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Anne Rice nunca escreveu apenas sobre vampiros, escreveu sobre nós; e agora seu universo vai ganhar um RPG oficial

RPG de mesa permitirá aos jogadores viverem histórias ambientadas no mesmo universo das séries Entrevista com o Vampiro, As Bruxas Mayfair e A Talamasca

Anne Rice nunca escreveu apenas sobre vampiros, escreveu sobre nós; e agora seu universo vai ganhar um RPG oficial
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Há autores que criam histórias. Outros criam personagens. Pouquíssimos conseguem criar um imaginário coletivo capaz de atravessar gerações, moldar movimentos culturais e redefinir a forma como enxergamos um gênero inteiro.

Quando publicou Entrevista com o Vampiro, em 1976, ela não apenas apresentou Lestat de Lioncourt ao mundo. Ela transformou completamente a figura do morto-vivo na cultura popular. Antes dela, vampiros eram, em sua maioria, monstros a serem derrotados. Depois dela, passaram a ser protagonistas atormentados, sedutores, filosóficos, profundamente humanos e, justamente por isso, assustadores.

50 anos depois da publicação do primeiro livro, e de muitas adaptações para cinema, televisão, quadrinhos e teatro, o Universo Imortal de Anne Rice acaba de dar mais um passo importante. Foi anunciado oficialmente Anne Rice's Immortal Universe Roleplaying Game, RPG de mesa desenvolvido pela Renegade Game Studios, que permitirá aos jogadores viverem histórias ambientadas no mesmo universo das séries Entrevista com o Vampiro, As Bruxas Mayfair e A Talamasca, produzidas pela AMC.

O anúncio representa o reconhecimento de que o universo criado por Anne Rice é uma das mitologias mais influentes do horror contemporâneo.

Muito antes da moda dos universos compartilhados

Hoje, franquias interligadas parecem fazer parte do cotidiano do entretenimento. Filmes, séries e jogos vivem conectados em grandes cronologias. Mas Anne Rice fazia isso quando o conceito ainda nem existia. Ao longo das décadas, suas Crônicas Vampirescas cresceram muito além de Lestat e Louis. Novos personagens surgiram, novas épocas foram exploradas e uma cosmologia inteira começou a tomar forma.

Em paralelo, Rice escreveu As Bruxas Mayfair, uma saga igualmente ambiciosa, centrada em uma antiga família de bruxas de Nova Orleans, cuja linhagem atravessa séculos de magia, tragédias e pactos sobrenaturais.

Originalmente, essas histórias eram quase independentes. Mas, com o tempo, começaram a se cruzar, dando origem ao que hoje conhecemos como o Universo Imortal. Este mundo, em que vampiros, bruxas e a misteriosa organização Talamasca se interlaçam em uma única continuidade narrativa, cativou os criativos da AMC e levou a empresa a adquirir os direitos das obras.

Agora, esse mesmo universo chegará às mesas de RPG.

Anne Rice mudou o comportamento de uma geração

É difícil medir a influência de Anne Rice apenas pelo número de livros vendidos. Seu verdadeiro impacto aconteceu na forma como diferentes gerações passaram a enxergar o horror.

Nos anos 1980 e 1990, seus romances ajudaram a consolidar uma estética que ultrapassou a literatura. O romantismo sombrio, o luxo decadente, a melancolia existencial, o fascínio pelo oculto e pela imortalidade passaram a influenciar diretamente movimentos da música gótica, do rock alternativo e da cena dark ao redor do mundo.

Bandas como The Cure, Bauhaus, Siouxsie and the Banshees, Type O Negative e inúmeras outras passaram a dialogar com a mesma sensibilidade estética que Anne Rice ajudou a popularizar.

Na moda, o preto deixou de representar apenas luto. Tornou-se elegância. Veludo, renda, crucifixos, prata envelhecida e referências vitorianas passaram a compor uma identidade visual reconhecida imediatamente por qualquer fã da autora.

Afinal, os vampiros de Rice não eram vilões caricatos. Eram intelectuais, artistas, músicos, filósofos, aristocratas decadentes e seres atormentados por questões profundamente humanas. Falavam sobre culpa, amor, fé, desejo, perda e identidade. Ela transformou o vampiro em uma metáfora para a escuridão já presente dentro da humanidade.

E talvez seja justamente por isso que suas histórias continuam atuais.

Nova Orleans: onde realidade e ficção se confundem

Falar de Anne Rice é, inevitavelmente, falar de Nova Orleans. Poucos escritores tiveram uma relação tão profunda com uma cidade quanto ela. Suas ruas, casarões, cemitérios e igrejas aparecem repetidamente em seus romances. Não como pano de fundo, mas como personagens. Quem visita o French Quarter dificilmente deixa de encontrar referências à autora.

Existe o famoso Anne Rice Walking Tour, que percorre locais ligados às obras e à vida da escritora. Os cemitérios históricos da cidade recebem milhares de visitantes interessados em conhecer os cenários que inspiraram seus livros. E até a antiga residência da autora, que se tornou uma parada obrigatória para leitores.

Durante o Halloween, Nova Orleans praticamente abraça esse legado. Bailes de máscaras, festas góticas, eventos literários e encontros temáticos fazem parte da programação cultural da cidade, reforçando a imagem construída por Rice ao longo de décadas.

Mais do que inspiração, Nova Orleans tornou-se parte inseparável do universo criado por ela. É impossível pensar em Lestat sem imaginar os casarões coloniais, as sacadas de ferro trabalhado, o jazz ecoando pelas ruas e a atmosfera úmida que parece esconder segredos em cada esquina.

Curiosamente, apesar de sua escrita ser extremamente focada na exploração de um universo fantástico, paralelo à nossa realidade, Anne Rice nunca escreveu um RPG. Ainda assim, sua influência sobre o hobby é enorme.

Quando Vampiro: A Máscara foi lançado, em 1991, o mercado já vivia sob o impacto cultural das Crônicas Vampirescas. Embora Mark Rein-Hagen tenha explicado que buscava construir uma mitologia própria para seus vampiros, ele reconheceu que a obra de Anne Rice fazia parte do imaginário que cercava o gênero naquele momento.

Não é difícil perceber os pontos de contato. O horror deixa de ser apenas físico e passa a ser existencial. O maior inimigo deixa de ser o caçador e passa a ser a própria eternidade. Questões como moralidade, política, humanidade e identidade ocupam o centro da narrativa. Temas que hoje parecem naturais para jogadores de RPG de horror tiveram em Anne Rice uma de suas maiores proponentes.

Por isso, há algo de simbólico nesse anúncio.

Depois de inspirar indiretamente tantos cenários e narrativas ao longo das últimas décadas, finalmente veremos sua obra ganhar um sistema oficial.

Um RPG para explorar escolhas, não apenas monstros

Pouco foi revelado sobre as mecânicas do novo jogo. Mas a escolha da Renegade Game Studios como responsável pelo projeto desperta boas expectativas. O estúdio já possui ampla experiência com RPGs narrativos e sistemas licenciados, incluindo publicações recentes para Vampiro: A Máscara.

Tudo indica que o foco estará menos no combate e mais naquilo que sempre definiu Anne Rice: conflitos morais, intrigas políticas, relações familiares, segredos ancestrais e a eterna pergunta sobre o que significa permanecer humano quando se deixa de ser mortal.

Além dos vampiros, espera-se que o sistema permita explorar também as famílias de bruxas Mayfair, agentes da Talamasca e outras figuras que habitam o Universo Imortal. Abrindo a possibilidade de experienciar o universo da escritora em mesa. Pela primeira vez, cada grupo poderá descobrir como é caminhar pelas ruas de Nova Orleans quando a noite cai, a Talamasca observa das sombras e a eternidade deixa de ser apenas uma história para se tornar uma decisão.

Mas, além disso, os jogadores poderão viver a proposta narrativa contida em suas obras. Porque os romances de Anne Rice sempre foram menos sobre vampiros do que sobre escolhas. Sobre culpa, desejo e o peso da eternidade.

O RPG oferece exatamente aquilo que seus livros sempre convidaram o leitor a fazer. Não apenas observar essas escolhas, mas vivê-las.

Esta notícia é um resumo. Os créditos e o conteúdo completo são da fonte original.

Fonte: IGN Brasil

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