Defensores da mídia física convocaram os jogadores a boicotar a PlayStation por uma semana em agosto, para deixar claro à Sony que sua decisão de acabar com os discos a partir de 2028 é inaceitável.
A conta "Does it play?" no X (antigo Twitter) — uma crítica ferrenha ao plano da Sony de eliminar os discos de jogos para PlayStation — lançou um chamado à ação que já foi visto quase 1 milhão de vezes na plataforma.
"A Sony quer abandonar os fãs? Vamos dar a ela um gostinho do próprio veneno!", declarou a conta. "Junto com outros criadores de conteúdo, convocamos um #PSBlackout de uma semana em agosto. Nada de logins, nada de sessões de jogo e nada de compras em nenhuma das plataformas da Sony."
A justificativa da Sony para abandonar os discos é que a empresa está simplesmente acompanhando as tendências de consumo. "Em resposta às mudanças nas preferências dos consumidores, novos jogos serão lançados na PlayStation Store e em varejistas exclusivamente em formato digital", afirmou Sid Shuman, Diretor Sênior de Comunicação de Conteúdo da Sony Interactive Entertainment, em uma publicação no PlayStation Blog.
"À medida que as preferências dos consumidores e a indústria do entretenimento em geral continuam migrando dos discos físicos para o formato digital, a produção de discos físicos para todos os novos jogos lançados nos consoles PlayStation será descontinuada a partir de janeiro de 2028. Após essa data, novos jogos estarão disponíveis na PlayStation Store e em varejistas apenas em formato digital. Essa transição não afeta jogos que já foram lançados — ou que serão lançados — em formato de disco antes de janeiro de 2028.
"Essa é uma direção natural para a Sony Interactive Entertainment se adaptar às tendências de consumo, visto que a preferência geral por mídia digital supera significativamente a por discos físicos. Essa transição nos permitirá alinhar melhor nossas operações à forma como a maior parte da nossa comunidade prefere acessar e jogar atualmente."
Reforçando essa tendência, Mat Piscatella, diretor sênior e consultor da indústria de videogames na Circana, afirmou que apenas sete jogos de PlayStation venderam mais de 100.000 unidades físicas nos EUA até agora neste ano. Apenas dois jogos de PlayStation venderam mais de 10.000 unidades físicas nos EUA durante a semana encerrada em 11 de julho.
No entanto, desde o anúncio, jogadores têm pedido à Sony que reverta sua decisão, assinando petições online e inundando as postagens da PlayStation nas redes sociais para expressar preocupação com a preservação e a propriedade dos jogos — chegando a ofuscar o lançamento de novos títulos que não têm relação alguma com a situação na Sony.
Reclamações também surgiram de outros grupos. A Digital Entertainment and Retail Association (ERA) do Reino Unido classificou a decisão da Sony como "um triunfo da conveniência corporativa sobre a escolha do consumidor".
Em um comunicado publicado online, Kim Bayley, CEO da ERA, afirmou que os dados da associação mostram que 25% das pessoas com menos de 25 anos usam discos para jogar e que os discos devem continuar sendo uma opção ao lado do formato digital.
"Todos os anos, milhões de jogadores ainda escolhem comprar cópias físicas porque valorizam a verdadeira propriedade. Um disco pode ser compartilhado com a família, revendido, colecionado, preservado e — o que é fundamental — jogado fora daqui a muitos anos. Uma licença de download muitas vezes não oferece nenhuma dessas liberdades", disse Bayley.
O canal "Does it play?" e outros críticos da Sony mantêm-se determinados a continuar a luta. Confira a íntegra do comunicado sobre o boicote:
Se a história nos ensinou algo, é que boicotes a videogames raramente levam aos resultados desejados. Provavelmente não ajuda o fato de que Metal Gear Solid 4 finalmente escapará da "prisão" do PS3 por meio da Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 naquela mesma semana. É claro que existem casos de empresas que revertem decisões diante de uma reação negativa, mas analistas afirmaram ao IGN que é pouco provável que a Sony volte atrás nesta questão.
O Dr. Serkan Toto, CEO da Kantan Games — uma consultoria japonesa especializada na indústria de jogos —, sugeriu que, mesmo que meio milhão de pessoas cancelassem suas assinaturas da PlayStation Plus em protesto, isso não passaria de uma gota no oceano para a Sony.
"Eu compreendo os fãs de mídia física, mas a Sony não vai reverter essa decisão", disse Toto ao IGN. "Eles certamente sabiam qual seria a reação online e agora estão apenas esperando a tempestade passar."
"A Sony tem mais de 120 milhões de usuários ativos no PlayStation", continuou ele. "Cerca de 50 milhões de pessoas assinam a PlayStation Plus. Fazendo um exercício hipotético: digamos que 500 mil cancelem em protesto; isso representaria a perda de apenas 1% desse negócio — o que, obviamente, não é suficiente para fazer a Sony repensar a estratégia. O mercado digital é lucrativo demais."
Piers Harding-Rolls, analista da indústria de jogos da Ampere, afirmou que muita coisa mudou ao longo das duas últimas gerações. "Os jogos de console são o último reduto da mídia física no setor de games, mas a importância dos produtos físicos vem diminuindo", disse ele em uma publicação no site da Ampere. "Em 2013, quando o PS4 foi lançado, dados da Ampere mostravam que apenas 13% do total de vendas de jogos completos para consoles da Sony eram digitais (incluindo jogos exclusivamente digitais). Avançando para 2025, essa participação digital nas compras de jogos completos chegou a quase 80% do total.
"Inevitavelmente, haverá preocupações por parte dos jogadores de PlayStation em relação a vários aspectos deste anúncio — incluindo opções de escolha, acesso a jogos físicos antigos em novos consoles, a possibilidade de colecionar jogos físicos e a preservação dos jogos —, mas as tendências de compra dos jogadores são claras."
Um analista afirmou que os fãs de mídia física tiveram sua chance e a desperdiçaram, portanto, não há como voltar atrás. "Se os jogadores e defensores da preservação tivessem comprado mais jogos físicos, a Sony não teria registrado os índices de vendas digitais que justificam essa decisão", disse Robin Zhu, analista de jogos da Bernstein, ao Financial Times.
Para a Sony, adotar o modelo totalmente digital para novos lançamentos de jogos garantirá maior lucro por venda em um momento em que se espera uma queda acentuada nas vendas de consoles devido ao aumento de seus custos. No caso de um jogo próprio (first-party) da PlayStation, como The Last of Us, a Sony retém apenas cerca de 65% do valor de uma cópia física, enquanto cerca de 30% ficam com o varejista e aproximadamente 5% são destinados aos custos de fabricação. Por outro lado, em uma cópia física de um jogo de terceiros (third-party), como Call of Duty (publicado pela Activision), a Sony recebe uma taxa de licenciamento, provavelmente em torno de 15%.
Já para os downloads, as margens são muito mais elevadas. No caso de um jogo próprio vendido na própria PlayStation Store da Sony, a empresa naturalmente retém 100% da receita. Para jogos de terceiros, como Call of Duty, a Sony fica com uma fatia de 30% (ou seja, cerca de US$ 21 em um jogo de US$ 70).
Créditos da imagem de capa: Nikos Pekiaridis/NurPhoto via Getty Images.
*Texto traduzido e adaptado por Vitor Conceição


