo de independência dos paulistas. Em 10 de agosto, depois de um mês de conflitos, o famoso autor enviou uma carta emocionada a Waldemar Ferreira, um dos líderes da revolução, na qual apresentava um balanço da crítica situação em que se encontrava São Paulo, observando ao seu amigo que "há o que a boca diz e há o que o coração sente. Minha boca diz o que todos neste momento dizem – mas meu coração, e talvez o de São Paulo inteiro, sente o que vai escrito nas tiras anexas". E o que o coração de Lobato expressava traduzia-se num texto intitulado "A defesa da vitória de São Paulo", em que deixava claro que, para os paulistas, só havia dois caminhos: hegemonia ou separação.

Forças opostas

De acordo com García de Gabiola (o primeiro autor a escrever uma obra em inglês e espanhol sobre o tema), quando a revolução começou, os paulistas dominavam apenas uma das oito divisões (5 de infantaria, 3 de cavalaria) do Exército Brasileiro (a 2ª Divisão, sediada em São Paulo) e metade da Brigada Mista sediada no sul do Mato Grosso. Essas forças foram reforçadas pela Força Pública Paulista (a polícia militar do estado de São Paulo) e pelas milícias da MMDC. Ao todo, havia cerca de 11 000 a 15 000 homens no início do conflito, aos quais se juntaram posteriormente milhares de voluntários. De fato, segundo autores como Hilton, São Paulo equipou cerca de 40 batalhões de voluntários, mas García de Gabiola afirma ter identificado até 80 deles, com cerca de 300 homens cada. No final, levando em conta que no arsenal do estado de São Paulo havia apenas entre 15 000 e 29 000 rifles, dependendo da fonte, os paulistas nunca conseguiram armar mais de 35 000 homens. Além disso, os paulistas tinham apenas 6 milhões de cartuchos, falhando em suas tentativas de adquirir cerca de 500 milhões adicionais, o que, para um exército de cerca de 30 000 homens lutando por 3 meses, representava apenas 4,4 cartuchos por dia por soldado. O Brasil equipou aproximadamente 100 000 homens, mas levando em conta que um terço dessa quantidade nunca foi para a frente (eles foram mantidos para proteger as retaguardas e para fins de segurança nos outros estados), sua superioridade numérica era de cerca de 2 para 1.

Resumo das operações

A frente principal era inicialmente o Vale do Paraíba oriental, que levava ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil. A 2ª Divisão se revoltou e avançou contra o Rio de Janeiro, mas foi detida pela leal 1ª Divisão, baseada ali sob o comando do General Góis Monteiro, na divisa entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo Hilton, o General Tasso Fragoso, chefe do Estado-Maior do Exército Brasileiro, tentou se opor à implantação da 1ª Divisão no vale, acreditando que eles eram amigáveis ​​aos rebeldes, mas, segundo García de Gabiola, ele provavelmente estava apenas tentando proteger o governo baseado no Rio de Janeiro caso uma revolta semelhante acontecesse lá. De qualquer forma, Monteiro finalmente derrotou Fragoso, e a 1ª Divisão foi colocada lá bem a tempo de bloquear o avanço paulista. Na Paraíba, Góis Monteiro criou o Destacamento Leste, alcançando cerca de 20 a 24 mil homens, contra cerca de 8 a 12 mil paulistas, mas após três meses de guerra de trincheiras e apesar de avançar cerca de 70 quilômetros (43 mi), as forças do governo ainda estavam a cerca de 150 quilômetros (93 mi) da capital São Paulo quando a guerra terminou.

Frentes de combate

O Vale do Paraíba, denominado pelas tropas paulistas como "setor norte" de combate, era o principal acesso para o Rio de Janeiro e visto por eles como principal teatro militar do conflito. O plano dessas tropas previa a tomada da cidade fluminense de Resende, concomitantemente aguardando a adesão de tropas mineiras do Exército e da Força Pública Mineira (atual Polícia Militar do Estado de Minas Gerais) e, por fim, uma rápida marcha em direção à cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, para a deposição de Getúlio Vargas. Por conta disso, as tropas paulistas demoraram em rumar em direção ao seu objetivo, na expectativa da adesão dos mineiros e de outros estados. Contudo, as tropas mineiras aderiram às forças federais e logo partiram para a ofensiva contra as tropas paulistas, que foram obrigados a defender seu próprio território das tropas federais, improvisando uma linha defensiva de trincheiras nas fronteiras dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Blindados

Em 1932, São Paulo tinha o seu sistema de transporte majoritariamente baseado em estradas de ferro, com cerca de 7 mil quilômetros de trilhos ferroviários. Com a eclosão do conflito esse recurso passou a ser usado para o transporte de tropas e suprimentos. Porém, logo no início os paulistas começaram a explorar o seu potencial bélico, dado o conhecimento das experiências bem-sucedidas na Primeira Guerra Mundial com blindados nesse formato. Assim surgiu, ao final de julho de 1932, o primeiro trem blindado. O projeto inicial foi concebido numa parceria entre a Escola Politécnica de São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas e a Cia Ferroviária Sorocabana. O protótipo surgido foi o denominado TB-1, sigla para "Trem Blindado nº 1". O projeto foi do engenheiro francês Clèment de Baujaneau, radicado no Brasil após a Primeira Guerra Mundial, que conheceu as experiências com esse tipo de blindado naquele conflito. A montagem do protótipo foi do engenheiro Augusto Ferreira Velloso, da Escola Politécnica.

Aviação

Na Revolução de 1932 a aviação teve um importante papel nos combates, utilizada pelo Exército Federal para eventuais bombardeios e ataques às posições rebeldes, como aqueles realizados em Campinas, Guaratinguetá e Aparecida, que causaram muitos danos às infraestruturas dessas cidades. O major-aviador Eduardo Gomes, comandante do Grupo de Aviação do Exército Federal, esteve à frente dessas missões de bombardeiros às cidades paulistas, que se acentuaram em setembro de 1932 com a vinda de novos aviões e a abertura de novos aeródromos. Em contrapartida, os Grupos de Aviação do Exército Constitucionalista, comandado pelo então major-aviador Ivo Borges, também fez muito proveito da aviação como arma no conflito, a partir de sua base aérea sediada no aeródromo Campo de Marte, na capital paulista. Os aviões complementaram a artilharia de ambos os adversários, no bombardeio de posições e na inquietação sobre as concentrações de tropas, além da dissuasão dos avanços dos destacamentos.

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Consequências

Ao fim do conflito, com exceção dos membros da Força Pública de São Paulo, os principais líderes civis e militares do Movimento Constitucionalista foram enviados para o exílio em Portugal. Entre os paulistas, as baixas são estimadas em mais de mil mortos. Atualmente, no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera são guardadas as cinzas de 713 ex-combatentes, além dos cinco jovens mortos em decorrência do protesto contra o governo de Getúlio Vargas em 23 de maio de 1932. Ainda que o número de baixas por parte do Governo Provisório nunca tenha sido divulgado, Frank D. MacCann recorre ao testemunho do adido militar norte-americano, que, após percorrer os locais de batalha, estimou em 1 050 mortos e cerca de 3 800 feridos. A Revolução de 1932 foi considerada por historiadores como um dos maiores conflitos na história brasileira no século XX. Na versão do governo federal provisório, então presidido por Getúlio Vargas, o conflito não foi necessário, pois as eleições gerais já haviam sido agendadas para o ano seguinte. Em contrapartida, na versão dos líderes do levante, não ocorreriam as eleições de 1933 e a Assembleia Constituinte, tampouco a redemocratização e o Estado de Direito no Brasil, não fosse o Movimento Constitucionalista de 1932. Porém, com exceção do estado de São Paulo, no restante do país prevalece a versão de Getúlio Vargas e de seus apoiadores, segundo a qual a bandeira da constitucionalização do país era um mero subterfúgio para os velhos políticos paulistas retomarem o poder após terem sido alijados dele com a Revolução de 1930 e, portanto, seriam eles os verdadeiros responsáveis pelo movimento armado. A tese varguista defende ainda que se tratou de uma conspiração orquestrada pela elite paulista que, de posse dos meios de comunicação da época no estado e utilizando a população paulista como massa de manobra, visava depor Vargas da Presidência da República para então reconduzir ao poder um representante da oligarquia paulista, que até então se encontrava no ostracismo político. Alega também que, com o fracasso desse objetivo inicial, a rebelião teria assumido um velado caráter separatista. Por fim, essa versão exalta a figura de Getúlio Vargas devido ao esforço do governo provisório na pacificação nacional no pós-conflito, atribuindo a ele o crédito das concessões políticas aos revoltosos, com o atendimento de praticamente todas as reivindicações que motivaram a revolução, além da reconciliação com os líderes paulistas.

Preservação da memória e dos ideais de 1932

O 9 de julho é feriado civil no estado de São Paulo e também é a sua data magna, instituída pela lei nº 9.497 de 5 de março de 1997. Desde 1934, anualmente nessa data é realizado o desfile cívico-militar comemorativo na capital paulista, atualmente sediado no Parque do Ibirapuera, o que também é realizado em cidades do interior do estado, em memória ao conflito e em homenagem àqueles que tombaram pela causa Constitucionalista. Nesta solenidade, são depositados no Mausoléu do Soldado Constitucionalista os restos mortais de veteranos. O evento durante muitos anos contou com a participação dos batalhões de veteranos do conflito. Como parte das comemorações há também a Prova Ciclística 9 de Julho criada pelo jornalista Cásper Líbero e realizada desde 1933 na cidade de São Paulo. Além disso, todos os anos no início de julho um grupo de paulistas faz a "Caminhada 9 de Julho", percorrendo a pé 927 quilômetros pelo estado de São Paulo, saindo de Rubineia, no extremo oeste do estado, e concluindo o trecho no município de Cruzeiro, no Vale do Paraíba, onde foi assinada a rendição dos paulistas. Os organizadores da caminhada cívica almejam entrar para o livro Guiness dos recordes como a maior caminhada cívica do mundo.

Impacto cultural

Nos anos que se seguiram ao fim da guerra houve um significativo esforço por parte de muitos ex-combatentes e pessoas que atuaram diretamente na revolução em publicar obras com relatos de suas experiências, como foi o caso de Paulo Duarte, Menotti Del Picchia, Alfredo Ellis Junior, Guilherme de Almeida, Arnon de Mello, entre outros. Somente em 1933 foram publicados 67 livros e seis anos depois já havia um total acumulado de 170 obras. Trinta anos depois do conflito, Aureliano Leite realizou um catálogo com cerca de 600 títulos dedicados ao tema, os quais constituem um importante acervo histórico e literário. A história da revolução foi também abordada em importantes obras da literatura brasileira, como foi o caso do romance Éramos Seis publicado em 1943 pela escritora Maria José Dupré.

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Literatura

- Carvalho e Silva, Herculano (1932). A revolucão constitucionalista: subsídios para a sua história, organizados pelo Estado Maior da Força Publica de S. Paulo (in Brazilian Portuguese). Civilização Brasileira Editora. - García de Gabiola, Javier (2020). The Paulista War Volume 1. Warwick UK: Helion & Company. ISBN 9781912866380. - García de Gabiola, Javier (2020). The Paulista War Volume 2. Warwick UK: Helion & Company. ISBN 9781913336370. - García de Gabiola, Javier (2012). "1932: Sao Paulo en armas". Historia y Vida (in Spanish). No. 535. Barcelona: Prisma Editorial. pp. 60–67. ISSN 0018-2354. - Hilton, Stanley E. (1982). A guerra civil brasileira: história da Revolução Constitucionalista de 1932 (in Brazilian Portuguese). Editora Nova Fronteira

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