Super-heróis e vilões são obrigados a se unir para combater um aprisionador de planetas. Assim está desenhado Marvel Tōkon: Fighting Souls, um jogo de luta que reúne personagens da Marvel de uma maneira que tem pontos muito fortes e outros que mereciam muito mais atenção, mas, acima de tudo, consegue recolocar a Casa das Ideias nos holofotes dos fighting games.
(insira aqui o nome da sua equipe recém-formada), avante!
O que já não é mais novidade, depois de alguns testes e betas abertos, é como a jogabilidade de Marvel Tōkon é dinâmica e pautada pelo revezamento de quatro membros. Diferente daquela época da Capcom, tudo acontece com uma barra de vida só, o que prioriza a velocidade de combos curtos e uso constante dos assistentes.
Existem alguns autocombos, como tem sido de praxe em jogos de luta recentes. Eles são acionados ao pressionarmos repetidas vezes um mesmo botão de ataque (fraco, médio ou forte) e, dependendo da nossa barra de especial, são encerrados com um super ou golpe especial. Esse tipo de recurso tem dividido opiniões, já que alguns jogadores fazem uso apenas deles.
Eu, particularmente, gosto deles, ainda mais em Marvel Tōkon, pois jogos de super-heróis atraem públicos de esferas diferentes, incluindo pessoas que não têm experiência alguma com o gênero. Esse pessoal não está interessado em emendar uma sequência de 55 hits que inicie no chão e termine do outro lado da tela, e sim em apenas ver como é legal o Deadpool fazer suas graças enquanto bate em alguém, ou o Hulk fazendo o que sabe fazer de melhor: esmagar.
Ademais, jogadores mais puristas podem ficar tranquilos, pois não faltam recursos para quem é adepto de utilizar todos os botões possíveis. Além dos ataques básicos, há dois botões de ações específicas. O primeiro é para as habilidades únicas do personagem e o segundo funciona como atalho para os golpes especiais. Eles funcionam de maneira diferente de acordo com a direção pressionada junto com eles.
Outro elemento importante está na aparição dos nossos companheiros. A partida começa com nosso personagem titular e um assistente. Se perdermos um round ou conseguirmos acertar o oponente no canto da tela, mais um aliado é adicionado ao time na hora, o que torna a luta ainda mais veloz e agressiva. É normal algumas partidas serem extremamente curtas e a rápida inclusão dos assistentes pode fazer um round acabar em um piscar de olhos.
Isso me leva à única reclamação em termos de gameplay, que é a ausência de mais recursos defensivos. Além do bloqueio normal, temos o Counter, que deve ser acionado no momento em que somos atingidos, e o Crossover, que entra em ação para interromper uma pressão adversária enquanto defendemos.
Todavia, esse último tem uma resposta, chamada de Crossover Reflect, que é como o Counter Breaker do Killer Instinct. Ou seja, o seu revide pode ser revidado e abrir espaço para que o oponente te reduza a pó. Tudo isso funciona muito bem no chão, mas é muito comum ser içado aos céus durante os combos, o que nos deixa praticamente à mercê da sorte. Algumas ferramentas extras, como o uso de um assistente na defensiva ou de uma defesa mais forte gastando mais de uma barra de ajuda, viriam a calhar.
Vários motivos, mas com o mesmo propósito: salvar a Terra!
Como todo jogo de luta atual, aqui temos uma história que justifica o motivo da reunião de cada grupo: combater o infame Champion, que aprisiona planetas de maneira impiedosa e coloca seus habitantes em campos de treinamento. Porém, ele ainda dá uma chance para que o local a ser tomado possa se defender em uma luta justa e, em caso de vitória, ainda concede um desejo à escolha e sem restrições. Todavia, ele não foi derrotado até o momento.
A Promoter, braço direito do Champion, faz a triagem daqueles que podem ser dignos de enfrentar seu patrão, distribuindo convites. Assim, ela elegeu quatro seres com habilidades fantásticas para que eles formassem quartetos e se enfrentassem para saber quem teria uma oportunidade no Desafio do Campeão. As equipes são as seguintes:
Vingadores Avante: Liderada por Capitão América, a equipe também conta com Homem de Ferro e Pantera Negra (Shuri). O quarto membro acaba sendo um ressentido Hulk, que foi exilado pelos demais Vingadores na Terra Selvagem. Ele foi procurado justamente pela ausência de Thor, que inexplicavelmente sumiu.
Mutantes Indomáveis: Os X-Men mal acabaram de sair vivos de uma missão e já têm que se envolver em outro combate. Tempestade está receosa sobre sua liderança, mas com o apoio do Professor Xavier, ela comanda seu time, que também conta com Wolverine, Magia e Perigo. Magneto até tentou se filiar ao time, mas a maneira como ele expõe seus ideais fez com que Tempestade recusasse sua ajuda.
Guardiões Incríveis: O Homem-Aranha, sempre patrulhando as ruas de Nova York, recebeu seu convite, mas foi atacado pelo Duende Verde. A intervenção da Ms. Marvel, que só queria ajudar, fez com que o vilão escapasse e roubasse o ingresso do Cabeça de Teia. Bem longe dali, a anomalia espacial causada pela chegada do Champion chamou a atenção do Senhor das Estrelas, que sempre está de olho em embolsar alguma grana, e de Peni Parker, que ficou tão encantada com o fenômeno que acabou sendo puxada da sua dimensão. Após forjar um convite novo, essa estranha equipe tentará a sorte contra o vilão intergaláctico.
Vanguarda Samurai: Robbie Reyes, o Motorista Fantasma da realidade atual, foi obrigado a participar após a Promoter sequestrar seu irmão. O seu veículo, Hell Ride, o guiou a diversos lugares para encontrar os demais integrantes da equipe. Blade estava em Nova York e topou a missão, pois acreditou que Robbie iria ceder ao poder do espírito da vingança. Loki, incrivelmente, não estava tramando nada, apenas queria achar o paradeiro do seu irmão e tentar mudar sua imagem em Asgard. Por fim, Deadpool só se juntou pela bagunça e pelo roteiro (como ele mesmo conta, quebrando a quarta parede).
Senhores do Destino: Doutor Destino, imperador supremo da Latvéria, se julga como a única pessoa digna de defender a Terra e vai atrás do Champion para confrontá-lo pessoalmente. Após saber das regras do Desafio do Campeão, ele decide juntar uma equipe peculiar. Ele se aproveita que o Duende Verde roubou o convite do Homem-Aranha e o convence a aderir a sua ideia. O próximo é Magneto, que apesar de ter suas ambições bem diferentes, não consegue aceitar a recusa dos X-Men, e aceita a oportunidade. Por fim, Destino pede para que Norman Osborn, atual prefeito, libere o Carnificina para fechar o grupo. E assim surge a quinta equipe, que não estava nos planos.
Fiz questão de contar de maneira resumida o prelúdio de cada equipe, pois, assim como nos quadrinhos, temos aquela coisa do “mal maior” que força uniões improváveis. A parte bacana desse modo história, aqui chamado de Episódios, é que cada equipe ganhou sua narrativa com painéis desenhados, como nas HQs, mas funcionando no ritmo de um mangá, com leitura da direita para a esquerda e com algumas animações mais características de produções orientais.
Vale notar que cada equipe ganhou painéis feitos por quadrinistas e mangakás famosos, como Hiro Mashima (Fairy Tail), Emanuela Lupacchino (DC, Marvel), Betten Court (My Hero Academia: Vigilantes, Homem-Aranha: Octo-Girl), Yusuke Osawa (Homem-Aranha: Vermelho Falso, O Mandaloriano) e o brasileiro Mike Deodato (DC, Marvel). Essa variedade de traços confere um charme único para a história.
Também há animações e até uma abertura caprichada, com direito a música cheia de energia, trazendo aquela vibe de anime. Elas são ótimas e trazem um dinamismo bacana entre os painéis e as lutas, porém o problema aqui é que elas são as mesmas para as cinco histórias, pois servem só para apresentar, aprontar para o clímax e encerrar o evento. Teria sido bacana ter cenas trabalhadas para cada time, ainda mais com uma localização escrita e de vozes para nosso idioma.
Ainda seguindo a formação de equipes, há um tipo de batalha arcade, na qual podemos concluir rotas inspiradas em cada uma delas e desbloquear ilustrações de cada integrante, o que é uma recompensa bacana e serve de incentivo para concluir esse modo várias vezes, testando composições diferentes.
Além das batalhas em rede e locais, há mais um modo no mínimo curioso: o Arcadia Rumble. Ele pode ser jogado sozinho ou online e funciona como uma arena, na qual escolhemos um avatar e coletamos itens pelo cenário, abatendo inimigos. Ao final de cinco rodadas, é escolhido um campeão. Chega até a ser interessante da primeira vez, mas de longe é o modo de jogo mais fraco, pois ele não agrega nada de palpável ao restante do jogo.
Bom, não sei se alguém fora do país acompanha os meus textos, mas essa é a parte da crítica que fica restrita aos brasileiros: a localização. Nosso mercado de dubladores tem nomes consagrados e quando se trata de personagens icônicos, como os da Marvel, a expectativa é grande, já que é comum um profissional acompanhar o herói em mais de uma produção, como é o caso do Homem de Ferro, com voz de Marco Ribeiro em inúmeros filmes e animações desde 2008.
Não dá para esconder o frisson que é jogar um título desses cheio de vozes icônicas, mesmo que algumas ausências sejam muito fortes. Não ter o Wolverine de Isaac Bardavid é uma baixa incomparável e, infelizmente, parece que Arthur Machado, mesmo fazendo um trabalho decente, não traz aquela coisa visceral do carcaju. Mas esse nem é o maior dos problemas.
Como já era esperado, todos os personagens tiveram seus nomes mantidos no original em inglês. Isso já foi observado em outros jogos, como Marvel’s Spider-Man, mas ainda assim é muito esquisito. Para ser sincero, só foi normal ouvir Hulk, Deadpool, Magneto e Wolverine. Soa estranho ouvir Iron Man, Storm e Green Goblin toda hora, ainda mais no meio de diálogos em português. Fica muito artificial e isso se torna algo ainda mais bizarro quando todo o resto, como os atores dizendo os golpes, frases características e referências, está no nosso idioma.
Um dos exemplos mais bisonhos está no chefe original do jogo, Champion, e na Promoter. Pela história, as equipes lutam para ter uma chance de enfrentar o Champion no Desafio dos Campeões. Faria muito mais sentido chamar de “Desafio do Champion”, para ter mais conexão com o vilão, ou dar um nome próprio para ele, já que aparentemente nenhum personagem poderia ter o nome em português. Mesmo com essa questão de nomenclaturas, as vozes no geral contribuem muito para a imersão de Marvel Tōkon, principalmente nos Episódios, com cada um fazendo sua voz nos diálogos.
Ainda no quesito sonoro, mas agora falando das músicas, os heróis da Marvel já tiveram temas muito fortes anteriormente, que se tornaram favoritos dos fãs de jogos de luta em geral. Trazendo o rock e o metal do DNA da Arc System Works, as novas músicas não fazem feio e injetam uma energia fortíssima nas batalhas. Inclusive, vale gastar um tempinho para escutá-las na Galeria, com direito ao Baby Groot dançando junto.
Com grandes poderes vem uma pancadaria de respeito
Marvel Tōkon: Fighting Souls traz uma excelente jogabilidade, que visa englobar e nivelar novatos e veteranos, fazendo a vitória surgir nos detalhes. A mistura de conceitos únicos para personagens consagrados com animações elaboradas, quadrinhos de artistas famosos e ótima trilha sonora também é certeira para os fãs. Entretanto, não dá para negar que o público brasileiro acabou sofrendo um pouco com a escolha do uso dos nomes originais no lugar das nomenclaturas que os tornaram famosos aqui por décadas.
A jogabilidade consegue agradar iniciantes e veteranos, oferecendo na mesma proporção acessibilidade e recursos diversos;
Os Episódios trazem painéis desenhados por artistas consagrados, cada um com seu estilo único;
A dublagem dos personagens é ótima e aumenta a imersão durante as lutas;
A trilha sonora é excelente, o que é marca registrada dos jogos de luta da ArcSys.
Seria bacana ter um ou dois recursos defensivos a mais para impedir uma surra grande;
O uso dos nomes originais em inglês em meio às conversas em português traz uma artificialidade forte;
O modo Arcadia Rumble é um tanto desinteressante perto dos demais.
Marvel Tōkon: Fighting Souls — PC/PS5 — Nota: 8.5
Análise feita com cópia digital cedida pela Sony
Marvel Tōkon: Fighting Souls delivers excellent gameplay designed to accommodate both newcomers and veterans, ensuring that victory often hinges on the finer details. The blend of unique concepts for iconic characters, elaborate animations, artwork by renowned comic book artists, and a fantastic soundtrack hits the mark for fans.


