Existe uma cena contemporânea dedicada ao resgate dos jogos de tiro clássicos da década de 1990, cuja maior parte se direciona ao estilo de Doom, Quake e obras semelhantes — que são carinhosamente apelidado de boomer shooter. Mas, dentre esses títulos clássicos, há uma vertente que raramente é recuperada: os FPSs de console, especialmente aqueles feitos para o PlayStation e o Nintendo 64.
Essa é uma variante que carrega um peso considerável no legado do gênero graças ao clássico GoldenEye 007, de 1997, que trouxe os tiroteios populares do PC para o primeiro console tridimensional da Nintendo. A fórmula de FPS foi refinada em Perfect Dark, lançado em 2000, porém(com exceção de sua tentativa mal-sucedida de uma prequela para o Xbox 360) esse estilo característico de FPS desenvolvido por Banjo-Kazooie nunca mais foi testemunhado.
Tendo isso em mente, o desenvolvedor independente Replicant D6 lançou Agent 64: Spies Never Die, uma clara homenagem aos tempos de Nintendo 64 com alguns toques contemporâneos necessários. Embora alguns problemas tenham me incomodado, a obra não é apenas uma boa homenagem à Rare, mas também ao estilo clássico de espionagem como um todo.
Em Agent 64, nós assumimos o controle de John, um agente cuja casa é invadida por Pulp, um vilão que está em busca de um objeto que pertence à esposa de John. Ele a assassina para obter o artefato, o que faz com que John se veja em uma missão de vingança com intuito de descobrir as verdadeiras motivações de Pulp. Para investigar esse mistério, o protagonista se junta a sua filha, Dana.
Apesar de a trama não ser excepcional e seguir um enredo bastante comum no gênero de espionagem, Agent 64 apresenta a história por meio de cutscenes, e embora não haja dublagem nem grandiosas animações cinematográficas, esse é um retorno fiel ao básico dos primórdios do 3D. É uma pena que os textos não estejam em português, provavelmente devido a limitações do projeto.
Mas, sendo honesto, a parte da narrativa que toca no Pulp me intrigou o suficiente para continuar jogando. Conforme indica o subtítulo do jogo, o espião de roupas vermelhas sempre encontra um jeito de retornar à vida — e, de fato, ele morre diversas vezes durante a campanha.
A narrativa se inicia de maneira bem reminiscente do Nintendo 64, com uma primeira fase que funciona como um excelente tutorial para nos familiarizarmos com as mecânicas do jogo. Assim como em sua inspiração, a mira é automática, mas também dispomos de um botão para uma mira manual, que funciona no estilo de travar a visão, o que permite que a sensibilidade do analógico apenas mova a retícula.
No entanto, já estamos acostumados há aproximadamente 28 anos com controles que possuem dois analógicos, então a câmera pode ser manuseada livremente. Isso torna a jogabilidade super dinâmica, e é muito fácil sair atirando em tudo que se move e correr para completar os objetivos.
Cada fase tem uma gama de objetivos distintos, que vão desde encontrar um disfarce, eliminar alvos, realizar o hack de terminais até finalizar o percurso. Existem três níveis de dificuldade: Agent, Special Agent e Agent 64. O número de metas aumenta do mais fácil para o normal, e o mais difícil remove alguns recursos, como o colete à prova de balas.
Porém, este jogo comete um erro que eu desgosto: o prolongamento artificial de tempo de jogo. A campanha é organizada em atos, cada um contendo de três a quatro fases, e ao terminar cada uma delas, ganhamos Cypher, que é basicamente como as estrelas de Super Mario 64. Se você se limitar a jogar apenas no nível Agent, terá que refazer tudo nas dificuldades mais baixas logo em seguida.
Embora o nível Special Agent não seja complicado, essa é uma forma bastante artificial de estender a campanha, e aqueles que não estão preparados podem ficar presos de início. Não existia isso em GoldenEye e Perfect Dark, já que neles era possível jogar em níveis mais altos e realmente desbloquear extras, como fases secretas. Existem abordagens mais eficazes para motivar os jogadores a explorarem níveis de dificuldade diferentes.
Embora sejam lineares, as missões apresentam boa qualidade. A diversidade também se sobressai, com visitas de edifícios, mansões, bases militares na neve, templos e muito mais. Alguns desses níveis são utilizados como base para mapas do modo multiplayer, que inclui modos de mata-mata, captura de bandeira e muitos outros.
Além dos modos competitivos, é possível jogar toda a campanha com até quatro pessoas simultaneamente. Trata-se de um jogo com progressão independente, mas que é bastante eficaz e evoca as boas lembranças de coop no sofá. Ademais, todos esses modos multiplayer podem ser jogados online.
Os inimigos se assemelham a soldados genéricos, porém a inteligência artificial é reconhecível. Eles não são particularmente espertos, mas se camuflam em objetos e respondem de acordo com o local onde estamos disparando. Se não estivermos preparados para atirar primeiro e perguntar depois, podemos ser vítimas de balas perdidas.
Existem desafios interessantes no Paradox Mode, já que esses que alteram algumas regras tradicionais da jogabilidade como remover a mira automática e jogar com todos os personagens cabeçudos. Alguns são realmente desafiadores, o que serve como mais um motivo para rejogar a campanha em busca de coletáveis — e mais uma oportunidade de criticar Cypher.
Visualmente, Agent 64 combina o estilo gráfico do 64 com shaders modernos, porém sem exagerar na sofisticação. O trabalho poligonal é bem quadrado, tendo modelos com rostos feitos a partir de imagens digitalizadas de pessoas, explosões triangulares, etc. Tudo que se pode esperar está presente aqui, como se espera de um tributo desse tipo.
O aspecto moderno é a utilização de bloom e iluminação, que de fato contribuem para transmitir o clima de certas fases. A primeira é ambientada à noite e apresenta alguns locais com pouca iluminação, conferindo um aspecto sombrio interessante à ala externa dos cômodos.
No entanto, gostaria que a atenção aos visuais também se estendesse à interface. Embora sua funcionalidade não seja exatamente ruim, ela carece da personalidade presente nos menus de GoldenEye e Perfect Dark. Nada de fuçar o relógio do James Bond ou explorar opções em um holograma; o Agent 64 simplesmente abre opções em retângulos transparentes com fontes genéricas.
A trilha sonora também não se destacou muito, com algumas poucas exceções. Novamente, em comparação com as fontes de inspiração, faltam algumas notas mais marcantes. Pelo menos não são assuntos ruins.
Agent 64: Spies Never Die é uma homenagem divertida a um jogo retrô, que se destaca por ser um dos poucos títulos que remete à era do Nintendo 64. É agradável, tem controles atualizados, preserva a sensação clássica, enredo divertido e fases interessantes. Se não fossem as questões específicas de interface genérica, trilhas sonoras pouco memoráveis e a tentativa forçada de prolongar a campanha com o Cypher, o título poderia ser considerado o sucessor espiritual perfeito dos clássicos da Rare.
Controles e ritmo da jogabilidade bem dinâmico, modernizando o estilo antigo com layout moderno;
Visuais bonitos, resgatando a identidade visual dos primórdios do 3D e utilizando de técnicas atuais de sombreamento;
Fases divertidas com ambientações variadas;
Modo multiplayer, tanto PvP quanto cooperativo.
Trilha sonora pouco marcante, salvo alguns temas;
A obrigatoriedade, sem muitas explicações, de precisar jogar nas dificuldades mais difíceis atrás de Cypher parece um pretexto para estender o tempo de duração da campanha;
Interface genérica, que poderia casar melhor com a estética artistica do game.
Agent 64: Spies Never Die — PC — Nota: 7.5
Análise produzida com cópia digital cedida por Replicant D6
Agent 64: Spies Never Die is a fun homage to a retro game, standing out as one of the few titles that captures the Nintendo 64 era. It’s enjoyable, with updated controls, a classic feel, a fun story, and interesting levels. Its generic interface, forgettable soundtrack, and forced attempt to extend the campaign with Cypher hold it back from being the perfect spiritual successor to Rare’s classics.


