Cidade de Deus (filme)
Cidade de Deus é um filme de ação brasileiro de 2002 produzido pela O2 Filmes, VideoFilmes e distribuído pela Lumière Brasil. É uma adaptação roteirizada por Bráulio Mantovani a partir do livro de mesmo nome escrito por Paulo Lins. Foi dirigido por Fernando Meirelles, codirigido por Kátia Lund e estrelado por Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino e Alice Braga.
Na cena de abertura, galinhas são preparadas para o almoço quando uma escapa e é perseguida por um grupo armado pelas ruas da favela Cidade de Deus. A galinha para entre a gangue e um jovem chamado Buscapé, que acredita que a gangue quer matá-lo. Buscapé, o narrador, começa a contar a história de sua infância, e o filme volta ao final dos anos 1960. Nos anos 1960, a favela é um complexo habitacional recém-construído longe do centro do Rio de Janeiro, com pouco acesso à eletricidade e água. Três ladrões amadores conhecido como "Trio Ternura" — Cabeleira, Alicate e Marreco — aterrorizam os negócios locais. Marreco é o irmão de Buscapé. Como Robin Hood, eles dividem parte do dinheiro roubado com os habitantes da favela chamada de Cidade de Deus e, em troca, são protegidos por eles. Vários garotos acompanham e idolatram o trio, e um deles, chamado de Dadinho, os convence a roubar um motel. A gangue concorda, porém decide por não matar ninguém e, achando que Dadinho é pequeno demais para participar, deixa-o como vigia. Insatisfeito, Dadinho dá um tiro de advertência no meio do roubo e procede para satisfazer seu desejo assassinando todos ocupantes no motel. O massacre chama a atenção da polícia, fazendo com que o Trio Ternura deixe a favela. Alicate se junta à igreja, Cabeleira é morto pela polícia ao tentar escapar com sua namorada e Marreco é morto por Dadinho depois de tentar roubar o dinheiro do menino e seu amigo Bené, que estavam se escondendo após os crimes cometidos no motel.
O elenco também inclui Thiago Martins (Lampião), Marcos "Kikito" Junqueira (Otávio), Marcelo Mello Jr., Bernardo Santos, Diego Batista, e Micael Borges como membros do grupo de menores infratores conhecidos como Caixa Baixa; Babu Santana como o Grande, um dos primeiros chefes do tráfico da Cidade de Deus e antecessor de Cenoura; Sabrina Rosa vive a namorada de Mané Galinha, violentada por Zé Pequeno; Gero Camilo como o pedreiro Paraíba, um morador da Cidade de Deus nos anos 1960, enquanto Karina Falcão interpreta sua mulher e Dani Ornellas uma vizinha do casal; Mumuzinho interpreta Salgueirinho, um membro do bando de Zé Pequeno, enquanto Mary Sheila vive a mulher de Neguinho; e Edson Montenegro interpreta o pai de Buscapé.
Desenvolvimento
Em 1997, foi publicado o livro de Paulo Lins, no qual o longa Cidade de Deus é baseado. O livro foi rapidamente aclamado pela critica especializada, sendo considerado um dos primeiros romances contemporâneos a narrar, com eloquência e qualidade literária, a vida dos moradores da favela com um ponto de vista único. Pouco tempo depois do lançamento nas livrarias, Fernando Meirelles ganha de presente o livro de Heitor Dhalia — que na época era redator de agência de publicidade e admirava Meirelles por seus trabalhos no meio publicitário. Dhalia sugeriu a adaptação cinematográfica a Meirelles, que de imediato recusa, considerando não ser apto ao projeto por morar em São Paulo. "Sabia pouco sobre a organização da favela e sobre o tráfico e jamais sairia de São Paulo para rodar um longa-metragem no Rio, sobre um assunto tão distante da minha realidade", analisa Meirelles.
Roteiro
Meirelles, então, tinha em suas mãos um livro com mais de 250 personagens e a tarefa de encontrar uma forma cinematográfica para adaptar o material. Ele descartou o caminho que julgava "fácil", que seria escolher apenas uma das tramas do livro e desenvolvê-la. Para seguir o caminho do livro, não poderia desenvolver uma história linear com início, meio e fim, devido os personagens e as situações que se sucediam. Então, desde os primórdios do desenvolvimento do roteiro, acreditava na ideia de somar várias histórias que, justapostas, iriam fazer com que chegasse ao resultado pretendido. Foi levado em consideração o começo nos anos 60 e a chegada aos anos 80. Segundo o diretor, isto enfatizaria um aspecto de saga, mostrando o desenvolvimento do tráfico no Rio de Janeiro. Com esta premissa em sua mente, Meirelles convida Bráulio Mantovani para escrever o roteiro. Mantovani nunca havia trabalhado escrevendo projetos para o cinema. Na época, era roteirista de uma série da TV Cultura intitulada Oficinas Culturais, que tinha Meirelles como consultor de cinema e TV. Em seu primeiro contato com o livro de Lins, Mantovani teve uma reação negativa: "Achei que era muito difícil. Achei, na verdade, que ele [Meirelles] tinha enlouquecido" relata o roteirista em uma entrevista. Ao ler as primeiras 200 páginas do livro, Mantovani achou que adaptação nos moldes estabelecidos por Syd Field em seus livros de conceito roteirísticos seria impossível, chegando à conclusão de que Meirelles tinha escolhido mal. No entanto, se afirmou no projeto, após o diretor em reuniões posteriores desenvolver melhor a linha criativa, cujo maior enfoque seria um filme fragmentado, reiterando que o enredo conteria várias pequenas histórias.
Escolha e o trabalho com os atores
Cidade de Deus exigiu a contratação de mais de 60 atores principais, 150 secundários e 2 600 figurantes, a maior parte sendo crianças e adolescentes. Fernando Meirelles relata que dentre os filmes que mais impressionaram ele, a maioria tinha relação com as especificidades de como é tratada a interpretação. E isto foi uma das influencias para ele decidir trabalhar com atores não-profissionais e montar uma oficina com jovens moradores das comunidades humildes do Rio de Janeiro. Outro ponto importante é que não existia a possibilidade de abrir um teste de elenco em um espectro de 500 atores negros no fim dos anos 1990. Segundo o diretor, a representatividade negra no cinema brasileiro era abalada devido o baixo número de atores negros. E os que eram aptos aos papéis, não passava pelo filtro de Meirelles. "Tinham no Brasil três ou quatro atores negros jovens e ao mesmo tempo eu sentia que atores da classe média não conseguiriam fazer aquele filme. Eu precisava de autenticidade", diz o diretor em entrevistas. No fim, Meirelles queria que o espectador se relacionasse diretamente com os personagens, sem filtros estabelecidos devido os atores. Para isso, a equipe do filme encontrou duas vertentes que os ajudaria: Em primeira instância, Kátia Lund que já trabalhara em projetos envolvendo favelas no Rio de Janeiro — como Notícias de uma Guerra Particular e videoclipe do grupo Rappa A Minha Alma. A segunda vertente foi refugiada por Guti Fraga, diretor e fundador do Nós do Morro — associação que possui grupo de teatro na favela do Vidigal, zona sul do Rio.
Filmagens
Quando estavam se preparando para os estágios iniciais da filmagem principal, Fernando Meirelles recebeu uma proposta de Guel Arraes — diretor de núcleo da Rede Globo —, para dirigir um dos episódios da série Brava Gente. De imediato, Meirelles recusa o convite, porém, depois de repensar, aceita com a condição de que pudesse desenvolver na série uma história ligada a uma das fragmentações de pequenas histórias que há no livro e o uso dos jovens de sua oficina de atores. Arraes assentiu e Meirelles e Kátia Lund dirigiram juntos o episódio que serviu como uma espécie de ensaio para Cidade de Deus. Foi filmado na própria comunidade Cidade de Deus e acabou se tornando um curta-metragem apresentado e premiado em Berlim. O curta Palace II resultou em aprendizados que favoreceu a equipe como um laboratório de testes para Cidade de Deus. Em primeira instancia, Meirelles concluiu que não poderia filmar na própria Cidade de Deus. Na época, a comunidade estava em grandes conflitos e dividia em três áreas, cada uma comandada por um traficante diferente. "A gente percebeu que era uma coisa muito instável, nunca estava falando com a pessoa certa" contou Meirelles à Revista Trip que acabou em busca de outras locações. Globo Filmes e Videofilmes se aproximaram do projeto sendo anexadas como coprodutoras do filme.
Pós-produção
Com o fim das filmagens em agosto de 2001, Cidade de Deus avançou seu estágio de desenvolvimento para a pós-produção. Em um processo de montagem liderado por Daniel Rezende que durou cerca de cinco meses. Rezende, assim como o roteirista Bráulio Mantovani, era estreante em Cinema. Havendo trabalhado editando campanhas publicitárias apenas. Rezende iniciou o processo de edição ainda em estágio de filmagens. A cada cena filmada, o material bruto era levado ao apartamento de Fernando Meirelles onde foi montado o primeiro maquinário de pós-produção para o filme. Ele compôs seu workflow com grande influência da estrutura do roteiro, seguindo as fragmentações divididas pelos anos 1960, 1970 e 1980, com um estilo de montagem diferente.
A trilha sonora do filme tem direção musical de Antonio Pinto em conjunto de Ed Côrtes. A trilha foi dividida em duas partes distintas, sendo a primeira embalada por samba-funk instrumental com sete faixas feitas exclusivamente para o filme; a segunda parte possui outras sete faixas com músicas populares dos anos 1960 e 1970, como Cartola, Wilson Simonal e Raul Seixas.
Exibição e bilheteria
Cidade de Deus estreou em maio de 2002 no Festival de Cannes. A aproximação da equipe com a Rede Globo ainda nas filmagens tornando a Globo Filmes uma das coprodutoras, facilitou o arranjo de distribuição do filme. O que também possibilitou o acesso a eficazes canais de divulgação. A emissora uniu forças dando suporte de mídia na campanha de lançamento, com crossmedia, referências em telenovelas, programas e telejornais. As estratégias de lançamento ficaram a cargo de Bruno Wainer — diretor-executivo da Lumière Brasil — e Daniel Filho da Globo Filmes, supervisionadas pela O2 Filmes. O longa-metragem enfrentou um grande período de negociações para a distribuição internacional. Em primeira análise, os resultados foram pareceream "satisfatórios", uma vez que Fernando Meirelles havia entrado em contato com parceiros internacionais — Wild Bunch e Miramax Films —, ainda na fase de preparação do elenco em meados de 2000. Ao fim das questões contratuais finalizadas no segundo semestre de 2001, Meirelles constatou, que, no entanto não tinha feito bons contratos. Na época, quando o filme já estava pronto ele aspirou ao máximo recuperar o que tinha investido do próprio bolso. E mesmo sem experiência na área e sem advogados auxiliando com presença ativa assinou acordos que julgou "contratos que até crianças fariam melhor". O resultado final que reverberou por mais de uma década, foi uma divida de 4 milhões de reais com a distribuição do filme.
Análise da crítica
Cidade de Deus foi amplamente considerado um dos melhores filmes de 2002 pela imprensa brasileira e norte-americana; recebendo aclamação universal pela crítica especializada e elogios favoráveis. No site Rotten Tomatoes, o filme tem uma aprovação de 91%, chegando ao consenso de "Um olhar chocante e perturbador, mas sempre atraente para a vida nas favelas do Rio de Janeiro". No Metacritic, recebeu 79 por cento de aprovação, baseado em 33 opiniões, e classificado como "geralmente favorável" pela nota e análise do público. O critico José Couto do jornal Folha de S.Paulo relatou que "Cidade de Deus é um filme de vigor espantoso e de extrema competência narrativa. Seus grandes trunfos são o roteiro engenhosamente construído e a consistência da mise-en-scène".
Home video
Cidade de Deus foi lançado em VHS e DVD no Brasil em 17 de junho de 2003 apenas para locação pela distribuidora Imagem Filmes. Em formato comercial, chegou as lojas em setembro de 2003 com comentários em áudio do montador Daniel Rezende, do roteirista Bráulio Mantovani e do diretor Fernando Meirelles, e com quase uma hora de extras, incluindo filmagens feitas durante as oficinas de atores e cenas do filme removidas na edição. Em outubro do mesmo ano o filme foi lançado em edição especial para colecionadores, em um box com DVD duplo; um continha o filme, outro continha, além dos extras presentes no primeiro DVD, cenas extras, lista de prêmios, galeria de cartazes, Cidade de Deus Remix, charge animada e trailers.
Esnobe no Oscar 2003 e reformulação do prêmio
Segundo uma pesquisa divulgada por Waldemar Dalenogare em abril de 2019, Cidade de Deus foi esnobado no Óscar 2003 após alguns dos membros utilizarem uma brecha no regulamento para dar nota baixa ao filme. Um número minoritário de membros da comissão de filme estrangeiro se retirou da sessão interna da academia onde estava sendo exibido o filme, antes do final, e imediatamente a nota da produção caiu de 10 para 6. Na época, isso era permitido pelo regulamento interno, e foi a primeira vez aconteceu o esvaziamento de uma sessão. Um dos pontos apontados na pesquisa, é o perfil da época dos membros que faziam parte da comissão, composto por homens de perfil conservador, e que não gostava de cenas de sexo e violência nos filmes, a não ser que tenha uma justificativa de acordo com o ponto de vista deles. Devido a reação negativa, a Miramax desistiu de fazer campanha para o filme e adiou para o ano seguinte. Quando Cidade de Deus recebeu quatro indicações no Oscar 2004, a reação negativa voltou-se para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 2005 a academia encomendou um estudo para evitar tais injustiças, o que levou a criação da short list (pré-lista), para diversificar a seleção. Posteriormente, devido a uma nova polêmica no perfil do comitê nos anos 2010, foram adicionados mais membros.
Cidade de Deus apresenta uma história não-linear estruturada em torno de fragmentos divididos em três décadas onde o filme é ambientado. Apesar do livro de Paulo Lins conter também uma narrativa não totalmente linear, Fernando Meirelles encontrou problemas com o grande leque de histórias e personagens. "Se você fica cortando de um para o outro o tempo todo, o personagem nunca esquenta. Tivemos que abandonar alguns pelo caminho e mais tarde voltar para recuperá-los, colocando-os de volta no filme. São idas e vindas que ajudam o espectador a acompanhar e se envolver com a trama" conta Meirelles à Revista Trópico. Segundo o diretor, esta técnica foi adotada ao filme com a intenção diametralmente oposta da de Quentin Tarantino em Pulp Fiction. Tarantino, segundo Meirelles, inverte o rolo dos filmes procurando um resultado de "confusão estimulante" ao espectador, criando uma espécie de jogo com a audiência. Já Cidade de Deus, o diretor julga a não-linearização como um modo de explicar o filme, sendo didático.
"Eu acreditava que conhecia o apartheid social que existe no Brasil até ler o livro. Percebi que nós, da classe média, não somos capazes de enxergar o que está na nossa cara. Estado, leis, cidadania, polícia, educação, perspectiva e futuro são temáticas abstratas, mera fumaça quando vistos do outro lado do abismo. Cidade de Deus não fala apenas de uma questão brasileira e sim de uma questão global. De sociedades que se desenvolvem na periferia do mundo civilizado. Da riqueza opulenta do primeiro mundo, que não consegue mais enxergar o terceiro ou quarto mundo, do outro lado ou no fundo do abismo". Cidade de Deus aborda temas com referências no cotidiano e na contradição social brasileira, sobretudo, na problematização da favela como um lugar de extrema violência, motivada pelos pontos de venda de drogas e a sucessão de líderes do tráfico. O filme tem seu andamento desencadeado por decisões dos personagens que são dividas em partes e não seguem uma ordem cronológica. Estes determinantes são apresentados no filme pelos ritos de passagem estabelecidos para os personagens com participações importantes na trama, sempre usando técnicas e estéticas da televisão e da publicidade.
Crime e o tráfico de drogas
O tráfico de drogas é usado na trama do filme como o principal causador da grande guerra entre Sandro Cenoura e Zé Pequeno na terceira e última parte do filme, situada nos anos 1980. As drogas logo vêm acompanhas pelo cenário criminal, que é explorado na primeira e segunda parte do filme com os personagens do Trio Ternura — Cabeleira, Alicate e Marreco. A violência em conjunto do tráfico de drogas e o crime é a consciência da trama e são os fatores que desperta os importantes personagens e desencadeia uma das principais temáticas. Os incidentes criminais são aviados pelas crianças que cresceram nesta vida e são vertentes importantes no enredo. O longa se permite explicar os mecanismos de trabalho desde a fabricação ao mercado do narcotráfico nas comunidades, que é realizado por jovens e adolescentes. Eles podem servir em funções que a obra intitula por "avião", "soltador de pipa", "vapor" ou "menino dos recados" — este último desempenhado por Filé com Fritas (Darlan Cunha). Ao levar um recado de Zé Pequeno para seu rival, Sandro Cenoura, Filé é repreendido por Mané Galinha, que o lembra que é apenas uma criança e este no momento responde: "Que criança? Eu fumo, eu cheiro, já matei, já roubei, sou sujeito homem".
Cidade de Deus fez história e se tornou um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos. Desde seu lançamento, até então o filme continua sendo citado em matérias e listas sobre melhores filmes em categorias como melhores filmes de drama, melhores filmes de ação e melhores filmes estrangeiros da década em sites e revistas especializadas e de renome no mundo cinematográfico. Cidade de Deus é comumente enaltecido por seus diálogos que deixaram marcas e ainda são reproduzidos. Como na cena em que Zé Pequeno toma a boca de fumo de Neguinho, onde é dita a frase "Meu nome agora é Zé Pequeno, porra!", considerada um marco e titulada como uma das mais inesquecíveis do cinema. Francisco Russo, crítico do AdoroCinema, relata que o filme merece todos estes títulos "pelas qualidades artísticas e estéticas ou pela repercussão que alcançou" e pelo fato de ser até agora o único longa-metragem brasileiro indicado em quatro categorias do Óscar. Cidade de Deus por sua importância, foi o marco final do período conhecido como "a retomada do cinema brasileiro".
Documentário
Em 2012 foi exibido em festivais — como Festival do Rio, Festival Internacional de Miami, Festival de Havana entre outros — o documentário Cidade de Deus - 10 Anos Depois dirigido por Cavi Borges, que tem o objetivo de apresentar todo o impacto nacional e internacional que o filme causou, contando ainda com as transformações vividas por boa parte do elenco. O documentário evidencia a importância de Cidade de Deus e sua influência na vida dos atores que na época eram não-profissionais que participaram do projeto. Alice Braga conseguiu notoriedade após participar do filme mesmo não estando em um papel recorrente na trama. Alice relata no documentário que "a hora do beijo virou um frame do filme que ajudou muito para mim, pois foi o frame que foi pro pôster dos Estados Unidos".
Turismo no Rio de Janeiro
Cidade de Deus, assim como o filme Tropa de Elite (2007), centra sua trama em uma comunidade do Rio de Janeiro onde envolve extrema violência e caos devido o grande tráfico de drogas na região. Com a ampla repercussão internacional de ambos os filmes, muito se repercutiu por críticos e jornalistas que isto influenciaria na construção e difusão de uma imagem generalizada das favelas utilizadas como ambientação nos filmes. A preocupação levando em conta uma possível dedução no fluxo turístico internacional do Rio de Janeiro foi acatada, devido a taxa de criminalidade ser de fato muito altas. No entanto, o sucesso de Cidade de Deus e outras obras do gênero favela movie geraram ao contrário do esperado, quebrando paradigmas e estabelecendo um novo parâmetro de turismo no Rio de Janeiro, o reality tour nas favelas. A influência do filme de Meirelles nesta nova modalidade é constatada por agentes de turismo que afirma ter crescido o fluxo consideravelmente desde 2002 com a repercussão do longa. O conjunto habitacional que inspira o filme fica longe da privilegiada zona sul da cidade, tornando a Rocinha como um dos pontos mais visitados pelos fãs.
O sucesso de Cidade de Deus junto a crítica também refletiu-se nos prêmios recebidos pelo filme. O longa não conseguiu uma nomeação ao Óscar no ano em que foi lançado, pois não tinha entrado em circuito internacional, sendo lançado na Europa e Estados Unidos apenas em janeiro de 2003. Bruno Wainer — executivo da distribuidora Lumière, lamentou que o longa não foi nomeado dentre os cinco indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro no ano de lançamento nos cinemas brasileiros. Para ele, se houvesse a indicação naquele momento, o filme superaria a marca de quatro milhões de espectadores. Em janeiro de 2004, o longa foi indicado a quatro categorias na Academia — melhor direção, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. O filme também obteve indicações em massa no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, vencendo nas categorias melhor filme, melhor diretor (Fernando Meirelles), melhor roteiro adaptado (Bráulio Mantovani), melhor fotografia (Cesár Charlone), melhor som e melhor edição (Daniel Rezende).


