Como muitos devem saber, 1º de agosto é uma importante passagem para qualquer fã de Digimon. Foi neste dia, há 27 anos, que Tai e seus amigos visitaram o Digimundo pela primeira vez. Também conhecida como Odaiba Day, trata-se de uma data para lembrarmos por que essa franquia impactou tantas gerações décadas atrás.
Apesar de todo o amor da comunidade, e até daqueles que se lembram mais de Digimon Adventure, este texto não vai cometer o erro de exaltar mais uma vez a primeira aventura da franquia. Não. Hoje é um dia para corrigirmos um grave erro do passado. Algo que provavelmente caiu em um senso comum e precisa ser revisado. Estou falando sobre a injustamente criticada quarta temporada do anime, Digimon Frontier.
Digimon Frontier é uma autêntica digievolução do anime
Lançada no Brasil em 2003 pela Fox Kids, e posteriormente exibida na Globo, onde boa parte do público teve acesso através da TV aberta, Digimon Frontier mudou toda a dinâmica do que foi visto na saga até aquele momento. Os parceiros dos Digiescolhidos desaparecem para que as próprias crianças assumam o manto de uma criatura do mundo digital. A mudança recebida com dúvidas por parte da audiência, hoje, parece natural. Afinal, o irmão de Pokémon nunca se manteve em uma única fórmula.
Inicialmente, Adventure introduziu os brasões e a evolução através das virtudes de cada um dos escolhidos. Já em Zero Two, Davis e seus amigos encontravam Digi-Ovos e tinham as fusões de DNA, escolhas responsáveis por já naquela época mudar muito da dinâmica do anime. Em Tamers, a queridinha de muitos, os TCG ou jogos de carta trouxeram foram o foco da linha evolutiva, com adição da Matrix Evolution aos episódios épicos de momentos avançados da trama.
Todas as alterações levaram o anime aos DigiEspíritos de Frontier. Inovar a cada novo ano e a cada novo grupo de heróis sempre fez parte da produção. Mesmo com essas diferenças, o fator essencial para definir aquilo como Digimon sempre existiu: todas as narrativas colocavam a emoção, o sentimento e a superação das dificuldades dos protagonistas como motor para que cada um crescesse na trama e, claro, digievoluísse. Inclusive, a fusão de humanos e criaturas pode ser vista em praticamente todas as temporadas até então.
Algo que muitos não percebiam na época e podem ainda não se tocar hoje é que Digimon sempre foi uma antologia. Mesmo que existam conexões aqui e ali, cada novo ciclo apresenta uma diferente perspectiva, época e até mesmo universo em que o Digimundo e seus habitantes existem. Isso é muito bem explorado no jogo Digimon Story Time Stranger, por exemplo.
Um dos pontos mais atrativos de Digimon Tamers é sua densidade. Por optar em mergulhar nos dilemas de diversos personagens, incluindo alguns coadjuvantes, a temporada ficou conhecida por ser uma das mais sombrias e bem trabalhadas da história do anime. A produção dos capítulos finais coincidiu com o desenvolvimento de Frontier, algo que permitiu que algumas características de uma transbordasse na outra.
Enquanto a 3ª temporada de Digimon opta por se fragmentar em aspectos difíceis de serem trabalhados com crianças, mas parte da rotina de muitas, como a solidão, problemas com os pais, abandono, culpa, depressão e até mesmo a morte, a 4ª consegue reutilizar parte destes temas à sua maneira. Nela, a partir de narrativas mais ponderadas, há trechos em que o bullying, a insegurança, a saúde mental e a superação são retratados sem subestimar o público. Dentre todos estes, o arco de Kouchi é o mais lembrado por muitos justamente por sua revelação impactante nos momentos derradeiros da história.
É também uma temporada que se apoia bastante em uma mitologia própria, com os Dez Guerreiros Lendários, mas que parte de um amálgama cheio de referências. Sistemas elementais, referências às mitologias asiáticas e nórdicas, inspirações cristãs e fantasia medieval são apenas alguns dos elementos culturais absorvidos pela produção e regurgitados em forma de aventura.
Neste grande RPG em que os heróis precisam encontrar DigiEspíritos, evoluir e terminar com a doença que abala o Digimundo, há muito para o que olhar e ouvir. Da trilha sonora que vai do épico ao emocional, algo inerente à série, às variadas paisagens, o tom de aventura vibra em cada um destes 50 capítulos. Cidades marcadas pelo avanço industrial, regiões montanhosas, restaurantes no meio da floresta, noites estreladas e fins de tarde com lindos pores-do-sol fazem com que Frontier também se estabeleça como um dos momentos mais visualmente enriquecedores da franquia.
Frontier, no entanto, corresponde à fama que tem quando pensamos na audiência da exibição original, que caiu gradualmente até o fim da série, por seus problemas estruturais. Além disso, o dinamismo visto nos primeiros episódios, com um norte regando a drama e ação, se perde na metade da temporada, quando alguns arcos começam a se arrastar. Há também o erro comum deste tipo de anime: o foco exagerado no protagonista (ou nos dois, neste caso) e o esquecimento dos demais, sem contar a forma como Zoe é tratada em diversos momentos ao ser a única menina do grupo.
De fato, a ausência da interação entre humanos e Digimon afeta bastante as possibilidades desta temporada e faz a temporada carecer desse relacionamento que sempre alicerçou o anime. Ainda assim, Frontier é uma temporada divertida e cheia de ótimos momentos. Estes personagens têm a função de salvar aquele mundo, e de quebra ainda aprendem a vencer os próprios medos através dos DigiEspíritos Humano e Fera.
Enquanto eles fazem longas viagens de trem (vários deles) por uma aventura que faz jus às anteriores, o título coloca as crianças no centro da luta, um ponto a favor da identificação da audiência. Essa decisão, curiosamente, dá mais foco a todas as criaturas que vivem naquele mundo, pois existem enxurradas de interações que valem ser vistas - de uma revolução trabalhista a um restaurante onde fazem suco com o próprio corpo. Em um exercício que nega o senso comum, é sempre válido revisitar um lugar tão querido da infância. Caso opte por fazer isso com Digimon Frontier, vai ter a certeza de que esta temporada do anime não apenas tem tantas qualidades quanto as anteriores, como é superior a diversas produções televisivas de Pokémon. Porém, isso é papo para outro momento.


